Perguntas em Pequim

Julho de 2010. Cinco meses em Pequim. Chovia no domingo. Garoava, parava. Clima paulistano. Vou em busca do Chaoyang Park. Mas não me pergunte quem foi Chaoyang. Ou o que eventualmente significa Chaoyang. Ou mesmo a localização do Chaoyang Park. É mais ou menos perto de casa, uns 25 minutos de bicicleta.

Pela esquerda, pela direita, entre os carros, pedestres, ônibus e umas coisas de nome desconhecido. Veículos de transporte. Chineses. Entre eles pedala Robinho. Com a camisa da seleção. Amarela. Não a que perdeu contra a Holanda.

Resolvo cortar caminho por um hutong. Espalhados por Pequim, resistentes, hutongs são antigas vielas, vielas dentro de vielas, becos com ou sem saída, labirintos de casas humildes, gente simples, crianças, idosos, pequenas vendas, frutas, verduras, ervas, roupas, guarda-chuvas, eletrônicos. Banheiros públicos, alguma sujeira, mas tudo e todos bem simpáticos. Para quem gosta de pedalar, são os passeios mais interessantes da cidade.

Pois bem, estou num hutong, não me pergunte qual. Resolvo parar. Dois chineses travam uma batalha particular. Xadrez chinês. Jogo nosso xadrez até razoavelmente bem, mas não me atrevo a discutir o xadrez chinês. O tabuleiro é diferente, há algumas novas peças, elefantes que não cruzam rios, a própria organização e o movimento das peças, a forma de atingir o objetivo. É mais imaginativo, mais criativo do que o xadrez mundialmente jogado. Dizem que é com base na expertise do jogo local que hoje os enxadristas chineses avançam nos rankings mundiais. Entre as mulheres, já são os melhores. Entre os homens, estão chegando. Mas voltando: não jogo e não entendo bem o xadrez chinês. Ficamos então com a plasticidade da imagem. Vejam só a finesse de nossos jogadores…

 

 É um dos muitos teatros das ruas de Pequim. Estão na várzea, onde surgem os craques. Às vezes jogam “Go”, “weiqi” em chinês, que é uma outra história, com mais de 2 mil anos de China (obrigado, Fred). Mas  na maior parte das vezes jogam o tal xadrez chinês (parece que o “Go” foi levado da China ao Ocidente via Japão, por isso a confusão). Sem camisa, bermudão antigo, chinelos gastos, geralmente fumando, às vezes com platéia, por horas a fio. Muito comum no verão. Concentrados. Uma foto, uma breve olhada com algum desprezo. Nenhuma palavra. Acho que entendi. Parto. 

Não é permitida a entrada de bicicletas no Chaoyang Park. Como no magnífico Ritan Park, ao lado da Embaixada. Como em todos os parques de Pequim, creio. Como no Parque Olhos d´Água em Brasília. Então fiquei de fora. Na verdade, tentara entrar por portarias laterais. Mas nada. Guardas, uniformes, cancelas, grades. Bom, nessas tentativas fui circundando o parque. Entrando nuns caminhos, por aqui, por ali. Explorando. Uma rua para dentro. Do parque? Outra entrada? Não sei.

Avanço, pouco importa. Ziguezagueando, vejo poucas pessoas. À frente, algo me chama a atenção. Uma estátua descansa escondida atrás de uns arbustos. Está só. Numa rua em que não passa ninguém. Por onde não se caminha. Num beco do parque.

Um chinês. Um homem em seus 50 ou 60 anos. Parece vestido como um inglês, não? Fuma como um inglês, não? Sua pose, parece que observa cavalos saltando, sorri depois da caça, saboreia um chá. Chá chinês? Chá inglês? Não sei bem. Estranha a estátua ali, sob a vista de ninguém.

Há uma lápide em frente à estátua. Lápide? É assim que se fala? Uma placa, que seja. Deve haver alguma explicação. Em chinês? Caracteres em chinês. Deve haver alguma explicação. Mas não entendo. Deixa pra lá.

Logo à frente, fazendo a curva, uma construção imponente, às margens de um lago. Bela vista. Grandes estátuas de leões. Talvez hoje um hotel, um restaurante, não sei. Colunas em estilo clássico. Europeu. Inglês? Seria aquela a antiga mansão de nosso amigo apreciador de charutos? Seriam charutos? De ópio? Seria esse chinês-inglês um vencedor da guerra do ópio? Lord Chaoyang, our man in Beijing?

Cinco meses de China. Perguntas. Pouco ou nada sei. Vou investigar qualé, qual foi. O que é Chaoyang? Quem foi Chaoyang?

Mais à frente, estou retornando para casa. Passeio menor, na véspera me cansara. Almoçar. Ler. Esticar as pernas.

Estou ao lado do Estádio dos Trabalhadores. Um belo estádio. Onde joga o esquadrão de Pequim, Beijing Guoan. Vestem verde, são todos palmeirenses por aqui. Há um hondurenho que joga bem, habilidoso, esperto. Nenhum brasileiro. O futebol chinês: correm bastante, se esforçam. Estão melhorando. Em 2030.

Paro no cruzamento. Aguardo o sinal. Às vezes dá pra ir no vermelho, mas tem que ter cuidado. O melhor seria não ir no vermelho. Mas a gente vai pegando o jeito… Dessa vez parei, há uns cruzamentos em que não dá pra brincar. Não dá nem para pensar na malandragem. Há mesmo vezes em que procuro ir escoltado por pedestres. Eles vão na frente, eu sigo ao lado da barreira humana. Em caso de acidente, estou mais protegido. Buffer. Não sou o único que faz isso. É uma aventura.

