Diários de Trípoli (I): a Revolução não será grafitada

gaddafi

Muammar Gaddafi ainda é onipresente em Trípoli, mais de três anos após a sua queda. O antigo homem forte da Líbia é retratado em grafites nos muros das regiões mais centrais da capital líbia, principalmente no bairro de Ben-Ashour, onde está localizada a Embaixada brasileira. Para um leigo nas intervenções urbanas como eu, são grafites de dar inveja a Kobra ou aos Gêmeos Pandolfo.

Muammar Gaddafi ainda é onipresente em Trípoli. Mas não como gostaria. O povo líbio aprimorou a arte do insulto a tal nível que retratou Gaddafi das formas mais vexatórias para a cultura muçulmana: como cachorro, na maioria das intervenções, mas também como rato e serpente.

Em um país em guerra civil como a Líbia, contemplar esses grafites de dentro do comboio montado para o traslado Residência-Embaixada-Residência foi a minha única experiência turística em Trípoli – minto, pois dei uma escapadela à Medina e a algumas livrarias do centro da cidade, para o pesadelo dos fuzileiros navais que faziam a minha escolta.

Foi, também, um dos únicos insights que tive junto à psiquê do povo líbio. A profusão de linhas e de cores dos grafites expõe sentimentos represados durante os 42 anos da ditadura do Grande Guia. Ódio, revolta, desejo de liberdade e esperança no futuro. Com efeito, os grafites são uma fotografia da eufórica catarse do povo líbio com a Revolução de 17 de Fevereiro, que acabou com a Jamahiriya. Fotografia distante e apagada, é verdade, mas que nos lembra de que sempre existe alimento para a esperança de dias melhores, mesmo diante de um Saara de desilusão e de um Mediterrâneo de caos.

 

SAIBA MAIS:

  1. Libya — The art of the revolution“, ensaio fotográfico de Rula Bilbeisi Dajani; e
  2. O Silêncio contra Muamar Kadafi“, de Andrei Netto.

 

  • Bruno Quadros e Quadros esteve em Missão Temporária em Trípoli, entre abril e maio de 2014, para servir como Encarregado de Negócios, a.i. do Brasil na Líbia. Dois meses depois, em julho, a Embaixada brasileira seria evacuada para Túnis, em razão da deterioração das condições de segurança na Líbia.
  • O autor agradece a abnegação e o senso de missão do destacamento de fuzileiros navais da Marinha do Brasil, responsável pela segurança do pessoal e das instalações da Embaixada brasileira. Sem eles, não haveria condições de trabalho para o pessoal da Embaixada.
  • Crédito das fotos: Bruno Quadros e Quadros.
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Relatos de Motocicleta (20) – Bandeiras de Babel

Havia, no ar, algo de belle époque, só que com mais convidados – principalmente na América do Sul. Prelúdio de mais uma crise sistêmica, sob a vertigem da banda larga, do recuo civilizatório, do impasse ambiental. Insinuada necessidade de uma releitura da fábula de Babel: nas tantas vozes, a incapacidade de ler as semânticas, mesmo entre aqueles que falavam a mesma língua.

As aulas de idiomas, na infinita combinação de línguas e culturas, nos preparavam para transitar no confuso século que nos tocou. Simulações de discursos, poemas e debates em fóruns multilaterais e premiações de cinema, nas aulas de Inglês; interpretações de Octavio Paz, nas de Espanhol; nas de Francês, “A Regra do Jogo”, filme de Jean Renoir, sobre a infantilidade da burguesia (a francesa, a francesa), com ponta de Cartier-Bresson. Logo, logo seriam agregadas as disciplinas de Árabe, Russo e Mandarim.

Pela própria temática, pois, eram aulas que antecipavam mais claramente a vivência que nos aguardava. A Professora Susie Casement perguntava para onde gostaríamos de ir em primeira remoção, ao som de Something, do George, que tocava na sala ao lado, na aula do Professor Jim Kelly. Marcelo falava em ir para o Haiti, ele que já andara por lá; Mayara pensava em postos D, onde seus filhos não estudariam em escolas internacionais (“que nada, quero que minhas crianças conheçam o mundo verdadeiro!”).

Um, solteiro, só não queria ir para países muçulmanos, provavelmente pela questão de gênero, o que dificultaria o, digamos, trabalho – ao menos foi isso que as risadas disseram. Uma, solteira, também não queria, por razão inversamente proporcional. Pensava na nossa missão junto à Unesco, em Paris. Outras colegas precisavam ficar mais tempo no Brasil, por causa da família, ou ir para Moçambique, Benin, Togo, “para voltar às raízes”. Tiago deveria ir para algum lugar com praia, a pedido da esposa, “que está grávida, vou ser pai”, contou ele, recebendo uma salva de palmas.

Outro amigo disse ainda que também queria um posto D, porque éramos todos jovens “e essa é a hora pra isso.” Já eu confessava que não fazia ideia, ainda nem assimilara isso de ganhar o mundo, e uma amiga ainda pegou no sono no meio da minha fala. Buenos Aires ou Washington, Luanda ou Havana, algum lugar de importância. Não era fácil escolher, ante tantas alternativas.

Despediam-se os colegas de intercâmbio.

