A Tragédia Chilena

(versão original em Espanhol em “Letras de Chile”, maio de 2016)

El drama ocurrió en Chile, para mal de los chilenos, pero
ha de pasar a la historia como algo que nos sucedió
sin remedio a todos los hombres de este tiempo y
que se quedó en nuestras vidas para siempre

García Márquez

A filha, a secretária e companheira, os assessores mais próximos, todos discutem como contar-lhe. Que as Forças Armadas deram início ao golpe. Que já não é possível o plebiscito, tampouco o acordo com os democrata-cristãos. Que sobrevirá uma ditadura, ou uma guerra civil. Que o tão temido desfecho traz, paradoxais, desespero e alívio. É quando ele, Salvador Allende, adentra a sala com passos resolutos, em ensaiados gestos alegóricos, mosaico dos personagens de teatro que admirou durante a vida. Transmite ordens, sugere ações, provoca debates.

Corre-nos um arrepio ao vê-lo ali, tão vivo, tão próximo em suas últimas horas, na madrugada do 11 de Setembro chileno, na residência da rua Tomás Moro. É a encenação de Allende noche de septiembre, no Centro Cultural Gabriela Mistral (GAM). Estamos em setembro de 2013, quadragésimo aniversário do golpe, ano em que o enredo conduzirá à catarse.

O fechamento de um presídio especial para militares, condenados por violações de direitos humanos, levará ao suicídio de um general. No cinema estrearão El tío, sobre a vida de Jaime Guzmán, ideólogo da ditadura e da Constituição de 1980; e Carne de perro, sobre os transtornos psicológicos de um ex-torturador. Na televisão, um ex-chefe das Forças Armadas será confrontado – ao vivo – com o homem que, quando bebê, entregara a freiras, após a execução dos pais. No teatro, inúmeras peças retratarão o período autoritário, os desaparecidos, as mortes. As eleições presidenciais terão candidato cujo pai foi morto pela ditadura. A coroar a dramatização, o segundo turno colocará frente a frente duas filhas de generais – um, Fernando Matthei, ex-integrante da Junta Militar; outro, Alberto Bachelet, ex-integrante do Governo Allende, preso e morto após o golpe.

Quatro décadas depois, os atos seguirão obedecendo à cenografia urbana. O espaço cênico terá como marco a Plaza Italia, onde começa a surgir o barrio alto, como é chamada a região mais rica. A Província de Santiago tem 52 municípios, as comunas, entre elas Santiago “Centro” e as mais prósperas – Vitacura, Las Condes, Providencia e Lo Barnechea, as únicas onde a direita teve vitória folgada nas eleições. O Teatro Municipal de Las Condes apresentará Kiss and Cry, espetáculo belga de nanodança. A apenas sete estações dali, o GAM, polo cultural do centro, apresentará peça sem falas, de personagens mudos. Uma família refém da lembrança, presa à mesa de jantar, à espera do filho que desapareceu.

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No teatro da Grécia antiga, a tragédia era o gênero que induzia os espectadores a refletir sobre a existência e a desventura humanas. Desnudava, sem distinção de papéis, as íntimas manifestações de sua essência – amor, ódio, medo, vaidade. Ação, tempo e espaço eram tomados por forças antagônicas, que se contradiziam reciprocamente, até que o herói passasse da felicidade para a infelicidade. O público era conduzido ao transe da catarse, da purificação, liberando emoções como compaixão e terror, enquanto o coro temia a ruína da cidade.

Desde então todo país tem suas próprias montagens trágicas. Meu primeiro contato com a versão chilena ocorreu no palco do Estádio Nacional, em 2005. No clássico Universidad de Chile contra Colo-Colo, torcidas rivais entoavam o mesmo cântico, olê, olê, que se muera Pinochet! No intervalo, torcedores da “U” acenderam velas, estenderam uma faixa sobre as antigas arquibancadas de madeira. Allende presente, dizia.

Cinzenta, fria e chuvosa naquele inverno, a capital do Chile era a primeira cidade que conhecia na América do Sul. Hospedado em um hostel de Providencia, surpreendi-me com os tradicionais cafés con piernas, de garçonetes em trajes sumários. Percorria ruas e cidades sem noção do que representava estar Allende, estátua serena sob a chuva fina, diante do Palácio de La Moneda. Do que representava o resto de seus óculos, no Museu Histórico, do que representavam, à frente da Biblioteca Nacional, os outdoors dos dois candidatos presidenciais daquele ano, Sebastián Piñera e Michelle Bachelet.

Não sabia, ainda, que o semanário The Clinic fora batizado em “homenagem” à clínica londrina onde ficou detido Pinochet. A primeira capa que vi aludia a um aumento de combustíveis, mostrando uma bomba de gasolina – com um preservativo. O jornal abusava dos chilenismos, as peculiares gírias tão difíceis de decifrar. A maioria dos amigos chilenos afirmava que não iria votar, pareciam não se interessar pela política – a revolta estudantil dos secundaristas ocorreria apenas no ano seguinte. Yo, por mi parte, aprendia o Espanhol entre Santiago e Valparaíso, entre Pucón e Concepción, caminhando pela Alameda, via que corta a cidade. Mal sabendo tudo que ocorrera ali, mal sabendo que logo tomaria o metrô, todas as manhãs, a caminho da Embaixada do Brasil.

Retornei em 2008 com cinco amigos, para um hostel no bairro Bellavista. Seria divulgado, em meio à viagem, o resultado definitivo do Concurso de Admissão à Carreira Diplomática. Naquele ano havia 115 vagas e, anunciadas as notas das três primeiras fases, estava eu classificado na 116ª posição. A última das quatro etapas era relativa à segunda língua estrangeira, no meu caso o Espanhol. Justamente a nota pendente de publicação, justamente o idioma que aprendera com Neruda. Partira para o Chile, portanto, reprovado.

A nota decisiva foi divulgada quando estávamos no vilarejo de Farellones, no alto da Cordilheira, após longo dia de esqui, de subir a pé o caminho entre as estações de Valle Nevado e do Colorado, quando estive isolado por um par de horas. Interlúdio de íngreme esforço, sob a estranha sensação de que a família – e ela – já conheciam o desfecho, anunciado no fim daquela tarde. Recordo desenhar, nas montanhas banhadas em ocre pelo pôr-do-sol, o clima de festa – ou velório – em Porto Alegre.

