Relatos de Motocicleta (13) – Emotivo e circular

“Professor, como vai? Estive em sua palestra no Rio Branco, na outra semana”.

Ali estava o assessor internacional do Presidente Lula, em poltrona de corredor, no meio do avião que nos levaria de Porto Alegre para Brasília. Marco Aurélio Garcia – “O Formulador Emotivo”, como foi chamado em perfil da Piauí – cumprimentou-me com simpatia, cordialidade. Apesar de colorado.

Eu mesmo andava buscando um perfil – uma silhueta, que fosse – para mais uma conversa no Curso Diplomacia. Das perguntas, a primeira era sempre a mais difícil. Quando tu decidiu fazer o concurso? E eu lá sei, tchê? Em tantos filmes e viagens de cruzamentos de idiomas. Na oratória de LulAmorim. No Hobsbawn, talvez. Na leitura de Dez anos no mar, da família Schürmann, impressionado com os mochilões dos filhos. Num olhar de relance, de virada de rosto. Ou de página.

* * *

Em Brasília, os preparativos para o Dia do Diplomata, cerimônia de condecorações e de formatura da turma 2006-2008. Entre os formandos, dois que seriam, em breve, grandes amigos em Santiago – e sabe-se lá quantos mais, em outros portos. O saguão do Itamaraty estava repleto de autoridades, embaixadores, familiares. A colega que estagiava no Cerimonial distribuía orientações, agitada. “Procurem seus bandejeiros”, “peguem a credencial certa”, “vai, você, fica condecorada aí!”.

Coube-me a nobre função de Auxiliar de Impositor de Condecoração, a secundar a Embaixadora Vera Machado, uma das impositoras da honraria. Pra quem acha pouco, também eu tinha direito a um ajudante, o Bandejeiro Mario Madruga, que, aprumado, portava as medalhas. Nossa fila era a mais disputada pelas mães: nela estava Tony Ramos, emissário das telenovelas brasileiras.

Perfilamo-nos para ouvir o Hino Nacional, junto ao Presidente da República. Muitos pela primeira vez, quase todos com o correspondente orgulho – ainda não chegara o triste tempo dos ódios. “You salute the rank, not the man”, diria Winters a Sobel, em Band of Brothers.

Prosseguiam as aulas. Na disciplina de Processo Histórico Argentino, o professor Doratioto falava de mapas e de guerras; da necessidade de o diplomata estar preparado para improvisar, ante a variedade de situações que nos aguardam; e do casal que deu origem a “Eduardo e Mônica”. Uma colega sai da sala, alguém sopra ao professor tratar-se de uma aniversariante, que, ao retornar, é surpreendida por um retumbante “parabéns a você!”.

Visitou-nos o Chanceler do Chile, Mariano Fernández, com elogios à diplomacia de Rio Branco. O Brasil, “um continente”, deveria integrar-se mais aos países pequenos da região, para que todos trilhassem o caminho do desenvolvimento, disse. Nosso Embaixador em Santiago, Mário Vilalva, lembrou que boa parte dos alunos da Andrés Bello [academia diplomática chilena] optava pelo Português como segunda língua estrangeira.

Enquanto isso, em outra palestra, ouvíamos o presidente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, o nigeriano Martin Uhomoibhi. Carlinhos Brown, com um turbante à Marge Simpson, tratava de projeto na Agência Brasileira de Cooperação. No auditório divulgavam-se as notas da segunda fase do concurso de 2009, despertando variadas reações nos candidatos, assim como lembranças em muitos de nós (outro albergue, este em Buenos Aires). Nas noites de futebol à beira do lago, a equipe feminina preparava-se para amistoso contra diplomatas africanas. Certa vez, na saída, de camiseta tricolor e moto, fui abordado por um carro com placa do Senado. O motorista não conseguia explicar o local que buscava, ao que o senador Arthur Virgílio baixou o vidro traseiro e especificou, também com cordialidade.

Um fim de semana de Oasis em São Paulo. E na Paulista. “Cala a boooca, Satanááás!”, grita um mendigo. Um senhor oferece uma revista religiosa cuja capa garante que os movimentos sociais são terroristas, o mesmo valendo para um tal Lemón Diplomatique (nome semelhante ao da revista que levo na mochila). Meninos negros andam sobre o para-choque de um ônibus, um deles cai, assusta-se, é ajudado por um policial. O Black Fashion, um desfile de modelos negros e senhoras de idade, “contra os padrões europeus de beleza”, diz o apresentador, interrompido pelos redundantes gritos de outro negro, aparentemente transtornado, “sou negro, perseguido pela Rede Globo e pela Polícia Militar!, sou negro, perseguido pela Rede Globo e pela…!”, repetia incessantemente. A livraria do Reserva Cultural superpõe-se, em desnível, a uma banca de jornais, promovendo carnaval de sentidos, propaganda, títulos de livros: Veja: indispensável – Escola Superior Diplomática – Literatura Estrangeira – Cavalo de Tróia – A Ditadura Derrotada. A bilheteria do metrô avisa aos usuários que é blindada, em itálico, pra não deixar dúvida. E um suave almoço no Museu Casa de São Paulo, onde ensolaradas famílias são interrompidas por uma esfarrapada mulher que expõe o filho deficiente, “vocês não sabem o que é estar desesperada! não sabem! ninguém vai nos ajudar?! ninguém?!?! não me encosta, ninguém vai me tirar daqui! eu também sou gente!”, demanda, debate. Debate-se.

* * *

Outras perguntas eram frequentes, naquele início de carreira. “Quando tu pretende ir pro exterior?”. Amanhã, mas tudo depende dela!, dava vontade de dizer. Ainda não sei bem como funciona, depende dos Planos de Remoção, que são semestrais, parece que poderemos sair a partir de 2011, mais ou menos.

