GU x Rollers, o clássico dos clássicos

O futebol de Botsuana – por que não? – também tem o seu “clássico dos clássicos”, ou, como se ouve aqui, “the mother of all derbies”: Township Rollers x Gaborone United. Os dois são times tradicionais de Gaborone: o áureo-cerúleo Rollers foi fundado em 1965, o alvirrubro GU, em 1967. A fundação de clubes de futebol, àquela altura, era mais um produto das grandes transformações por que passava Gaborone, vila empoeirada que deveria rapidamente se tornar cidade, escolhida que foi para ser a capital da República de Botsuana, a que ascendeu em 1966, com a independência, o Protetorado de Bechuanaland, governado pelos britânicos desde Mafeking, na África do Sul.

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O Township Rollers surgiu como clube dos funcionários do “Public Works Department”, sendo o nome “Rollers” uma alusão aos rolos compressores utilizados na construção das ruas de Gaborone . No seu escudo consta também o traçado do novo centro da cidade, cuja edificação estava a cargo daqueles trabalhadores-futebolistas. O Notwane, outro clube tradicional, fundado, como os Rollers, em 1965, apareceu como alternativa menos elitista ao Gaborone Club, clube social frequentado pela comunidade de expatriados que aportavam na futura capital.

GU e Rollers são, juntamente com o Mochudi Centre Chiefs, da vizinha Mochudi, e a BDF XI, de Gaborone, as principais forças do futebol botsuanês. Os Chiefs venceram as duas últimas edições do campeonato nacional, a “Botswana Premier League” (BPL); são um time identificado com a tribo Bakgatla, presente em Botsuana e muito influente na lindeira Província do Noroeste, na África do Sul. BDF XI é o time do exército, a “Botswana Defence Force”; com poucas exceções, seus jogadores são militares, dedicando-se ao futebol quando não estão “on duty”.

Com os Chiefs, Rollers e GU são os mais profissionais entre os times que assim se dizem em Botsuana – a profissionalização do futebol é ainda um “work in progress” no país, razão pela qual deve ser entendida com ressalvas (há poucos dias, jornal local estampava na capa a notícia de que a van dos Chiefs havia sido penhorada, pois a direção não pagara os emolumentos devidos a um feiticeiro que obrava para os sucessos do time). GU e Rollers contam com um homem forte, que lhes proporciona razoável saúde financeira. Possuem sede própria, conquanto lhes falte estádio próprio. Infelizmente, ainda treinam em campos de terra batida.

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O Flamengo de Botsuana, pelo tamanho da sua torcida, os Rollers são também o maior em número de títulos nacionais, tendo triunfado onze vezes na BPL, disputada desde a independência. O GU tem no armário seis troféus do campeonato (um a menos que a BDF XI, segundo maior ganhador).  Grandes em Botsuana, fora das fronteiras não gozam de projeção.

O futebol é, com larga vantagem, o principal esporte de Botsuana. Em 2012, os Zebras, apelido da seleção nacional, alcançaram o maior feito da sua história, a classificação à Copa Africana de Nações, disputada no Gabão e na Guiné-Equatorial. A sensação era de que um novo período do futebol botsuanês se descortinava, no qual os Zebras passariam a ombrear com os grandes do continente. O time, porém, acabou derrotado nas três partidas da fase de grupos, e, desde então, o escrete botsuanês acumula insucessos. Não se classificou para a Copa Africana deste ano, na África do Sul, nem para as “finais” da Copa do Mundo do Brasil (os jogos das eliminatórias são em Botsuana tratados já como jogos de Copa do Mundo). O treinador botsuanês dos Zebras, antes herói pela classificação à Copa Africana, foi não faz muito despedido, imensamente desgastado. Mais do que com a seleção nacional ou os times locais, a vinculação principal do botsuanês médio apreciador do futebol parece ser com a “Premier League” inglesa.