Atravessei, tudo tranquilo. Os arredores do estádio são verdes, há um lago por perto, é um lugar legal. Domingo de leve chuva. São Paulo. Ruas meio vazias. Há um senhor com um saco na mão. Olha pro mato, parado, não sei se procura algo. Num primeiro momento, achei que fosse morador de rua. Suas vestes contrastam com a do distinto lorde Chaoyang. Carrega um saco. Catando lixo?


Olhando com calma a foto, penso que talvez seja funcionário da municipalidade de Beijing. Sua calça combina com uma capa, acho, que está no guidão da bicicleta. Não sei bem. Laranja, para ser visto, para evitar acidentes.

Reparem na sua bicicleta. Há várias desse tipo em Pequim. Bicicletas-carretas. Precárias. Entre vários outros tipos de transporte. Rickshas, latas de sardinha motorizadas, ônibus elétricos que falam chinês. Ferraris, Porsches e BMWs, sim, muitos. Táxis verde-amarelos. Carros e vidros negros, chapas brancas. Bicicletas. Muita gente. Buzinas. Aglomeração. Muito metrô, mas o metrô é lotado. Chineses no metrô: não são tão organizados quanto imaginamos. É gente demais, difícil.

Quem é nosso amigo catador? Como se chama, de onde vem, para onde vai? Família, filhos? Talvez um migrante? Talvez. Dizem que são mais de 200 milhões na China. Há muitos em Pequim. Às vezes os vemos dormindo nas ruas, perto de grandes construções. Mais barato. É o mercado.

Peço ao distinto leitor que repare de novo na foto. O que faz um outro cara, atrás da bicicleta, agachado, de costas, meio escondido atrás da árvore?

Não dá para saber.

Nunca se está totalmente por dentro do que acontece a seu redor. No dia-dia, num passeio, na observação da política local, para comprar qualquer coisa, parafusar a bicicleta. A gente acaba se acostumando a não compreender as coisas direito. Aprendemos a lidar, reagimos, nos adaptamos.

Cinco meses, uns 150 dias. Pouco. Tudo complicado. Fascínio, desafio. Alguém sabe que na China não se fala, por exemplo, “40 bilhões”? Fala-se “400” seguido de “100 milhões”. Os tradutores frequentemente se confundem, o que não é um problema menor. Outra escala, outra lógica, outra dimensão. Idas e vindas e círculos e meandros e nuances e repetições em milhares de caracteres, quatro tons e mais um neutro. 破譯我 不然我就吃掉

 

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10 respostas para Perguntas em Pequim

  1. Fred Silva disse:

    O Go, Weiqi para o chineses, tem origem na própria China, dinastia Zhou há mais de 2000 anos. Chegou ao Japão muito depois, já no século V E.C.

  2. ADRIANO disse:

    Incrível!
    A narrativa foi tão boa e as fotos passíveis de tantas interpretações que eu me envolvi na história. E, mesmo sendo uma coisa tão simples, o seu passeio de bicicleta foi mesmo uma aventura. Sonho poder algum dia ter meus próprios relatos graças à carreira diplomática.
    Excelente postagem!

  3. Bianca disse:

    Deve ser tão difícil não entender o que está ao nosso redor! Tão difícil não ter certeza de nada, como vc diz… Dura vida a de um analfabeta, né?
    Ou isso acaba deixando a pessoa mais leve? Menos taxativa?

  4. Pingback: O outro Paquistão | Jovens Diplomatas

  5. Lucas disse:

    Não precisa saber mandarim pra ser diplomata brasileiro na china? :/

  6. A verdade mesmo é que não soube em que postagem faria um comentário, vez que todo o conteúdo da página é de um teor rico em demasia. A diplomacia me fez brilhar os olhos tanto quanto tenho sede ou tenho fome. Essa arte tradicional de lidar com as relações mais diversas do Estado sustenta a cada dia um sonho antigo e constante, que insiste manter morada em meus planos.
    Gostaria muito de parabenizá-los pessoalmente com evidente admiração, pelo trabalho, pelo âmbito humanístico que sustentam, pela arte da política, da compreensão bilateral entre os fatores que compões a conduta dos Estados. A cada segundo corrido, dia caminhado, mês transcorrido, tenho a plena certeza de que ser um Diplomata é fator indiscutível aos meus valores.
    Obrigado por compartilharem conosco um pouco do trabalho tão lindo que é este em que estão estabelecidos. Afinal, o Itamaraty é uma casa de tradição, de artistas, que juntos participam de um dos palcos mais belos da humanidade, numa peça praticada em conjunto, aos aplausos e lágrimas de admiração.

    PS: gostaria muito de estabelecer contato via e-mail com algum de vocês, para trocarmos experiências, e acima de tudo, para que eu possa me orientar acerca do ingresso ao Rio Branco. Seria de boa valia contar com a sabedoria daqueles já adeptos ao sumo sacerdócio da política, eu diria.

    • antoniocjf disse:

      Parabens pela postagem, amigo, belo texto, vai lendo, procurando, perguntando, conversando, escrevendo, seu sobrenome eh de gente aventureira e guerreira, siga em frente, caminhar eh preciso.

  7. 安迪/Andy/Adriano disse:

    Queria poder ter sua capacidade poética
    para poder descrever minha realidade
    dos 18 meses que estive lá
    coincidentemente logo após sua saída
    como não a tenho, apenas posso concordar
    e dizer que senti o mesmo nos mesmos lugares
    só posso adicionar, que mesmo que não tenhamos
    o domínio do idioma local, usamos de nossa capacidade
    para ler o mundo do aspecto da linguagem não verbal
    que se torna nossa ferramenta do dia a dia
    que está bem descrito em seu comentário
    não nos impossibilitando de ver, sentir, presenciar
    e entender o presente ao nosso redor.

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