“E do que tu mais tá gostando? Vale a pena tentar o concurso?”. Nessa eu gaguejava, hesitava, de tão inebriado, estonteado com os acasos passados e futuros a costurar. Com as sensações sem fronteiras a ordenar em capítulos, sob pena de vê-las apagar-se de a poco. Vivir atormentado de sentido, esta sí es la parte más pesada, diria Fito.

A caminho do estádio do Vélez pra ouvir Bob Dylan, os amigos ajudando a esquecer comunidade do Orkut onde se discutia o resultado do TPS 2008.

Anos depois no metrô de Santiago, estação Parque O’Higgins, de novo Dylan, agora solito.

Lá trabalharia com o Embaixador Georges Lamazière, de livro que leria em Bissau.

Lá, onde me apresentaria ao Professor Marco Aurélio, “Professor, como vai?, fui designado para acompanhar o senhor nos eventos”. “Tudo bem, apesar de terem me contado que tu é gremista…”, diz ele. “Mas não me chame nem de senhor, nem de professor, doutor Eduardo, e vamos tomar um café, que ainda temos tempo”.

No avião em Porto Alegre, ela insiste, “cumprimenta sim, não é puxa-saquismo nada”. “Professor, como vai? Estive em sua palestra no Rio Branco, na outra semana”.

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Relatos de Motocicleta (12) – De concessões e concisões

Estava repleto o Auditório do Rio Branco na tarde em que recebemos o Chanceler da Bolívia, David Choquehuanca. Homem de gestos singelos, que, meses antes, ao chegar ao Sauípe, avisou ao diplomata de ligação que gostaria de conhecer o complexo hoteleiro. O colega, solícito, ia já providenciar transporte, quando o Chanceler agradeceu com simpatia, despediu-se, e saiu a caminhar.

Diante de plateia reforçada por embaixadores de outros países, Choquehuanca discorreu sobre os conceitos de “Pacha Mama” e “vivir bien”, fundamentos do que chamou de nova política externa boliviana. Houve quem estranhasse – a propalada superioridade da cultura euroatlântica torna exótico todo aquele que defenda a “Mãe Terra”. Sabe-se, porém, ser dever básico do diplomata compreender as formas pelas quais a cultura de um país influencia sua política exterior.

Naquela época a imprensa repercutia – ou criava, em alguns casos – polêmica sobre a abertura de cinco novas embaixadas do Brasil no Caribe. A Organização Mundial do Comércio (OMC) celebrava o Brasil como exemplo de resistência à crise e ao protecionismo. Recebíamos elogios, ainda, por nosso modelo de gestão bancária, exceção diante da crise dos bancos americanos e europeus. O Ministro Celso Amorim dizia, em entrevista a Caros Amigos, que o país já não pedia licença para se pronunciar na ordem internacional, o que era, segundo dele, uma conquista de toda a sociedade.

Costumava assistir a suas frequentes coletivas de imprensa, no Itamaraty. “O Presidente Obama certamente entenderia que os anseios sociais dos sul-americanos estavam levando a mudanças políticas, a serem tratadas com compreensão e cautela”, disse ele certa vez, às vésperas de viagem do Presidente Lula aos Estados Unidos.

Em outra ocasião, falou ao lado do Chanceler do Irã, Manouchehr Mottaki. Os enviados da imprensa insistiam em questionar o que as grandes potências achavam do envolvimento do Brasil no dossiê nuclear iraniano, e se fora discutida a possibilidade de o Brasil vender urânio à República Islâmica. “Nós não falamos sobre urânio”, tranquilizou-os Amorim, e lá foi, incansável, em algum outro dia, recepcionar o Príncipe Charles, que chegou ao Palácio com Camila Parker Bowles, em um entardecer chuvoso de Brasília.

Naquela semana, a primeira do estágio, fomos convocados pelo Embaixador Ruy Nogueira, Subsecretário-Geral de Cooperação e de Promoção Comercial. Estavam presentes os colegas das divisões ligadas à cooperação, cultura e promoção comercial, “áreas fundamentais” para nossa política externa, disse o Embaixador, ao ressaltar que a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) firmara mais de 300 acordos desde 2003.

“Aqui trabalhamos”, salientou ele, “com coisas concretas, é gratificante. Precisamos criar um bom ambiente para o início da vida profissional de vocês. Tenho 46 anos de carreira e sigo tão entusiasmado quanto antes, essa era a mensagem que eu queria transmitir”. Apresentamo-nos. O Subsecretário interrompeu uma das colegas. “Você é a filha do Embaixador, não? Eu a conheci uma vez em Genebra, lembro que estavas em dúvida entre o concurso e um namorado. Pelo visto o namorado dançou…”.

O entusiasmo foi um pouco prejudicado porque não mais poderíamos viajar em missão, a fim de evitar ausências nas aulas do Rio Branco. Alguns já tinham missões programadas para Pequim, Praga, Moscou e Genebra, o que ajudaria a explicar à minha mãe o que faz um diplomata – eu mesmo ainda estava aprendendo.

Que a comunicação entre o MRE e os Postos (embaixadas, delegações e consulados) é feita por meio de despachos telegráficos (daqui para o exterior) e telegramas (dos postos para cá). Que a carreira começava na classe de Terceiro Secretário, depois Segundo, Primeiro, então Conselheiro, talvez Ministro, até Embaixador, quem sabe?

Que temos a função de representar os interesses brasileiros no exterior, o que exige noção de conjunto e contexto sobre as necessidades do país, por envolver diversos ministérios e setores da sociedade. Exemplo disso tive foi reunião no Ministério dos Transportes, sobre interligação de hidrovias, ferrovias e rodovias no Mercosul. Um dos colegas, em outra situação, acabou presidindo reunião interministerial com uma embaixada asiática.