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Em uma quente e nublada tarde de sábado de outubro, em que a tão aguardada pula (chuva, em setsuana) só ameaçou, GU e Rollers duelavam em partida válida pelo primeiro turno da BPL 2013/14. O jogo era disputado no estádio da Universidade de Botsuana, pois o bonito Estádio Nacional – detentor de lugar especial no coração dos botsuaneses, palco da cerimônia de independência – encontrava-se fechado. O GU vinha para o jogo sob pressão, pela fraca campanha no campeonato, e os Rollers, com a esperança de aproximarem-se do topo da tabela.  Recentemente, representantes das duas agremiações compareceram a coquetel oferecido pela Embaixada para abrir exposição de fotos sobre o futebol brasileiro. Em conversa animada, que não sugeria estar-se diante da maior rivalidade do país, o Major Bright, técnico do GU e figura célebre do futebol botsuanês, conhecido tanto pela competência como pela boina que costumeiramente traz à cabeça, discorria sobre o curso para treinadores que frequentara no Brasil; o Sr. Somerset, diretor dos Rollers de fala tranquila, referia-se com orgulho ao seu novo atacante, joia recém-chegada da Namíbia.

O estádio da Universidade, que senta 8 mil pessoas, estava praticamente cheio, rara aglomeração de público em uma país repleto de vazios na paisagem. Aqueles que diziam que os Rollers arrastavam multidões estavam certos: mesmo sendo o GU o mandante,  o estádio vestia-se predominantemente de amarelo e azul. O clássico era um evento de locais, em que, nas conversas, nos cânticos e nos xingamentos, só se ouvia o setsuana. O treinador sérvio dos Chiefs foi facilmente identificado em uma das arquibancadas, espreitando os Rollers, seu adversário da semana seguinte.  O Major Bright, surpreendentemente, não portava a sua boina, mas terno e gravata, sem faltar o escudo do GU sobre o bolso.

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Engajadas no jogo, as duas torcidas participavam, embora não faltassem os personagens exuberantes, estranhamente fantasiados, que, em transe, ficam a cantar e dançar, sem muito se importar com o campo. Os Rollers haviam inaugurado o placar cedo no jogo, pelos pés de Jerome Louis, a joia namibiana do Sr. Somerset, e, com aquele resultado, a possibilidade de o Major Bright perder o emprego, aventada nos jornais, era real.  O jogo já se encontrava nos descontos, e um daqueles personagens, torcedor-profeta dos Rollers, abordava os presentes, apontando para certo trecho da sua bíblia em setsuana, como a dizer que a vitória estava escrita. Nesse instante, foi contradito pelo GU: no apagar das luzes, 1×1, placar final.

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Câmbio

Eis que vou comprar lentes de contato.

_ 3 pares, Sr.?
_ Sim, 3 pares, por favor. Quanto custa?
_ 660.
Fico meio ressabiado. Pô, no Brasil eu pagava quase 200 paus e achava caro! Vamos tentar abater a pancada.
_ Um par só. Sabe como é, não estou acostumado com essa marca, vou testar.

Aí cai a ficha: “660 coroas tchecas! Você não está fazendo o câmbio! Divida por 10 para ter o preço em reais, seu gênio.”

Pois é, cada par de lentes por vinte e poucos reais! Nada mal…

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Índia e Paquistão: a fronteira da meia-noite

Na obra-prima do realismo fantástico indo-britânico, Os filhos da meia-noite, Salman Rushdie narra as desventuras telepáticas de um homem nascido no instante exato da independência indiana, no primeiro minuto de 15 de agosto de 1947. É um rebento de hindus pobres, mas será erroneamente criado por uma rica família muçulmana, pois foi trocado na maternidade. Esse engano original determinará os destinos de Salim Sinai, o protagonista que contém a Índia inteira em si.

Há um equivalente geográfico para a metáfora de Rushdie sobre as identidades tragicamente paradoxais do subcontinente. Trata-se da fronteira de Wagah.

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Não fosse por um acidente histórico, Wagah seria apenas mais um entre os centenas de povoados multicoloridos do Punjab, a fértil província indiana dos cinco rios.

Mas o acidente ocorreu. E continuou ocorrendo, com violenta teimosia.

