Relatos de Motocicleta (11) – Instantâneos

Para o Antonio

As memórias do biógrafo não são as do poeta, diz Neruda: aquele vive menos, mas fotografa mais, traz a simplicidade dos detalhes; já o poeta ilumina “galerias de fantasmas sacudidos pelo fogo e pela sombra de sua época”. Essas sutilezas eram ainda menos claras para mim naquela época, quando era tão difícil desvencilhar-se dos detalhes. E assim fui, tateando, contar sobre o primeiro semestre no Rio Branco para os colegas do antigo Curso Diplomacia, da Patrícia Moreira, em Porto Alegre.

O ano de 2009 começara com palestras do Embaixador Arnaldo Carrilho, responsável pela abertura de nossa representação na Coreia do Norte; e do Ministro Celso Amorim, que conversou com a turma sobre as “Relações Brasil-Oriente Médio e o processo de paz pós-Gaza”, conforme o título que constaria em seu futuro livro, “Conversas com Jovens Diplomatas”. O segundo semestre teria uma nova disciplina, “Política Externa Brasileira”, ministrada pelo Secretário-Geral das Relações Exteriores, Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães.

Iniciava-se nova fase, de escolha do primeiro estágio no Ministério, que passaria a ocupar o período da tarde. Assistimos a palestras de colegas mais antigos, que falaram sobre os temas e o trabalho nas respectivas divisões. Coube a nós próprios, aliás, decidir quais critérios definiriam a ordem de escolha, consenso atingido com certa dificuldade e polêmica, já que esse posicionamento pode ter influência nos primeiros anos de carreira.

Optou-se por considerar, como critérios, a classificação no concurso e as notas do primeiro semestre no Instituto. Muitos visitaram divisões e departamentos para obter mais informações sobre cada área, o que evitei. Posicionado na zona de rebaixamento, sabia que não sobrariam muitas opções, muito menos o Departamento de Mecanismos Regionais, onde havia colaborado na catalogação de obras literárias para a Cúpula América do Sul-África, e que lidava com grupos como IBAS e BRICS.

A tarde da escolha, com auditório cheio e placar eletrônico, parecia sessão de bingo. Os mais bem colocados recebiam ovações ao escolherem os melhores postos. A pretexto de saber sobre a Divisão de Assistência Consular, um colega tentava pegar alguém desatento e perguntava, “DAC é bom?”. Uns exultavam com uma combinação inesperada de boa sorte; outros afligiam-se com o pouco que faltava para obter o que sonhavam; uma colega não conseguia esconder a decepção. Aqueles nas últimas posições recebiam debochados gritos de apoio ao se depararem com a Divisão de Serviços Gerais, a Secretaria de Controle Interno ou a Corregedoria.

Tudo com espírito esportivo, naturalmente. Tanto, que depois foram todos, ou quase todos, jogar futebol à beira do lago, em noite amena de jogo masculino em uma cancha, feminino em outra. A mim coubera vaga na Agência Brasileira de Cooperação, a ABC, onde fiquei na seção de Mercosul, sendo as três outras áreas América Latina, Haiti e África.

Era tudo novidade e logo começaram a surgir histórias. logo começaram a surgir, tudo era novidade. No Cerimonial, temporais arruinavam tapetes vermelhos em visitas presidenciais; na Administração, pedidos de congressistas; na Assessoria de Imprensa, um colega já repetia, solene, “ainda não temos posição oficial”; na primeira semana, um colega acabou presidindo reunião entre oito ministérios e uma representação diplomática estrangeira; outro tinha viagem marcada para o Haiti. Eu próprio iria já para Assunção, no que seria a primeira “missão”, para a Reunião Extraordinária do Comitê de Cooperação do Mercosul com a União Europeia.

Peças novas, recém-encaixadas na engrenagem, umas mais importantes, outras um pouco menos, a maioria na base do labirinto do organograma. Diziam as notas da época: “talvez seja mais interessante trabalhar em alguma Embaixada pequena, quando precisamos realizar tarefas de várias áreas ao mesmo tempo, lidando com questões políticas, econômicas, culturais”. Já em dúvida: “ir para um lugar distante já no primeiro ‘Plano de Remoção’, ou fazer o início da carreira em Brasília?”. À espera do elevador, no sétimo andar, contemplávamos as luzes da Esplanada. “Tesão, né?”, comentou o Noiv-, digo, um amigo curitibano. Concordei. Supondo, claro, que se referia às luzes.

Naqueles mesmos dias começava o concurso daquele ano, com a realização da prova objetiva da primeira fase, o temido Teste de Pré-Seleção. A lembrança trouxe tensão a muitos, calafrio a outros tantos, eu incluído. Saímos para comemorar, em noite que ganhou até nome. “Primeiro Ano sem TPS!”, gritou uma aliviada colega. Começávamos cursos de idiomas na Divisão de Treinamento e Aperfeiçoamento, eu o Russo.

Aprendia os trâmites para a preparação da viagem a Assunção, na reunião onde seriam discutidos projetos do Mercosul com a União Europeia, em áreas como energia, infraestrutura e fortalecimento institucional, tendo como parâmetro (parâmetro) o exemplo europeu. A era do Rio Branco começava a terminar, a dividir atenções com o estágio. Foi mais ou menos o que contei aos ex-colegas do Diplomacia, que ficava na Ramiro Barcelos, entre a Osvaldo e a Vasco.