No albergue, de embaçadas e silenciosas janelas, os amigos deveriam estar à espera. Não estavam, porém, nem na rua, nem na grande sala envidraçada. Eu caminhava e respirava em câmera lenta, como tudo ao redor: a lareira, a crepitar em tique-taque; a neve, a derreter nas botas; uma dúzia de luvas a secar, a acenar sobre o fogo. Aparece um dos amigos, dá a entender que não, depois que sim, que eu tinha sido aprovado. Surgem os demais, a tripudiar sobre meu desespero. Abraços, sinuca com reggae, cerveja para todo o albergue. Santiago brilhava lá embaixo. Era a segunda vez que eu passava pelo Chile.

Seriam quatro passagens em menos de seis anos. Em 2010 e 2011, parti de Porto Alegre para duas viagens de moto, uma em direção à Patagônia, outra ao Atacama, esta com direito a acidente e registro de renascimento. Naquela primeira, de navio de Puerto Natales até Puerto Montt, cruzara a Cordilheira em direção a Bariloche. No despertar da manhã seguinte, todos no albergue assistiam, mudos, à televisão. Um tremor alarmara os cachorros e os carros, pelo terremoto ocorrido no lado chileno.

Voltei em 2012, após dois anos na Guiné-Bissau. Em abril daquele ano punha os pés no país uma vez mais, a quinta desde 2005, dessa vez em definitivo – se é que existe algo definitivo na carreira diplomática. A tristeza da partida de Bissau era suportada pela alegria da chegada, nessa profissão feita de várias vidas, muitas mortes e tantos climas. A lareira de um pub, a contrastar com o calor subsaariano de poucos dias antes. As impecáveis ruas de Las Condes, com a dor pelo que se passava na Guiné, onde as eleições haviam sido interrompidas por um golpe de Estado.

O Chile mudara, assim como minha capacidade de compreendê-lo. A direita no poder, a política nas ruas: as manifestações gravadas nos muros e vidros quebrados da Embaixada, localizada em frente à Plaza Los Héroes, onde tradicionalmente se encerram os protestos. O Clinic buscado toda manhã de quinta, antes de descer para o metrô. Os chilenismos, aos poucos, mais fáceis de entender, assim como o sinuoso sotaque.

Foram intensas, as primeiras semanas. Shows de Bob Dylan e Fito Páez, as primeiras semanas em um hostel no Bellavista, em um hotel em Lastarria. Poucos dias após a chegada, fui protagonista de meu próprio esquete. O quarto a balançar feito barco, o barulho assustador dos subterrâneos. O manual de etiqueta sísmica manda permanecer imóvel, por isso não pensei duas vezes: desci correndo, sacudido pelas boas-vindas dos 6.4 graus na escala Richter. Acabei em plena Pio IX, rua da boemia turística, de cueca. Por sorte, uma samba-canção.

Naquele outono estreava No, filme sobre o plebiscito que pôs fim à ditadura, prelúdio da catarse do ano seguinte. Fez-se première especial para o movimento estudantil, com Gael García Bernal ciceroneado por Camila Vallejo, a famosa líder e musa universitária. A nova Embaixada trazia grande expectativa, com trabalho e circunstâncias distintas de um posto na África. Logo em junho, porém, fui convocado para trabalhar na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio+20, no Rio de Janeiro, o que adiou a adaptação do início da missão diplomática, fase de ambientar-se, de mapear contatos, contextos, caminhos.

As relações entre Brasil e Chile tinham grande força em áreas como comércio, investimentos, turismo, e aguardava-se definição sobre a possível candidatura presidencial de Michelle Bachelet. Em uma reunião sobre cooperação antártica na chancelaria local, no antigo Hotel Carrera, olho pela janela e revejo o ângulo da imagem do bombardeio do La Moneda.

Assim chegou o ano de 2013. Logo em janeiro, a Presidenta Dilma Rousseff viajou ao Chile para participar da Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), bem como da Cúpula CELAC-União Europeia. Na chegada, como de praxe, o Embaixador Frederico Cezar de Araujo aguarda na pista do aeroporto, os demais diplomatas em posterior fila de cumprimentos. Na manhã seguinte, a Presidenta reuniu-se com o Presidente Sebastián Piñera, no La Moneda. Então na equipe de apoio à imprensa, conheci alguns dos lendários corredores e salões do palácio, imaginando as cenas do 11 de Setembro, dos tantos livros que lera. Já as Cúpulas tiveram a movimentação típica de mandatários e autoridades, em meio à intensa agenda de reuniões de presidentes e de chanceleres. A Presidenta acabou por antecipar o retorno ao Brasil, por força do trágico incêndio ocorrido na boate Kiss, em Santa Maria.

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Idealizado como bloco de cristal a levitar sobre duas fontes, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos foi inaugurado na primeira gestão de Michelle Bachelet, em 2010. Sua posição de palco não parece acidental, distante que está do barrio alto. O exterior estampa a Declaração Universal dos Direitos Humanos, bem como a obra Al mismo tiempo, en el mismo lugar, inspirada no último poema de Víctor Jara, escrito na prisão, onde teve as mãos desfiguradas a coronhadas, para que nunca mais tocasse seu violão. Canto, qué mal me sabes cuando tengo que cantar espanto, dizia o verso.

O vão central traz fotografias de vítimas, a voz derradeira de Allende a ecoar pelas galerias, sob as silhuetas de Geometría de la consciência, obra que simboliza o infinito da perda de vidas humanas, tanto para os indivíduos como para a coletividade. A seção El dolor de los niños expõe cartas de filhos de desaparecidos. Uma menina pede à primeira-dama, Lucía Pinochet, que deixe o pai visitá-la na festa de aniversário. Outra menina desenha, diz ao pai estar obedecendo à mãe, comportando-se bem e estudando muito, assim ele não ficaria bravo quando voltasse para casa.

O cenário tem ainda, a poucos metros dali, o centro cultural Matucana 100, onde era montada La imaginación del futuro, peça que reencena o último discurso de Allende. Quando começa a falar – seguramente ésta será la última oportunidad en que pueda dirigirme a ustedes – é interrompido por seus assessores. “Está muito melancólico, Presidente, precisamos de algo mais animado”, diz um deles.