Graças à partição caótica de 1947 e às guerras fratricidas das décadas posteriores, Wagah é hoje a única passagem aberta nos três mil quilômetros da linha imaginária que une e separa Paquistão e Índia.

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A cada amanhecer, centenas de ônibus e caminhões psicodelicamente decorados percorrem a Grand Trunk Road e atravessam a divisa em Wagah. Transportam gado e gente, badulaques e preciosidades, histórias e lembranças.

A cada anoitecer, porém, Wagah se transforma em palco. Começa um dos espetáculos mais inusitados da política internacional: a extravagante cerimônia militar de fechamento da fronteira indopaquistanesa.

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Os atores dessa ópera bufa são soldados em trajes de gala, medalhas no peito e penugens no cocoruto. Os paquistaneses vestem preto, os indianos marrom. Todos portam barbas ou bigodes imponentes e são pelo menos vinte centímetros mais altos que a média do subcontinente.

Sob as ordens de seus comandantes, os estóicos guardas gesticulam, rosnam, esbravejam, desfilam e chutam o céu. Seus extraordinários passos de ganso são bastante sugestivos para os admiradores de Monty Python.

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O desfile militar é acompanhado com idêntico fervor nas duas metades do anfiteatro geopolítico de Wagah. Mas há diferenças entre as torcidas organizadas dessa final de um campeonato que nunca termina.

Nas arquibancadas indianas, a multidão de espectadores é amorfa: nada separa locais de estrangeiros, mulheres de homens, crianças de idosos, sábios de tolos. Já no lado paquistanês, impera uma rígida divisão por gêneros, e os raros forasteiros são instantaneamente abrigados na fileira VIP.

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Em ambos os lados da linha invisível, eufóricos incentivadores de torcida galvanizam a plateia com gritos-de-guerra patrióticos.

O tradicional e laico Hindustan Zindabad é o favorito dos megafones indianos.

Já o público paquistanês prefere uma profissão de fé: quando o animador lhes pergunta Pakistan ki matlab kiya? (“Qual o significado do Paquistão?”), a resposta é uníssona: La ilaha Illallah! (“Alá é o único deus!”).

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A cerimônia é animada e intensa, mas curta; dura menos de meia hora. Minutos antes do anoitecer, e em perfeita sincronia, a alviverde paquistanesa e a tricolor indiana descem de seus mastros. Os espectadores lentamente retornam a suas casas.

Até a manhã seguinte, não haverá nenhuma fresta aberta para o tráfego entre os dois rivais-irmãos nucleares da Ásia Meridional.

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A cerimônia de Wagah se repete diariamente, quase sem alterações, há pelo menos meio século. Ocasionalmente, a Índia convoca soldadas femininas para fechar a fronteira, o que jamais acontece no outro lado.

O trunfo dos paquistaneses era diferente: um velhíssimo animador de torcidas chamado Mehar Din, pequenino e carismático como um gnomo ufanista. Seu apelido era Chacha Pakistan (“tio Paquistão”). Todo dia, sob sol ou chuva, o cheerleader mais idoso do mundo comparecia a Wagah para agitar fervorosamente a flâmula de um país muito mais jovem que ele próprio. Tornou-se ícone nacional.

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Chacha Pakistan faleceu no ano passado, aos 90 anos. Sua família não tinha dinheiro para interná-lo no hospital de Lahore.

A bandeira que dava sentido a sua vida também lhe serviu de mortalha.

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Mudanças

Ontem me mudei. Entrei no apartamento que aluguei em Praga e que, espero, será minha casa pelos próximos três anos.

De frente para o espelho, fui tirando os itens de higiene pessoal da nécessaire e guardando no armarinho do banheiro. Foi aí que caiu a ficha, cheguei! Depois de quase dois meses de malas e quartos de hotéis, tendo de desempacotar e reempacotar tudo a cada par de dias, finalmente tenho, outra vez, um lugar para chamar de casa. Fiquei feliz.

Mudanças fazem parte da minha vida. Como na música da Legião, ‘já morei em tanta casa que nem me lembro mais’.

Mentira. Foram várias, mas lembro de todas.