Saí, cantarolando Ramil, triste de que minha sina fosse, mesmo, andar longe do pago. Andava devagar, quase pairando, na ânsia de voltar, mas feliz por estar destinado a qualquer lugar, como aquele passarinho que, metafórico, assistira a uma das aulas. Walking contradiction. Fui encontrar os amigos, eles próprios, agora, meus pontos turísticos. No meio do caminho, lembrei o que queria ter dito. Que hoje somos, tantos, fotoautobiógrafos, a serviço do instantâneo detalhe. Época em que alegorias de chiaroscuro, alquimias de lembrança em verso, custam a encontrar asas e ouvidos.

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Relatos de Motocicleta (10) – Sem palavras

Para Obadias, Cynthia, Neide, Ildebrando, Marina, Aline, Bárbara

A primeira semana de dezembro foi a última do semestre inicial. A Secretaria Acadêmica encaminhou-nos, por indicação do Ministro Celso Amorim, um artigo do Washington Post sobre a crescente importância do Brasil. O Professor Cançado Trindade ministrou sua última aula, antes de embarcar para a Corte Internacional de Justiça. Presenciamos alguns, na Embaixada de Portugal, homenagem ao Embaixador aposentado Dário Moreira Alves, que, amparado por um enfermeiro, só pôde agradecer por meio de um texto, lido por um colega.

Realizava-se no Rio Branco curso de prática diplomática para diplomatas egressos do “Mecanismo de Coordenação de Academias Diplomáticas do Mercosul/América do Sul”. O encerramento foi feito com uma sessão de nosso Cineclube, que apresentou o documentário “A vida é um sopro”, sobre Oscar Niemeyer. Com depoimentos de Chico Buarque, Eduardo Galeano, Eric Hobsbawn, José Saramago, Mário Soares, a vida do arquiteto é contada em paralelo com a história do Brasil no mesmo período.

No debate após o filme, o diretor Fabiano Maciel falou do desafio de provocar Niemeyer a ir além de suas respostas tradicionais, após décadas de entrevistas similares. O biografado recorda que pretendia dar um traço peculiar à arquitetura nacional, mais adaptada ao país, ao corpo da mulher brasileira, pleno em curvas. Galeano, ao seu estilo, afirma que a paisagem do Rio de Janeiro “foi criada por Deus quando Deus pensou que era Niemeyer”. Depois de tudo, o diretor questiona Niemeyer sobre o que lhe deu, o que lhe dava felicidade na vida: “mulher, não é? O resto é brincadeira…”.

Assim se encerrou-se o Cineclube, que em menos de quatro meses fez uma espécie de síntese do Brasil. Mescla de política, economia, arquitetura e geografia humana; mescla de pensadores que contribuíram para a formação do país. “Sou um homem interessado no espetáculo do mundo, denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens”, exclamou Josué de Castro. “Volto hoje às minhas criaturas, aos rudes homens do cangaço, às mulheres, aos sertanejos, às terras tostadas de sol e tintas de sangue, ao mundo fabuloso do meu romance, já no meio do caminho”, confidenciou José Lins do Rêgo. “E numa economia de grandes potencialidades e de baixo grau de desenvolvimento, a última coisa a sacrificar deve ser o ritmo do seu crescimento”, insistiu Celso Furtado. “Nós estamos livres para fazer hoje o passado de amanhã, a arquitetura deve criar surpresa, deve buscar a forma nova, o importante pra nós em todos os sentidos é a liberdade, tem que haver fantasia”, declamou Niemeyer.

Faltava pouco. Ainda houve tempo, no sábado 6 de dezembro, para a “Festa do Andar”, uma das costumeiras confraternizações em prédios com apartamentos funcionais. Lá estavam Brasília e o Lago Paranoá, iluminados nas amplas janelas, porta-retrato das vésperas de nosso primeiro grande evento.

Embarcaríamos, na manhã de segunda, na Estação de Autoridades da Base Aérea de Brasília. Ainda sob o efeito de uma caminhada noturna na Praça dos Três Poderes, recordando das palavras de Niemeyer, da novidade que o país deveria representar na arquitetura da ordem internacional.

Na guarita da Base, colegas da Aeronáutica batiam continência. Caminhávamos em direção ao Boeing 707, popularmente conhecido como “Sucatão”, cuja aceleração antes da decolagem era diferente daquela dos voos comerciais, para uma aterrissagem-mergulho em Salvador. Já no aeroporto receberíamos as orientações iniciais. Os próximos dias, das cúpulas que seriam lembradas como “a Calc”, seriam uma estreia que todas as turmas gostariam de ter.

Os, as colegas, a grande maioria jovens principiantes, alguns já sofrendo as primeiras consequências da opção pela distância, pra toda vida. Já não me recordo, mas é possível que tenha discordado de um ou outro colega. Tudo bem, tudo bem… que tenha discordado veementemente de um ou outro amigo. Se a realidade tem lá suas lacunas, não podíamos nos queixar. Nosso primeiro compromisso trazia diversas cúpulas, em resorts baianos, com dezenas de chefes de Estado ou de Governo da região.