Juan, argentino de sotaque carioca, pensou que “não estaria nervoso e sensibilizado, mas… xá era”. “Fue una posibilidad increíble, muito marcante para a vida da gente aprender matérias com a idiossincrasia brasileira, a integração faz-se mais rápida com a possibilidade de desconstruir preconceitos, por meio do conhecimento do outro”.

Destacou termos aulas com o Secretário-Geral e com Ministros de Estado. Foi o melhor modo de conhecer o Brasil, “o país mais importante para a política externa brasileira”. Brasileira? Deve ter sido o nervosismo, mas ele não se intimidou com as risadas e emendou. “E também para a Argentina…” Saudou a chance de ter colegas africanos, afirmando que “a carreira diplomática só tem um dever, que é fazer um amigo por dia.”

Para Daniel, também argentino, o Rio Branco abriu sua “visão do mundo”. O são-tomense Gika Simão, do estilo e da elegância, já começou emocionado. “Aparento ser forte, mas tenho sentimentos também… São Tomé e Príncipe são duas ilhas perdidas no oceano, no Golfo da Guiné, distantes 300 km da costa, há 140 km entre uma e outra, são conhecidas como ilhas do chocolate, e o cacau foi levado para o meu país por um brasileiro… Todo o nosso processo de libertação colonial ocorreu de forma diplomática.” Mostrou-nos um vídeo do país, apareceu um papagaio, um colega imitou o bicho (“Gika! Gika!”), e as gargalhadas abreviaram a apresentação.

Irina, de Angola, agradeceu o carinho dos brasileiros, fruto “da mistura do europeu com o africano, como lá na minha terra.” Foi auxiliada pela Maria Clara, que leu uma passagem do angolano Agualuza. “Enfiando os pés na lama é que uma criança aprende a conhecer o seu país.” Falou que conheceu muito do Brasil, o Rio de Janeiro, “o Chikuza, esse japonês brasileiro!”, o chorinho, “pessoas gaúchas”, e que a Bahia é igual à Angola.

Um colega paulista (possivelmente o mesmo do papagaio), fervoroso defensor da chamada “Revolução de 32”, perguntou-me se os gaúchos estavam lá como intercambistas, se fariam discurso de despedida. Mas prosseguiam os africanos.

Sadjá, fala esguia e serena da Guiné-Bissau, ouvira falar do Instituto quando estudava em Moscou. A Guiné, pioneira na descolonização africana, em uma longa guerra contra Portugal, já teve indústria, mas não restou nada após a década de 90, disse ele. O país entrara na rota do tráfico de drogas, “um verdadeiro naufrágio, mas passa tudo para a Europa, é eles que usam.” “Senti o afeto de todos os colegas, Chikuza, Rezek, Rafael, nosso colega argentino também pode contar com mais um amigo da Guiné-Bissau…”

Zé Pedro, de Moçambique, agradeceu o convívio e a oportunidade de conhecer a formação diplomática no Brasil. Fulgêncio, do Timor Leste, falou sobre seu país e agradeceu a todos. Nosso diretor, Embaixador Fernando Reis, elogiou o Português do colega, que foi incentivado por aquele paulista (possivelmente o mesmo do papagaio) com um “vai lá, dá um abraço”. E Fulgêncio foi mesmo. Levantou, cruzou o auditório e abraçou efusivamente o Embaixador, sob aplausos igualmente efusivos.

A Guiné-Bissau tinha ainda outro representante, João Insali, que pouco antes me dissera, no jardim do Instituto, “olha, Secretário, eu vou dizer, não tenho nenhuma queixa do Rio Branco, de Brasília, nenhuma!” Sempre formal. Começou agradecendo “pelas milhares de caronas”, depois à Lívia, “uma irmã, ela que agora vai ser mãe.” “Falo do fundo do coração, não tenho nenhuma queixa”, e salientou a “limpeza e segurança do Instituto Rio Branco.”

Foi mais longe. “Eu não aceito discutir política internacional, lá na minha terra, com ninguém que não tenha passado pelo Instituto Rio Branco! Quero ver os colegas, essa gente solidária, que é como deve ser todo diplomata, quero vê-los no Sudão, Gana, Bagdá, em Bissau, que é onde há problemas sociais para resolver, o resto, Nova Iorque, Paris, isso está tudo na Internet!”

Havia mesmo algo de belle époque no ar, só que com mais convidados, com mais músicas. Era uma época em que, a cada dia em que passávamos pelo Itamaraty, víamos uma bandeira diferente hasteada junto às bandeiras do Brasil e do Mercosul, por conta da visita de algum mandatário estrangeiro. Ninguém acreditaria que, alguns anos depois, ali, do outro lado da rua, haveria outras bandeiras, a exigir golpes militares.

Eu não sabia quase nada, mas achava que começava a saber. Finalizava estas notas à espera de uma aula na Divisão de Treinamento e Aperfeiçoamento, no anexo III, o popular “Bolo de Noiva”. Ouvia vozes de todos os cantos – Espanhol, Inglês, Chinês, Alemão, Francês, Árabe –, a simbolizar o diálogo universal de nosso país.

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Relatos de Motocicleta (17) – Ator Global

A visão retrospectiva costuma trazer novos pontos de vista.