A mudança mais decisiva da minha vida foi as 12 anos, quando papai foi transferido de São Paulo para Minas Gerais. Eu resisti. ‘E meus amigos, minha rotina e minha vida como é que ficam?’ E foi aí que meu pai me deu uma valiosa lição: ‘mudar faz parte, se você quer ter muitas portas abertas no seu futuro, você precisa ter flexibilidade para aceitar as mudanças.’

No começo foi duro. Mas depois os anos provaram que aquela foi a melhor coisa que poderia ter nos acontecido. Tive uma adolescência deliciosa no sul de Minas, vivendo de um jeito que não teria sido possível em São Paulo.

Daí pra frente, o resto foi um pulo. De volta pra São Paulo para fazer faculdade, uma temporada nos EUA, Brasília para trabalhar, uma temporada no Chile para estudar, de volta a Brasília e agora República Tcheca! Quem sabe onde ainda vou parar?

Cada casa é uma pele que troco. Minhas casas tiveram muito pouco a ver umas com as outras,  embora todas tivessem, de alguma forma, a minha cara.

Sempre que mudo, procuro carregar comigo o mínimo de coisas possível. Dessa vez, antes de partir, vendi os móveis que tinha para um amigo, vim quase que só com as malas. As coisas não importam. As pessoas importam.

Mas e aí, como faz para deixar as pessoas para trás?

É, essa é a parte mais difícil, mesmo.

Mas, olha, uma coisa que aprendi depois de pingar por aí foi que, para amizade e amor verdadeiros, a distância física é um pequeno detalhe. Ao reencontrar familiares e grandes amigos depois de tempos sem nos ver, sempre sinto como se tivéssemos nos visto no dia anterior.

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Reverência pela vida

Todo projeto, bom ou ruim, começa com uma ideia. A nossa se deu em um apartamento acanhado porém bonitinho do setor Sudoeste, em Brasília, alguns meses antes do fim do curso do Instituto Rio Branco (lá por outubro de 2011).  Noivos, cercados de bons amigos e não muito distantes da família, bem felizes. “Gatinha, a gente escolheu essa vida, pra quê ficar postergando? Que tu achas da gente sair pro exterior, ir pra África duma vez? Dizem que o Ministro vai oferecer umas vagas no fim do ano…” Era o começo do nosso projeto, de nossa aventura.

Alguns meses depois, um casamento, muitas despedidas, várias providências de mudança e uma revolução completa em nossas vidas (já em 2012), aterrissamos no aeroporto Léon Mba de Libreville, capital do Gabão. Sim, Gabão. Terra onde 99 anos antes (em 1913), desembarcava o filósofo, teólogo e médico alsaciano Albert Schweitzer, homem que algumas décadas depois (em 1952) seria laureado com o Nobel da Paz em função de sua obra no meio da floresta equatorial gabonesa (obra tanto física – e aí falamos de seu hospital de Lambaréné, que o fez ser conhecido por muitos como o “primeiro médico sem fronteiras” – quanto filosófica e teológica).

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[Albert Schweitzer em Lambaréné]

“Mas peraí, Nobel da Paz para um senhorzinho com chapéu e bigode de colonialista, instalado em um lugar que simplesmente se chamava ‘África Equatorial Francesa’?” Meus instintos mais libertários faziam-me coçar a cabeça quando, em minha pesquisa básica sobre o país, topava com esse homem, talvez a mais conhecida personalidade relacionada à história desta terra. Mal sabia eu que, a partir do legado dele, finalmente eu começaria a decifrar a questão que mais me atormentava desde minha chegada, o enigma da essência do Gabão.

