Finding the true cross

Celebração de Meskel na Meskel Square em Adis Abeba

E o bom filho a casa torna……. Digamos que o velho ditado “o ótimo é inimigo do bom” manteve-me longe do blog por meses.

Bom, que a arca pedida, dentro da qual estão as tábuas contendo os Dez Mandamentos, encontra-se na Etiópia pode não ser novidade para todos, mas saber que parte da cruz na qual Jesus Cristo foi crucificado também está em solo etíope pode surpreender muita gente. Tendo em vista que o feriado de Meskel, que celebra a descoberta da cruz de Cristo, ocorreu essa semana, nada mais justo apresentar-lhes essa história.

Conta a lenda que, após a crucificação de Jesus, os judeus decidiram enterrar a cruz na qual Jesus foi crucificado em local secreto, para evitar que ela se tornasse objeto de peregrinação.

Depois de mais de 300 anos desaparecida, uma nova missão, liderada pela Rainha Helena, mãe do Imperador Constantino, decidiu regressar a Jerusalém na busca da verdadeira cruz. A Rainha Helena havia prometido que, caso Constantino se convertesse ao Cristianismo, ela envidaria todos os esforços para localizar a cruz desaparecida. Logo após a conversão de Constantino ao Cristianismo, a missão partiu de Constantinopla em 327 a.d.

Após meses de buscas em vão, a única informação que a rainha obteve era a de que a cruz encontrava-se sob uma montanha criada a partir de dejetos jogados após enterrar a cruz. Quando estava a ponto de desistir, um ancião chamado Kiracus apresentou-se a Helena e afirmou estar a cruz enterrada no Monte Golgota. Receosa sobre a veracidade da informação, Helena decidiu refletir antes de acreditar na mensagem de Kiracus. Naquela noite, a lenda diz que um anjo desceu à Terra e conversou com a rainha em seus sonhos, informando-a de que a cruz estava, de fato, no Monte Golgota e, para encontrá-la seria necessário acender uma grande fogueira, cuja fumaça levaria ao local da verdadeira cruz.

Cantos religiosos durante a celebração de Meskel

Na manhã seguinte, Helena montou uma grande fogueira com madeira e incenso. Após acendê-la, o incenso ascendeu para, logo depois, fazer uma curva para baixo e levar diretamente onde a cruz estava enterrada. As escavações iniciaram-se em 27 de setembro e a cruz, enfim, foi descoberta em 18 de março.

Helena construiu uma igreja em Jerusalém para abrigar a cruz, a qual foi abençoada pelos arcebispos de Constantinopla e Alexandria. A cruz tornou-se, contudo, objeto de desejo, tendo sido roubada por diversas ocasiões. Após recuperar a cruz, que havia sido roubada pelos persas, os Arcebispos de Alexandria, Antioquia, Constantinopla e Jerusalém decidiram dividir a cruz em quatro partes, sendo, cada um, responsável por um pedaço.

Após o Cisma do Oriente (ano de 1054) e a subsequente islamização do reino do Egito, a cruz sob responsabilidade de Alexandria corria risco. Dessa forma, o Imperador David, da Etiópia, decidiu invadir o Egito para protegê-la. Após o sucesso de sua missão, o filho do Imperador David, Imperador Zera Yacob, regressou à Etiópia com a cruz em seu poder, que foi colocada no monte Gishen Debre Kerbe, no interior da Etiópia, onde permanece até hoje.

A celebração de Meskel, cuja tradução seria “o encontro da cruz verdadeira”, ocorre todos os anos na Etiópia no dia 27 de setembro, data que marca o início das escavações. A cerimônia é marcada por apresentações musicais organizadas pela Igreja Ortodoxa etíope e atinge seu ápice quando o Patriarca da Igreja Ortodoxa etíope acende uma réplica da fogueira feita pela Rainha Helena.

Fogueira acesa durante a cerimônia de Meskel

Infelizmente, assim como a arca perdida, somente poucos religiosos etíopes podem ver o pedaço da cruz que está aqui. Independentemente da veracidade da “estória”, participar de uma celebração de Meskel faz a gente entender melhor o país: o papel importante que a Igreja Ortodoxa desempenha na sociedade, o misticismo da cultura etíope e, sobretudo, a riqueza histórica desse país.

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Sobre Marcelo A. Borges

Paulistano, franciscano, corredor e diplomata. Na Etiópia.
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2 respostas para Finding the true cross

  1. mauricio chavenco disse:

    Borges, muito bom seu artigo. Continue escrevendo.

  2. Raissa disse:

    Não pare de escrever, cara! Muito bom. :))

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