Havia discussão constante sobre a necessidade de o Rio Branco priorizar conteúdos práticos, que nos preparassem mais efetivamente para o início da carreira. Que nos apresentassem as grandes iniciativas de então, as chances e riscos de cada uma. Um pouco menos de erudição, talvez, um pouco menos reiteração das matérias do concurso.

Nem sempre percebíamos, mas às vezes o Instituto adotava tal ênfase.

O caso do Haiti, por exemplo. Em 2004 aceitáramos, em meio a polêmicas, o comando militar da MINUSTAH, missão da ONU para estabilização, promoção da democracia e desenvolvimento. Pela primeira vez um país em desenvolvimento assumia tal encargo, o que não era pouco. Uns, geralmente à direita, diziam que o Brasil não tinha envergadura ou “recursos de poder” para tanto; outros, geralmente à esquerda, acusavam-no de ser marionete do imperialismo, partícipe de um plano de intervenção no país caribenho.

Já em 2009 viu-se que não era nem uma coisa, nem outra. A MINUSTAH tivera relativo sucesso, com a melhora da segurança e a implementação de projetos sociais. O Brasil manteve diversas parcerias, desde nossos parceiros do Cone Sul até Estados Unidos e Cuba. É digno de registro que, em mais de 10 anos de atuação, tenha sido pequeno o número de incidentes a envolver nossos militares. O Ministro Celso Amorim tratou do tema no seu “Conversas com jovens diplomatas”, em capítulo significativamente intitulado “As Forças Armadas brasileiras não atirarão sobre o povo”.

Nunca se poderá saber em que extensão o terremoto de 2010 comprometeu o trabalho da MINUSTAH. De qualquer forma, em 2014 as tropas começaram a ser reduzidas, e em 2015 realizaram-se novas eleições em clima de razoável tranquilidade, segundo a ONU. Trata-se, naturalmente, de visão à distância, no tempo e no espaço. No discurso, que não traz a experiência de quem tudo viu de perto, como os três colegas de nossa turma, que para lá foram em primeira remoção; ou de relatos críticos como os de Tailon Ruppenthal (“Um soldado brasileiro no Haiti”) e do documentário “O dia em que o Brasil esteve aqui”, sobre o amistoso da Seleção Brasileira. Cum grano salis.

A passagem da teoria – a política externa – à prática diplomática coloca-nos, sempre, em meio a contradições.

A MINUSTAH foi vitrine para nossas novas credenciais de país prestador de cooperação, idealizador de projetos “estruturantes” que transferem técnicas para o desenvolvimento endógeno dos demais. Impulso decisivo à cooperação Sul-Sul e à cooperação triangular com países desenvolvidos, com nossa diferença essencial: um diálogo político franco e sem interesses velados.

Aí residia parte da discórdia, na ideia da “diplomacia solidária”, conceituada como “a aplicação de uma ação coletiva internacional feita por países intervenientes num conflito interno ou internacional, sem que haja interesses de ordem material ou estratégica, e movidos por dever de consciência” (“O Brasil e a crise haitiana: a cooperação técnica como instrumento de solidariedade e de ação diplomática”, Wladimir Waller Filho, FUNAG, 2007, p. 224).

Críticos dos dois extremos afirmavam que a ação brasileira decorria unicamente da aspiração por uma vaga permanente no Conselho de Segurança. Como se não houvesse outros níveis de projeção a almejar, como se a chefia da MINUSTAH fosse suficiente para tanto – costuma levar duas guerras mundiais, no mínimo, pra chegar lá. Tínhamos que aproveitar a oportunidade e fazer um bom trabalho, contribuir pra comunidade internacional. Seleção é consequência.

Na política internacional, solidariedade só não gera suspeita em caso de tragédia humanitária, e olhe lá. Fora isso, todo mundo olha atravessado, é um Deus – ou Marx – nos acuda, dependendo de quem critica. Tem aquela do Fidel, contada pelo Oliver Stone, sobre o rápido discurso na ONU, em 1975 (rápido, porque o de 1960 atingira o recorde de quatro horas e meia). Ao rebater as críticas de que Cuba apoiava a independência de Angola porque pensava em petróleo, disse ele que não buscava nenhum interesse material, “e isso é lógico que os imperialistas não entendem!”

Anedotas à parte, o que sei é que nossa solidariedade era real, pelo menos com base no que vi, com minhas próprias mãos, na Guiné-Bissau, onde fazíamos o mesmo que no Haiti, em proporções diferentes.

E o Rio Branco, com tudo isso?

O que eu queria dizer é que, sim, estudávamos filosofia grega, mas uma aula de Linguagem Diplomática trouxe sessão do ciclo de debates sobre a cooperação do Brasil com o Haiti. Participaram a Professora Susie Castor, acadêmica e ativista social haitiana; o Conselheiro Michael Hayes, da Embaixada do Canadá em Brasília; o Professor Ricardo Seitenfus, representante da OEA no Haiti; e o Professor Antônio Ramalho da Rocha, da UnB.