A função de informar: aprendíamos que um telegrama deve ser objetivo e conciso, já que a simples descrição dos fatos e outras avaliações estão disponíveis na imprensa. Que, para tanto, devemos manter constante contato com membros do governo, da sociedade e da imprensa do respectivo país, além de colegas do corpo diplomático, para coletar o máximo de informações e interpretações, de forma a permitir uma síntese equilibrada do quadro local.

E ainda a função de negociar todo tipo de acordos internacionais, desde um tratado até uma declaração ou resolução multilateral (no âmbito da Assembleia Geral da ONU, por exemplo).

Tivemos, em uma quarta-feira daqueles dias, a primeira reunião da comissão editorial da “Juca – Diplomacia e Humanidades”, a revista dos alunos do IRBr, iniciada pela turma de 2006 e cujo nome remete ao apelido do Barão do Rio Branco. A nós caberia a terceira edição, em espaço para alunos e ex-alunos desenvolverem ensaios, crônicas, poemas, sempre com um tema especial (na última, “Comunidades Brasileiras no Exterior”). Dividimos as tarefas conforme as preferências de cada um, decidimos convidar avaliadores externos para os artigos, e escolhemos o tema (“Mundo Lusófono”). Parecia uma primeira chance para arriscar escrever alguma coisa, talvez sobre aquela primeira experiência no Sauípe.

Porque o cotidiano trazia sempre novas deixas, inclusive as involuntariamente cômicas. Ao chegar à minha pequena mesa na ABC, no oitavo e último andar do Ministério, ouvi uma das moças da copa consultar o Paulo, chefe do setor, confundindo a tal nomenclatura de “secretário”:

– Seu Paulo, quem aqui é Secretário de Diplomata?

– DIPLOMATA é o Secretário Eduardo, ali está ele – explicou a ela, que veio em minha direção.

– O senhor é Secretário de Diplomata?

– Si… sim, que tal?

– É o seguinte, tem uma coisa aqui, que todos os Secretários de Diplomata devem ser servidos NA MESA, o senhor vai querer café e água? Aí a gente traz na mesa.

– Não precisa não, obrigado, é bom levantar de vez em quando.

– O senhor não quer? Mas é regra, a gente traz aqui – disse ela, pelo visto meio contrariada com a “regra”.

– Não, não precisa mesmo, mas vou trazer chimarrão, aí te peço água quente e –   

– Ah, não, água quente já tem ali no corredor, tá? – interrompeu, ciosa do cumprimento exato das instruções.

Tinha ela um pouco de razão, afinal a feliz maioria tem pernas para movimentar-se – consideração que desconsidera, claro, preocupações com a taxa de emprego. Depois de aprender um pouco em Bissau e Santiago, porém, passei a achar que concisão e objetividade nem sempre devem ser levadas ao pé da letra.

Porque se as letras têm os pés no texto, as palavras, centopeias, caminham conforme o contexto. Somente o olhar subjetivo, criativo, traz a coesão e a velocidade necessárias para os tantos trajetos possíveis do raciocínio.

Porque toda informação deve ser interpretada, esculpida, ainda que com cuidado, sob pena de meter os pés pelas mãos. O que veria em Bissau seria bem diferente do que veriam os colegas francês, russo ou português.

Porque era uma época em que cada entrevista coletiva do Ministro Celso Amorim era ouvida por todos lados e todas as partes, na expectativa de alguma declaração incisiva, estratégica. Uma interpretação nunca contida, uma imaginação nunca concisa.

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Relatos de Motocicleta (11) – Instantâneos

Para o Antonio

As memórias do biógrafo não são as do poeta, diz Neruda: aquele vive menos, mas fotografa mais, traz a simplicidade dos detalhes; já o poeta ilumina “galerias de fantasmas sacudidos pelo fogo e pela sombra de sua época”. Essas sutilezas eram ainda menos claras para mim naquela época, quando era tão difícil desvencilhar-se dos detalhes. E assim fui, tateando, contar sobre o primeiro semestre no Rio Branco para os colegas do antigo Curso Diplomacia, da Patrícia Moreira, em Porto Alegre.

O ano de 2009 começara com palestras do Embaixador Arnaldo Carrilho, responsável pela abertura de nossa representação na Coreia do Norte; e do Ministro Celso Amorim, que conversou com a turma sobre as “Relações Brasil-Oriente Médio e o processo de paz pós-Gaza”, conforme o título que constaria em seu futuro livro, “Conversas com Jovens Diplomatas”. O segundo semestre teria uma nova disciplina, “Política Externa Brasileira”, ministrada pelo Secretário-Geral das Relações Exteriores, Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães.

Iniciava-se nova fase, de escolha do primeiro estágio no Ministério, que passaria a ocupar o período da tarde. Assistimos a palestras de colegas mais antigos, que falaram sobre os temas e o trabalho nas respectivas divisões. Coube a nós próprios, aliás, decidir quais critérios definiriam a ordem de escolha, consenso atingido com certa dificuldade e polêmica, já que esse posicionamento pode ter influência nos primeiros anos de carreira.

Optou-se por considerar, como critérios, a classificação no concurso e as notas do primeiro semestre no Instituto. Muitos visitaram divisões e departamentos para obter mais informações sobre cada área, o que evitei. Posicionado na zona de rebaixamento, sabia que não sobrariam muitas opções, muito menos o Departamento de Mecanismos Regionais, onde havia colaborado na catalogação de obras literárias para a Cúpula América do Sul-África, e que lidava com grupos como IBAS e BRICS.

A tarde da escolha, com auditório cheio e placar eletrônico, parecia sessão de bingo. Os mais bem colocados recebiam ovações ao escolherem os melhores postos. A pretexto de saber sobre a Divisão de Assistência Consular, um colega tentava pegar alguém desatento e perguntava, “DAC é bom?”. Uns exultavam com uma combinação inesperada de boa sorte; outros afligiam-se com o pouco que faltava para obter o que sonhavam; uma colega não conseguia esconder a decepção. Aqueles nas últimas posições recebiam debochados gritos de apoio ao se depararem com a Divisão de Serviços Gerais, a Secretaria de Controle Interno ou a Corregedoria.