Retratado como frívolo, Allende é interrompido novamente quando diz que la historia es nuestra y la hacen los pueblos. “Não, Presidente, não, quem faz a história são os poderosos; nós, o povo, seremos massacrados impiedosamente”, diz uma inquietante voz infantil. Como teatro total, os atores trazem ao palco um menino de traços indígenas e pedem doações, única maneira de custear-lhe a universidade. Uma atriz insiste, pergunta a um dos presentes se ele contribuiria caso ela tire a roupa; tira a blusa, o sutiã, tenta aproximar os seios do rosto do atônito espectador, mas é contida por um colega.

O diretor questionava a responsabilidade histórica de Allende por forçar os limites institucionais da época. É um dos traços mais controversos do personagem, que tinha “o realismo político nos genes”, segundo o sociólogo Tomás Moulián. Certa vez, ao recordar ter sido expulso de grupo estudantil por ser contrário à criação de sovietes no país, Allende afirmou que “ser jovem e não ser revolucionário é até uma contradição biológica, mas ir avançando nos caminhos da vida e manter-se revolucionário, em uma sociedade burguesa, é difícil”, registrou o biógrafo Jesús Martínez.

A disposição para o diálogo, dentro dos marcos da chamada democracia burguesa, somada à negação do recurso às armas, gerou desconfiança em setores da esquerda sobre o comprometimento de Allende com o socialismo. Questionado por Régis Debray acerca dos que o acusavam de traição à causa, recorreu à sabedoria da antonomásia popular, recordando que o povo seguia chamando-lhe Compañero Presidente. Mostra ainda uma dedicatória de Che Guevara: A Salvador Allende, que por otros medios trata de obtener lo mismo. Afectuosamente, Che. “Por outros meios”, repete ao jornalista.

Há quem, retrospectivamente, considere incompreensível a pretensão de Allende de conciliar forças tão extremadamente opostas. Resistiu até o fim às pressões para aceitar a tese da inevitabilidade da guerra civil, alegando que a violência, uma vez desatada, não mais poderia ser controlada. “A contradição mais dramática de sua vida foi ser, ao mesmo tempo, inimigo congênito da violência e revolucionário apaixonado”, resumiria García Márquez.

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Los estudiantes chilenos, y latinoamericanos, se tomaron de las manos, cantava Víctor Jara nos anos 60. Tempo de efervescência nas universidades, com ocupações de reitorias, demandas por liberdade, confrontos com a polícia. Em 2011 os estudantes retomaram as grandes manifestações, dessa vez para protestar contra o custoso financiamento estudantil, dominado pela banca privada. Contestavam também a obtenção de lucro pelas instituições de ensino, vedada expressamente por lei.

Universitários e secundaristas questionavam ainda o papel subsidiário do Estado no sistema educacional, previsto na Constituição de 80 e mantido no pós-ditadura. Os atos ocorrem historicamente no centro, nunca no barrio alto ou no distrito financeiro, onde estariam os principais antagonistas dos estudantes. As chamadas marchas continuaram nos anos seguintes, e a cada uma delas éramos obrigados a sair mais cedo da Embaixada, situada em área de frequentes conflitos. Gás lacrimogêneo, depredações, ataques aos carabineros que faziam a guarda do Palácio Errázuriz, sede de nossa representação diplomática.

As marchas eram, antes de tudo, celebrações da vida. Ao componente político somavam-se bem-humoradas fantasias, cartazes, teatro de rua. Peças reais e também ocasionais, criação coletiva de impressionante sincronia na troca de cenários: uma dúzia de motos da polícia transitava em velocidade por rua deserta do centro, rua que ainda traz vestígios da chuva de papel picado de minutos antes, fruto da ovação da plateia que, das janelas dos escritórios, aplaudiu de pé as jovens de corpos pintados, que dançavam ao som de batucadas. Estudantes, mapuches, sindicalistas e trabalhadores do cobre reaprendiam a coreografia, juntos após quase quarenta anos, registrou um jornal. Uma menina, alheia ao aparato policial (já que de mãos dadas com a mãe), empunhava pequeno cartaz: marcho porque quiero ir a la universidad. Um casal idoso não se omitia: los abuelos apoyamos a nuestros nietos. Outra senhora ensinava: los cambios los hacen los pueblos, no los gobiernos – Salvador Allende. Logo atrás vem um dos tantos jovens que imitam o figurino do ex-presidente, com bigode e tudo, hypocrités que finge e faz reviver o personagem mitológico.

O dia começava pacífico, mas costumava encerrar-se com violência. Os estudantes alegavam ser vítimas de agentes provocadores e da repressão dos pacos e seus guanacos, como chamam pejorativamente os policiais e o carro lança-águas; a polícia culpava os vândalos, os encapuzados. Esses foram, certa vez, desafiados por uma anciã, quando tentavam destruir um sinal de trânsito. Sempre havia algo a lamentar. O espancamento de um policial, a queima de veículos, um idoso que perde o olho atingido por uma bala de borracha. A escalada da violência levou o Ministério do Interior a determinar que o Instituto Nacional de Direitos Humanos passasse a acompanhar as detenções de estudantes pela polícia.

Localizado em um antigo casarão em Providencia, o Instituto tem a custódia dos documentos relativos às violações de direitos humanos durante a ditadura, coletados pelas diversas comissões da verdade instaladas após a redemocratização. Roteiro do teatro da crueldade, levaram ao encarceramento de dezenas de militares e policiais, entre eles o general Manuel Contreras, ex-chefe da DINA – a polícia secreta da ditadura – condenado a centenas de anos de reclusão e a duas penas de prisão perpétua. Em visita ao Instituto, uma das funcionárias falou-me da frequência com que, nas visitas escolares, uma das crianças levanta a mão e diz yo también tengo un familiar desaparecido! Ela própria teve o avô preso em ilha no extremo sul do país, para onde foram mandados altos funcionários do governo Allende. O episódio foi retratado em Dawson Isla 10, de Miguel Littín, também ele exilado – nessa tragédia não há figurantes.

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Não existe diplomacia à distância. Entrelaçar os sinais dispersos, contextualizar entrelinhas e entreatos, compreender as falas, assimilar o roteiro. Todas elas tarefas do diplomata, que deve ter sensibilidade para identificar os matizes da sociedade onde passa a viver. Desafio que exige diversidade de fontes de informação – e de emoção. O diplomata é equilibrista em teatro circense: espectador, personagem, a dialogar com o elenco e frequentar as montagens. Exerce ainda o papel de crítico, obrigado a manter o distanciamento necessário para interpretar as indicações cênicas. Tudo isso fugindo constantemente de suas próprias afeições históricas, em nome da sagrada moderação.