Os painelistas recordaram que a independência haitiana foi a única feita por escravos na América Latina e no Caribe, de forma violenta e “catártica” contra os exércitos de Napoleão, em 1804. Trataram da atuação das ONGs; da necessidade de maior sintonia entre o Brasil e os demais, de ações de desenvolvimento, após a fase de pacificação; da estabilização do Haiti e da volta de Cuba ao sistema interamericano como fatores de equilíbrio no Caribe; da “sul-americanização” da região, pela atuação de Argentina, Brasil, Chile e Uruguai na MINUSTAH. De ter sido o voto do Haiti que sacramentou a suspensão de Cuba da OEA, e que Cuba era então um dos principais contribuintes para os projetos de saúde no país.

Para Susie Castor, a comunidade internacional foi fundamental para a estabilização e o povo haitiano era grato pelos esforços e recursos investidos. Afirmou, porém, ser necessário iniciar a transição da ênfase securitária para as ações sociais, o que exigiria melhor coreografia entre os diversos atores estatais e não-estatais, especialmente para reforçar o Estado e as instituições.

Bueno, já me alonguei. O que eu queria dizer, em poucas palavras, é que naquela época do Rio Branco comecei a achar que seguíamos dando concretude à gradual transição entre discurso e prática. Se “não há paz sem desenvolvimento!”, como dizíamos há tempos, tínhamos que sair pro jogo e mostrar como se faz, o que exigiu força para suportar as desilusões e pressões daí decorrentes – internas e externas.

Ao aceitarmos desafios e custos, compatibilizamos nosso perfil com nosso tamanho, e muitos nos seguiram, de Sul a Norte, de Leste a Oeste.

Numa aula de Inglês, dias depois, perguntados sobre o primeiro posto em que gostaríamos de servir, muitos citaram países da África, Ásia e América Latina, e de fato nossa turma foi uma das que mais enviou diplomatas para postos C e D em primeira remoção.

Passávamos a ser um ator global – não mais um mero “global player”.

Passávamos a ser um ator global – não mais um mero “global player”.

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“Brisas de Bissau” – lançamento

capa

Caros amigos,

Dia 1/11, às 15h, “lançamento” das “Brisas de Bissau” na Feira do Livro de Porto Alegre.

Sei que não é possível, mas registro que seria uma honra poder contar com todo mundo lá, para agradecer pessoalmente pela companhia desde 2011.

Encaminho, abaixo, textos da contracapa e da “orelha” do livro.

Grande abraço, Eduardo

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Um jovem diplomata em princípio de carreira, um jovem casal nos primórdios de sua vida em comum, um jovem país às voltas com as primeiras décadas de sua independência… Eis o cenário e os personagens principais desse painel em que Eduardo Mello contrapõe, em uma delicada costura, a missão que o levaria à Guiné- Bissau ao universo, a um tempo mágico e heroico, que por lá encontrou. (…) Curiosamente, em que pesem tantos desafios e ameaças, o que emerge do texto é de uma leveza comovedora. E não apenas por força dos poemas (de grande sensibilidade) com que abre determinados capítulos, mas porque ele consegue narrar suas aventuras com simplicidade e humor, incorporando a elas vinhetas tão surpreendentes quanto pungentes. Eduardo tem igualmente o dom de dar vida a objetos inanimados. À certa altura, a troco de nada, “um pneu de caminhão, à venda na calçada, rebela-se, foge, desvia dos carros e cruza para o outro lado da rua”… Puro cinema.

(prefácio de Edgard Telles Ribeiro)

Sensível, tocante e pungente. Nostálgico, realista e poético. Tem uma beleza delicada e ao mesmo tempo concreta. Verdadeira obra de arte da vida real, que traz a esperança de que o mundo e as pessoas podem ser melhores. Viajamos juntos, sentimos cada brisa, cada alegria e tristeza, mesmo sem tê-las vivido. Sensação de novas experiências, de deixar um pouco de nós em outro canto do mundo e de levar muito dele conosco. Desperta para a grande responsabilidade de ser diplomata, faz de um país, aparentemente sem muita significância no cenário internacional, um local cheio de vida e sonhos. Perspectiva realmente inspiradora. 
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(dos leitores do blog Jovens Diplomatas)
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Relatos de Motocicleta (14) – Gestações

O trabalho do escritor é parecido com o dos pescadores árticos, diz Neruda. Requer paciência, para perfurar o gelo, e força, para suportar temperatura e crítica. Precisa desafiar o ridículo ao lançar o anzol e, depois de tanto esforço, obter apenas um pescadito pequeñito.

Estávamos em 2009, época inspiradora em que os peixes saltavam às páginas, até mesmo no churrasquinho da esquina:

– Não, é que a Ellen Gracie o Brasil queria colocar naquela Corte Internacional de Justiça lá, mas aí deu problema, o Brasil perdeu…

– Hehe, esse aí fala como se fosse Copa do Mundo!

– Mas aquele Celso Amorim tá querendo um cargo na ONU, então o Brasil inventou de apoiar o rapaz do Egito pra coisa da cultura!

– Mas como?!

– Ah, é que o Brasil quer se aproximar dos árabes…

– Eu não concordo com isso, se é brasileiro, tem que apoiar!