Tudo com espírito esportivo, naturalmente. Tanto, que depois foram todos, ou quase todos, jogar futebol à beira do lago, em noite amena de jogo masculino em uma cancha, feminino em outra. A mim coubera vaga na Agência Brasileira de Cooperação, a ABC, onde fiquei na seção de Mercosul, sendo as três outras áreas América Latina, Haiti e África.

Era tudo novidade e logo começaram a surgir histórias. logo começaram a surgir, tudo era novidade. No Cerimonial, temporais arruinavam tapetes vermelhos em visitas presidenciais; na Administração, pedidos de congressistas; na Assessoria de Imprensa, um colega já repetia, solene, “ainda não temos posição oficial”; na primeira semana, um colega acabou presidindo reunião entre oito ministérios e uma representação diplomática estrangeira; outro tinha viagem marcada para o Haiti. Eu próprio iria já para Assunção, no que seria a primeira “missão”, para a Reunião Extraordinária do Comitê de Cooperação do Mercosul com a União Europeia.

Peças novas, recém-encaixadas na engrenagem, umas mais importantes, outras um pouco menos, a maioria na base do labirinto do organograma. Diziam as notas da época: “talvez seja mais interessante trabalhar em alguma Embaixada pequena, quando precisamos realizar tarefas de várias áreas ao mesmo tempo, lidando com questões políticas, econômicas, culturais”. Já em dúvida: “ir para um lugar distante já no primeiro ‘Plano de Remoção’, ou fazer o início da carreira em Brasília?”. À espera do elevador, no sétimo andar, contemplávamos as luzes da Esplanada. “Tesão, né?”, comentou o Noiv-, digo, um amigo curitibano. Concordei. Supondo, claro, que se referia às luzes.

Naqueles mesmos dias começava o concurso daquele ano, com a realização da prova objetiva da primeira fase, o temido Teste de Pré-Seleção. A lembrança trouxe tensão a muitos, calafrio a outros tantos, eu incluído. Saímos para comemorar, em noite que ganhou até nome. “Primeiro Ano sem TPS!”, gritou uma aliviada colega. Começávamos cursos de idiomas na Divisão de Treinamento e Aperfeiçoamento, eu o Russo.

Aprendia os trâmites para a preparação da viagem a Assunção, na reunião onde seriam discutidos projetos do Mercosul com a União Europeia, em áreas como energia, infraestrutura e fortalecimento institucional, tendo como parâmetro (parâmetro) o exemplo europeu. A era do Rio Branco começava a terminar, a dividir atenções com o estágio. Foi mais ou menos o que contei aos ex-colegas do Diplomacia, que ficava na Ramiro Barcelos, entre a Osvaldo e a Vasco.

Saí, cantarolando Ramil, triste de que minha sina fosse, mesmo, andar longe do pago. Andava devagar, quase pairando, na ânsia de voltar, mas feliz por estar destinado a qualquer lugar, como aquele passarinho que, metafórico, assistira a uma das aulas. Walking contradiction. Fui encontrar os amigos, eles próprios, agora, meus pontos turísticos. No meio do caminho, lembrei o que queria ter dito. Que hoje somos, tantos, fotoautobiógrafos, a serviço do instantâneo detalhe. Época em que alegorias de chiaroscuro, alquimias de lembrança em verso, custam a encontrar asas e ouvidos.

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Relatos de Motocicleta (10) – Sem palavras

Para Obadias, Cynthia, Neide, Ildebrando, Marina, Aline, Bárbara

A primeira semana de dezembro foi a última do semestre inicial. A Secretaria Acadêmica encaminhou-nos, por indicação do Ministro Celso Amorim, um artigo do Washington Post sobre a crescente importância do Brasil. O Professor Cançado Trindade ministrou sua última aula, antes de embarcar para a Corte Internacional de Justiça. Presenciamos alguns, na Embaixada de Portugal, homenagem ao Embaixador aposentado Dário Moreira Alves, que, amparado por um enfermeiro, só pôde agradecer por meio de um texto, lido por um colega.

Realizava-se no Rio Branco curso de prática diplomática para diplomatas egressos do “Mecanismo de Coordenação de Academias Diplomáticas do Mercosul/América do Sul”. O encerramento foi feito com uma sessão de nosso Cineclube, que apresentou o documentário “A vida é um sopro”, sobre Oscar Niemeyer. Com depoimentos de Chico Buarque, Eduardo Galeano, Eric Hobsbawn, José Saramago, Mário Soares, a vida do arquiteto é contada em paralelo com a história do Brasil no mesmo período.

No debate após o filme, o diretor Fabiano Maciel falou do desafio de provocar Niemeyer a ir além de suas respostas tradicionais, após décadas de entrevistas similares. O biografado recorda que pretendia dar um traço peculiar à arquitetura nacional, mais adaptada ao país, ao corpo da mulher brasileira, pleno em curvas. Galeano, ao seu estilo, afirma que a paisagem do Rio de Janeiro “foi criada por Deus quando Deus pensou que era Niemeyer”. Depois de tudo, o diretor questiona Niemeyer sobre o que lhe deu, o que lhe dava felicidade na vida: “mulher, não é? O resto é brincadeira…”.

