Os caminhões psicodélicos do Paquistão

Em um país indiferente à empoeirada distinção vitoriana entre cultura “erudita” e “popular”, poucas expressões artísticas são mais autênticas do que os caminhões espalhafatosamente coloridos que alegram estradas, avenidas e ruelas paquistanesas.

São geralmente Bedford ingleses dos anos 1960 ou 1970, mas de tão adornados ficam irreconhecíveis. Renascem.

É um color-blocking permanente. Para um nativo do país do carnaval, não deixa de ser algo familiar.

Há vários apelidos para essas imensas máquinas metálicas de cor e fumaça. Soldados os chamam jingle trucks, estrangeiros sorriem dos LSD trucks e os próprios caminhoneiros se referem, com ternura, a seus veículos como brides. Se são noivas, certamente são vaidosas.

Como era de se esperar de um país que são vários, há grandes variações regionais na arte dos jingle trucks. Peshawar é a terra da caligrafia islâmica sobre rodas. Já nos LSD trucks de Islamabad, predomina a geometria abstrata. Se quiser ver máquinas delicadamente adereçadas com ossos de camelo, vá ao Sindh rural; se preferir madeira, vá a Quetta. Na capital nacional dos caminhões coloridos, Karachi, é possível encontrar todos os estilos.

Preocupada em dar sentido a tudo, a Academia vê nesses caminhões-camaleão “an outward projection of Pakistan’s tensions with its individual and collective identities”. Interprete-se isso como se queira.

A metamorfose de um caminhão comum em LSD truck é lenta e cara; consome dezenas de semanas e milhares de dólares. Não é coisa para amadores. É ofício de artistas especializados, que o Paquistão festeja e reverencia como mestres renascentistas.

O leitor de urdu e árabe (ou pashto, ou punjabi, ou sindhi, ou baluque, ou…) reconhecerá, em certos caminhões, suras do Corão e poemas de luminares locais, como Allama Iqbal. Há também retratos de atrizes, políticos, músicos, santos sufi, jogadores de críquete e até projetistas de bombas atômicas. No universo criativo dos jingle trucks, tudo é permitido.

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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5 respostas para Os caminhões psicodélicos do Paquistão

  1. caionoronha disse:

    Nossa, lindo mesmo. Me fez lembrar os altares de muertos mexicanos!

  2. Fernando Farrugia Albacete disse:

    Boas fotografias!

    Traços culturais tão bonitos e tão pouco divulgados!

  3. Bianca disse:

    Genial!

  4. Pingback: O outro Paquistão | Jovens Diplomatas

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