Mudanças

Ontem me mudei. Entrei no apartamento que aluguei em Praga e que, espero, será minha casa pelos próximos três anos.

De frente para o espelho, fui tirando os itens de higiene pessoal da nécessaire e guardando no armarinho do banheiro. Foi aí que caiu a ficha, cheguei! Depois de quase dois meses de malas e quartos de hotéis, tendo de desempacotar e reempacotar tudo a cada par de dias, finalmente tenho, outra vez, um lugar para chamar de casa. Fiquei feliz.

Mudanças fazem parte da minha vida. Como na música da Legião, ‘já morei em tanta casa que nem me lembro mais’.

Mentira. Foram várias, mas lembro de todas.

A mudança mais decisiva da minha vida foi as 12 anos, quando papai foi transferido de São Paulo para Minas Gerais. Eu resisti. ‘E meus amigos, minha rotina e minha vida como é que ficam?’ E foi aí que meu pai me deu uma valiosa lição: ‘mudar faz parte, se você quer ter muitas portas abertas no seu futuro, você precisa ter flexibilidade para aceitar as mudanças.’

No começo foi duro. Mas depois os anos provaram que aquela foi a melhor coisa que poderia ter nos acontecido. Tive uma adolescência deliciosa no sul de Minas, vivendo de um jeito que não teria sido possível em São Paulo.

Daí pra frente, o resto foi um pulo. De volta pra São Paulo para fazer faculdade, uma temporada nos EUA, Brasília para trabalhar, uma temporada no Chile para estudar, de volta a Brasília e agora República Tcheca! Quem sabe onde ainda vou parar?

Cada casa é uma pele que troco. Minhas casas tiveram muito pouco a ver umas com as outras,  embora todas tivessem, de alguma forma, a minha cara.

Sempre que mudo, procuro carregar comigo o mínimo de coisas possível. Dessa vez, antes de partir, vendi os móveis que tinha para um amigo, vim quase que só com as malas. As coisas não importam. As pessoas importam.

Mas e aí, como faz para deixar as pessoas para trás?

É, essa é a parte mais difícil, mesmo.

Mas, olha, uma coisa que aprendi depois de pingar por aí foi que, para amizade e amor verdadeiros, a distância física é um pequeno detalhe. Ao reencontrar familiares e grandes amigos depois de tempos sem nos ver, sempre sinto como se tivéssemos nos visto no dia anterior.

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Reverência pela vida

Todo projeto, bom ou ruim, começa com uma ideia. A nossa se deu em um apartamento acanhado porém bonitinho do setor Sudoeste, em Brasília, alguns meses antes do fim do curso do Instituto Rio Branco (lá por outubro de 2011).  Noivos, cercados de bons amigos e não muito distantes da família, bem felizes. “Gatinha, a gente escolheu essa vida, pra quê ficar postergando? Que tu achas da gente sair pro exterior, ir pra África duma vez? Dizem que o Ministro vai oferecer umas vagas no fim do ano…” Era o começo do nosso projeto, de nossa aventura.

Alguns meses depois, um casamento, muitas despedidas, várias providências de mudança e uma revolução completa em nossas vidas (já em 2012), aterrissamos no aeroporto Léon Mba de Libreville, capital do Gabão. Sim, Gabão. Terra onde 99 anos antes (em 1913), desembarcava o filósofo, teólogo e médico alsaciano Albert Schweitzer, homem que algumas décadas depois (em 1952) seria laureado com o Nobel da Paz em função de sua obra no meio da floresta equatorial gabonesa (obra tanto física – e aí falamos de seu hospital de Lambaréné, que o fez ser conhecido por muitos como o “primeiro médico sem fronteiras” – quanto filosófica e teológica).

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[Albert Schweitzer em Lambaréné]

“Mas peraí, Nobel da Paz para um senhorzinho com chapéu e bigode de colonialista, instalado em um lugar que simplesmente se chamava ‘África Equatorial Francesa’?” Meus instintos mais libertários faziam-me coçar a cabeça quando, em minha pesquisa básica sobre o país, topava com esse homem, talvez a mais conhecida personalidade relacionada à história desta terra. Mal sabia eu que, a partir do legado dele, finalmente eu começaria a decifrar a questão que mais me atormentava desde minha chegada, o enigma da essência do Gabão.

Enigma, pois cheguei sem entender, de fato, onde estava pisando e (mal sabia eu) ainda com muitos pré-conceitos na mala, por mais que eles não fossem aqueles clássicos, “preconceituosos”: cheguei preocupado com a malária; temendo a falta de infraestruturas modernas; suspeitando da classe política de um país já chamado de “petit émirat pétrolier”, com o maior consumo per capita de Champagne e foie gras de toda África; não entendendo o “bwiti”, o “ndjobi”, o “ndjembé” e demais rituais iniciáticos em um país com frequentes notícias de “crimes rituais” (mutilação humana seguida de assassinato para fins místicos). Aquilo tudo parecia muito pesado, mas algo me incitava a ir adiante com a missão, tinha a intuição de que nada poderia ser tão ruim assim… Ou será que simplesmente nosso “projeto”, iniciado lá no apartamentinho do Sudoeste, era ruim mesmo, coisa de “jovem diplomata” deslumbrado pelo mundo?

Eis que, então, nos instalando, eu e minha esposa passamos a sentir algo diferente do esperado. De início, um certo cuidado dos que iam nos acolhendo, mais que gentileza ou respeito, um tratamento franco, honesto e bondoso. As pessoas – surpresa! -, não andavam tristes, mas alegres, falastronas e sempre elegantes, ora vestidas à ocidental (terno e gravata, jeans e camiseta, etc), ora à africana (tecidos coloridos, “pagnes” e “boubous”). A paisagem se revelava bela, com a praia e a floresta. Se um pouco da desigualdade fatalmente aparecia (carrões e bairros chiques bem próximos dos bairros de casas precárias em permanente racionamento de água e luz), também nossa vida material ia entrando estruturalmente nos eixos (internet, luz, água, tv a cabo…). Nossos pré-conceitos iam sendo derrubados e começávamos a nos envolver. Mas com o quê mesmo?