“Aquele” Celso Amorim recebia movimentos sociais e sociedade civil em audiência pública na Sala San Tiago Dantas, no Itamaraty. À cabeceira da longa mesa em “u”, o Ministro desdobrava-se para responder a variadas perguntas. “Isso já estamos fazendo.” “Orientarei meus assessores a verificar.” “Trata-se de uma questão complexa e precisamos conversar também com aqueles que pensam diferente…” Criava-se o canal do MRE no Youtube, para “acesso a vídeos e áudios de programas, entrevistas e coletivas do Ministro de Estado, diplomatas e outras autoridades sobre temas de política externa”.

Vou lembrando aos poucos, às vezes como passado, às vezes como presente.

Integro a delegação que participa do Conselho de Cooperação Mercosul-União Europeia, em Assunção. Primeira “missão eventual”, como diz o jargão, estreia do passaporte vermelho (de tonalidade diplomática). Hospedo-me em hotel construído em 1858 como palacete da família López, prédio que anos depois serviria de hospital para a Tríplice Aliança, ao fim da “Guerra Grande”, como a chamam os paraguaios. A “maldita guerra que nos atrasou meio século”, diria o Barão de Cotegipe.

Leio que o Censo de 2005 constatou que a pobreza no país atingia 38% da população, isto é, 2.229.830 de pessoas. Dirijo-me a restaurante em frente ao Panteón de los Héroes, mausoléu de Carlos e Solano López. Lá estão quatro daqueles números, números que se fazem crianças. Daniel e Gustavo, Daniela e Brayan brincam de engraxar os sapatos dos comensais, em troca de um menu degustação às cegas: comem o que lhes é oferecido, com as mãos cedo calejadas.

Passa da meia-noite. Daniel e Brayan (“Brájan Adams”, segundo ele) são dois de onze irmãos. O primeiro diz que trabalha ali desde 2007. Tem 11 anos, olhar plúmbeo de quem suspeita ter dado azar ao nascer. Quando alguém lhe diz que deve estudar, assente com olhos baixos, intuindo falácias. Já Brayan tem 7 invernos, elétrico e mentiroso: diz que engraxa os sapatos do Presidente Lugo todos os dias, enquanto come meu ex-purê com as mãos. Quanto durará esse sorriso?, penso eu. Os três meninos sentam-se, pedem Coca-Cola, começam a gritar para Carolina, a garçonete. “Carolinda, ella es la Carolinda!”. Ela, que de fato é, chega ruborizada.

Enquanto isso, a menina Daniela, em seus aparentes 8 anos, permanece sentada no meio-fio, no outro lado da rua. Meiga e com olhos achinados, abraça as pernas, carrega longos cabelos negros sobre o vestido e o rosto sujos. Vejo, na mirada arredia, a tristeza de quem começa a tomar consciência das injustiças – a da sociedade, que já sofre, e a do machismo, que não deve tardar.

Na manhã seguinte, os jornais debaterão a possível entrada da Venezuela no Mercosul e o interesse do Governo do Paraguai em melhorar os indicadores sociais, dar um “rosto humano” ao bloco. teremos reuniões preparatórias na Chancelaria paraguaia, e durante o Diálogo Político com os europeus a representante da UE perguntará sobre a recém-criada União de Nações Sul-Americanas, a Unasul. Seguirei aprendendo, no coquetel de encerramento, as modulações da linguagem diplomática, enquanto penso em Daniela.

De volta a Brasília e ao estágio na ABC, auxilio na redação de um acordo de cooperação com a Guatemala, que seria assinado pelo Presidente Lula em viagem próxima. Nas aulas de Linguagem Diplomática, passamos a ter palestras com colegas mais graduados, que contam histórias de suas respectivas áreas. As dificuldades na redação de tratados, em que cada vírgula é negociada, conta um da Divisão de Atos Internacionais; o relacionamento com as embaixadas e demais representações sediadas em Brasília, ou protestos por multas de trânsito e pela restrição de importação de uísque, diz outro, da Coordenação-Geral de Privilégios e Imunidades.

Nosso professor e futuro paraninfo, o Embaixador Gonçalo Mourão, ensina que o Cerimonial trabalha com uma linguagem de símbolos. Se cumpridos os códigos, sinal de que as relações são normais; se excedidos, que são melhores ainda; e se cumpridos friamente, é porque a coisa não anda lá muito bem. Aconselhava-nos a ter humildade, “ainda que algumas coisas pareçam excessivas, pois nós não somos nós, nós somos representantes de nosso país. E, mais importante, raramente vemos a concretização, o resultado do nosso trabalho de forma imediata: trabalhamos não para nosso tempo humano, mas para o tempo do país, quase o tempo histórico”.

Como disse antes, estamos em meados de 2009. Faz calor no auditório, um colega resolve tirar o paletó. O professor brinca e aponta. “Vocês vejam, eu falava do tempo, antigamente tirar o paletó em aula poderia ser considerado ofensa, mas não, não… não estou dizendo que você está errado, algumas formalidades não são mais exigidas, felizmente.” Já era tarde, o jovem secretário, desalinhado ante o riso da turma, fica no meio do caminho, apenas com uma das mangas posta, enquanto toma nota do ocorrido.