Formar juízo equilibrado a ser transmitido a Brasília é desafio ainda maior quando da análise da política local, área em que passei a atuar naquele 2013, sob os ensinamentos do Embaixador Georges Lamazière. O Clinic era um dos meios para entender o sentimento dos setores progressistas, onde as nuances costumam receber tratamento mais amigável. O bar fica em um casarão neobarroco de 1925, localizado no bairro Bellas Artes. Em frente à entrada, um quadro-negro registra a frase del día, quase sempre um deslize político, assim como aquelas gravadas nas lápides do pátio interno, que trazem o ano da “morte política” de seu autor. No cardápio, inverte-se o lema pátrio: por la razón o la fuerza passa a ser por la fuerza de la razón.

As sutilezas da democracia chilena foram evidenciadas quando o Clinic recebeu, em sua edição de número 500, mensagens de felicitação de variadas figuras políticas, inclusive Evelyn Matthei e Andrés Allamand, os dois candidatos às primárias da Aliança, a coalizão conservadora tão satirizada pelo jornal. As provocações são constantes nas paredes: sabía usted que la derecha ama al país, pero no tanto los que viven en él?; inauguran tour con los éxitos de Pinochet – comienza en el Cementerio General. No segundo andar, um grande mural do palácio presidencial traz frase de um Allende recém-eleito: debo este triunfo al pueblo de Chile, que entrará conmigo en La Moneda.

O corredor de entrada era decorado, àquele ano, com capas antigas ou cartazes dos quadrinhos inspirados nas gafes do Presidente Sebastián Piñera, as Piñericosas, série que deu origem a best-seller de mesmo nome. Um dos mais famosos lapsos do presidente foi quando declarou, na ilha Robinson Crusoé, que o personagem de Defoe realmente lá vivera, “durante quatro longos anos, em uma história que fascinou o mundo inteiro”. Entrevistado por “Pato” Fernández, diretor do Clinic, Piñera mostrou espírito esportivo e declarou que o semanário, às vezes, “passava dos limites”, mas que a vida exigia amor e humor, um de seus bordões preferidos. Confidenciou, ainda, que suas filhas lhe haviam presenteado com o livro das Piñericosas… Criticado por setores à direita e à esquerda, foi Piñera quem promoveu importantes mudanças no financiamento estudantil, mitigando a supremacia dos bancos privados no sistema.

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A primavera é interlúdio que renova o cenário, que leva do Bellas Artes ao Bellavista, passando pelo cerro Santa Lucía, pelo Lastarria, onde morou Allende. Livrarias, cafés e bares, a arquitetura art decó, o cine arte do El Biógrafo, antigo teatro cujo mapa de assentos é uma pequena tábua de madeira. Da Plaza Lastarria ao imponente GAM, construído para uma reunião da Unctad em 1964, depois sede da Junta Militar, enquanto era reconstruído o La Moneda. Atravessa-se o Rio Mapocho pelo Teatro del Puente, literalmente uma ponte-teatro, pela Ponte Pio Nono ou pela Ponte dos Cadeados, arco de linda vista da cidade.

Logo no Bellavista, em La Chascona, casa-barco de Neruda um dia vandalizada por militares, hoje dos recitais de poetas iniciantes. A poucos metros La Casa en el Aire, da música chilena e latino-americana, do palco que reproduz, em pintura mural, o enorme semblante de Víctor Jara. Joaquín Figueroa cobra a esquerda e a direita, adaptando letras aos cânticos dos estudantes para expressar sua fúria contra ditaduras. Mexe com as mulheres, eleva o coro do bar, chama para a cueca, a dança típica chilena. Compañero Salvador Allende!, grita. Presente!, responde o público em uníssono. Rodolfo Plaza pede Papá cuéntame otra vez, recorda o “presidente louco que no La Moneda deu a vida”, recorda um país distante, mas que segue con los mismos muertos sin funeral.

Tudo tradução da inocência perdida em 1973, como lamentado pela dramaturgia de Patricio Guzmán em Nostalgia da luz. O documentário entrelaça céu e terra, relaciona a astronomia no Atacama com a busca de mães, esposas e filhas pelos desaparecidos no mesmo deserto, onde a ditadura espalhou ossadas. Uma astrônoma, criada pelos avós, vê nas estrelas o mesmo espírito de que foram feitos seus pais, nunca mais encontrados. Os telescópios buscam vida em outros planetas; as chamadas mulheres escavadoras, coveiras de seus amores passados, abrem a terra em busca de luz.

Maus presságios tivera Neruda quando, em 1969, Allende foi indicado candidato da Unidad Popular, a “UP”, às presidenciais do ano seguinte, na sede da Ação Popular Independente, não distante de nossa Embaixada. Quando Allende foi escolhido candidato de consenso, caminhou com os demais dirigentes para unir-se ao mitín, o comício que o Partido Comunista realizava naquele momento, e que acabou por ser o primeiro da coalizão com um candidato comum.

Nenhum dos amigos presentes no bar da casa de Isla Negra diria que Neruda “saltava de entusiasmo” ao receber a notícia pelo rádio de pilha, como conta Jorge Edwards, já que o poeta “vislumbrava o futuro com evidente preocupação”. Na mesma casa saberia ele do suicídio de seu amigo Allende, recorda Jon Lee Anderson em The Dictator, perfil de Pinochet feito para a New Yorker em 1998. Naquele ano, quando o golpe completava 25 anos, Anderson notou persistirem, irreconciliadas, “duas versões conflitantes sobre a história do Chile”. Um quarto dos chilenos reverenciava Pinochet, que seria “a mais rara das criaturas, um bem-sucedido ex-ditador”.

Em setembro de 2013, o número cairia para 8%, redução interpretada como efeito das sucessivas revelações sobre as atrocidades do regime, do reaprendizado da democracia, do polêmico enriquecimento da família Pinochet. Quarenta anos depois, Piñera, que ajudara a financiar a campanha do No para o plebiscito e falava de uma nueva derecha, faria bombástico discurso. Segundo ele, muitos haviam sido “cúmplices passivos” das violações de direitos humanos, entre eles a imprensa e o Judiciário.