E, pra não deixar dúvida, havia o fato de que estávamos entre tantos amigos. Há pouco víramos um colega já aposentado que, por motivo de saúde e idade avançada, não teve nem a vitalidade para falar. Vitalidade que a nós sobrava naqueles dias. Vitalidade, e tempo. Tempo aquele que ficaria registrado no original, sem a revisão retrospectiva e um tanto mais madura de hoje: Juca 3 – Diplomacia e Humanidades

Quem as assinou era outro, que se acreditava imune ao alerta, de Edgard Telles Ribeiro, que dá fecho às tais crônicas. Era como Morris Lessmore. Amava as palavras, as histórias, os livros. Queria que sua vida fosse um livro que ele mesmo escrevia, metodicamente, página após página. Livro que pudesse abrir toda manhã, para escrever sobre suas tristezas, alegrias e tudo que sabia e almejava. E um pouco sobre política externa. Faltariam-lhe palavras, para descrever um começo daqueles.

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Relatos de Motocicleta (9) – O que somos e o que esperávamos ser

Diz Saramago que a História é uma sucessão de ocasiões perdidas, em que as lacunas são preenchidas pela imaginação. Esta rompe becos sem saída, inventa chaves para abrir portas órfãs de fechadura. Ajuda a compor um quadro equilibrado quando a realidade insiste em ser dispersa, incoerente. Acrescente-se ainda que existem portas cujas fechaduras têm forma de origami, ou mesmo de bonsai. Abri-las exige um chaveiro, um mestre japonês, um monge budista, todos supervisionados por um mágico.

Os primeiros vinte classificados no concurso foram a Buenos Aires. A agenda da viagem previa um almoço oferecido pelo Chanceler argentino no Palácio San Martín, sede do Ministério das Relações Exteriores da Argentina; palestras no Instituto del Servicio Exterior de la Nación, o ISEN; jantar no Palácio Pereda, sede da Embaixada do Brasil. Restou o consolo da chegada do passaporte novo. Cor vermelha, tonalidade diplomática. Enquanto imaginava a viagem dos colegas fiquei ali, entretido, ansioso em decifrar as páginas em branco, as marcas d’água a serem preenchidas por oceanos.

Prosseguia o CAD, enquanto isso. O Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, falou sobre a crise financeira e comparou os indicadores econômicos com os da década de 90. Ressaltou a consolidação do mercado bancário; o crescimento da massa salarial, dos empregos e da classe média; e, principalmente, a melhora do perfil da dívida externa atrelada ao dólar (de 56% do PIB, em 2002, para 37%). Defendeu o papel dos bancos estatais no controle da crise: o governo, outrora parte do problema, passou a ser solução. Despediu-se antecipadamente, porque precisava “ir cuidar dos mercados”.

Visitaram-nos os Ministros da Agricultura, Reinhold Stephanes, e do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel. Panorama do agronegócio e da curva ascendente da produtividade agrícola, com participação decisiva da Embrapa, de um lado; da reforma agrária e agricultura familiar, de outro. Essa última, como destacou Cassel, responsável pela maior parte da produção de alimentos e por 10% do PIB do agronegócio.

Na sessão do CineClube, O Longo Amanhecer, documentário sobre a vida de Celso Furtado, falecido em 2004. O início da vida do maior economista brasileiro já daria um livro: foi “pracinha” da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra; jornalista na Europa do pós-guerra; voluntário em reconstrução de linhas férreas na ex-Iugoslávia; ativista em congresso estudantil na Tchecoslováquia; fundador da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Isso tudo entre 1944 e 1950.

“Em nenhum momento de nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e o que esperávamos ser”, disse ele em 1999. No debate após o filme, o diretor falou sobre os bastidores da entrevista feita apenas cinco meses antes da morte do autor, na qual Furtado “falava em tom de despedida, sentíamos que fazia uma retomada de sua obra, tentava defender-se das críticas”. O diretor custou a conseguir a conversa porque Furtado, aos 84 anos, “não queria demonstrar fraqueza após uma vida grandiosa”. Foi convencido pelos amigos, entre os quais a economista Maria da Conceição Tavares, cujos testemunhos emocionados ressaltam que “o Mestre”, como ela o chama, podia dialogar com todas as correntes políticas do Brasil.

Os colegas que participaram da Reunião Mercosul-ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) contaram que cada vírgula dos documentos é discutida em minúcias, que a discussão de parágrafos é medida em uma tabela informal de horas. Outras colegas foram diplomatas de ligação (“dipligs”) de quatro primeiras-damas e da Rainha da Suécia, na 3ª Conferência Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, realizada pelo Unicef. Saiu na Carta que o Brasil tem mais de 800 pontos de exploração em rodovias federais.

Aproximava-se a Cúpula América Latina e Caribe para a Integração e Desenvolvimento (CALC), a ser realizada na Costa do Sauípe, Bahia, por iniciativa do Brasil. Fomos convocados a comparecer no Auditório do Rio Branco, em um entardecer, para o sorteio das tarefas, conduzido pelo Embaixador Ruy Pereira, coordenador da organização das Cúpulas. Entre atividades como Credenciamento, Imprensa, Apoio às delegações, Hospedagem e Coordenação, fiquei com Transporte.