Eis aí que surge o tal Schweitzer de novo em nosso caminho. Leio em um texto, a propósito da festa do centenário de sua chegada ao Gabão, neste mês de julho de 2013: “a mais notável idéia da filosofia pessoal de Schweitzer (que ele considerava sua maior contribuição para a humanidade) era a ideia de ‘Reverência pela Vida’ (‘Ehrfurcht vor dem Leben’)”. “Reverência pela vida” – hum, interessante. Mas o que seria isso? “A filosofia verdadeira deve tomar como base o mais imediato e compreensivo fato da consciência, que pode ser formulado da seguinte maneira: ‘eu sou uma vida que quer continuar a viver, e eu existo entre outras vidas que querem continuar a viver’. Na natureza, uma forma de vida sempre faz outra como presa. A consciência humana, entretanto, sabe da existência da vontade de viver do outro e tem empatia natural com esse desejo. Um ser humano ético luta para escapar dessa contradição o quanto for possível.”

Uau. Faz sentido. Uma boa releitura das teorias idealistas super-kantianas do passado em um primeiro momento mas… Epa! Peraí. Eis que, refletindo, começo a lembrar do Egídio. E do Carlos. E do Monsieur Samba! Da Nina, do Koïta, do Adamou, da Philippine, do Mvou, do Aziz, do Bagnenda, do Ministro, do vendedor de crédito pra celular! Em todos os africanos que ia conhecendo, o conceito ia se encaixando como uma luva. E me dou conta de que a epifania de Schweitzer sobre o papel da solidariedade e da “reverência pela vida” nasceu não de uma viagem de piroga pelo rio Ogooué, após passar por uma manada de rinocerontes, como descrito na Wikipedia, mas sim por viver isso na prática com o povo gabonês, em seu hospital de Lambaréné.

Começava eu a desvendar o mistério do “cimento” que fez desse país um dos únicos a nunca ter sofrido uma guerra civil ou distúrbio violento na África ou ser um dos lugares onde mais seguro já me senti andando nas ruas; descubro que o “bwiti” e os demais ritos não eram rituais de canibalismo ou feitiçaria, mas sim a tradição social e religiosa tipicamente gabonesa que garantia a solidariedade entre as gerações, a reverência aos antepassados e, sobretudo, à vida. Entendo que a família estendida africana, que incorpora tradicionalmente muitas pessoas, um clã, uma etnia toda, se prolifera hoje em dimensões verdadeiramente nacionais, criando laços humanos sólidos. Percebo que os fundamentos sociais que conduzem a essa solidariedade inata e à coesão social são muito mais definidores da sociedade gabonesa do que qualquer dos estereótipos negativos tão facilmente disseminados. Fica mais fácil de entender o conceito de ética de Schweitzer. Começo a achar que, no fim das contas, o projeto está se provando bom. Muito bom.

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[Igreja católica de Saint Michel de Nkembo, com colunas esculpidas em motivos típicos dos ritos iniciáticos africanos. Sincretismo de um povo solidário e, na tradição humanista de Schweitzer, reverente à vida – foto por Celina Bühler da Silva]

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O perdão da divida do Congo – Brazzaville

Mereceu destaque na imprensa brasileira o perdão de parte significativa da divida externa (US$ 897,7 milhões) de doze paises africanos com  Brasil, oficializado pela Presidente Dilma Roussef nos ultimos dias de maio, na cupula da União Africana, em Adis Abeba. A Republica do Congo, em particular, teve cerca de 90 por cento da sua divida externa com o BRASIL perdoada (US$ 352 milhões).  Mereceu Brazzaville, por este motivo, cinco minutos da atencão do jornalista Elio Gaspari, que, em artigo publicado n’o Globo com o titulo “Dilma, a mãe dos cleptocratas” (http://oglobo.globo.com/opiniao/dilma-mae-dos-cleptocratas-8523737) procura esculachar a decisao do Governo brasileiro. O jornalista, que respeito, mistura alhos com bugalhos e mete os pes pelas maos ao abordar especificamente, da forma que fez, a questao da divida do Congo. Nao vou falar do resto. Reproduzo apenas o inicio, a parte do Congo e a contraditoria conclusao:

Com a prodigalidade de uma imperatriz, a doutora Dilma anunciou em Adis Abeba que perdoou as dívidas de doze países africanos com o Brasil. Coisa de US$ 900 milhões. O Congo-Brazzaville ficará livre de um espeto de US$ 352 milhões.Quem lê a palavra “perdão” associada a um país africano pode pensar num gesto altruísta, em proveito de crianças como Denis, que nasceu na pobre província de Oyo, num país assolado por conflitos durante os quais quatro presidentes foram depostos e um assassinado, cuja taxa de matrículas de crianças declinou de 79% em 1991 para 44% em 2005. No Congo Brazzaville 70% da população vivem com menos de US$ 1 por dia. Lenda. Denis Sassou Nguesso nasceu na pobre província de Oyo, mas se deu bem na vida. Foi militar, socialista e estatizante. Esteve no poder de 1979 a 1992, voltou em 1997 e lá permanece, como um autocrata bilionário privatista. Tem 16 imóveis em Paris, filhos riquíssimos e seu país está entre os mais corruptos do mundo. (…)Se o Brasil não fizer negócios com os sobas, os chineses farão, assim como os americanos e europeus os fizeram. (…) Contudo, aos poucos a comunidade internacional (noves fora a China) procura estabelecer um padrão de moralidade nos negócios com regimes ditatoriais corruptos.