Enigma, pois cheguei sem entender, de fato, onde estava pisando e (mal sabia eu) ainda com muitos pré-conceitos na mala, por mais que eles não fossem aqueles clássicos, “preconceituosos”: cheguei preocupado com a malária; temendo a falta de infraestruturas modernas; suspeitando da classe política de um país já chamado de “petit émirat pétrolier”, com o maior consumo per capita de Champagne e foie gras de toda África; não entendendo o “bwiti”, o “ndjobi”, o “ndjembé” e demais rituais iniciáticos em um país com frequentes notícias de “crimes rituais” (mutilação humana seguida de assassinato para fins místicos). Aquilo tudo parecia muito pesado, mas algo me incitava a ir adiante com a missão, tinha a intuição de que nada poderia ser tão ruim assim… Ou será que simplesmente nosso “projeto”, iniciado lá no apartamentinho do Sudoeste, era ruim mesmo, coisa de “jovem diplomata” deslumbrado pelo mundo?

Eis que, então, nos instalando, eu e minha esposa passamos a sentir algo diferente do esperado. De início, um certo cuidado dos que iam nos acolhendo, mais que gentileza ou respeito, um tratamento franco, honesto e bondoso. As pessoas – surpresa! -, não andavam tristes, mas alegres, falastronas e sempre elegantes, ora vestidas à ocidental (terno e gravata, jeans e camiseta, etc), ora à africana (tecidos coloridos, “pagnes” e “boubous”). A paisagem se revelava bela, com a praia e a floresta. Se um pouco da desigualdade fatalmente aparecia (carrões e bairros chiques bem próximos dos bairros de casas precárias em permanente racionamento de água e luz), também nossa vida material ia entrando estruturalmente nos eixos (internet, luz, água, tv a cabo…). Nossos pré-conceitos iam sendo derrubados e começávamos a nos envolver. Mas com o quê mesmo?

Eis aí que surge o tal Schweitzer de novo em nosso caminho. Leio em um texto, a propósito da festa do centenário de sua chegada ao Gabão, neste mês de julho de 2013: “a mais notável idéia da filosofia pessoal de Schweitzer (que ele considerava sua maior contribuição para a humanidade) era a ideia de ‘Reverência pela Vida’ (‘Ehrfurcht vor dem Leben’)”. “Reverência pela vida” – hum, interessante. Mas o que seria isso? “A filosofia verdadeira deve tomar como base o mais imediato e compreensivo fato da consciência, que pode ser formulado da seguinte maneira: ‘eu sou uma vida que quer continuar a viver, e eu existo entre outras vidas que querem continuar a viver’. Na natureza, uma forma de vida sempre faz outra como presa. A consciência humana, entretanto, sabe da existência da vontade de viver do outro e tem empatia natural com esse desejo. Um ser humano ético luta para escapar dessa contradição o quanto for possível.”

Uau. Faz sentido. Uma boa releitura das teorias idealistas super-kantianas do passado em um primeiro momento mas… Epa! Peraí. Eis que, refletindo, começo a lembrar do Egídio. E do Carlos. E do Monsieur Samba! Da Nina, do Koïta, do Adamou, da Philippine, do Mvou, do Aziz, do Bagnenda, do Ministro, do vendedor de crédito pra celular! Em todos os africanos que ia conhecendo, o conceito ia se encaixando como uma luva. E me dou conta de que a epifania de Schweitzer sobre o papel da solidariedade e da “reverência pela vida” nasceu não de uma viagem de piroga pelo rio Ogooué, após passar por uma manada de rinocerontes, como descrito na Wikipedia, mas sim por viver isso na prática com o povo gabonês, em seu hospital de Lambaréné.

Começava eu a desvendar o mistério do “cimento” que fez desse país um dos únicos a nunca ter sofrido uma guerra civil ou distúrbio violento na África ou ser um dos lugares onde mais seguro já me senti andando nas ruas; descubro que o “bwiti” e os demais ritos não eram rituais de canibalismo ou feitiçaria, mas sim a tradição social e religiosa tipicamente gabonesa que garantia a solidariedade entre as gerações, a reverência aos antepassados e, sobretudo, à vida. Entendo que a família estendida africana, que incorpora tradicionalmente muitas pessoas, um clã, uma etnia toda, se prolifera hoje em dimensões verdadeiramente nacionais, criando laços humanos sólidos. Percebo que os fundamentos sociais que conduzem a essa solidariedade inata e à coesão social são muito mais definidores da sociedade gabonesa do que qualquer dos estereótipos negativos tão facilmente disseminados. Fica mais fácil de entender o conceito de ética de Schweitzer. Começo a achar que, no fim das contas, o projeto está se provando bom. Muito bom.