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As temporadas sucedem-se, sem fugir do script, enquanto seguem vivas as controvérsias. La conjura (“A traição”), de Mónica González, detalha os mil dias da preparação do 11 de Setembro, período no qual “o sistema político estimulava as expectativas dos setores historicamente excluídos, enquanto o sistema produtivo era incapaz de satisfazê-las”, afirma Carlos Peña no prólogo. Edição revista e ampliada foi lançada em 2013, em um café de Providencia. O município foi governado, de 1996 a 2012, por militar acusado de participação em torturas, que teria prisão preventiva decretada em 2014. Prefeito quando da detenção de Pinochet em Londres, ordenou a suspensão da coleta de lixo nas Embaixadas do Reino Unido e da Espanha, também implicada no caso.

O Once, como o chamam os chilenos, foi retratado por Ignacio Camus em El día en que murió Allende. Reconstituição detalhada do último dia de inúmeros personagens, o livro conta a surpresa do Ministro da Educação, Edgardo Enríquez (avô do candidato presidencial Marco Enríquez), ante a brutalidade com que foi tratado ao ser preso. Um dos sobreviventes daquele dia seria o catalão Joan Garcés, ideólogo de Allende, que o ordenou a deixar o palácio por considerá-lo o mais apto para contar a história do período. Em Allende y la experiencia de la UP – las armas de la política (de 1976 e relançado em 2013), Garcés analisa a correlação de forças que levou à ruptura, dando luz aos debates teóricos no interior do governo. Para ele, a chamada “via chilena para o socialismo” teria sido “a experiência mais moderna de revolução anticapitalista”, por ter como características a plena vigência da democracia, do Estado de Direito e da liberdade de expressão, e por condenar a guerra civil como método para resolver as contradições sociais. Foi o advogado Garcés quem, em 1998, deu início à ação que levaria à detenção de Pinochet, pouco depois de Jon Lee Anderson escrever seu artigo.

O fim da inocência traria o choque de gerações, como retratado por Rafael Gumucio em La grabación, baseada na vida de sua avó, que recorda a época da “UP” como “muito divertida, de festa”, visão de uma peculiar cuica de esquerda – de cuicos, pejorativo usado pelos menos favorecidos em relação aos ricos. Los que nunca pierden, diz a neta ao cobrar da avó explicações pela catástrofe, como se o presente interrogasse o passado, ao som de Les amants d’un jour, de Edith Piaf.

As reminiscências estão em todas as vozes, ainda incrédulas. Seguem em busca de um final diferente; se não feliz, de compromisso. Muitos tentaram convencer Allende a aceitar a rendição e o exílio (o avião “depois cairia”, como ouvido nas conversas entre os golpistas). Conta Camus que Allende já definira seu próprio destino, “por respeito ao povo” e não “por vocação de mártir”. Por não se ver no exílio “pedindo ajuda para algo que não soube defender ou que não estive disposto a defender até as últimas consequências”. E, ao mostrar a taça de licor e a fina jaqueta, complementaria: “não é que eu não ame a vida, mas entendo que há coisas superiores a ela, e se houver um golpe virá uma etapa muito dura, muito longa, e eu, por minha idade e meus hábitos, não serviria para uma resistência clandestina”.

Nicanor Parra satirizou tais hábitos com um verso: “Presidente! O país está que naufraga, e o senhor provando jaquetinhas!/ Jaquetinhas? Toque! São de camurça legítima!”.

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El pueblo, unido, se caga en los partidos, diz um pichador na fachada da ex-sede do Senado, ao lado da Embaixada. Recordaria da estranheza com que, em 2005, ouvira o presidente Ricardo Lagos apelar à população para que evitasse atos de violência na madrugada do Once, o que ocorria todos os anos nas comunas menos ricas de Santiago. Já nas mais ricas, um estudante de medicina vociferou ao ser perguntado sobre Allende. A trama seria sempre de difícil compreensão. Minha mãe gostou de ter visto idosos trabalhando na limpeza das ruas, “sinal de que recebiam oportunidades de trabalho”. Já os funcionários mais velhos da Embaixada lamentaram a reforma previdenciária de 1980 (obra de José Piñera, irmão do Presidente), que privatizou a seguridade social e tornou opcional a contribuição previdenciária (voltaria a ser obrigatória em 2015). Com baixos salários, muitos acabaram sem aposentadoria.

A lógica privada aplicava-se também à educação, à saúde, aos serviços públicos em geral. A segunda candidatura de Michelle Bachelet causou impacto ao questioná-la expressamente, propondo três reformas estruturais: a constitucional, a tributária e a educacional. O programa foi recebido com ceticismo por parte da esquerda, refratária aos governos da Concertación, coalizão que governou o Chile entre 1990 e 2010. Outro tema de constante debate, como questiona Fernando Atría, da equipe de campanha de Bachelet, em Neoliberalismo con rostro humano: a Concertación “administrou” o modelo de Pinochet, moderando-o com maiores preocupações sociais, ou pouco fez, sendo apenas parte do triunfo do neoliberalismo no país?

Para Alfredo Letelier, no pós-ditadura passou-se do “avançar sem negociar” – avanzar sin transar, lema de parte da “UP” – ao “negociar sem parar”, como diz no subtítulo de El Chile perplejo. A Constituição de 1980, pensada para que a minoria de direita mantivesse poder de veto após a redemocratização, criou um sistema de “empate”, de um país incapaz de sair do lugar. Em El pacto, Claudio Fuentes afirma que esse sistema foi mantido com a reforma constitucional de 2005 – que, entre outras coisas, retirou a assinatura de Pinochet da Carta. O novo texto teria cristalizado o condomínio de poder das duas coalizões, bloqueando a possibilidade de novas reformas e causando a atual crise de representatividade.

Assunto que era frequente em festas, jantares, encontros familiares – os camarins da peça. O que cada um havia feito antes, depois do golpe; como se exilaram, como votaram no plebiscito; as inconclusas discussões sobre o que poderia ter evitado a tragédia. Para um ex-deputado, a legislatura no início dos anos 90 foi sua primeira e última experiência, porque o sistema não permitia avanços, afirmou ele em um jantar na casa de Antonio Skármeta, autor do livro que deu origem a O carteiro e o poeta.

Lá estavam bailarinas, escultoras, artistas vários, com sonoplastia da milonga de Killy Freitas, gaúcho que musicava Poeta casamentero, de autoria do anfitrião. Muitos dos presentes eram céticos quanto à possibilidade das mudanças defendidas por Bachelet. Uns anotariam “AC” em sua cédula de votação, em apoio à campanha por uma Assembleia Constituinte. Outros discordavam da estratégia de parte da esquerda, de viés anarquista, a qual fazia a campanha Yo no presto mi voto, defendendo o boicote ao sufrágio. O segundo turno teve 59% de abstenção e 8% de “AC” nas cédulas.