Previa-se a participação de 4.500 pessoas, além da realização simultânea da Cúpula do Mercosul; da Cúpula da Unasul; e da Reunião Extraordinária do Grupo do Rio, para o ingresso de Cuba. Partiríamos em uma segunda-feira, 8 de dezembro, da Base Aérea de Brasília, no popular “Sucatão” da FAB, rumo a Salvador. Rumo à primeira reunião regional com presença tão-somente de países latino-americanos, como foi bastante salientado à época.

Naquele tempo parecia algo revolucionário, mas não deveria ser nada estranho. Tudo se devia ao histórico registrado desde os processos de independência, como demonstrou  Flávio Tavares em O Che Guevara que conheci e retratei, onde narra os bastidores da Conferência Interamericana Econômica e Social, de 1961, da Organização dos Estados Americanos (OEA). A “I Cúpula de Punta del Este”, como ficou conhecida, foi marcada pelo lançamento da Aliança para o Progresso, programa norte-americano de ajuda ao desenvolvimento da América Latina, vista por muitos como resposta à Revolução Cubana. Segundo Tavares, soava a “suborno”, o que gerou uma paródia da marchinha “Me dá um dinheiro aí”, cantada pelos jornalistas brasileiros no café-da-manhã do hotel:

Para rimar, mudávamos a pronúncia do Kennedy, acentuando o som do ‘y’ final e cantávamos: ‘Oi, seu Kennedy / me dá um dinheiro aí, / me dá um dinheiro aí. / Não vai dar? / Não vai dar, não? / Então eu vou / fazer revolução. / Vou deixar a barba crescer, / Aliança para o Progresso / só com barba tem sucesso, / Aliança para o Progresso só com barba tem sucesso’ ”. O mais influente diplomata americano, Richard Goodwin, deu gargalhadas quando leu a tradução da ‘Hey, give me money to me’ ”…

Parece que até a imprensa era outra, naquele dezembro de 2008. Perdera, entre outras coisas, o senso de humor. Principiante, relatei aos amigos, originalmente: “Se é realismo fantástico eu não sei, mas talvez tenha a ver com a diferença entre denominar um grão de milho de ‘pipoca’, ou ver nele uma pomba e chamá-lo ‘palomita de maíz’ (‘pombinha de milho’), como fazem os chilenos. Por isso não esperem relatos de pipoca, ou de reuniões burocráticas, sobre a CALC, onde não se cantarão marchinhas de carnaval: vão ser todos em estilo ‘palomita’ ”.

Ninguém poderia imaginar que já estava ali, anunciado nas entreáguas do novo passaporte, o dia do nascimento de uma Paloma. No Chile.

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Relatos de Motocicleta (8) – Novo script

Era o fim de outubro, começava a estação das chuvas. Brasília imenso jardim: as flores desabrocharam de repente, fiéis ao plano de Burle Marx. E de pensar que ainda há quem lamente o sobrenome… “como se já não bastasse o Niemeyer!”, exclamam. Já que a burguesia submeteu o campo ao domínio da cidade, Marx deu-lhe ares bucólicos. Mandou trazer, de todo o Brasil, árvores com diferentes épocas de floração, para que a capital estivesse sempre colorida.

Naqueles floridos dias ocorreram as palestras do Curso de Aperfeiçoamento de Diplomatas. Segundo indicava o site do Rio Branco, o curso tem o “objetivo de aprofundar e atualizar os conhecimentos necessários ao desempenho das funções exercidas por Segundos e Primeiros Secretários, sendo a posse do diploma do CAD requisito para a progressão funcional de seu titular a Primeiro Secretário”. Nós, calouros, assistíamos como ouvintes.

Franklin Martins, Ministro-Chefe da Secretaria de Comunicações Sociais (a SECOM), destacou a importância das relações do diplomata com a imprensa. Na diplomacia pública do novo século, a sociedade passa a ter controle sobre a política externa, o que obriga o diplomata a disputar toda opinião pública – a interna e a dos demais países. “Fiscalizada” pela mídia, a política exterior passa a ser mais rica, mais sólida, pois resultado de amplo debate público. O fato de ter virado “assunto de elevador” demonstraria que os cidadãos passaram a se interessar pela ousadia e maior peso externo do Brasil nos últimos anos.

O diplomata deve manter relações cordiais com a imprensa e antever os principais temas do noticiário. “O jornalista, mais cedo ou mais tarde, saberá do fato, então é melhor para o diplomata antecipar-se, para que o episódio seja veiculado de forma mais vantajosa para o país”, aconselhou. Sobre a imprensa em geral, lamentou “uma certa apatia da garotada de hoje”, mais preocupada com o emprego do que com a notícia, porque “no meu tempo, se o editor alterasse a matéria que vinha ‘da rua’ sem ótima justificativa, era briga certa”.

Os Ministros Paulo Vannuchi, da Secretaria de Direitos Humanos, e Tarso Genro, da Justiça, fizeram considerações sobre a polêmica de sempre, a possibilidade de anistia a responsáveis por crimes contra a humanidade. Ambos ressaltaram que não se trataria de julgar instituições militares, mas sim de julgar casos concretos. Opinião contrária tinha Nelson Jobim, Ministro da Defesa, para quem era hora de olharmos para o futuro, e não para divergências do passado. Jobim tratou também do Plano Nacional de Defesa, da importância de o Brasil obter maior independência tecnológica para ganhar autonomia em outros campos.