Assim se encerrou-se o Cineclube, que em menos de quatro meses fez uma espécie de síntese do Brasil. Mescla de política, economia, arquitetura e geografia humana; mescla de pensadores que contribuíram para a formação do país. “Sou um homem interessado no espetáculo do mundo, denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens”, exclamou Josué de Castro. “Volto hoje às minhas criaturas, aos rudes homens do cangaço, às mulheres, aos sertanejos, às terras tostadas de sol e tintas de sangue, ao mundo fabuloso do meu romance, já no meio do caminho”, confidenciou José Lins do Rêgo. “E numa economia de grandes potencialidades e de baixo grau de desenvolvimento, a última coisa a sacrificar deve ser o ritmo do seu crescimento”, insistiu Celso Furtado. “Nós estamos livres para fazer hoje o passado de amanhã, a arquitetura deve criar surpresa, deve buscar a forma nova, o importante pra nós em todos os sentidos é a liberdade, tem que haver fantasia”, declamou Niemeyer.

Faltava pouco. Ainda houve tempo, no sábado 6 de dezembro, para a “Festa do Andar”, uma das costumeiras confraternizações em prédios com apartamentos funcionais. Lá estavam Brasília e o Lago Paranoá, iluminados nas amplas janelas, porta-retrato das vésperas de nosso primeiro grande evento.

Embarcaríamos, na manhã de segunda, na Estação de Autoridades da Base Aérea de Brasília. Ainda sob o efeito de uma caminhada noturna na Praça dos Três Poderes, recordando das palavras de Niemeyer, da novidade que o país deveria representar na arquitetura da ordem internacional.

Na guarita da Base, colegas da Aeronáutica batiam continência. Caminhávamos em direção ao Boeing 707, popularmente conhecido como “Sucatão”, cuja aceleração antes da decolagem era diferente daquela dos voos comerciais, para uma aterrissagem-mergulho em Salvador. Já no aeroporto receberíamos as orientações iniciais. Os próximos dias, das cúpulas que seriam lembradas como “a Calc”, seriam uma estreia que todas as turmas gostariam de ter.

Os, as colegas, a grande maioria jovens principiantes, alguns já sofrendo as primeiras consequências da opção pela distância, pra toda vida. Já não me recordo, mas é possível que tenha discordado de um ou outro colega. Tudo bem, tudo bem… que tenha discordado veementemente de um ou outro amigo. Se a realidade tem lá suas lacunas, não podíamos nos queixar. Nosso primeiro compromisso trazia diversas cúpulas, em resorts baianos, com dezenas de chefes de Estado ou de Governo da região.

E, pra não deixar dúvida, havia o fato de que estávamos entre tantos amigos. Há pouco víramos um colega já aposentado que, por motivo de saúde e idade avançada, não teve nem a vitalidade para falar. Vitalidade que a nós sobrava naqueles dias. Vitalidade, e tempo. Tempo aquele que ficaria registrado no original, sem a revisão retrospectiva e um tanto mais madura de hoje: Juca 3 – Diplomacia e Humanidades

Quem as assinou era outro, que se acreditava imune ao alerta, de Edgard Telles Ribeiro, que dá fecho às tais crônicas. Era como Morris Lessmore. Amava as palavras, as histórias, os livros. Queria que sua vida fosse um livro que ele mesmo escrevia, metodicamente, página após página. Livro que pudesse abrir toda manhã, para escrever sobre suas tristezas, alegrias e tudo que sabia e almejava. E um pouco sobre política externa. Faltariam-lhe palavras, para descrever um começo daqueles.

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Relatos de Motocicleta (9) – O que somos e o que esperávamos ser

Diz Saramago que a História é uma sucessão de ocasiões perdidas, em que as lacunas são preenchidas pela imaginação. Esta rompe becos sem saída, inventa chaves para abrir portas órfãs de fechadura. Ajuda a compor um quadro equilibrado quando a realidade insiste em ser dispersa, incoerente. Acrescente-se ainda que existem portas cujas fechaduras têm forma de origami, ou mesmo de bonsai. Abri-las exige um chaveiro, um mestre japonês, um monge budista, todos supervisionados por um mágico.

Os primeiros vinte classificados no concurso foram a Buenos Aires. A agenda da viagem previa um almoço oferecido pelo Chanceler argentino no Palácio San Martín, sede do Ministério das Relações Exteriores da Argentina; palestras no Instituto del Servicio Exterior de la Nación, o ISEN; jantar no Palácio Pereda, sede da Embaixada do Brasil. Restou o consolo da chegada do passaporte novo. Cor vermelha, tonalidade diplomática. Enquanto imaginava a viagem dos colegas fiquei ali, entretido, ansioso em decifrar as páginas em branco, as marcas d’água a serem preenchidas por oceanos.

Prosseguia o CAD, enquanto isso. O Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, falou sobre a crise financeira e comparou os indicadores econômicos com os da década de 90. Ressaltou a consolidação do mercado bancário; o crescimento da massa salarial, dos empregos e da classe média; e, principalmente, a melhora do perfil da dívida externa atrelada ao dólar (de 56% do PIB, em 2002, para 37%). Defendeu o papel dos bancos estatais no controle da crise: o governo, outrora parte do problema, passou a ser solução. Despediu-se antecipadamente, porque precisava “ir cuidar dos mercados”.

Visitaram-nos os Ministros da Agricultura, Reinhold Stephanes, e do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel. Panorama do agronegócio e da curva ascendente da produtividade agrícola, com participação decisiva da Embrapa, de um lado; da reforma agrária e agricultura familiar, de outro. Essa última, como destacou Cassel, responsável pela maior parte da produção de alimentos e por 10% do PIB do agronegócio.

Na sessão do CineClube, O Longo Amanhecer, documentário sobre a vida de Celso Furtado, falecido em 2004. O início da vida do maior economista brasileiro já daria um livro: foi “pracinha” da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra; jornalista na Europa do pós-guerra; voluntário em reconstrução de linhas férreas na ex-Iugoslávia; ativista em congresso estudantil na Tchecoslováquia; fundador da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Isso tudo entre 1944 e 1950.