Porque o silêncio circulava na brisa dos vãos do Rio Branco, podíamos ouvir o tempo histórico em formação. Enquanto o professor prossegue o raciocínio, uma futura mãe, absorta e distraída, acaricia a enorme barriga, trabalha para todos os tempos.

Entre eles o da menina em gestação, que sentirá as constantes andanças da carreira, tanto quanto a mãe. Bem-aventurada de aninhar-se naquele ventre, de carícias e vestidos limpos, aquela que todos chamarão de Babi. Pobre Daniela! Já começou fazendo as escolhas erradas, ao nascer no meio-frio. Faltou-lhe mérito.

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Relatos de Motocicleta (13) – Emotivo e circular

“Professor, como vai? Estive em sua palestra no Rio Branco, na outra semana”.

Ali estava o assessor internacional do Presidente Lula, em poltrona de corredor, no meio do avião que nos levaria de Porto Alegre para Brasília. Marco Aurélio Garcia – “O Formulador Emotivo”, como foi chamado em perfil da Piauí – cumprimentou-me com simpatia, cordialidade. Apesar de colorado.

Eu mesmo andava buscando um perfil – uma silhueta, que fosse – para mais uma conversa no Curso Diplomacia. Das perguntas, a primeira era sempre a mais difícil. Quando tu decidiu fazer o concurso? E eu lá sei, tchê? Em tantos filmes e viagens de cruzamentos de idiomas. Na oratória de LulAmorim. No Hobsbawn, talvez. Na leitura de Dez anos no mar, da família Schürmann, impressionado com os mochilões dos filhos. Num olhar de relance, de virada de rosto. Ou de página.

* * *

Em Brasília, os preparativos para o Dia do Diplomata, cerimônia de condecorações e de formatura da turma 2006-2008. Entre os formandos, dois que seriam, em breve, grandes amigos em Santiago – e sabe-se lá quantos mais, em outros portos. O saguão do Itamaraty estava repleto de autoridades, embaixadores, familiares. A colega que estagiava no Cerimonial distribuía orientações, agitada. “Procurem seus bandejeiros”, “peguem a credencial certa”, “vai, você, fica condecorada aí!”.

Coube-me a nobre função de Auxiliar de Impositor de Condecoração, a secundar a Embaixadora Vera Machado, uma das impositoras da honraria. Pra quem acha pouco, também eu tinha direito a um ajudante, o Bandejeiro Mario Madruga, que, aprumado, portava as medalhas. Nossa fila era a mais disputada pelas mães: nela estava Tony Ramos, emissário das telenovelas brasileiras.

Perfilamo-nos para ouvir o Hino Nacional, junto ao Presidente da República. Muitos pela primeira vez, quase todos com o correspondente orgulho – ainda não chegara o triste tempo dos ódios. “You salute the rank, not the man”, diria Winters a Sobel, em Band of Brothers.

Prosseguiam as aulas. Na disciplina de Processo Histórico Argentino, o professor Doratioto falava de mapas e de guerras; da necessidade de o diplomata estar preparado para improvisar, ante a variedade de situações que nos aguardam; e do casal que deu origem a “Eduardo e Mônica”. Uma colega sai da sala, alguém sopra ao professor tratar-se de uma aniversariante, que, ao retornar, é surpreendida por um retumbante “parabéns a você!”.

Visitou-nos o Chanceler do Chile, Mariano Fernández, com elogios à diplomacia de Rio Branco. O Brasil, “um continente”, deveria integrar-se mais aos países pequenos da região, para que todos trilhassem o caminho do desenvolvimento, disse. Nosso Embaixador em Santiago, Mário Vilalva, lembrou que boa parte dos alunos da Andrés Bello [academia diplomática chilena] optava pelo Português como segunda língua estrangeira.

Enquanto isso, em outra palestra, ouvíamos o presidente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, o nigeriano Martin Uhomoibhi. Carlinhos Brown, com um turbante à Marge Simpson, tratava de projeto na Agência Brasileira de Cooperação. No auditório divulgavam-se as notas da segunda fase do concurso de 2009, despertando variadas reações nos candidatos, assim como lembranças em muitos de nós (outro albergue, este em Buenos Aires). Nas noites de futebol à beira do lago, a equipe feminina preparava-se para amistoso contra diplomatas africanas. Certa vez, na saída, de camiseta tricolor e moto, fui abordado por um carro com placa do Senado. O motorista não conseguia explicar o local que buscava, ao que o senador Arthur Virgílio baixou o vidro traseiro e especificou, também com cordialidade.