Também fizeram apresentações os Ministros Edson Santos, da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial; Nilcéa Freire, da Secretaria de Políticas para Mulheres; Fernando Haddad, da Educação; e José Múcio, das Relações Institucionais. Além da Dona Nadja, que passara uma daquelas semanas de visita, palestrando diariamente lá em casa. Aquele primeiro ciclo encerrou-se com a visita do Prof. Marco Aurélio Garcia, Assessor Internacional do Presidente da República.

Uns aguardavam com grande expectativa, outros nem tanto. “Eu gosto dele, só acho ele muito ideológico”, disse um colega a meio caminho. Gostando-se ou não, conhecíamos um dos personagens mais importantes daqueles dias, integrante do quarteto que um fã mais exaltado chamou de “Fab Four” da política externa brasileira. Beatlemania imediatamente contestada por outro colega, no ambiente de livre-debate do Rio Branco.

Talvez desconfiado de analogias de iê-iê-iê, o Professor entrou no Auditório com os suspensórios afinados e os óculos estilo Lennon. Falou da consolidação do Brasil como ator internacional de primeira grandeza – mesmo que ainda não tenha todos os recursos de poder – bem como da avaliação mundial positiva angariada por nossa política independente. Essa, aliás, um inegável fenômeno pop.

A política externa, disse ele, é elemento de um projeto de desenvolvimento nacional cujos “temas da soberania” seriam o aprofundamento da democracia, no campo político; a redução da desigualdade, no campo social; e o “acoplamento” do crescimento a políticas redistributivas, no campo econômico. O mercado internacional passou a ser eixo dinâmico desse processo, com a redução da vulnerabilidade externa por meio da diversificação geográfica das exportações.

A prioridade, porém, continua sendo a América do Sul, “nossa circunstância geopolítica”, pois garantir presença conjunta da região é mais eficaz em um mundo multipolar. Nesse contexto, a integração é poderoso elemento para diluir eventuais conflitos e assimetrias entre o Brasil e os países vizinhos.

Confesso, com o perdão do Professor, que não consegui prestar atenção nas perguntas finais. Ali estava ele, cordialmente aceitando o debate, sempre que possível com alguma brincadeira. Não parecia, não podia ser o mesmo que não só era atacado como também demonizado por parte da imprensa. Não parecia enquadrar-se no tal vício ideológico.

Não no sentido fraco, de significado cultural: conjunto de conhecimentos produzidos em determinada época. Muito menos no sentido forte, o qual entende a ideologia como derivação do discurso do grupo dominante. Da justificação de seu poder, que propaga falsas realidades, discursos particularistas travestidos de proposições consensuais. A essa, à ideologia-linguagem-do-poder, são contrapostas vozes que buscam combatê-la, mudar a estrutura social. Contrapostos: contraideológicos.

Bosi chega a dizer que a contraideologia é portadora da liberdade. Que ela desnuda a falsa metonímia da ideologia: o que é dado como natural, universal, não passa de histórico, parcial. Furtado vai além: a teoria do desenvolvimento seria uma das expressões ideológicas mais convincentes do individualismo burguês, razão pela qual opõe-lhe um conceito contraideológico de desenvolvimento, cuja marca registrada é o interesse geral.

Acabei meio perdido, mas tenho quase certeza que o Professor, ao final, misturou política externa com cozinha, teatro, literatura. Disse ele que nosso desafio é concretizar a simbiose entre crescimento econômico e distribuição de renda – “não mais a culinária tradicional”. Que nossa presença soberana no mundo depende da integração regional – porque “antes éramos atores de um texto já escrito”.

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Relatos de Motocicleta (7) – A palavra como recurso afetivo

Você viu o que nós fizemos hoje? Com quantas pessoas, com quantas questões lidamos? E quantos países estavam envolvidos?! E ainda nos pagam por isso!, contou o Embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, sobre o que costumava dizer um antigo chefe. Indicado para nossa representação junto ao Vaticano, recém chegara da sabatina no Senado, cujo resultado foi-lhe comunicado por telefone, em meio à palestra. Ao agradecer a salva de palmas, disse sentir-se contente cada vez que volta ao Rio Branco. Que, vendo-nos, via a si próprio quarenta anos atrás.

Contou histórias de sua passagem por Bonn, Nova Iorque, Buenos Aires, Washington, Paris, Cidade do México, Assessoria Internacional da Presidência da República, Madri, Genebra, Berlim – e ainda teve tempo para ser Secretário-Geral. Surpreendeu uma colega da primeira fila: A senhora… quais são, na sua opinião, os desafios do Brasil no próximo século? Não me lembro bem da resposta, apenas do susto da colega. O Embaixador acabou por ajuda-la, destacando a importância da diversificação da pauta comercial brasileira e de nossas posições na Rodada Doha, da OMC. Se nosso comércio estivesse concentrado em poucos países, estaríamos muito mais vulneráveis à crise financeira que se iniciava.

