O outro Paquistão

Nestes tempos de instabilidade, intolerância e incompreensão entre crenças e culturas, retomo este espaço para contar a história de um Paquistão muito diferente daquele lamuriado pela imprensa ocidental.

Refiro-me ao Norte. O Karakoram. As montanhas.

Outras gentes, outros idiomas, outras paisagens, outras vidas.

Vale do Kaghan

Estamos no território do Gilgit-Baltistão, reivindicado pela Índia mas governado pelo Paquistão. Aliás, governado por si mesmo: até trinta anos atrás, a autoridade dos paquistaneses das planícies praticamente não roçava esta terra de cordilheiras.

Então, em 1979, em mais uma demonstração da indômita e visionária teimosia do ser humano, foi inaugurada a estrada asfaltada mais elevada e tortuosa do mundo: a rodovia do Karakoram, que percorre 1300 quilômetros entre a periferia de Islamabade e a cidadela uigur-chinesa de Kashgar.

Crianças do Kohistão

A estrada costura uma colcha deliciosamente incoerente de retalhos culturais. Até a consolidação definitiva do Raj britânico, em fins do século 19, esta região era um emaranhado de minipotências beligerantes e microrreinos rivais, cada um com língua e identidade próprias. Imagine-se uma corrida armamentista entre o potentado de Skardu e o principado de Shigar! Ou, talvez, um tratado de defesa mútua entre as cidades-estado de Gilgit e Chitral, ambas ameaçadas pelos mortíferos ladinos do vale de Hunza.

Para a felicidade do (raro) estrangeiro que visita a região, há numerosos vestígios dessa época, digamos, pré-moderna: fortalezas de pedra, casebres de madeira e bigodes extraordinários.

Guarda do Forte de Baltit, Karimabad

Indiferentes às querelas antigas e modernas entre homens mesquinhos, as montanhas são as verdadeiras soberanas do Gilgit-Baltistão.

Afinal, o Karakoram (“pedregulho negro” em turco) é a continuação geológica do Himalaia, a leste; do Hindu Kush, a oeste; e dos Pamires, a noroeste. Essas quatro cordilheiras irmãs, filhas da titânica colisão entre a Índia e o restante da Ásia, compõem o maior anfiteatro topográfico da Terra.

Passagem de Babusar

Aqui mora, por exemplo, o Nanga Parbat, forte de oito quilômetros de rocha, neve e cadáveres – nele jazem mais de 6o alpinistas fracassados.

A humanidade vingará essas mortes de maneira desleal: com o aquecimento global, o Nanga Parbat e seus vizinhos gradualmente perderão suas camadas de neve eterna. Ficarão nus, ríspidos e tristes.

Nanga Parbat (à direita)

Os inconfundíveis caminhões psicodélicos paquistaneses são o principal elo entre esta região e o resto do país. Elo econômico – o transporte de alimentos, combustíveis e outros bens vitais – mas, sobretudo, elo cultural.

Ao singrar a rodovia do Karakoram, vindos das terras quentes do Punjab e do Sindh, os motoristas se tornam embaixadores da identidade paquistanesa. Disseminam o idioma urdu numa terra falante de idiomas obscuros, como o balti, o shina e o burushaski. Ensinam a paixão pelo críquete a um povo habituado ao polo. Criam famílias. Deixam amores. Alguns são vítimas de deslizamentos, nevascas e outros desastres da estrada. Poucos envelhecem. Nenhum enriquece.

Caminhão na rodovia do Karakoram

Para além de Gilgit, entramos no domínio da facção ismaelita da fé muçulmana. Ao contrário da grande maioria da ummah, aqui há uma autoridade religiosa suprema: o Aga Khan (“senhor rei”), que recompensa seus fiéis com universidades, pontes, centrais elétricas e hotéis de luxo.

O Islã, nestas paragens isoladas, tende a ser mais liberal que nas demais regiões paquistanesas. O forasteiro é recebido com festa: damascos maduros, chás quentes, caretas infantis.

Crianças de Shigar

Leitores mais atentos deste blogue terão percebido que já descrevi uma road-trip semelhante, poucas centenas de milhas a noroeste, no Tadjiquistão.

Mas há muitas diferenças entre a estrada stalinista dos Pamires – desolada, hostil e ensimesmada, construída para defender territórios – e a rodovia moderna do Karakoram, fértil e cosmopolita, concebida para integrar civilizações.

Flora do Karakoram

Como aprendi no primeiro ano das aulas de geografia, onde houver aquíferos corpulentos e desníveis topográficos, haverá rios permanentes; onde esses rios forem cercados por montanhas, haverá lagos.

A aritmética lacustre do Karakoram é especialmente generosa. Há lagos em todos os cantos, lagos de todas as formas, lagos de todas as cores, lagos que viram geleiras.

Geleira de Hopar

Há, inclusive, lagos recém-nascidos, como o Attabad, que veio ao mundo em 2010, quando uma avalanche de proporções bíblicas bloqueou o rio Hunza e submergiu 20 quilômetros da rodovia do Karakoram. O neolago afogou diversos vilarejos e deixou 30 mil pessoas totalmente isoladas, quase sem eletricidade, alimentos e combustível. O extremo norte do Paquistão foi amputado.