“Em nenhum momento de nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e o que esperávamos ser”, disse ele em 1999. No debate após o filme, o diretor falou sobre os bastidores da entrevista feita apenas cinco meses antes da morte do autor, na qual Furtado “falava em tom de despedida, sentíamos que fazia uma retomada de sua obra, tentava defender-se das críticas”. O diretor custou a conseguir a conversa porque Furtado, aos 84 anos, “não queria demonstrar fraqueza após uma vida grandiosa”. Foi convencido pelos amigos, entre os quais a economista Maria da Conceição Tavares, cujos testemunhos emocionados ressaltam que “o Mestre”, como ela o chama, podia dialogar com todas as correntes políticas do Brasil.

Os colegas que participaram da Reunião Mercosul-ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) contaram que cada vírgula dos documentos é discutida em minúcias, que a discussão de parágrafos é medida em uma tabela informal de horas. Outras colegas foram diplomatas de ligação (“dipligs”) de quatro primeiras-damas e da Rainha da Suécia, na 3ª Conferência Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, realizada pelo Unicef. Saiu na Carta que o Brasil tem mais de 800 pontos de exploração em rodovias federais.

Aproximava-se a Cúpula América Latina e Caribe para a Integração e Desenvolvimento (CALC), a ser realizada na Costa do Sauípe, Bahia, por iniciativa do Brasil. Fomos convocados a comparecer no Auditório do Rio Branco, em um entardecer, para o sorteio das tarefas, conduzido pelo Embaixador Ruy Pereira, coordenador da organização das Cúpulas. Entre atividades como Credenciamento, Imprensa, Apoio às delegações, Hospedagem e Coordenação, fiquei com Transporte.

Previa-se a participação de 4.500 pessoas, além da realização simultânea da Cúpula do Mercosul; da Cúpula da Unasul; e da Reunião Extraordinária do Grupo do Rio, para o ingresso de Cuba. Partiríamos em uma segunda-feira, 8 de dezembro, da Base Aérea de Brasília, no popular “Sucatão” da FAB, rumo a Salvador. Rumo à primeira reunião regional com presença tão-somente de países latino-americanos, como foi bastante salientado à época.

Naquele tempo parecia algo revolucionário, mas não deveria ser nada estranho. Tudo se devia ao histórico registrado desde os processos de independência, como demonstrou  Flávio Tavares em O Che Guevara que conheci e retratei, onde narra os bastidores da Conferência Interamericana Econômica e Social, de 1961, da Organização dos Estados Americanos (OEA). A “I Cúpula de Punta del Este”, como ficou conhecida, foi marcada pelo lançamento da Aliança para o Progresso, programa norte-americano de ajuda ao desenvolvimento da América Latina, vista por muitos como resposta à Revolução Cubana. Segundo Tavares, soava a “suborno”, o que gerou uma paródia da marchinha “Me dá um dinheiro aí”, cantada pelos jornalistas brasileiros no café-da-manhã do hotel:

Para rimar, mudávamos a pronúncia do Kennedy, acentuando o som do ‘y’ final e cantávamos: ‘Oi, seu Kennedy / me dá um dinheiro aí, / me dá um dinheiro aí. / Não vai dar? / Não vai dar, não? / Então eu vou / fazer revolução. / Vou deixar a barba crescer, / Aliança para o Progresso / só com barba tem sucesso, / Aliança para o Progresso só com barba tem sucesso’ ”. O mais influente diplomata americano, Richard Goodwin, deu gargalhadas quando leu a tradução da ‘Hey, give me money to me’ ”…

Parece que até a imprensa era outra, naquele dezembro de 2008. Perdera, entre outras coisas, o senso de humor. Principiante, relatei aos amigos, originalmente: “Se é realismo fantástico eu não sei, mas talvez tenha a ver com a diferença entre denominar um grão de milho de ‘pipoca’, ou ver nele uma pomba e chamá-lo ‘palomita de maíz’ (‘pombinha de milho’), como fazem os chilenos. Por isso não esperem relatos de pipoca, ou de reuniões burocráticas, sobre a CALC, onde não se cantarão marchinhas de carnaval: vão ser todos em estilo ‘palomita’ ”.

Ninguém poderia imaginar que já estava ali, anunciado nas entreáguas do novo passaporte, o dia do nascimento de uma Paloma. No Chile.

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Relatos de Motocicleta (8) – Novo script

Era o fim de outubro, começava a estação das chuvas. Brasília imenso jardim: as flores desabrocharam de repente, fiéis ao plano de Burle Marx. E de pensar que ainda há quem lamente o sobrenome… “como se já não bastasse o Niemeyer!”, exclamam. Já que a burguesia submeteu o campo ao domínio da cidade, Marx deu-lhe ares bucólicos. Mandou trazer, de todo o Brasil, árvores com diferentes épocas de floração, para que a capital estivesse sempre colorida.

Naqueles floridos dias ocorreram as palestras do Curso de Aperfeiçoamento de Diplomatas. Segundo indicava o site do Rio Branco, o curso tem o “objetivo de aprofundar e atualizar os conhecimentos necessários ao desempenho das funções exercidas por Segundos e Primeiros Secretários, sendo a posse do diploma do CAD requisito para a progressão funcional de seu titular a Primeiro Secretário”. Nós, calouros, assistíamos como ouvintes.

Franklin Martins, Ministro-Chefe da Secretaria de Comunicações Sociais (a SECOM), destacou a importância das relações do diplomata com a imprensa. Na diplomacia pública do novo século, a sociedade passa a ter controle sobre a política externa, o que obriga o diplomata a disputar toda opinião pública – a interna e a dos demais países. “Fiscalizada” pela mídia, a política exterior passa a ser mais rica, mais sólida, pois resultado de amplo debate público. O fato de ter virado “assunto de elevador” demonstraria que os cidadãos passaram a se interessar pela ousadia e maior peso externo do Brasil nos últimos anos.