O Cineclube Rio Branco trouxe “O Engenho de Zé Lins”, documentário sobre a vida de José Lins do Rêgo, expoente do romance regionalista, que retratou o declínio da economia açucareira no Nordeste. O poeta Thiago de Melo, em lágrimas, relata os últimos dias do amigo, um homem que de repente virava um menino, como demonstrou na posse na Academia Brasileira de Letras: assumo a vaga de alguém que chegou ao STF sem ter feito nenhuma lei, e à Academia sem ter escrito um único livro.

Em conversa após o filme, o diretor Vladimir Carvalho brincou que devia ter convocado a imprensa, essa parece uma pré-estreia internacional do meu filme, no saguão conheci moçambicanos, angolanos, gente da Guiné-Bissau! Contou ter escolhido o personagem porque seu pai lia histórias de infância do Zé Lins para mim, mas pegava as histórias verdadeiras, misturava com as do Menino de Engenho, e me transmitia coisas fantásticas, que me deixavam impressionado, como podia um menino fazer coisas como aquelas? É por isso que acho que todo documentário é autobiográfico, o documentarista também está ali, decantado na edição final.

Em mais uma atividade “de campo”, fomos a Santa Maria, cidade-satélite de baixa renda, conhecer dois programas sociais, o Restaurante Popular e o Centro de Referência em Assistência Social. Quando estiverem negociando um acordo em Genebra, sobre compras governamentais, saberão a importância dos investimentos estatais em determinadas áreas; ou na FAO, em Roma, saberão falar de segurança alimentar com conhecimento de causa, disse o Conselheiro Audo Faleiro, diplomata que coordenou a visita.

O almoço, a 1 real, teve cardápio variado e sob orientação de nutricionista, em boas instalações. Logo a seguir, fomos ao Centro de Assistência, localizado em uma escola onde fomos recebidos por umas trinta crianças, tímidas e desconfiadas. Isso até a professora perguntar “o que é que se diz, meninos?”. Responderam aos gritos, aos sorrisos, em uníssono: “BOA TAAARDE!”. Eram todas integrantes do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil.

Atividades extracurriculares como essa ocorriam geralmente à tarde, quando tínhamos espaços na grade horária. O mesmo valia para as palestras de autoridades estrangeiras que estavam de passagem pelo país, como a do Chanceler da Palestina, Riyad al-Maliki. Conforme nota do MRE, o Chanceler esteve no Brasil para avaliar um maior envolvimento nosso no processo de paz com Israel, além de tratar de acordos de cooperação entre o grupo IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) e a Palestina. Apesar da grande preocupação com as eleições que ocorreriam em Israel, as quais condicionariam as negociações, o Chanceler tentou mostrar-se otimista, em impecável Inglês.

Com a proximidade da viagem à Argentina, fomos orientados a criar currículo na rede interna do Ministério, perfil que seria utilizado para os futuros anuários. Todo currículo deve começar com nascimento e nomes dos pais: 14.11.1980 Filho de Paulo Altamir Pereira de Mello e Nadja Maria Brigidi, nasce em Porto Alegre/RS. Na mesma semana foi publicada a portaria que elenca a classificação de postos no exterior: de “A” a “D”, sendo os primeiros países europeus, Estados Unidos, Argentina; e “D” aqueles considerados menos fáceis para viver, como muitos países africanos e asiáticos.

Foi mais ou menos nessa época, quando recém estrearíamos nos assentos funcionais, que dei-me conta de que já se discutiam critérios de promoção; de aumento e apartamento funcional; do tempo necessário para atingir o cargo de Embaixador; das estratégias para conseguir o melhor primeiro posto. A extrema competitividade da carreira começava a fazer vítimas, a gerar frustrações e rivalidades.

Isso em uma profissão – um serviço público – que depende de infinitas e incontroláveis variáveis. A sorte de alguns encontros; a visita de autoridades no posto em que se está servindo; uma crise política que dê visibilidade a quem está naquele país; os partidos que governarão o Brasil nas décadas a seguir. E onde estaremos em cada um dos mandatos, se em Brasília ou no exterior, se em uma divisão que valorizada ou não naquele dado período.

Não é que não fosse importante, desde já. Parecia apenas que a alegria da aprovação, o encantamento com cada uma das novas experiências, o vislumbre da futura vida em diferentes pontos do globo, tudo suplantava o nascente fetichismo burocrático. A fase inicial, de terceiro-secretário, já era incerta, excitante e novedosa o suficiente. Esse era o espírito com que enviava alguns relatos aos ex-colegas do extinto Curso Diplomacia, em Porto Alegre, onde o maior fetichismo era, apenas, tornar-se diplomata.

Porque a ambição que leva ao concurso precisa de uma trégua, mesmo que momentânea. Como explicaria aos ex-colegas que já esquecêramos das aflições pré-provas? Como explicar à Maria, generosa no elogio, e a quem este relato é dedicado? Ao confidenciar que o blog a reanima, capta ela parte de nosso propósito ao iniciar essa experiência.

Ainda que imperfeita, a literatura é outra forma de experiência do real, a encantar-nos desde que nossos pais nos liam histórias para dormir. Para agradecer a ela, que me reanimou da tristeza de ficar aqui falando sozinho, tomo de empréstimo a fala de outro antigo moto-mochileiro, quando escrevia seus diários de motocicleta: en estas precarias condiciones en que viajamos, sólo nos queda como recurso afectivo la palavra.