Desde 2009, com o aval tecnico e politico do Fundo Monetario Internacional (que mantem missao permanente em Brazzaville desde entao), os credores do Clube de Paris interessados (Franca, Belgica, Italia e outros membros da Uniao Europeia) decidiram-se a perdoar parte substancial da divida externa congolesa. Julgou o FMI que o perdão, acompanhado das condicionalidades tradicionais,  daria folego ao orcamento do Estado congoles, permitindo investimentos mais consistentes na reconstrucao da infra-estrutura (estradas, hidreletricas, aeroportos) do pais (arrasado pelas guerras civis da decada de 1990) e recursos adicionais para saude e educacao.  O Brasil, que foi chamado pelo FMI e pelo Clube de Paris a participar do processo, iniciou, em 2010, as negociacoes tecnicas com as autoridades economicas do Congo. Em fevereiro de 2012, o projeto de perdao da divida do Congo chegou ao Congresso e,  aprovado (Camara e  Senado),  seguiu o foi  submetido, em bom timing, aa Presidencia da Republica.

O Brasil nao fez nem mais nem menos do que fizeram os paises da Europa ocidental reunidos no Clube de Paris. Existe ainda espaco para a solidariedade na Politica Internacional.

 Ate’ 2006 era o Brasil quem negociava na condicao de devedor com o Clube da Tour Eiffel.  Dividas externas ganham vida propria e sao questoes politicas e contabeis complexas, pois, alem de calculo geopolitico,  envolvem taxas, interesses,  juros compostos e descompostos, enfim, toda uma parafernalia atuarial que distancia mais e mais os valores financeiros dos valores reais investidos no terreno. E’ simplicacao  associar diretamente o perdão da divida com o bolso do contribuinte brasileiro.

No Congo, como no Brasil, parte da elite politica  se locupleta aas custas do povo. Nao estamos em condicoes de dar licoes neste quesito. No Congo, grosso modo e na pratica, o Estado e’ hoje o que era no Brasil ha’ 150 anos. A separacao do que e’ publico e do que’ privado e’ um processo que evolui lentamente. Mas o fato do mandatario Denis Sassou Nguesso (que tem mandato ate’ 2016) ter grande e controversa fortuna e enfrentar problemas com a justica francesa nao serve como argumento contra o perdao da divida. Gesto, que, afinal, beneficia potencialmente aa nacao congolesa toda ela, que, carece, ainda, de politicas sociais e sanitarias basicas. Uma coisa  nao tem nada a ver com a outra. Deixemos que os congoleses eles proprios acertem as contas com seus governantes.

No terreno, que eu conheco relativamente bem, existem, obviamente, politicos e politicos, empresas e empresas. E isto dos dois lados. Pude testemunhar a seriedade da politica e dos trabalhos que, por exemplo, a Andrade Gutierrez executa atualmente em Brazzaville e nos confins da floresta equatorial. As grandes trades brasileiras, que intermediam a exportacao de carne e de frango congelado ( e as dezenas de produtos derivados),  de insumos agricolas (sementes, racoes, adubos) ja descobriram o Congo ha’ algum tempo. Penso que as empresas brasileiras que privilegiarem relacoes solidas (e entregarem produtos concretos de qualidade) e sustentaveis com os paises africanos  terao, no longo prazo, muito mais a ganhar do que grupos oportunistas em busca de ganhos imediatos baseados na relacao privilegiada com a familia do cla dominante local. E’ preciso, como sempre, separar o joio do trigo.

No plano estritamente politico, a Republica do Congo tem apoiado as posicoes e os candidatos brasileiros em praticamente todos os foruns internacionais. Jogou-se, em Brazzaville, um dos capitulos decisivos da eleicao de Jose’ Graziano da Silva aa FAO. Foi com a ajuda do apoio macico dos paises africanos que o Embaixador Roberto Azevedo logrou tornar-se Diretor – Geral da OMC.  A Africa esta’ crescendo em ritmo acelerado e precisa de parceiros no processo de desenvolvimento. A Africa negra, em especial, espera muito mais do Brasil.

Como bem concluiu o jornalista Marco Piva (http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/dilma-africa-e-os-urubologos.html) “é por meio desse tipo de atitude generosa, que estimula economias emergentes a negociar e investir entre si, que se pode construir um novo modelo de desenvolvimento econômico para superar a atual crise mundial.”

Enfim, torco (e trabalho) para que o lado brasileiro encare a parceria com a África , de fato, e cada vez mais, com seriedade. Matondo nayô. 

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A liturgia da democracia

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Bismillah ir-Rahman ir-Rahim!

Islamabade, 5 de junho de 2013.

Silenciosamente perfilados, duzentos ou trezentos luminares da vida política paquistanesa ocupam o salão nobre da Presidência da República.

São ministros, generais, embaixadores, parlamentares, juízes, âncoras televisivos, agentes secretos, magnatas – e um ou outro jovem diplomata.

O que (n)os traz aqui? A História.

Hoje o Paquistão conclui sua primeira transição democrática. Um Governo eleito entrega as rédeas a outro. Empossado, o novo Primeiro-Ministro profere o mais solene dos juramentos – que, numa República Islâmica, é também profissão de fé.

I, Nawaz Sharif, do swear solemnly that l am a Muslim and believe in the Unity and Oneness of Almighty Allah, the Books of Allah, the Holy Quran being the last of them, the Prophethood of Muhammad (peace be upon him) as the last of the Prophets and that there can be no Prophet after him, the Day of Judgment, and all the requirements and teachings of the Holy Quran and Sunnah; That I will bear true faith and allegiance to Pakistan…

JuramentoZardariSharif

Em matéria de sucessão política, nada é mais excepcional que a normalidade.

Brasileiros de minha geração, nascidos na década de 1980 e acostumados à mansa rotina das liberdades civis, nem sempre apreciamos a imensa importância, simbólica como concreta, dos rituais da democracia.

O zênite dessa liturgia política é a posse de uma nova liderança – civil, eleita e, neste caso, composta pela oposição ao Governo anterior. O evento não tem precedente em 66 anos de independência paquistanesa.

…That, as Prime Minister of Pakistan, I will discharge my duties, and perform my functions, honestly, to the best of my ability, faithfully in accordance with the Constitution of the Islamic Republic of Pakistan and the law, and always in the interest of the sovereignty, integrity, solidarity, well- being and prosperity of Pakistan…

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A sede da cerimônia, o Aiwan-e-Sadr, algo como “pavilhão do líder”, é a um só tempo Alvorada e Planalto; serve de residência e escritório ao Chefe de Estado do Paquistão.