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[Igreja católica de Saint Michel de Nkembo, com colunas esculpidas em motivos típicos dos ritos iniciáticos africanos. Sincretismo de um povo solidário e, na tradição humanista de Schweitzer, reverente à vida – foto por Celina Bühler da Silva]

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O perdão da divida do Congo – Brazzaville

Mereceu destaque na imprensa brasileira o perdão de parte significativa da divida externa (US$ 897,7 milhões) de doze paises africanos com  Brasil, oficializado pela Presidente Dilma Roussef nos ultimos dias de maio, na cupula da União Africana, em Adis Abeba. A Republica do Congo, em particular, teve cerca de 90 por cento da sua divida externa com o BRASIL perdoada (US$ 352 milhões).  Mereceu Brazzaville, por este motivo, cinco minutos da atencão do jornalista Elio Gaspari, que, em artigo publicado n’o Globo com o titulo “Dilma, a mãe dos cleptocratas” (http://oglobo.globo.com/opiniao/dilma-mae-dos-cleptocratas-8523737) procura esculachar a decisao do Governo brasileiro. O jornalista, que respeito, mistura alhos com bugalhos e mete os pes pelas maos ao abordar especificamente, da forma que fez, a questao da divida do Congo. Nao vou falar do resto. Reproduzo apenas o inicio, a parte do Congo e a contraditoria conclusao:

Com a prodigalidade de uma imperatriz, a doutora Dilma anunciou em Adis Abeba que perdoou as dívidas de doze países africanos com o Brasil. Coisa de US$ 900 milhões. O Congo-Brazzaville ficará livre de um espeto de US$ 352 milhões.Quem lê a palavra “perdão” associada a um país africano pode pensar num gesto altruísta, em proveito de crianças como Denis, que nasceu na pobre província de Oyo, num país assolado por conflitos durante os quais quatro presidentes foram depostos e um assassinado, cuja taxa de matrículas de crianças declinou de 79% em 1991 para 44% em 2005. No Congo Brazzaville 70% da população vivem com menos de US$ 1 por dia. Lenda. Denis Sassou Nguesso nasceu na pobre província de Oyo, mas se deu bem na vida. Foi militar, socialista e estatizante. Esteve no poder de 1979 a 1992, voltou em 1997 e lá permanece, como um autocrata bilionário privatista. Tem 16 imóveis em Paris, filhos riquíssimos e seu país está entre os mais corruptos do mundo. (…)Se o Brasil não fizer negócios com os sobas, os chineses farão, assim como os americanos e europeus os fizeram. (…) Contudo, aos poucos a comunidade internacional (noves fora a China) procura estabelecer um padrão de moralidade nos negócios com regimes ditatoriais corruptos.

Desde 2009, com o aval tecnico e politico do Fundo Monetario Internacional (que mantem missao permanente em Brazzaville desde entao), os credores do Clube de Paris interessados (Franca, Belgica, Italia e outros membros da Uniao Europeia) decidiram-se a perdoar parte substancial da divida externa congolesa. Julgou o FMI que o perdão, acompanhado das condicionalidades tradicionais,  daria folego ao orcamento do Estado congoles, permitindo investimentos mais consistentes na reconstrucao da infra-estrutura (estradas, hidreletricas, aeroportos) do pais (arrasado pelas guerras civis da decada de 1990) e recursos adicionais para saude e educacao.  O Brasil, que foi chamado pelo FMI e pelo Clube de Paris a participar do processo, iniciou, em 2010, as negociacoes tecnicas com as autoridades economicas do Congo. Em fevereiro de 2012, o projeto de perdao da divida do Congo chegou ao Congresso e,  aprovado (Camara e  Senado),  seguiu o foi  submetido, em bom timing, aa Presidencia da Republica.

O Brasil nao fez nem mais nem menos do que fizeram os paises da Europa ocidental reunidos no Clube de Paris. Existe ainda espaco para a solidariedade na Politica Internacional.