Parra, o antipoeta, pairou sobre as polêmicas ao reler dois gritos tradicionais. La derecha y la izquierda, unidas, jamás serán vencidas!, porque El pueblo, unido, se va a Estados Unidos!, disse ele.

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Reñaca é uma pequena praia próxima a Viña e Valpo, espremida entre o mar e a encosta. Silhuetas de leões marinhos davam contorno ao entardecer, ao lado de uma universidade “tomada” pelos alunos. No al lucro!, dizia a faixa pendurada no portão obstruído por classes. Voltava ao hotel quando li, “manifestantes tentam incendiar Itamaraty”, dizia a manchete. Mesmo habituado às manifestações no Chile, era impossível não receber com choque a notícia, ainda mais dolorosa à distância.

Em Santiago a comunidade brasileira organizou seu próprio ato em frente à Embaixada, que acompanhei junto a outro colega, no início da manhã de um enregelante sábado. Saí pelo portão lateral e passeei, anônimo, entre os cerca de trezentos manifestantes, que promoveram encontro pacífico, com cartazes que exigiam padrão FIFA ou faziam pedidos de trégua. “Senhor Feliciano, não seja rancoroso”, dizia um deles, em referência às polêmicas na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

Ao diplomata cabe representar o país e atender a cidadãos e autoridades brasileiras. Senadores, professores, deputados, acadêmicos, prefeitos, ministros do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal passaram pela cidade. Lá esteve o então governador de minha terra natal, Tarso Genro, que foi recebido no La Moneda pelo Presidente em exercício, Andrés Chadwick, da UDI, principal partido conservador. A sala de audiências, de alto pé-direito e sóbria decoração, continha duas grandes telas, reprodução de fotografias de Luis Poirot. Em uma delas, Allende saúda o povo de uma sacada do La Moneda; na outra, o mesmo lugar, destruído pelos bombardeios do 11 de Setembro.

No mesmo dia estava em Santiago o Professor Marco Aurélio Garcia, assessor internacional da Presidência da República. Contou histórias do período em que viveu no Chile, entre elas o testemunho da histórica – e para muitos trágica – visita de Fidel Castro ao país em 1971. “Assisti com minha esposa ao discurso que ele fez no Estádio Nacional, mas saímos mais cedo, tínhamos um show do Astor Piazzola”, disse, ao convidar-me para assistir a Chile e Colômbia pelas eliminatórias da Copa. Recusei o convite, explicando que desta vez nós é que tínhamos concerto, noite de Shostakovich no Teatro Universidad de Chile. “Procura a Valsa n. 2 dele, está na trilha do De olhos bem fechados, o último do Kubrick”, despediu-se o Professor.

* * *

Poucas noites foram tão tensas quanto aquela em que se iniciou o fechamento do Penal Cordillera, presídio especial para militares condenados por violações de direitos humanos. Um dos presos cometeu suicídio antes da transferência para outra unidade, gerando revolta da extrema-direita contra o Presidente Piñera, autor da ordem. O drama foi o pano de fundo para a crise do principal partido conservador, a UDI, que mudou duas vezes de candidato às primárias da coalizão. O primeiro deles desistiu, após notícia de que mantinha conta nas Ilhas Virgens; o segundo renunciou, por depressão, dias após ser injustamente acusado de mentir que votara no plebiscito de 1988. Optou-se, finalmente, por Evelyn Matthei, que gerou o surgimento de vídeos, nas redes sociais, que a mostravam participando de sit-in pela libertação de Pinochet, em frente à Embaixada do Reino Unido, em 1998.

A extrema-esquerda, por sua vez, mantinha-se irredutível na rejeição da política de los consensos, en la medida de lo posible, aspectos que marcaram o pós-ditadura. Fiéis à lógica maximalista, não transigiam com o modelo neoliberal, com o Chile S/A, como dizia uma pichação no bairro Paris-Londres, a poucos metros de antigo centro de torturas, hoje um museu. “O Chile é a Coreia do Norte do capitalismo”, dizia um analista na capa do Punto Final.

Apesar da descrença desses setores, a campanha insinuava mudanças sensíveis, com nove candidatos e pluralidade de visões. Além das duas coalizões tradicionais – a Alianza de Matthei e a Nueva Mayoría de Bachelet – havia ambientalistas, empresários, ativistas sociais, professores. Todos tiveram voz nos debates do primeiro turno e igual tempo no horário eleitoral, ainda que o espaço na imprensa tenha sido menos proporcional.

A diversidade traduzia a ausência de consenso em diversas áreas. Enquanto uns recordavam a expressiva redução da pobreza desde o fim da ditadura (de 50% para 15%), outros diziam que a maioria vivia com salário mínimo, que 0,1% detinham boa parte da renda nacional. Havia quem falasse dos sempre movimentados shoppings (“los mall”) e do PIB per capita de quase 19 mil dólares (o maior da América Latina), mas funcionários chilenos da Embaixada riam (no me avisaron, no sé donde está mi parte!). As estradas são excelentes, o metrô melhor que muitos da Europa. As cidades são limpas, há umas tantas estações de esqui. Muitos reclamam, porém, dos pedágios, da lotação do “metro”, da falta de áreas verdes nas comunas pobres, de que nunca terão dinheiro para esquiar. A percepção de segurança ia bem no barrio alto, mas aqueles mesmos funcionários queixavam-se de que em suas comunas a delincuencia era cada vez maior. Um taxista queixou-se a amigo meu, quando o trazia para minha casa, “veja, aqui tem mais polícia do que gente, lá embaixo é que nós sofremos, weón”, disse ele, usando o onipresente vocativo local.

O debate eleitoral concentrou-se, na maior parte, em dois temas fundamentais, a desigualdade e a criminalidade. Temas constantemente assediados, porém, pelo drama subjacente do aniversário do golpe, com os candidatos polemizando sobre diferenças terminológicas – “ditadura” ou “governo militar”? Nos debates, uma ativista por moradias, que bordara seu próprio vestido, afirmou que nenhum de seus contendentes conhecia a saúde pública, por nunca usá-la, por não saber que na periferia os dentistas usavam Super Bonder para literalmente “colar” os dentes dos pacientes. Como diria “Pato” Fernández no lançamento de um livro, era inegável que a economia cresceu e produziu muito nos últimos anos, a questão era discutir como os benefícios estavam sendo divididos entre os cidadãos.