Nesta versão muçulmana de Brasília – sim, Islamabade foi erguida na mesma época de nossa capital e desempenha posição similar no imaginário paquistanês -, arquitetura é questão de política.

O equilíbrio espacial entre as residências vizinhas do Presidente e do Primeiro-Ministro representa a paridade de poder entre os dois cargos.

…That I will strive to preserve the Islamic Ideology which is the basis for the creation of Pakistan; That I will not allow my personal interest to influence my official conduct or my official decisions; That I will preserve, protect and defend the Constitution of the Islamic Republic of Pakistan

Mas o juramento de posse, verdade seja dita, é quase uma prévia do que virá depois: o primeiro high-tea oficial do novo Governo.

Dizem que o grande arquiteto do Congresso de Viena não foi Talleyrand, e muito menos Metternich, mas sim Marie-Antoine Carême, o lendário chef da delegação francesa. De fato, não se faz diplomacia sem comida. Não há concessões, informações e negociações sem calorias, glicoses e carboidratos – sobretudo em ambientes políticos gordurosamente tradicionalistas, como a Ásia Meridional, onde embaixadores veganos ou bulímicos não seriam bem-vindos.

A expressão “estômago forte” tem outro significado aqui.

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Enquanto as autoridades trocam confidências, armadas dos quitutes que azeitam as correias do poder no Paquistão (como pakoras, gulab jamuns e halwas), surge uma longuíssima e lentíssima fila. Nenhuma transição política seria completa sem a cerimônia do beija-mão.

Antes mesmo de designar seus ministros ou anunciar seus planos à nação, o Primeiro-Ministro enfrenta sua primeira tarefa oficial: apertar centenas de mãos; acatar um sem-número de conselhos e sugestões; reconhecer e cumprimentar uma imensa hoste de rostos, nomes, vontades e interesses.

Liderar, afinal, é ouvir.

…That, in all circumstances, I will do right to all manner of people, according to law, without fear or favor, affection or ill-will; And that I will not directly or indirectly communicate or reveal to any person any matter which shall be brought under my consideration or shall become known to me as Prime Minister except as may be required for the due discharge of my duties as Prime Minister…

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Encerradas as cortesias, Presidente e Primeiro-Ministro se retiram, acompanhados e protegidos pela guarda de honra. A cerimônia então termina, de maneira discreta e natural, sem que seja preciso anunciar seu fim.

Pois não se trata de fim. Toda transição política é um (re)início. Um ritual que gera seu próprio significado.

Repetida à exaustão, a liturgia da democracia evoluirá para algo maior, algo ilimitado, algo universal: o aprendizado da liberdade.

…May Allah Almighty help and guide me. A’meen.

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Tem guerra lá?

Aí meu vovozinho de 82 anos me liga:

_ Alô, Erde, fiquei sabendo de uma notícia pela Internet que me deixou muito triste. Quer dizer que ocê vai pra Praga?
_ É, vô, eu vou.
_ Mas ocê gosta de lá?
_ Eu ainda vou conhecer. Mas dizem que é uma cidade muito bonita!
_ Onde fica?
_ República Tcheca.
_ Tchecoslováquia?
_ É. República Tcheca.
_ República Tchecoslovaca?
_ República Tcheca, vô. Separou da Eslováquia.
_ Hum…Tem guerra lá?
_ Não, não tem guerra, não.
_ Você vai ser cônsul lá?
_ É, vou trabalhar na Embaixada. Mas fique tranquilo, vô, eu volto sempre pra visitar vocês.
_ Mas ocê já vai agora?
_ Acho que em agosto, vô. Ainda tiro férias e passo aí pra me despedir de vocês.
_ Ah, então tá bom, menino. Um abraço e boa sorte procê!

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Filhos da guerra. Órfãos de futuro.

Peço licença para um post monocromático.

Na semana passada, voltei ao maior campo de refugiados e deslocados internos do Paquistão, chamado Jalozai, para acompanhar as atividades de várias organizações humanitárias que o Brasil ajuda a financiar. Como se lembrarão os leitores mais antigos deste blog, escrevi sobre o mesmo campo há dois anos.

Pois um bárbaro ataque terrorista acaba de atingir Jalozai. Há poucas horas, potentes e covardes explosivos encerraram a vida de 15 pessoas e arruinaram os corpos de outras 40 no campo. A bomba foi plantada ao lado da fila para a retirada de alimentos.

Hoje não quero escrever. Adorno dizia que não pode haver poesia depois de Auschwitz. Depois de Jalozai, não tenho mais prosa. Só me resta a fotografia.

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Não sei o nome das pessoas que retratei e que agora homenageio.
Não lhes perguntei de onde vieram, o que pensam, no que sonham, o que temem.
Não sei se todas sobreviveram ao atentado de hoje.

Sei apenas que seus olhares me assombrarão – e me inspirarão – até o fim de meus dias.

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Dicas de Santiago – parte 3.

Dando seguimento às dicas de Santiago, vamos para a terceira (e última) parte.

22. Bairro Vitacura. Vitacura é outro bairro rico de Santiago, na parte alta da cidade. De fato, a organização espacial lá é bem interessante, porque forma um gradiente de renda — quanto mais pro leste (sentido litoral), mais pobre, quanto mais pro oeste (sentido Cordilheira) mais rico. A cidade foi crescendo de leste pra oeste, então, a cidade alta é mais nova. Hoje os novos bairros são já no pé dos Andes. O metrô não chega até Vitacura, então é uma parte mais difícil de explorar. De todo modo, lá fica a Las Urracas, uma das melhores baladas da cidade, com duas pistas de dança. Também por lá ficam bons restaurantes como o Cuerovaca, de carnes, e o La Mar, de peixes e frutos do mar. Na Avenida Vitacura está também o Museo de la Moda, que visitei com uma namorada que era estudante de moda – posso dizer que me diverti no jardim de carros enterrados, logo na entrada, e com o DeLorean, o carro-máquina-do-tempo da trilogia de filmes De Volta para o Futuro.