 Ate’ 2006 era o Brasil quem negociava na condicao de devedor com o Clube da Tour Eiffel.  Dividas externas ganham vida propria e sao questoes politicas e contabeis complexas, pois, alem de calculo geopolitico,  envolvem taxas, interesses,  juros compostos e descompostos, enfim, toda uma parafernalia atuarial que distancia mais e mais os valores financeiros dos valores reais investidos no terreno. E’ simplicacao  associar diretamente o perdão da divida com o bolso do contribuinte brasileiro.

No Congo, como no Brasil, parte da elite politica  se locupleta aas custas do povo. Nao estamos em condicoes de dar licoes neste quesito. No Congo, grosso modo e na pratica, o Estado e’ hoje o que era no Brasil ha’ 150 anos. A separacao do que e’ publico e do que’ privado e’ um processo que evolui lentamente. Mas o fato do mandatario Denis Sassou Nguesso (que tem mandato ate’ 2016) ter grande e controversa fortuna e enfrentar problemas com a justica francesa nao serve como argumento contra o perdao da divida. Gesto, que, afinal, beneficia potencialmente aa nacao congolesa toda ela, que, carece, ainda, de politicas sociais e sanitarias basicas. Uma coisa  nao tem nada a ver com a outra. Deixemos que os congoleses eles proprios acertem as contas com seus governantes.

No terreno, que eu conheco relativamente bem, existem, obviamente, politicos e politicos, empresas e empresas. E isto dos dois lados. Pude testemunhar a seriedade da politica e dos trabalhos que, por exemplo, a Andrade Gutierrez executa atualmente em Brazzaville e nos confins da floresta equatorial. As grandes trades brasileiras, que intermediam a exportacao de carne e de frango congelado ( e as dezenas de produtos derivados),  de insumos agricolas (sementes, racoes, adubos) ja descobriram o Congo ha’ algum tempo. Penso que as empresas brasileiras que privilegiarem relacoes solidas (e entregarem produtos concretos de qualidade) e sustentaveis com os paises africanos  terao, no longo prazo, muito mais a ganhar do que grupos oportunistas em busca de ganhos imediatos baseados na relacao privilegiada com a familia do cla dominante local. E’ preciso, como sempre, separar o joio do trigo.

No plano estritamente politico, a Republica do Congo tem apoiado as posicoes e os candidatos brasileiros em praticamente todos os foruns internacionais. Jogou-se, em Brazzaville, um dos capitulos decisivos da eleicao de Jose’ Graziano da Silva aa FAO. Foi com a ajuda do apoio macico dos paises africanos que o Embaixador Roberto Azevedo logrou tornar-se Diretor – Geral da OMC.  A Africa esta’ crescendo em ritmo acelerado e precisa de parceiros no processo de desenvolvimento. A Africa negra, em especial, espera muito mais do Brasil.

Como bem concluiu o jornalista Marco Piva (http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/dilma-africa-e-os-urubologos.html) “é por meio desse tipo de atitude generosa, que estimula economias emergentes a negociar e investir entre si, que se pode construir um novo modelo de desenvolvimento econômico para superar a atual crise mundial.”

Enfim, torco (e trabalho) para que o lado brasileiro encare a parceria com a África , de fato, e cada vez mais, com seriedade. Matondo nayô. 

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A liturgia da democracia

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Bismillah ir-Rahman ir-Rahim!

Islamabade, 5 de junho de 2013.

Silenciosamente perfilados, duzentos ou trezentos luminares da vida política paquistanesa ocupam o salão nobre da Presidência da República.

São ministros, generais, embaixadores, parlamentares, juízes, âncoras televisivos, agentes secretos, magnatas – e um ou outro jovem diplomata.

O que (n)os traz aqui? A História.

Hoje o Paquistão conclui sua primeira transição democrática. Um Governo eleito entrega as rédeas a outro. Empossado, o novo Primeiro-Ministro profere o mais solene dos juramentos – que, numa República Islâmica, é também profissão de fé.