Apenas barcos pesqueiros (apesar da ausência de peixes) podem chegar ao outro lado. A partir daqui, já não circulam os caminhões psicodélicos que unificam o país. Embora o Attabad esteja a quatro horas de jipe da fronteira chinesa, o lago efetivamente marca o fim do território paquistanês.

Lago Attabad

A viagem literalmente culmina na passagem do Khunjerab, a 4.700 metros de altitude, onde termina a Ásia meridional. É também a fronteira entre dois países incomensuravelmente distintos, mas solidamente aliados.

Deste lado, o desordenado smorgasbord de cores, línguas e sons do Paquistão montanhoso. Do outro lado, a disciplina e o desenvolvimentismo centralizados do Xinjiang, a província muçulmana e túrquica da China.

E a China, bem, a China é tema para outros textos e outras conversas.

Passagem do Khunjerab, fronteira sinopaquistanesa

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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17 respostas para O outro Paquistão

  1. Flávio Ramos Pereira disse:

    Mais uma vez, belo texto e lindas fotografias. Parabéns! Flávio R. Pereira (Porto Alegre-RS)

  2. Pedro Arthur B. Guedes disse:

    O mundo me surpreende

  3. Susie Casement Moreira disse:

    Thomaz – a magical report of a place that lives so vividly in my imagination. Alas, only in my imagination, as I’ve never been to the sub-continent or to central Asia. You are really making the most of an amazing career and the attendant travel opportunities, and I love hearing about the places you’ve been. Fantastic photos too. Have you read The Great Game by Peter Hopkirk? There is so much to read about the explorers and spies of the colonial and cold war period in the region….

    • Thank you, dear Susie – as always, you’re too kind! Yes, I’ve read The Great Game by Hopkirk a couple of years ago, when preparing to move to this splendid region. Fascinating read, and quite fun too!

  4. mari disse:

    do jeito que tu contou, deu ate vontade de conhecer!

  5. Gabriel Ximenes disse:

    Excelente, Napoleão. Mais uma vez, um relato instigante, informativo e lírico, deliciosamente Ilustrado com belas fotografias. Parabéns!

  6. antoniocjf disse:

    Mandou bem, Thomaz. Pretendo escrever mais um ou outro texto sobre a China, mas nem de longe serao tao interessantes e com a qualidade destas suas fotos. Parabens. Antonio

  7. Ana disse:

    Nossa muito interessante, mostra um lado cultural que muitas vezes não são mostrados em reportagens e livros! Parabéns pelo texto, a cultura mundial me fascina!

  8. Anonima, por enquanto. disse:

    E num dia que eu estou de TPM, triste, solitária e amarga, eis meu remédio. Me sinto feliz de pensar como o mundo é grande e como ainda vou conhecer lugares assim. Sentimento de fuga sim, eu sei. Mas mais do que isso, meu desejo de viver a diplomacia. Parabéns pelo artigo, Thomaz, realmente excelente.

  9. Erika disse:

    Que linda experiência, relato e fotografias!!!

  10. matvil disse:

    Texto bom e fotos belíssimas, mesmo. Gostei.

  11. Luana Mayara disse:

    Caro Thomaz,
    É instigante ler seus artigos, sua percepção aguçada acerca do mundo. Muito bom mesmo!
    Eu gostaria de saber com você o seguinte , se assim que você termina o curso no Instituto Rio Branco já é enviado para outras nações?
    Eu sou estudante de Direito, e de um tempo pra cá tenho cogitado bastante na possibilidade de ser diplomata, tendo em vista que sou cristã , e tenho desejo de fazer missões, levar Jesus até outras nações, não como uma obrigação ,mas como uma opção. E em nome disso passei a percebe que a carreira que de diplomata talvez me caia bem , abrindo portas pra eu fazer algumas que estão no meu coração, ons e tudo mais. Tendo em vista que a magistratura apesar de ser interessante talvez não me permita me aventurar..
    Gostaria que se possível, tendo em vista a experiência que você têm, você pudesse compartilhar alguma coisa ..
    Se é muito corrido o seu tempo, se existe diplomatas com o mesmo intento que o meu..
    Dede já agradeço!

    • Prezada Luana,
      Obrigado pelos gentis comentários. É possível, mas não obrigatório, partir para o Exterior logo após a conclusão do curso no Rio Branco.
      Respondendo às suas perguntas: assim como o país que representa, o Itamaraty apresenta grande diversidade interna de crenças; entre os diplomatas, há desde ateus convictos até padres ordenados da Igreja Católica, de praticantes de religiões afrobrasileiras a zen-budistas, e essa variedade nos orgulha. Dito isso, nossa função é promover e proteger os interesses da sociedade e do Estado brasileiros, e não difundir uma fé específica. Nada impede, em princípio, que um(a) diplomata também se envolva em atividades de pregação, mas isso não pode interferir com suas atividades de política externa. Além disso, precisamos respeitar as leis dos países que nos acolhem – alguns dos quais permitem o proselitismo religioso, outros não. Abraços.

    • Ricardo L. disse:

      A profissão que você procura é MISSIONÁRIA, e não diplomata, minha cara!

  12. camilew disse:

    Belo post, adorei as fotos!

  13. Marcela disse:

    Lindo texto, lindas fotos, linda oportunidade de conhecer um lugar completamente desconhecido. Obrigada por compartilhar!

  14. Danielle disse:

    Inspirador. Fotos maravilhosas!

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