23. As estações de esqui dos Tres Valles (e a secreta Lagunillas). A coisa de uma hora, uma hora e meia da cidade de carro estão as três estações de esqui de Santiago:  La Parva, El Colorado-Farellones e Valle Nevado. Poder esquiar a tão pouco tempo da capital é sem dúvida um dos grandes privilégios de Santiago. Uma pena que seja um esporte muito caro! Há empresas que oferecem transporte da cidade para a montanha. Na Av. Apoquindo (que nada mais é do que a Alameda com outro nome), próximo à estação de metrô Escuela Militar, ficam a Austral (mais barata) e a Ski Total (mais profissional). Em Bellavista há a Total Ski (não é a mesma). Basta chegar cedo (tipo 7h, 8h da manhã) e reservar seu lugar em uma das vans. Valle Nevado é a estação preferida dos brasileiros. De fato, é a que oferece melhor estrutura para os iniciantes e, por estar nas costas da montanha, tem a melhor qualidade da neve. O problema do Valle Nevado é que é a mais cara e mais lotada — as filas são intermináveis (para comprar tickets, alugar esquis e pegar os teleféricos). El Colorado-Farellones é mais barata e mais perto da cidade, eu diria que é uma boa opção para quem já sabe esquiar e não tem problemas com os lifts que te arrastam pelas pernas (invés das cadeirinhas). La Parva, por alguma razão, recebe menos turistas e mais chilenos, mas é parecido com El-Colorado (um pouco maior, na verdade) – é opção legal para variar. Esquiar é muito divertido, apesar de o começo ser penoso e dolorido. Aos inciantes recomendo paciência e perseverança. A partir do segundo dia tudo melhora!

Aqui uma dica diferente pra quem quer aprender a esquiar mas não tem tanto dinheiro para gastar. Em outro ponto do entorno de Santiago (Cajon de Maipo) há uma pequenina e esquecida estação de esqui – Lagunillas. Custa menos da metade do preço das famosas de 3 Valles, mas, claro, é bem menor e tem bem menos estrutura. De todo modo, para quem nunca colocou esquis nos pés e quer ter um gostinho sem ter que deixar as calças para pagar pode ser uma opção. Um detalhe é que ela é mais baixa, então é preciso conferir se há neve lá antes de partir.

24. Viña del Mar e Valparíso. Como se sabe, o Chile é um país imenso no sentido Norte-Sul, mas curtíssimo no Leste-Oeste. Assim, embora haja uma infinidade de cidades a serem conhecidas no país (falarei delas em outra oportunidade) elas geralmente estão a várias centenas ou milhares de quilômetros da capital. Perto de Santiago só há, mesmo, a dupla de cidades costeiras. Também a coisa de uma hora e meia de ônibus. Viña del Mar é o balneário, refúgio dos santiaguinos nos dias livres. É mais moderna. Nela há um Cassino, o Castilho Wulf, e o famoso relógio de flores construído para a Copa de 1962. Como praia, eu recomendaria Reñaca. Sim, é legal dar uma conferida no Pacífico, e notar, entre outras coisas, que ele não é nada pacífico (o mar é bravo) e ele cheira diferente do Atlântico (não me refiro a poluição, é um cheiro característico, mesmo). Mas, mesmo no verão, o mar é frio. Os chilenos até encaram a água, mas acho que é por falta de opção. Conurbada a Viña está Valparaíso, cidade portuária. Famosa pelas casinhas coloridas que povoam seus íngremes morros. É bem mais popular do que Viña del Mar, o que pode tornar o passeio mais interessante, na verdade. Nela fica La Sebastiana, outra das casas-museu do poeta Pablo Neruda. Além das nerudices que a transformam em parada obrigatória, ela oferece linda vista panorâmica da cidade.

25. Vinícolas. Estou muito longe de ser um especialista no assunto e confesso que não aproveitei tudo que a cidade oferecia nessa área, mas é fato que o Chile é um importante produtor de vinho. Há vinícolas que podem ser visitadas praticamente dentro da cidade. De metrô é fácil chegar na Cousiño Macul e na famosíssima Concha y Toro. A própria viagem de metro, que dura cerca de uma hora, pela linha 4, chega a ter seu interesse, pois, em vários trechos, o trêm vai pela superfície, possibilitando dar uma conferida na paisagem de outros bairros da cidade, fora das adjacências da Alameda e das margens do rio Mapocho. O passeio na Concha y Toro é bem bacana, inclui degustação de vinhos e visita guiada. Lá eles vão explicar como a variedade Carmenère tornou-se orgulho nacional (após ter sido extinta na Europa). Eu, pessoalmente, me tornei um grande apreciador de vinhos Carmenère.

E assim chegamos ao final da minha lista de Dicas de Santiago. Espero que seja útil aos que querem visitar a cidade e que possa ter instigado a curiosidade dos que nunca pensaram em conhecer a capital chilena.

Evidentemente faltou muita coisa. Algumas que vi mas deixei de lado e outras tantas que sequer conheci, nessa grande cidade de cerca de 6 milhões de habitantes.

Minha lista é muito pessoal, inclui os lugares que eu mais gostei de conhecer, relflete um pouco o meu olhar sobre a cidade. Se você conhece Santiago e tem outros lugares ou dicas a acrescentar, por favor dê sua contribuição no espaço para comentários.

Eu adorei a minha experiência em Santiago, fui feliz e deixei grandes amigos. Sem a menor sombra de dúvida, gosto bem mais de Santiago do que de Brasília.

….
Para ler a primeira e a segunda parte desse post: https://jovensdiplomatas.wordpress.com/2013/01/23/dicas-de-santiago-parte-1/ e https://jovensdiplomatas.wordpress.com/2013/01/24/dicas-de-santiago-parte-2/

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Dicas de Santiago – parte 2

Continuando a série Dicas de Santiago. Vamos lá, parte 2.

