Ansanm pou lapé

Ainda em 2004, quando servia como oficial do Exército Brasileiro, em São Leopoldo/RS, acompanhei os preparativos de partida do primeiro contingente brasileiro para a MINUSTAH.  Embora eu não fizesse parte do grupo que estava sendo mobilizado, tive a impressão de que em algum momento acabaria contribuindo com o esforço brasileiro para estabilizar e desenvolver o Haiti,  país mais pobre das Américas, cujo processo de independência – antes mesmo do brasileiro – tem inspirado tantas pessoas ao longo dos últimos dois séculos.

 

Quatro anos mais tarde, em 2008, substituí a farda camuflada pelo terno – a defesa pela diplomacia- e, tão logo concluído o curso de formação no Instituto Rio Branco, em fins de 2009, decidi me voluntariar para servir na Embaixada brasileira em Porto Príncipe, sem imaginar, naturalmente, a catástrofe que viria a seguir, em 12 janeiro de 2010.  Os  trinta e cinco segundos de revolta da natureza foram devastadores, deixando mais de 230 mil mortos e um país a ser reconstruído.  Cheguei na ilha cinco meses depois, ainda bastante inseguro, porém motivado e de certa forma destemido.

 

Logo pude perceber o enorme potencial humano na antiga “Pérola do Caribe”.  Encontrei um povo resiliente e alegre, embora sofrido com tantas tragédias, e de certa forma resignado com as inúmeras adversidades do dia-a-dia.  Encantei-me rapidamente com o ritmo musical kompas, que não deixa haitiano sentado; com a beleza da art naïf e sans soleil; com a culinária crèole – e seu tempero inigualável (baianos que me perdoem), sem olvidar as praias de água azul-turqueza (ah, Jacmel, Côte des Arcadins!), com enorme potencial turístico, que tantos momentos aprazíveis me proporcionaram.

 

Os três anos vividos no país (2010-2013) me permitiram acompanhar muitos dos esforços internos e externos para aliviar a dor pós-tragédia. Os haitianos fizeram  empenho notável para superar o trauma da perda de familiares e amigos, sem que o processo os privasse da esperança e  da força necessários para reconstruir e recomeçar. O protagonismo brasileiro neste momento de tantos desafios foi inegável.  Lá construímos quatro hospitais de referência, mantivemos sólida assistência humanitária e cooperação técnica, desenvolvidos em ambiente seguro e estável graças à MINUSTAH, em patrulha 24 horas por dia nos dez departamentos do país. Para o jovem diplomata em início de carreira, a atuação brasileira de fato revelava-se “ativa, altiva e solidária”.  Tive, ainda, o prazer de conviver com bravos e comprometidos representantes da sociedade civil brasileira, a exemplo das ongs Viva Rio, Via Campesina, ActionAid, World Vision e diversos grupos religiosos.

 

Não posso negar ter havido momentos de frustração.  Ainda é reduzida a participação dos haitianos nos processos eleitorais (25%); é inaceitável a “cultura” dos “restavec”, mais de 200 mil crianças mantidas em regime de semi-escravidão no país; é intrigante a eficácia questionável de boa parte da ajuda externa, muitas vezes descoordenada e desalinhada das prioridades do governo local; é incompreensível a falta de recursos para combater a epidemia de cólera, que já ceifou mais de nove mil vidas.  Aprendi, neste período, quão alto é o custo de manutenção de organizações filantrópicas estrangeiras, que chegam a consumir a maior parte (2/3!) da ajuda recebida pelo país.

 

O saldo da experiência, no entanto, é extremamente positivo, sem dúvidas.  A bandeira brasileira é mais do que respeitada, é venerada pelos haitianos, devotos da seleção brasileira de futebol. O “Brazilian way of peacekeeping” é igualmente admirado e estudado por vários países, e até mesmo pela ONU, que comumente se refere a nossas tropas como “de elite”.  O terreno me mostrou, inter alia, a importância da cooperação sul-sul; do diálogo civil-militar; do papel conciliador das mulheres nas comunidades; dos projetos de impacto rápido e de redução de violência comunitária, cruciais para a consolidação da paz.

 

Como muitos que me antecederam, e me sucederam, deixei o Haiti marcado indelevelmente pela intensa jornada.  Que o recente fluxo migratório haitiano para o Brasil sirva para selar ainda mais nossos vínculos históricos de amizade e respeito mútuo.

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Sobre guimaraesdaniel

Brazilian diplomat
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3 respostas para Ansanm pou lapé

  1. Vinicius disse:

    Excelente postagem. Obrigado por contribuir e movimentar o blog, pois o mesmo continua sendo uma grande referência não só aos aspirantes à carreira diplomática, como também a todos os internacionalistas de coração. Abraços.

    • guimaraesdaniel disse:

      Obrigado, Vinicius. Abraços!

      • Bárbara Lima Bastos disse:

        Muito boa a postagem, eu gostaria muito que o blog fosse alimentado constantemente. As histórias inspiram demais a todos, nós, aspirantes à carreira diplomática.

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