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Relatos de Motocicleta (6) – A mão invisível

Leio as notas de outubro de 2008. Quase não me reconheço, ao rever os próprios pensamentos. Ao repensá-los. Revisito, nas entrelinhas, as apreensões e ilusões de então – as minhas e as dos colegas. Das colegas, que começavam a enfrentar os dilemas familiares das mulheres diplomatas. É surpreendente o lapidar de opiniões que, se na essência não andavam lá tão mal, hoje parecem quase juvenis. Melhor nem pensar na leitura que farei daqui a alguns anos.

O entusiasmo tinha explicação. Porque o alheamento de fóruns, redes sociais ou conversas sobre a carreira serviu para nada antecipar, deixar tudo para depois de eventual aprovação. Em Porto Alegre, longe das capitais, era mais fácil manter essa distância. Talvez por isso os primeiros meses parecessem, à época, acima das expectativas (que já eram altas). Não deixa de ser um pouco triste ver que diversas coisas do cotidiano já não surpreendem como naqueles dias.

Começamos a entender a lógica da relação entre a política externa e as políticas públicas, entre o MRE e os ministérios. Colegas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio traçaram panorama das políticas sociais e da forma como são implementadas na cooperação com outros países, especialmente na África. Afirmaram que as políticas de transferência condicionada de renda, e seus efeitos na expansão do mercado interno, têm despertado atenção ao redor do mundo.

O Secretário Nacional de Esportes Educacionais apresentou-nos o Programa Segundo Tempo, que utiliza o esporte como fator de inclusão social, além da criação de cooperativas de produção de material esportivo. Visitamos um dos núcleos do programa, uma chácara em Valparaíso de Goiás, onde crianças carentes praticavam desde natação até capoeira (além, claro, do futebol).

A postura de cada um de nós diante das crianças – e da própria visita – indicava mais ou menos claramente a visão de mundo da qual provinha.  Lembro-me particularmente de uma colega, que até então não conhecia, jogando carinhosamente vôlei com um grupo de crianças. De pensar que ela, no futuro, andaria pela África Ocidental! A criançada ria bastante no refeitório e acho que não entendeu muito nossa profissão. Volta e meia saía alguma pérola, ao estilo daquela de um guri nos Andes peruanos, quando perguntei se conhecia algo do Brasil: sí claro, de la escuela… es el país de Ronaldinho, su capital es Brasília, el presidente es Lula, tiene nueve dedos…

A primeira sessão do Cineclube Rio Branco foi iniciativa de dois colegas, um egresso da Medicina, outra do Jornalismo. Assistimos, no Auditório, ao documentário “Josué de Castro, cidadão do mundo”, sobre o autor de “Geografia da Fome” (1946) e ex-presidente do Conselho da FAO. O trabalho de Josué despertou o país para a relação entre fome e desigualdade social, para a fome como resultado de estruturas socialmente construídas. Metade da humanidade não dorme porque tem fome e a outra metade não dorme porque tem medo dos que tem fome, dizia.

Após o filme, debate com o diretor, Silvio Tendler, que enalteceu o papel do MRE na divulgação do cinema nacional. Relação tão importante que o Itamaraty de hoje é cria da Embrafilme!, disse, em tom de brincadeira, ao recordar a passagem do Chanceler e do Secretário Geral pela agência. Segundo ele, Josué de Castro demonstrou, concretamente, as razões da fome, situação que Darcy Ribeiro abordaria com menos tecnicalidade (nossa produção de soja serve para engordar porco no Japão, citou Tendler). O diretor contou estar orgulhoso por Lula ter mencionado Josué no discurso de posse, em 2003, após ter assistido ao documentário.

Visitou o Rio Branco nosso Embaixador de Viena, Julio Cezar Zelner Gonçalves. Ao recordar das dificuldades de iniciar a carreira durante a ditadura, instou-nos a valorizar o amplo espaço de debate do qual desfrutamos. Que tivéssemos em conta, também, a importância alcançada pelo Brasil: chegou à Áustria pela manhã e já no início da tarde apresentara credenciais ao Chanceler; oito dias depois, foi recebido pelo Presidente. “A vida no exterior é Brasil ‘na veia’, é pensar o tempo todo em como melhorar nossa posição”, disse, despedindo-se.

Parte da turma, os cinquenta primeiros colocados no concurso, viajaram ao Rio para a Reunião de Chanceleres Preparatória para a Cúpula América Latina-Caribe (CALC), realizada no Palácio Itamarati. Eu, na zona do rebaixamento, fiquei de fora, profundamente decepcionado, apesar de reconhecer a validade do critério. A maioria dos que foram trabalharia na Cúpula como diplomata de ligação, o “diplig”, elo do MRE com o país respectivo, conforme sorteio ocorrido no Rio Branco. As demais áreas (transporte, cerimonial, imprensa) seriam definidas posteriormente. A colega que foi “diplig” da Bolívia conheceu o Chanceler David Choquehuanca, que ficou contente ao ouvir comentário sobre o significado do desenho de sua jaqueta – a colega prestara devida atenção à palestra sobre cultura aymara.