15. Teatro Municipal e Basílica de la Merced. O centro de Santiago é plano e suas ruas são organizadas em forma de grelha. Assim, belos edifícios ficam escondidos pelas ruas estreitas. Um bom jeito de passear nessa área é caminhar sem rumo, perdendo-se e prestando atenção nos detalhes. Entre a Plaza de Armas e o Cerro Santa Lucía encontra-se o ótimo Teatro Municipal. Lindo prédio em estilo neoclássico francês, foi construído no meio do século XIX, mas sofreu várias reformas em função de incêndios e terremotos. Por dentro é ainda mais bonito. Confira a programação e aproveite. Perto dali há a interessante Basílica de la Merced – a Igreja atual foi construída no século XVIII, após as edificações dos séculos XVI e XVII terem sido derrubadas por terremotos.

16. Gastón Acurio. O cultuado chef peruano tem restaurantes em Santiago também. O mais famoso deles, Astrid y Gastón, sempre figura nas listas de melhores restaurantes do mundo. Meu favorito, no entanto, é o não tão conhecido T’anta – que fica no Boulverard do shopping Parque Arauco. O T’anta tem, na minha opinião, o melhor ceviche da cidade. Não deixe de comer o ceviche de Reineta (um pescado branco delicioso). Pra quem nunca comeu, ceviche é um prato de peixe cru marinado em suco de limão (leche de tigre). Servido com batata doce e variedades exóticas de milho que só nossos vizinhos produzem. É um pouco apimentado. Acompanhe outra vez com o pisco sour. Aliás, chilenos e peruanos disputam a paternidade do ceviche e do pisco sour, é questão séria de orgulho patriótico! Rivalidades a parte, no T’anta eu também tinha uma sobremesa favorita, a Copa Capuccino.

17. Lastarria. É um bairro, entre o Cerro Santa Lucía e o Parque Florestal. Refúgio dos intelectuais, é uma área cult da cidade. O ponto alto, aqui, é a rua José Victorino Lastarria, que brota atrás da Universidad Católica. Com cafés na rua que conferem um certo ar europeu, de quinta a sábado (das 10h às 22h) o lugar recebe uma feira de antiguidades e livros. É um bom passeio.

18. Avenida Isidora Goynechea. Já na parte nova e nobre de Santiago, o fundamental bairro Las Condes. Rua ampla, com calçadas largas. Obras de arte fazem parte da paisagem urbana, marcada pelas modernas torres de vidro. Aí fica pizzaria Tiramisú, sem dúvida a melhor da cidade! Vale uma visita, mas é bom chegar cedo ou fazer reserva, pois o lugar lota! Certifique-se de pedir uma mesa na área de não fumantes – pois é, no Chile ainda há o chato hábito de fumar em restaurantes. Também há a loja Mundo del Vino, ótima para comprar bons vinhos a bons preços (há outra no Boulevard do Parque Arauco).  Aproveite ainda uma baladinha estilosa no Hotel W.

19, 20 e 21. Parque Arauco, Parque Araucano e Sanhattan. Bem ao lado de onde eu morava, temos um shopping center, um parque e parte do centro empresarial de Santiago. Frequentemente eu levava meus amigos por essa caminhada curta, que mostra o lado mais moderno da cidade, ainda no Bairro Las Condes. Desça na estação Manquehue do metrô (aliás o metrô de Santiago é maior do que o de São Paulo e funciona muito bem!), caminhe pela Rua Rosário Norte, cruze o Parque Araucano e chegue no shopping Parque Arauco. No caminho você passará entre altas torres de vidro, do centro empresarial em expansão (um pouco como a região da Berrini em São Paulo, só que mais nova, mais moderna e mais bonita) – os chilenos a chamam de Sanhattan, em referência à Big Apple. O parque tem lindos jardins (ficam floridos na primavera). No inverno não há flores, mas há a embasbacante vista da Cordilheira dos Andes nevada. No horizonte, também, o imponente Cerro Manquehue, um vulcão (dito) extinto. O Shopping é grande, tem boas lojas mas o diferencial, mesmo, é o Boulevard, uma área externa com excelentes restaurantes e até um palco para música ao vivo ao ar livre.

Por equanto é isso. Depois volto com outras dicas de Santiago, mais focadas no entorno da cidade, como as estações de esqui, vinícolas e as cidades costeiras. Até!

Para ler a primeira parte da série, clique aqui: https://jovensdiplomatas.wordpress.com/2013/01/23/dicas-de-santiago-parte-1/

Para ler a parte final: https://jovensdiplomatas.wordpress.com/2013/01/24/1599/

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Dicas de Santiago – parte 1

Em 2011 tive a excelente oportunidade de passar 7 meses em Santiago do Chile, estudando na Academia Diplomática Andrés Bello. Posso dizer que me encantei pela cidade e aproveitei muito o tempo que vivi lá!

Já que sempre me pedem dicas de Santiago, resolvi compilá-las aqui.

Então vamos lá, começando pela parte central e pelos pontos mais conhecidos da cidade: coisas para fazer, ver ou visitar em Santiago – parte 1.

1. La Chascona – a única das três casas-museu do poeta Pablo Neruda na capital chilena.  As visitas são guiadas, em inglês ou espanhol. Boa oportunidade para conhecer melhor o universo e a história desse fantástico artista e político, que imprimia sua personalidade criativa e divertida em cada pequeno detalhe de suas residências.

2. Cerro San Cristóbal – Imenso parque em uma montanha no meio da cidade. Logo na base há uma feirinha. Um trenzinho (funicular) leva os turistas ao topo, de onde podem ter excelente vista da cidade e da Cordilheira dos Andes. Há também um zoológico e o simpático Jardim Japonês. No cume há uma Virgem, talvez numa tentativa de imitar o conceito do Cristo Redentor no Rio (embora a versão chilena seja menos imponente). Para os esportistas, é possível subir o Cerro caminhando, ou de bicicleta — mas é esforço físico para todo um dia. Recomendo aproveitar a ocasião e tomar o mote com huesillos, uma bebida típica e muito diferente!