O diplomata deve manter relações cordiais com a imprensa e antever os principais temas do noticiário. “O jornalista, mais cedo ou mais tarde, saberá do fato, então é melhor para o diplomata antecipar-se, para que o episódio seja veiculado de forma mais vantajosa para o país”, aconselhou. Sobre a imprensa em geral, lamentou “uma certa apatia da garotada de hoje”, mais preocupada com o emprego do que com a notícia, porque “no meu tempo, se o editor alterasse a matéria que vinha ‘da rua’ sem ótima justificativa, era briga certa”.

Os Ministros Paulo Vannuchi, da Secretaria de Direitos Humanos, e Tarso Genro, da Justiça, fizeram considerações sobre a polêmica de sempre, a possibilidade de anistia a responsáveis por crimes contra a humanidade. Ambos ressaltaram que não se trataria de julgar instituições militares, mas sim de julgar casos concretos. Opinião contrária tinha Nelson Jobim, Ministro da Defesa, para quem era hora de olharmos para o futuro, e não para divergências do passado. Jobim tratou também do Plano Nacional de Defesa, da importância de o Brasil obter maior independência tecnológica para ganhar autonomia em outros campos.

Também fizeram apresentações os Ministros Edson Santos, da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial; Nilcéa Freire, da Secretaria de Políticas para Mulheres; Fernando Haddad, da Educação; e José Múcio, das Relações Institucionais. Além da Dona Nadja, que passara uma daquelas semanas de visita, palestrando diariamente lá em casa. Aquele primeiro ciclo encerrou-se com a visita do Prof. Marco Aurélio Garcia, Assessor Internacional do Presidente da República.

Uns aguardavam com grande expectativa, outros nem tanto. “Eu gosto dele, só acho ele muito ideológico”, disse um colega a meio caminho. Gostando-se ou não, conhecíamos um dos personagens mais importantes daqueles dias, integrante do quarteto que um fã mais exaltado chamou de “Fab Four” da política externa brasileira. Beatlemania imediatamente contestada por outro colega, no ambiente de livre-debate do Rio Branco.

Talvez desconfiado de analogias de iê-iê-iê, o Professor entrou no Auditório com os suspensórios afinados e os óculos estilo Lennon. Falou da consolidação do Brasil como ator internacional de primeira grandeza – mesmo que ainda não tenha todos os recursos de poder – bem como da avaliação mundial positiva angariada por nossa política independente. Essa, aliás, um inegável fenômeno pop.

A política externa, disse ele, é elemento de um projeto de desenvolvimento nacional cujos “temas da soberania” seriam o aprofundamento da democracia, no campo político; a redução da desigualdade, no campo social; e o “acoplamento” do crescimento a políticas redistributivas, no campo econômico. O mercado internacional passou a ser eixo dinâmico desse processo, com a redução da vulnerabilidade externa por meio da diversificação geográfica das exportações.

A prioridade, porém, continua sendo a América do Sul, “nossa circunstância geopolítica”, pois garantir presença conjunta da região é mais eficaz em um mundo multipolar. Nesse contexto, a integração é poderoso elemento para diluir eventuais conflitos e assimetrias entre o Brasil e os países vizinhos.

Confesso, com o perdão do Professor, que não consegui prestar atenção nas perguntas finais. Ali estava ele, cordialmente aceitando o debate, sempre que possível com alguma brincadeira. Não parecia, não podia ser o mesmo que não só era atacado como também demonizado por parte da imprensa. Não parecia enquadrar-se no tal vício ideológico.

Não no sentido fraco, de significado cultural: conjunto de conhecimentos produzidos em determinada época. Muito menos no sentido forte, o qual entende a ideologia como derivação do discurso do grupo dominante. Da justificação de seu poder, que propaga falsas realidades, discursos particularistas travestidos de proposições consensuais. A essa, à ideologia-linguagem-do-poder, são contrapostas vozes que buscam combatê-la, mudar a estrutura social. Contrapostos: contraideológicos.

Bosi chega a dizer que a contraideologia é portadora da liberdade. Que ela desnuda a falsa metonímia da ideologia: o que é dado como natural, universal, não passa de histórico, parcial. Furtado vai além: a teoria do desenvolvimento seria uma das expressões ideológicas mais convincentes do individualismo burguês, razão pela qual opõe-lhe um conceito contraideológico de desenvolvimento, cuja marca registrada é o interesse geral.

Acabei meio perdido, mas tenho quase certeza que o Professor, ao final, misturou política externa com cozinha, teatro, literatura. Disse ele que nosso desafio é concretizar a simbiose entre crescimento econômico e distribuição de renda – “não mais a culinária tradicional”. Que nossa presença soberana no mundo depende da integração regional – porque “antes éramos atores de um texto já escrito”.

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Relatos de Motocicleta (7) – A palavra como recurso afetivo

Você viu o que nós fizemos hoje? Com quantas pessoas, com quantas questões lidamos? E quantos países estavam envolvidos?! E ainda nos pagam por isso!, contou o Embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, sobre o que costumava dizer um antigo chefe. Indicado para nossa representação junto ao Vaticano, recém chegara da sabatina no Senado, cujo resultado foi-lhe comunicado por telefone, em meio à palestra. Ao agradecer a salva de palmas, disse sentir-se contente cada vez que volta ao Rio Branco. Que, vendo-nos, via a si próprio quarenta anos atrás.