Um fim de semana de Oasis em São Paulo. E na Paulista. “Cala a boooca, Satanááás!”, grita um mendigo. Um senhor oferece uma revista religiosa cuja capa garante que os movimentos sociais são terroristas, o mesmo valendo para um tal Lemón Diplomatique (nome semelhante ao da revista que levo na mochila). Meninos negros andam sobre o para-choque de um ônibus, um deles cai, assusta-se, é ajudado por um policial. O Black Fashion, um desfile de modelos negros e senhoras de idade, “contra os padrões europeus de beleza”, diz o apresentador, interrompido pelos redundantes gritos de outro negro, aparentemente transtornado, “sou negro, perseguido pela Rede Globo e pela Polícia Militar!, sou negro, perseguido pela Rede Globo e pela…!”, repetia incessantemente. A livraria do Reserva Cultural superpõe-se, em desnível, a uma banca de jornais, promovendo carnaval de sentidos, propaganda, títulos de livros: Veja: indispensável – Escola Superior Diplomática – Literatura Estrangeira – Cavalo de Tróia – A Ditadura Derrotada. A bilheteria do metrô avisa aos usuários que é blindada, em itálico, pra não deixar dúvida. E um suave almoço no Museu Casa de São Paulo, onde ensolaradas famílias são interrompidas por uma esfarrapada mulher que expõe o filho deficiente, “vocês não sabem o que é estar desesperada! não sabem! ninguém vai nos ajudar?! ninguém?!?! não me encosta, ninguém vai me tirar daqui! eu também sou gente!”, demanda, debate. Debate-se.

* * *

Outras perguntas eram frequentes, naquele início de carreira. “Quando tu pretende ir pro exterior?”. Amanhã, mas tudo depende dela!, dava vontade de dizer. Ainda não sei bem como funciona, depende dos Planos de Remoção, que são semestrais, parece que poderemos sair a partir de 2011, mais ou menos.

“E do que tu mais tá gostando? Vale a pena tentar o concurso?”. Nessa eu gaguejava, hesitava, de tão inebriado, estonteado com os acasos passados e futuros a costurar. Com as sensações sem fronteiras a ordenar em capítulos, sob pena de vê-las apagar-se de a poco. Vivir atormentado de sentido, esta sí es la parte más pesada, diria Fito.

A caminho do estádio do Vélez pra ouvir Bob Dylan, os amigos ajudando a esquecer comunidade do Orkut onde se discutia o resultado do TPS 2008.

Anos depois no metrô de Santiago, estação Parque O’Higgins, de novo Dylan, agora solito.

Lá trabalharia com o Embaixador Georges Lamazière, de livro que leria em Bissau.

Lá, onde me apresentaria ao Professor Marco Aurélio, “Professor, como vai?, fui designado para acompanhar o senhor nos eventos”. “Tudo bem, apesar de terem me contado que tu é gremista…”, diz ele. “Mas não me chame nem de senhor, nem de professor, doutor Eduardo, e vamos tomar um café, que ainda temos tempo”.

No avião em Porto Alegre, ela insiste, “cumprimenta sim, não é puxa-saquismo nada”. “Professor, como vai? Estive em sua palestra no Rio Branco, na outra semana”.

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Relatos de Motocicleta (12) – De concessões e concisões

Estava repleto o Auditório do Rio Branco na tarde em que recebemos o Chanceler da Bolívia, David Choquehuanca. Homem de gestos singelos, que, meses antes, ao chegar ao Sauípe, avisou ao diplomata de ligação que gostaria de conhecer o complexo hoteleiro. O colega, solícito, ia já providenciar transporte, quando o Chanceler agradeceu com simpatia, despediu-se, e saiu a caminhar.

Diante de plateia reforçada por embaixadores de outros países, Choquehuanca discorreu sobre os conceitos de “Pacha Mama” e “vivir bien”, fundamentos do que chamou de nova política externa boliviana. Houve quem estranhasse – a propalada superioridade da cultura euroatlântica torna exótico todo aquele que defenda a “Mãe Terra”. Sabe-se, porém, ser dever básico do diplomata compreender as formas pelas quais a cultura de um país influencia sua política exterior.

Naquela época a imprensa repercutia – ou criava, em alguns casos – polêmica sobre a abertura de cinco novas embaixadas do Brasil no Caribe. A Organização Mundial do Comércio (OMC) celebrava o Brasil como exemplo de resistência à crise e ao protecionismo. Recebíamos elogios, ainda, por nosso modelo de gestão bancária, exceção diante da crise dos bancos americanos e europeus. O Ministro Celso Amorim dizia, em entrevista a Caros Amigos, que o país já não pedia licença para se pronunciar na ordem internacional, o que era, segundo dele, uma conquista de toda a sociedade.

Costumava assistir a suas frequentes coletivas de imprensa, no Itamaraty. “O Presidente Obama certamente entenderia que os anseios sociais dos sul-americanos estavam levando a mudanças políticas, a serem tratadas com compreensão e cautela”, disse ele certa vez, às vésperas de viagem do Presidente Lula aos Estados Unidos.

Em outra ocasião, falou ao lado do Chanceler do Irã, Manouchehr Mottaki. Os enviados da imprensa insistiam em questionar o que as grandes potências achavam do envolvimento do Brasil no dossiê nuclear iraniano, e se fora discutida a possibilidade de o Brasil vender urânio à República Islâmica. “Nós não falamos sobre urânio”, tranquilizou-os Amorim, e lá foi, incansável, em algum outro dia, recepcionar o Príncipe Charles, que chegou ao Palácio com Camila Parker Bowles, em um entardecer chuvoso de Brasília.

Naquela semana, a primeira do estágio, fomos convocados pelo Embaixador Ruy Nogueira, Subsecretário-Geral de Cooperação e de Promoção Comercial. Estavam presentes os colegas das divisões ligadas à cooperação, cultura e promoção comercial, “áreas fundamentais” para nossa política externa, disse o Embaixador, ao ressaltar que a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) firmara mais de 300 acordos desde 2003.