3. Cerro Santa Lucía. Brotando da Alameda Bernardo O’Higgins, a via mais famosa e importante da cidade, um morro repleto de jardins e palacetes. Para subir a pé e ir aproveitando as diversas pracinhas que aparecem a cada lance de degraus. Ótima vista no topo, também.

4. Palácio de La Moneda. O famoso palácio presidencial, construído ao final do período colonial para abrigar, como o nome sugere, uma espécie de casa da moeda. Rodeado por um enorme pátio à frente e por uma simpática pracinha atrás. Embaixo há um centro cultural e um ótimo restaurante. Em determinados horários, é permitida a visitação ao interior do Palácio. A cada dois dias, às 10h da manhã, ocorre a cerimônia de troca da guarda do Palácio. Pessoalmente, sempre me arrepio ao vê-lo e pensar que ele foi palco de uma das cenas mais insanas da história política latino-americana — o bombardeio aéreo pelas forças armadas do próprio país, em 1973, que culminou com o suicídio do Presidente Salvador Allende e o início do regime Pinochet.

5. Plaza de Armas – O antigo centro da Santiago colonial. Ali estão a Catedral Metropolitana e o Museu Histórico Nacional, no prédio que um dia serviu como sede da administração da cidade. Há muitos artistas de rua se apresentando nessa área. Dependendo do dia é possível ver números de dança, de comédia, mágica, música e até belas pinturas com giz no chão em frente à Catedral. Sempre há vendedores de artesanato e caricaturistas à disposição. Se estiver no espírito de provar as tradições chilenas, aproveite e coma aí um completo (cachorro-quente) con palta (abacate).

6. Barrio Paris-Londres. Apenas duas ruazinhas partindo do Museu Colonial San Francisco e da Igreja de São Francisco, também ao lado da Alameda, um pedacinho de charme europeu na capital chilena. Pelas ruas curvas, cobertas com paralepípedos, encontramos a sede do Partido Socialista do Chile e também da coligação de esquerda que governou o país por 20 anos depois da volta à democracia – a Concertación de Partidos por la Democracia. Temos aí, também, o museu Londres 38, edifício dedicado à memória da repressão, por ter servido como câmara de tortura durante a ditadura. No chão da rua, em frente, há o nome de desaparecidos políticos gravado em plaquetas que se misturam com os paralepípedos. Nessa área há muitos albergues e até um simpático café com mesas na rua.

7, 8 e 9. Mercado Central, Parque Florestal e Palácio de Bellas Artes. Bordeando o rio Mapocho, um parque formado por sucessivas praças e jardins arborizados que se estende desde o Mercado Central até o Museu de Bellas Artes.  No Mercado Central, além dos mais diversos tipos de peixes e frutos do mar, há muitos restaurantes, entupidos de turistas brasileiros em busca da iguaria típica – a Centolla. O enorme caranguejo de águas frias, que tem sabor próximo ao da Lagosta, é servido inteiro na mesa. Preparado al pil-pil (ao alho e óleo). É uma delícia, mas é caro! Acompanhe-o com o drink típico, o pisco sour, umas espécie de caipirinha chilena, feita a base de pisco, um aguardente de uva. Em frente ao Museu de Bellas Artes, há uma divertida escultura de um cavalo gordinho, do artista colombiano Fernando Botero.

10. Barrio Bellavista. No pé do Cerro San Cristóbal, o bairro boêmio da cidade. Na verdade, duas ruas paralelas concentram quase todos os bares e restaurantes dessa área – a Pio IX e a Bellavista. Há o famoso Pátio Bellavista, espécie de praça de alimentação entre as duas ruas. Recomendo o bar Backstage, no qual, além de ótima carta de cervejas chilenas (prove a Kunszman Torobayo e a Austral Calafate Ale), há ampla variedade de comidas. Nos fins de semana, há ótimas bandas se apresentando de noite. Em frente ao Pátio, está o Bar Constitución, uma das mais famosas baladas da cidade. Na região há outros ótimos restaurantes – o Como Água Para Chocolate é um queridinho dos turistas.

11. The Clinic – The Clinic é um tablóide de sátira política e humor muito inteligente, ácido e popular. Eles também têm um bar e restaurante no centro da cidade. Bom ambiente, decorado com fotos de políticos e frases antológicas de personagens chilenos. Vale uma visita.

12. Cafés com piernas e paseos. Há vários espalhados pelo centro. Dizem os locais que são uma maneira de contrabalançar a rigidez moral da sociedade chilena. Basicamente são cafeterias normais nas quais as atendentes sempre são moçoilas em trajes módicos. Há alguns X-rated, digamos, mas esses estão escondidos em galerias e têm suas vidraças revestidas de insufilm. Sugiro parar em um café com piernas depois de um passeio pelos paseos do centro de Santiago, ruas planas fechadas para automóveis, como o Paseo Ahumada e o Paseo Huerfanos. Vários desses paseos culminam na Plaza de Armas.

13. La Peluqueria Francesa – Boulevard Lavaud. Antiga barbearia francesa, localizada na parte velha de Santiago, transformada num ótimo restaurante que mantém a decoração do século XIX. Esse é um achado que escapa à maioria dos turistas. O cardápio é um simpático jornalzinho que inclui um mapa dos pontos turísticos do bairro Yungay e conta a história do estabelecimento e de parte da cidade. A comida é ótima!

14. Ex-Congresso e Academia Diplomática. Pinochet não gostava muito da companhia dos parlamentares e resolveu transferir o Congresso para a cidade de Valparaíso. O antigo palácio está preservado e fica ao lado da Plaza de Armas. Em frente, outra bela construção do século XIX, o Palácio Edwards, sede da… Academia Diplomática do Chile!

