Tadjiquistão: a mãe de todas as estradas

Josef Stalin, que como Washington Luiz acreditava que governar é abrir estradas, decidiu testar os limites do possível em 1931. Naquele ano, ordenou a construção de uma rodovia para proteger o mais inacessível dos incontáveis rincões de fronteira da União Soviética.

Três anos e milhares de mortes mais tarde, estava pronta a passagem de altitude mais perigosa do mundo: a via M41, mais conhecida como rodovia dos Pamires.

A estrada serpenteia languidamente pela cordilheira dos Pamires, que com seus dois irmãos geológicos – o Himalaia e o Karakoram – esconde as mais altas montanhas da Terra. Começa em Osh, no Quirguistão meridional, e prossegue até Khorog, na fronteira entre Tadjiquistão e Afeganistão. A leste, flerta com a China; ao sul, namora à distância com o Paquistão.

Este é o mais árduo trecho da(s) antiga(s) Rota(s) da Seda. Cito o mais intrépido dos mentirosos, que aqui esteve em 1272: “Esta planície, cujo nome é Pamir, se estende por doze dias de jornada. Durante esses doze dias, não há abrigo ou lar; os viajantes precisam levam mantimentos consigo. Devido ao frio e à altitude, nenhum pássaro voa aqui. E eu lhe asseguro que, por causa desse grande frio, o fogo brilha menos e e não tem a mesma cor de alhures, e a comida nunca fica bem cozida.” (Travels of Marco Polo, p.80)

Se já não dura doze dias, a viagem de 728 quilômetros ainda demora no mínimo quatro. Os poucos humanos no caminho habitam vilas como Sary-Tash, Karakul e Murgab, onde inexiste eletricidade, saneamento, transporte público ou agricultura. Há, apenas, a admirável resistência destes sertanejos da Ásia Central.

Nos trechos mais elevados, a altitude da rodovia ultrapassa 4.650 metros. Ao redor, montanhas com seis a sete quilômetros de altitude nos cumprimentam, elegantes, severas. Um céu implausivelmente puro nos protege. O frio de trinta graus negativos congela o tempo. É provavelmente o lugar mais silencioso do mundo.

A M41 não é para qualquer motorista. Não há iluminação, guard rail, polícia rodoviária ou postos de gasolina. Há somente a estrada – se não estiver bloqueada por avalanches, quase semanais fora do verão. Se quiser sobreviver, dirija como nunca. Mas primeiro alugue um 4×4 ou, melhor ainda, um caminhão soviético.

Percorremos lentamente o sul do Tadjiquistão e as esquálidas águas do Pyanj nos separam de um país há 32 anos em guerra. Enquanto aguardam tempos melhores, rapazes afegãos jogam futebol do outro lado do rio.

Imaculadamente cristalino, o rio parece convidativo. Mas é mortal. A fronteira tadjique-afegã ainda está repleta de minas terrestres, cluster munitions e todo tipo de brinquedo assassino deixado pelo Exército Vermelho.

Assim como o Tibete, os Pamires são geralmente apelidados “teto do mundo” – mas “muralha do mundo” seria descrição melhor.

No século XIX, esta era a última fronteira do Great Game entre os impérios britânico e russo pelo controle da Eurásia. No XX, a cordilheira foi a primeira linha de defesa da União Soviética em sua campanha rumo a Cabul. Hoje, no XXI, os Pamires são a barreira geográfica da Ásia Central para conter fluxos indesejados do Afeganistão: jihadistas, ópio, refugiados, vítimas.

As guerras vêm e vão. Os Pamires continuam.

Esperam, plácidos, o dia em que deixarão de ser tabuleiro geopolítico e voltarão a ser santuário da natureza.

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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15 respostas para Tadjiquistão: a mãe de todas as estradas

  1. RafaPaulino disse:

    Mas que heresia, Thomaz, chamar o filho mais ilustre da Sereníssima República de mentiroso!

    Tirando esse pequeno detalhe, o post é um dos melhores do blog. Seus períodos curtos têm um quê grande de Hemingway. Omedeto!

  2. Pedro disse:

    Concordo com o RafaPaulino, um dos melhores textos do blog, e as fotos não deixam nada a desejar.

  3. Fred Silva disse:

    Fenomenal! 🙂

  4. Vanessa Dolce de Faria disse:

    Fascinante! Estou viajando junto e aprendendo muito com os posts de todos voces. Parabens e obrigada. Abra´cos do Paraguai. Vanessa Faria.

  5. Daniel disse:

    Fantástico o texto … As fotos ficaram otimas, a contextualizaçao historica tbm foi mto legal, parabens!

  6. Patthy Silva disse:

    Você está de parabéns!

  7. Guilherme Gondin disse:

    Napô

    Texto fenomenal de um colega brilhante. Parabéns!

    Gde abraço,

    Gondin

  8. Pingback: Vestígios (homenagem a Milena de Medeiros) | Jovens Diplomatas

  9. Eneida Queiroz disse:

    Thomaz, essas fotos são perfeitas!!!
    Também adorei o deserto dos navios!

  10. Eneida Queiroz disse:

    Adorei o texto.
    Aguardo mais viagens, para ler mais posts.

  11. Flávio Ramos Pereira disse:

    Belo texto, belas fotos. Parabéns!

  12. Juliana disse:

    Belíssimas fotos!! =)

  13. Murilo Vieira Komniski disse:

    Incrível! Belíssimo e intenso! Parabéns pela iniciativa! Abraços de La Paz.

  14. Pingback: O outro Paquistão | Jovens Diplomatas

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