Em meio a tudo isso estrearia o novo filme do comediante Stefan Kramer, Ciudadano Kramer, um toque burlesco à tragédia. No filme, paródia do cenário político, o protagonista faz imitação de Piñera, de políticos, de jornalistas, muitos deles presentes na estreia. Era o que comentávamos nas mesas do Torres, restaurante mais antigo do país, próximo à Embaixada. Em suas paredes de madeira são exibidas fotos de todos os presidentes chilenos – exceto Pinochet.

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“Vieram conhecer a próxima presidenta do Chile?”, perguntou o funcionário da TVN , a mim e à Diplomatriz, ao conduzir-nos para a plateia de El Informante, programa da televisão estatal. Michelle Bachelet entrou no estúdio com passos curtos e serenos, cumprimentando a todos de maneira simpática. Falou de uma nova Constituição, de um novo sistema educacional, de novos parâmetros de tributação das empresas – o país tinha uma das menores taxas impositivas do mundo. Seu programa de governo proporia a criação de uma administradora pública de pensões, pois só havia privadas; uma reforma trabalhista, garantindo o direito de greve e de sindicalização, pois o empregador podia substituir imediatamente o grevista; mudanças na lei do aborto, para permiti-lo em casos de estupro, pois o país tem uma das legislações mais rígidas do planeta; na política externa, daria prioridade à América do Sul.

Boa parte do eleitorado seguia cética quanto às promessas da candidata, refletindo o que se convencionou chamar de “mal-estar chileno”. Pesquisas apontavam que os cidadãos estavam felizes consigo próprios, mas pouco confiavam nos demais ou nas instituições. Em El malestar de Chile, Oppliger e Guzmán questionam, sob viés conservador, se tal percepção era correta, se existia realmente “uma confluência real de fatos que justificasse sustentar que as pessoas estão pedindo uma mudança radical nos modelos econômico e político”. Para eles, tratava-se de visão ideológica. Questionada sobre o tema, Bachelet afirmou que parte desse mal-estar referia-se à crise da representatividade da classe política e das instituições, ao fato de o país encontrar-se em “uma encruzilhada para melhorar a igualdade e a justiça social”, como diria posteriormente.

Uma de suas propostas mais ambiciosas era a alteração do sistema eleitoral, o chamado “binominal”, tipo de voto distrital que favorecia as duas coalizões e, principalmente, a direita. Bachelet também propunha a revisão do papel dos municípios na educação, parte da redistribuição de competências iniciada pela ditadura, que via na ação política a causa da polarização que levou à ruptura de 1973.

A alcaldización (municipalização) da política – título de obra de Verónica Zárate – limitou a participação a temas restritos, “do cotidiano” (como limpeza urbana), com o propósito de conter o debate democrático, o que resultou na perda da perspectiva global pelos cidadãos, bem como na ruptura dos partidos com sua base social. A limitação das competências municipais foi mencionada pela Alcaldesa de Santiago-Centro, Carolina Tohá, em reunião com prefeitos da Serra gaúcha na prefeitura, construção histórica de 1785 localizada na Plaza de Armas. Carolina, filha de José Tohá, ex-ministro de Allende enviado para a Ilha Dawson e estrangulado, em 1974, em um hospital militar.

* * *

Ainda faz frio no inverno chileno. A sala escura do GAM é iluminada por um violão, por um violino que, suavemente acariciados, recordam a melodia de La partida. Saudosismo do tempo da inocência, nostálgico arranjo subitamente rompido com a ruidosa entrada do elenco em cena. Dezenas de atores e atrizes descem as escadarias de um lado e de outro, dançam, batem palmas, tambores e pandeiros, cantam felizes acompanhados pelo público, mi canto es un canto libre que se quiere regalar, mi canto es una paloma que vuela para encontrar

É o musical Víctor sin Víctor Jara, é noite de 15 de setembro, quarenta anos da morte do cantor. Ele ressurge como jovem, como mulher, como desaparecido. O coro deixa o palco em direção à Alameda, empunhando velas e celebrando sua vida, pois el canto tiene sentido, cuando palpita en las venas, del que morirá cantando, las verdades verdaderas. No palco, um ator com familiares desaparecidos. Meses antes a Justiça determinara a prisão de seis oficiais investigados sobre o crime. “Veja minhas mãos, esmagaram-nas para que eu nunca mais toque meu violão”, teria dito Jara a um companheiro de cela, horas antes de morrrer. “Oh, meu Deus, isso é como matar um rouxinol!”, teria declarado Neruda ao saber de sua morte.

O golpe causaria uma fratura social por mais de um século, profetizou Carlos Prats, antecessor de Pinochet assassinado pela DINA. Dois deputados da UDI protestam contra minuto de silêncio em homenagem a Allende, “o covarde que se suicidou”, diz um deles. As exumações de Allende e Neruda são repetidas. No Cemitério Geral, o mausoléu do ex-presidente não longe de Jara, tão próximo do Exército e de Jaime Guzmán, enquanto mais de mil violonistas tocam diante das arcadas, em fins de setembro, no Mil guitarras para Víctor Jara. Na Embaixada, dois antigos funcionários: uma se autodeclara pinochetista; outro conta de sua fuga para a Argentina após o golpe. Em Chile vs. Uruguai pelas eliminatórias da Copa, parte da arquibancada original é preservada, em recordação aos mortos e torturados no Estádio Nacional.

O jornal Clarín, símbolo da esquerda pré-73, retorna em edição especial, com o slogan adotado pelo Clinicsiempre junto al pueblo. A Avenida Once de Septiembre volta a chamar-se Nueva Providencia. Miguel Littín começa as filmagens de Allende en su laberinto. Um septuagenário brasileiro, ex-sindicalista exilado e expulso do país em 73, viaja a convite do Museu da Memória e tem sua entrada negada, por pendências do antigo decreto de expulsão. O site de relacionamentos Ashley Madison pergunta às chilenas: quem escolheriam para um caso, Allende ou Pinochet? O que pensariam eles ao se verem estampados em outdoor, no caminho do aeroporto, com a chamada da pesquisa (Unidos por la Infidelidad)? Allende venceria com 67%, larga vantagem em estranha revanche.