I, Nawaz Sharif, do swear solemnly that l am a Muslim and believe in the Unity and Oneness of Almighty Allah, the Books of Allah, the Holy Quran being the last of them, the Prophethood of Muhammad (peace be upon him) as the last of the Prophets and that there can be no Prophet after him, the Day of Judgment, and all the requirements and teachings of the Holy Quran and Sunnah; That I will bear true faith and allegiance to Pakistan…

JuramentoZardariSharif

Em matéria de sucessão política, nada é mais excepcional que a normalidade.

Brasileiros de minha geração, nascidos na década de 1980 e acostumados à mansa rotina das liberdades civis, nem sempre apreciamos a imensa importância, simbólica como concreta, dos rituais da democracia.

O zênite dessa liturgia política é a posse de uma nova liderança – civil, eleita e, neste caso, composta pela oposição ao Governo anterior. O evento não tem precedente em 66 anos de independência paquistanesa.

…That, as Prime Minister of Pakistan, I will discharge my duties, and perform my functions, honestly, to the best of my ability, faithfully in accordance with the Constitution of the Islamic Republic of Pakistan and the law, and always in the interest of the sovereignty, integrity, solidarity, well- being and prosperity of Pakistan…

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A sede da cerimônia, o Aiwan-e-Sadr, algo como “pavilhão do líder”, é a um só tempo Alvorada e Planalto; serve de residência e escritório ao Chefe de Estado do Paquistão.

Nesta versão muçulmana de Brasília – sim, Islamabade foi erguida na mesma época de nossa capital e desempenha posição similar no imaginário paquistanês -, arquitetura é questão de política.

O equilíbrio espacial entre as residências vizinhas do Presidente e do Primeiro-Ministro representa a paridade de poder entre os dois cargos.

…That I will strive to preserve the Islamic Ideology which is the basis for the creation of Pakistan; That I will not allow my personal interest to influence my official conduct or my official decisions; That I will preserve, protect and defend the Constitution of the Islamic Republic of Pakistan

Mas o juramento de posse, verdade seja dita, é quase uma prévia do que virá depois: o primeiro high-tea oficial do novo Governo.

Dizem que o grande arquiteto do Congresso de Viena não foi Talleyrand, e muito menos Metternich, mas sim Marie-Antoine Carême, o lendário chef da delegação francesa. De fato, não se faz diplomacia sem comida. Não há concessões, informações e negociações sem calorias, glicoses e carboidratos – sobretudo em ambientes políticos gordurosamente tradicionalistas, como a Ásia Meridional, onde embaixadores veganos ou bulímicos não seriam bem-vindos.

A expressão “estômago forte” tem outro significado aqui.

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Enquanto as autoridades trocam confidências, armadas dos quitutes que azeitam as correias do poder no Paquistão (como pakoras, gulab jamuns e halwas), surge uma longuíssima e lentíssima fila. Nenhuma transição política seria completa sem a cerimônia do beija-mão.

Antes mesmo de designar seus ministros ou anunciar seus planos à nação, o Primeiro-Ministro enfrenta sua primeira tarefa oficial: apertar centenas de mãos; acatar um sem-número de conselhos e sugestões; reconhecer e cumprimentar uma imensa hoste de rostos, nomes, vontades e interesses.

Liderar, afinal, é ouvir.

…That, in all circumstances, I will do right to all manner of people, according to law, without fear or favor, affection or ill-will; And that I will not directly or indirectly communicate or reveal to any person any matter which shall be brought under my consideration or shall become known to me as Prime Minister except as may be required for the due discharge of my duties as Prime Minister…

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Encerradas as cortesias, Presidente e Primeiro-Ministro se retiram, acompanhados e protegidos pela guarda de honra. A cerimônia então termina, de maneira discreta e natural, sem que seja preciso anunciar seu fim.

Pois não se trata de fim. Toda transição política é um (re)início. Um ritual que gera seu próprio significado.

Repetida à exaustão, a liturgia da democracia evoluirá para algo maior, algo ilimitado, algo universal: o aprendizado da liberdade.

…May Allah Almighty help and guide me. A’meen.

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