É o “don de gentes”, ao qual fez menção o Diretor do IRBr, Embaixador Fernando Reis. Tivemos nossa primeira prova, de História das Relações Internacionais, sobre a formação dos países na Bacia do Prata. Nosso time de futebol foi eliminado na primeira fase do torneio do MRE, com um melancólico empate em 2×2. Assistimos ao filme brasileiro “Linha de passe”, drama social, na Academia de Tênis. No Clube das Nações, a festa à fantasia, tradicionalmente oferecida pelos veteranos. Em uma palestra de fim de tarde, o assessor econômico de nossa Embaixada em Washington traçou quadro assustador da crise econômica que se iniciava. Para Luís Fernando Veríssimo, as soluções propostas comprovariam a Primeira Lei do Mercado – quando em dificuldade, peça ajuda ao governo. Poderiam comprovar, também, a “mão invisível” – no bolso do contribuinte.

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Relatos de Motocicleta (5) – A plenos pulmões

Aruskipt’asipxañanakasakipunirakispawa, anota no quadro o professor Juan Yapita, do Instituto de Língua e Cultura Aymara, em palestra sobre as culturas aymara e quéchua na Bolívia. Conhecemos algumas expressões típicas, repetindo entonações com alguma dificuldade. Questionado sobre a grave crise que ameaçava a integridade de seu país naquele ano, Yapita disse que a política não era sua especialidade. Que preferia responder com a máxima já inscrita no quadro: somos todos seres humanos e, portanto, mesmo quando há conflito, devemos sempre nos comunicar.

John Maresca, diplomata americano que serviu em postos no Cáucaso, fala sobre a Geórgia, então em guerra com a Rússia, que nem mesmo Napoleão ou Hitler recomendariam, disse ele. Fora divulgar a Universidade para a Paz, da ONU, sediada na Costa Rica e da qual é Reitor. Esteve acompanhado do Ministro Luiz Dulci, Secretário-Geral da Presidência da República e integrante do conselho da Universidade. Maresca  , A instituição busca estudar a paz com base na ideia de que a mesma deve ser entendida, simultaneamente, como ausência de guerra e de conflitos sociais.

O Chanceler do Sri Lanka chega acompanhado da mais bela delegação que já esteve no Auditório, cingalesas vestidas com sáris de todas as cores, decorados com pedras e penteados preciosos. Falou da importância do Movimento dos Não-Alinhados, da democracia no sudeste asiático, do potencial de seu país, membro da ASEAN, como destino de investimentos brasileiros. Questionado sobre os Tigres Tâmeis, grupo armado, foi categórico, com o típico sotaque do Inglês da região: we don’t negotiate with terrorists. You are the young diplomats que irão construir a relação do Brasil com o Sri Lanka, despediu-se, após consultar seu vistoso e dourado relógio.

O Chanceler da Namíbia, Marco Hausiku, chega anunciado por batedores, pela bandeira de seu país hasteada junto às bandeiras do Brasil e do Mercosul, como estivera a do Sri Lanka. Enfatiza, com a força da voz negra, a emergência “definitiva” das nações do Sul global, bem como as relações bilaterais, as quais têm na cooperação naval um dos exemplos mais bem-sucedidos da cooperação sul-sul. Jovens talentosos, cheios de energia, comprometidos como vocês, estão prontos para transformar o mundo como diplomatas! Da vossa geração dependerá o sentido dessas transformações, disse, antes de partir.

A Professora Béatrice distribui, na aula de Francês, um texto de Paul Claudel. Diplomata francês entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX, atuou em época similar à que nos caberá – redistribuição relativa do poder e conflitos crescentes. Para ele, a diplomacia oferece as lições da “Grande Arte” humana, as de interpretar e de interrogar: o sábio aprendeu a fazer as perguntas corretas; o artista sabe naturalmente fazê-las. E ao diplomata-escritor, como homem de Estado, cabe fazer as proposições justas frente às circunstâncias. Só mesmo com muita perspicácia para conciliar as tantas e velozes divergências da era multipolar.

Sábio e artista, Jim Kelly percebe quando a turma chega aflita pelos desafios da pós-modernidade. Retornei esses dias à sala em que lecionava Inglês, e não vi nada de diferente na decoração. Poderia jurar, porém, que suas aulas ocorriam em um pub no próprio Rio Branco. Ali as aflições de longo prazo eram esquecidas por seus brados de velho irlandês irredento, pelo recital permanente de poesia, pelo tilintar de canecos de chopp entre ele e seus compatriotas Shaw e Yeats, que se juntavam para nos aliviar das aflições do longo prazo. Ainda o ouço – ouvimos – declamar Politics a plenos pulmões, quem sabe recordando alguma paixão de adolescência:

How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here’s a travelled man that knows
What he talks about,
And there’s a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war’s alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms!

Pela programação que recebêramos, a semana seria normal, apenas com as disciplinas do próprio curso. Tivemos, porém, todas essas surpresas. Antes de partir para o fim de semana, já sem fôlego, segui a regra e dei uma mirada no mural de avisos. Que andava repleto de possibilidades. Em novembro, viagem a Buenos Aires para a Semana do Instituto Rio Branco no ISEN, correspondente argentino do IRBr. Em dezembro, a Cúpula América Latina e Caribe, na Costa do Sauípe, na Bahia, para a qual seriam necessários cem voluntários.

Como, e por que, conter o entusiasmo?

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