Bachelet vence as eleições. As líderes estudantis Camila Vallejo e Karol Kariola, outrora refratárias a qualquer acordo, elegem-se deputadas pelo Partido Comunista, que volta a integrar uma coalizão de governo – após quarenta anos. A Senadora Isabel Allende, filha do ex-presidente, passa a presidir o Senado, como fizera seu pai. Na Embaixada, a análise enfoca a composição do novo Congresso, que indicará os rumos do país, a viabilidade das reformas. “Que tenhamos uma nova Constituição! Nascida em democracia, que assegure mais direitos, que garanta que no futuro a maioria nunca mais será calada por uma minoria!”, declara Bachelet em seu discurso da vitória, em plena Alameda.

Voltamos aos estúdios da TVN para o especial sobre as eleições. No coquetel, o mesmo contrarregra faz um aceno de cabeça, recordando a previsão. O casal de apresentadores irrompe no estúdio ao som de Wake Up, do Arcade Fire, e provoca ao debate os cerca de trinta convidados – candidatos, congressistas, prefeitos, acadêmicos, líderes estudantis, de movimentos sociais. Um colunista teme, alerta que o novo governo buscará o socialismo, como fez Allende. Muitos riem.

Dias depois, pouco antes do Natal, somos os únicos estrangeiros em uma festa de aniversário. “Este meu primo”, aponta o aniversariante, “foi do Patria y Libertad” (grupo paramilitar de direita que apoiou o golpe). O indicado confirma, “mas era muito jovem, depois do golpe virei hippie e fui para o Brasil”. Outro recorda a uma convidada, “seu avô foi um insigne fascista”. “Mas não apoiou o golpe!”, contesta ela. O mais idoso dos casais veste-se à antiga, ela fala pouco, ele fez carreira na ONU. A esposa, no que parece ser seu papel, insiste para que ele conte. Que foi o emissário da “UP” na contagem dos votos da eleição de 1970, no La Moneda. “Telefonei a Allende, disse que parecíamos ter maioria, mas estava difícil, e ele me disse algo que nunca esquecerei: ‘Compañero, sua missão é garantir nossa vitória!’. Evitada qualquer fraude, telefonei a ele com a maior alegria da minha vida!”, disse, emocionado.

* * *

Os gregos acreditavam sair purificados do teatro, após testemunharem o sofrimento do protagonista. Com ele se identificavam, nele reconheciam a consciência do destino trágico, do qual também não poderiam escapar. Cioso de seu papel, Allende discute com a filha. Critica a todos, idealiza soluções que contrariem a inelutável desventura humana, a inglória luta contra a força que impede ao homem superar sua mortalidade.

Allende capitula. Sucumbe ao choque de elementos inconciliáveis: a peripécia da ação que gera resultado oposto ao pretendido; a ironia do destino, do herói que vê seu plano frustrado. Aceita e confessa seus erros, em busca de redenção. Agradece ao povo pela lealdade e confiança “em um homem que somente foi intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra de que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez”.

Allende chora. Chora sua filha, que em breve cometerá suicídio em Havana. Chora sua companheira, cujo filho desaparecerá em algumas horas. Choramos todos, cientes de que essa tragédia trilhará longo caminho até a catarse, em longos ciclos de compaixão e terror. Sucessivos ciclos de dúvida: terá ele cometido pecado de orgulho e vaidade, erro fatal merecedor de tal castigo?

Coro emudecido, esperamos, quatro décadas depois, o golpe de teatro, o imprevisto que mude a trama, que equilibre a luta que perpassa o tempo. Allende não foge, não recusa o sacrifício para o qual tanto ensaiou. Como herói trágico, sabe-se culpado-inocente, acredita ter procurado o bem. A tensão desemboca na transformação repentina do personagem, que adota, durante o solilóquio final, postura de mártir corifeu, ciente do efeito que causará no público por anos e anos. Despede-se. “Seguramente a rádio será silenciada, e o metal tranquilo de minha voz já não chegará a vocês. Não importa. Seguirão ouvindo-a”.

* * *

O verão ilumina a cidade, acelera o degelo do tempo. Traz ano novo, traz Paloma, que nasce dias depois. Estamos de malas prontas, uma vez mais. O agradecimento aos colegas de Embaixada, a honra do almoço oferecido pelo Embaixador. Amigos que ficam, que chegam, a quem invejo pelos encantos e contradições que ainda sentirão. Sobre o que vi não faço crítica, por amor ao ofício, por respeito aos matizes. Que a tragédia seja gênero em desuso, que os chilenos e chilenas possam superar os traumas o quanto antes. Pesquisas diziam que eles pouco confiavam nos demais, ou nas instituições. Um comercial de café convidava a que fossem mais alegres, mais brasileiros, mais brachilenos. Talvez a catarse ajude, não sei. Yo por mi parte só tenho a agradecer. La pasé la raja, weón!, como diriam eles.

Pensava estar pronto para novas partidas, após deixar Bissau. Era muito mais que isso, porém. Despedia-me de mim mesmo, da versão mais jovem iniciada naquele 2005, que chegara com uma mochila e saía, dez anos depois, com uma paloma. Dizia adeus ao país onde me fiz sul-americano, diplomata, pai. Brachileno. Contemplamos a casa vazia, livre para que uma próxima trupe idealize sua própria mimese. Giro a chave como quem fecha um baú de recuerdos, sabedor de que serão outros, quando revisitados. Quero guardar a cor das lavandas, o cheiro da manhã trazido pelos Andes. Traduzir-lhe, a ela que ainda não faz ideias, a grandiosidade da paisagem, do condor que voa em nossa última foto, em sereno vislumbre de todo o cenário.

Panorama que começa a delinear-se na janela do avião. O Chile, o Atacama, a Patagônia. As tantas trilhas de um lado a outro da montanha, os tantos poemas que agora dão vida e sentido ao mapa. Que fica mais nítido enquanto Santiago se distancia, distancia, distancia, até que o avião faz a curva para a esquerda e atravessa, para sempre, a Cordilheira. Contenho os soluços, nada ouço. Já não diferencio as batidas de coração, se minhas ou da niña que dorme aconchegada em meu peito. Pulsam ao compasso do tambor de La Partida, ao dedilhar do onírico charango que nos leva para longe. Olho para trás, vejo Santiago, vejo as épocas e versões que se entrelaçam enquanto rompemos a quarta parede, a imaginária parede que separa o palco da plateia.

 

REFERÊNCIAS

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Uma resposta para A Tragédia Chilena

  1. CATARINA ARAGÃO disse:

    Lindo! Que texto lindo!

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