“Aqui trabalhamos”, salientou ele, “com coisas concretas, é gratificante. Precisamos criar um bom ambiente para o início da vida profissional de vocês. Tenho 46 anos de carreira e sigo tão entusiasmado quanto antes, essa era a mensagem que eu queria transmitir”. Apresentamo-nos. O Subsecretário interrompeu uma das colegas. “Você é a filha do Embaixador, não? Eu a conheci uma vez em Genebra, lembro que estavas em dúvida entre o concurso e um namorado. Pelo visto o namorado dançou…”.

O entusiasmo foi um pouco prejudicado porque não mais poderíamos viajar em missão, a fim de evitar ausências nas aulas do Rio Branco. Alguns já tinham missões programadas para Pequim, Praga, Moscou e Genebra, o que ajudaria a explicar à minha mãe o que faz um diplomata – eu mesmo ainda estava aprendendo.

Que a comunicação entre o MRE e os Postos (embaixadas, delegações e consulados) é feita por meio de despachos telegráficos (daqui para o exterior) e telegramas (dos postos para cá). Que a carreira começava na classe de Terceiro Secretário, depois Segundo, Primeiro, então Conselheiro, talvez Ministro, até Embaixador, quem sabe?

Que temos a função de representar os interesses brasileiros no exterior, o que exige noção de conjunto e contexto sobre as necessidades do país, por envolver diversos ministérios e setores da sociedade. Exemplo disso tive foi reunião no Ministério dos Transportes, sobre interligação de hidrovias, ferrovias e rodovias no Mercosul. Um dos colegas, em outra situação, acabou presidindo reunião interministerial com uma embaixada asiática.

A função de informar: aprendíamos que um telegrama deve ser objetivo e conciso, já que a simples descrição dos fatos e outras avaliações estão disponíveis na imprensa. Que, para tanto, devemos manter constante contato com membros do governo, da sociedade e da imprensa do respectivo país, além de colegas do corpo diplomático, para coletar o máximo de informações e interpretações, de forma a permitir uma síntese equilibrada do quadro local.

E ainda a função de negociar todo tipo de acordos internacionais, desde um tratado até uma declaração ou resolução multilateral (no âmbito da Assembleia Geral da ONU, por exemplo).

Tivemos, em uma quarta-feira daqueles dias, a primeira reunião da comissão editorial da “Juca – Diplomacia e Humanidades”, a revista dos alunos do IRBr, iniciada pela turma de 2006 e cujo nome remete ao apelido do Barão do Rio Branco. A nós caberia a terceira edição, em espaço para alunos e ex-alunos desenvolverem ensaios, crônicas, poemas, sempre com um tema especial (na última, “Comunidades Brasileiras no Exterior”). Dividimos as tarefas conforme as preferências de cada um, decidimos convidar avaliadores externos para os artigos, e escolhemos o tema (“Mundo Lusófono”). Parecia uma primeira chance para arriscar escrever alguma coisa, talvez sobre aquela primeira experiência no Sauípe.

Porque o cotidiano trazia sempre novas deixas, inclusive as involuntariamente cômicas. Ao chegar à minha pequena mesa na ABC, no oitavo e último andar do Ministério, ouvi uma das moças da copa consultar o Paulo, chefe do setor, confundindo a tal nomenclatura de “secretário”:

– Seu Paulo, quem aqui é Secretário de Diplomata?

– DIPLOMATA é o Secretário Eduardo, ali está ele – explicou a ela, que veio em minha direção.

– O senhor é Secretário de Diplomata?

– Si… sim, que tal?

– É o seguinte, tem uma coisa aqui, que todos os Secretários de Diplomata devem ser servidos NA MESA, o senhor vai querer café e água? Aí a gente traz na mesa.

– Não precisa não, obrigado, é bom levantar de vez em quando.

– O senhor não quer? Mas é regra, a gente traz aqui – disse ela, pelo visto meio contrariada com a “regra”.

– Não, não precisa mesmo, mas vou trazer chimarrão, aí te peço água quente e –   

– Ah, não, água quente já tem ali no corredor, tá? – interrompeu, ciosa do cumprimento exato das instruções.

Tinha ela um pouco de razão, afinal a feliz maioria tem pernas para movimentar-se – consideração que desconsidera, claro, preocupações com a taxa de emprego. Depois de aprender um pouco em Bissau e Santiago, porém, passei a achar que concisão e objetividade nem sempre devem ser levadas ao pé da letra.

Porque se as letras têm os pés no texto, as palavras, centopeias, caminham conforme o contexto. Somente o olhar subjetivo, criativo, traz a coesão e a velocidade necessárias para os tantos trajetos possíveis do raciocínio.

Porque toda informação deve ser interpretada, esculpida, ainda que com cuidado, sob pena de meter os pés pelas mãos. O que veria em Bissau seria bem diferente do que veriam os colegas francês, russo ou português.

Porque era uma época em que cada entrevista coletiva do Ministro Celso Amorim era ouvida por todos lados e todas as partes, na expectativa de alguma declaração incisiva, estratégica. Uma interpretação nunca contida, uma imaginação nunca concisa.

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