Contou histórias de sua passagem por Bonn, Nova Iorque, Buenos Aires, Washington, Paris, Cidade do México, Assessoria Internacional da Presidência da República, Madri, Genebra, Berlim – e ainda teve tempo para ser Secretário-Geral. Surpreendeu uma colega da primeira fila: A senhora… quais são, na sua opinião, os desafios do Brasil no próximo século? Não me lembro bem da resposta, apenas do susto da colega. O Embaixador acabou por ajuda-la, destacando a importância da diversificação da pauta comercial brasileira e de nossas posições na Rodada Doha, da OMC. Se nosso comércio estivesse concentrado em poucos países, estaríamos muito mais vulneráveis à crise financeira que se iniciava.

O Cineclube Rio Branco trouxe “O Engenho de Zé Lins”, documentário sobre a vida de José Lins do Rêgo, expoente do romance regionalista, que retratou o declínio da economia açucareira no Nordeste. O poeta Thiago de Melo, em lágrimas, relata os últimos dias do amigo, um homem que de repente virava um menino, como demonstrou na posse na Academia Brasileira de Letras: assumo a vaga de alguém que chegou ao STF sem ter feito nenhuma lei, e à Academia sem ter escrito um único livro.

Em conversa após o filme, o diretor Vladimir Carvalho brincou que devia ter convocado a imprensa, essa parece uma pré-estreia internacional do meu filme, no saguão conheci moçambicanos, angolanos, gente da Guiné-Bissau! Contou ter escolhido o personagem porque seu pai lia histórias de infância do Zé Lins para mim, mas pegava as histórias verdadeiras, misturava com as do Menino de Engenho, e me transmitia coisas fantásticas, que me deixavam impressionado, como podia um menino fazer coisas como aquelas? É por isso que acho que todo documentário é autobiográfico, o documentarista também está ali, decantado na edição final.

Em mais uma atividade “de campo”, fomos a Santa Maria, cidade-satélite de baixa renda, conhecer dois programas sociais, o Restaurante Popular e o Centro de Referência em Assistência Social. Quando estiverem negociando um acordo em Genebra, sobre compras governamentais, saberão a importância dos investimentos estatais em determinadas áreas; ou na FAO, em Roma, saberão falar de segurança alimentar com conhecimento de causa, disse o Conselheiro Audo Faleiro, diplomata que coordenou a visita.

O almoço, a 1 real, teve cardápio variado e sob orientação de nutricionista, em boas instalações. Logo a seguir, fomos ao Centro de Assistência, localizado em uma escola onde fomos recebidos por umas trinta crianças, tímidas e desconfiadas. Isso até a professora perguntar “o que é que se diz, meninos?”. Responderam aos gritos, aos sorrisos, em uníssono: “BOA TAAARDE!”. Eram todas integrantes do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil.

Atividades extracurriculares como essa ocorriam geralmente à tarde, quando tínhamos espaços na grade horária. O mesmo valia para as palestras de autoridades estrangeiras que estavam de passagem pelo país, como a do Chanceler da Palestina, Riyad al-Maliki. Conforme nota do MRE, o Chanceler esteve no Brasil para avaliar um maior envolvimento nosso no processo de paz com Israel, além de tratar de acordos de cooperação entre o grupo IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) e a Palestina. Apesar da grande preocupação com as eleições que ocorreriam em Israel, as quais condicionariam as negociações, o Chanceler tentou mostrar-se otimista, em impecável Inglês.

Com a proximidade da viagem à Argentina, fomos orientados a criar currículo na rede interna do Ministério, perfil que seria utilizado para os futuros anuários. Todo currículo deve começar com nascimento e nomes dos pais: 14.11.1980 Filho de Paulo Altamir Pereira de Mello e Nadja Maria Brigidi, nasce em Porto Alegre/RS. Na mesma semana foi publicada a portaria que elenca a classificação de postos no exterior: de “A” a “D”, sendo os primeiros países europeus, Estados Unidos, Argentina; e “D” aqueles considerados menos fáceis para viver, como muitos países africanos e asiáticos.

Foi mais ou menos nessa época, quando recém estrearíamos nos assentos funcionais, que dei-me conta de que já se discutiam critérios de promoção; de aumento e apartamento funcional; do tempo necessário para atingir o cargo de Embaixador; das estratégias para conseguir o melhor primeiro posto. A extrema competitividade da carreira começava a fazer vítimas, a gerar frustrações e rivalidades.

Isso em uma profissão – um serviço público – que depende de infinitas e incontroláveis variáveis. A sorte de alguns encontros; a visita de autoridades no posto em que se está servindo; uma crise política que dê visibilidade a quem está naquele país; os partidos que governarão o Brasil nas décadas a seguir. E onde estaremos em cada um dos mandatos, se em Brasília ou no exterior, se em uma divisão que valorizada ou não naquele dado período.

Não é que não fosse importante, desde já. Parecia apenas que a alegria da aprovação, o encantamento com cada uma das novas experiências, o vislumbre da futura vida em diferentes pontos do globo, tudo suplantava o nascente fetichismo burocrático. A fase inicial, de terceiro-secretário, já era incerta, excitante e novedosa o suficiente. Esse era o espírito com que enviava alguns relatos aos ex-colegas do extinto Curso Diplomacia, em Porto Alegre, onde o maior fetichismo era, apenas, tornar-se diplomata.

Porque a ambição que leva ao concurso precisa de uma trégua, mesmo que momentânea. Como explicaria aos ex-colegas que já esquecêramos das aflições pré-provas? Como explicar à Maria, generosa no elogio, e a quem este relato é dedicado? Ao confidenciar que o blog a reanima, capta ela parte de nosso propósito ao iniciar essa experiência.

Ainda que imperfeita, a literatura é outra forma de experiência do real, a encantar-nos desde que nossos pais nos liam histórias para dormir. Para agradecer a ela, que me reanimou da tristeza de ficar aqui falando sozinho, tomo de empréstimo a fala de outro antigo moto-mochileiro, quando escrevia seus diários de motocicleta: en estas precarias condiciones en que viajamos, sólo nos queda como recurso afectivo la palavra.

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