Em breve volto com mais dicas de Santiago. Tentarei, também, dar um jeito de disponibilizar fotos de tudo que descrevi! Até mais!
….
Para ler a segunda parte: https://jovensdiplomatas.wordpress.com/2013/01/24/dicas-de-santiago-parte-2/

Para ler a terceira parte: https://jovensdiplomatas.wordpress.com/2013/01/24/1599/

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O outro Paquistão

Nestes tempos de instabilidade, intolerância e incompreensão entre crenças e culturas, retomo este espaço para contar a história de um Paquistão muito diferente daquele lamuriado pela imprensa ocidental.

Refiro-me ao Norte. O Karakoram. As montanhas.

Outras gentes, outros idiomas, outras paisagens, outras vidas.

Vale do Kaghan

Estamos no território do Gilgit-Baltistão, reivindicado pela Índia mas governado pelo Paquistão. Aliás, governado por si mesmo: até trinta anos atrás, a autoridade dos paquistaneses das planícies praticamente não roçava esta terra de cordilheiras.

Então, em 1979, em mais uma demonstração da indômita e visionária teimosia do ser humano, foi inaugurada a estrada asfaltada mais elevada e tortuosa do mundo: a rodovia do Karakoram, que percorre 1300 quilômetros entre a periferia de Islamabade e a cidadela uigur-chinesa de Kashgar.

Crianças do Kohistão

A estrada costura uma colcha deliciosamente incoerente de retalhos culturais. Até a consolidação definitiva do Raj britânico, em fins do século 19, esta região era um emaranhado de minipotências beligerantes e microrreinos rivais, cada um com língua e identidade próprias. Imagine-se uma corrida armamentista entre o potentado de Skardu e o principado de Shigar! Ou, talvez, um tratado de defesa mútua entre as cidades-estado de Gilgit e Chitral, ambas ameaçadas pelos mortíferos ladinos do vale de Hunza.

Para a felicidade do (raro) estrangeiro que visita a região, há numerosos vestígios dessa época, digamos, pré-moderna: fortalezas de pedra, casebres de madeira e bigodes extraordinários.

Guarda do Forte de Baltit, Karimabad

Indiferentes às querelas antigas e modernas entre homens mesquinhos, as montanhas são as verdadeiras soberanas do Gilgit-Baltistão.

Afinal, o Karakoram (“pedregulho negro” em turco) é a continuação geológica do Himalaia, a leste; do Hindu Kush, a oeste; e dos Pamires, a noroeste. Essas quatro cordilheiras irmãs, filhas da titânica colisão entre a Índia e o restante da Ásia, compõem o maior anfiteatro topográfico da Terra.

Passagem de Babusar

Aqui mora, por exemplo, o Nanga Parbat, forte de oito quilômetros de rocha, neve e cadáveres – nele jazem mais de 6o alpinistas fracassados.

A humanidade vingará essas mortes de maneira desleal: com o aquecimento global, o Nanga Parbat e seus vizinhos gradualmente perderão suas camadas de neve eterna. Ficarão nus, ríspidos e tristes.

Nanga Parbat (à direita)

Os inconfundíveis caminhões psicodélicos paquistaneses são o principal elo entre esta região e o resto do país. Elo econômico – o transporte de alimentos, combustíveis e outros bens vitais – mas, sobretudo, elo cultural.

Ao singrar a rodovia do Karakoram, vindos das terras quentes do Punjab e do Sindh, os motoristas se tornam embaixadores da identidade paquistanesa. Disseminam o idioma urdu numa terra falante de idiomas obscuros, como o balti, o shina e o burushaski. Ensinam a paixão pelo críquete a um povo habituado ao polo. Criam famílias. Deixam amores. Alguns são vítimas de deslizamentos, nevascas e outros desastres da estrada. Poucos envelhecem. Nenhum enriquece.

Caminhão na rodovia do Karakoram

Para além de Gilgit, entramos no domínio da facção ismaelita da fé muçulmana. Ao contrário da grande maioria da ummah, aqui há uma autoridade religiosa suprema: o Aga Khan (“senhor rei”), que recompensa seus fiéis com universidades, pontes, centrais elétricas e hotéis de luxo.

O Islã, nestas paragens isoladas, tende a ser mais liberal que nas demais regiões paquistanesas. O forasteiro é recebido com festa: damascos maduros, chás quentes, caretas infantis.

Crianças de Shigar

Leitores mais atentos deste blogue terão percebido que já descrevi uma road-trip semelhante, poucas centenas de milhas a noroeste, no Tadjiquistão.

Mas há muitas diferenças entre a estrada stalinista dos Pamires – desolada, hostil e ensimesmada, construída para defender territórios – e a rodovia moderna do Karakoram, fértil e cosmopolita, concebida para integrar civilizações.

Flora do Karakoram

Como aprendi no primeiro ano das aulas de geografia, onde houver aquíferos corpulentos e desníveis topográficos, haverá rios permanentes; onde esses rios forem cercados por montanhas, haverá lagos.

A aritmética lacustre do Karakoram é especialmente generosa. Há lagos em todos os cantos, lagos de todas as formas, lagos de todas as cores, lagos que viram geleiras.

Geleira de Hopar

Há, inclusive, lagos recém-nascidos, como o Attabad, que veio ao mundo em 2010, quando uma avalanche de proporções bíblicas bloqueou o rio Hunza e submergiu 20 quilômetros da rodovia do Karakoram. O neolago afogou diversos vilarejos e deixou 30 mil pessoas totalmente isoladas, quase sem eletricidade, alimentos e combustível. O extremo norte do Paquistão foi amputado.

Apenas barcos pesqueiros (apesar da ausência de peixes) podem chegar ao outro lado. A partir daqui, já não circulam os caminhões psicodélicos que unificam o país. Embora o Attabad esteja a quatro horas de jipe da fronteira chinesa, o lago efetivamente marca o fim do território paquistanês.

Lago Attabad

A viagem literalmente culmina na passagem do Khunjerab, a 4.700 metros de altitude, onde termina a Ásia meridional. É também a fronteira entre dois países incomensuravelmente distintos, mas solidamente aliados.

Deste lado, o desordenado smorgasbord de cores, línguas e sons do Paquistão montanhoso. Do outro lado, a disciplina e o desenvolvimentismo centralizados do Xinjiang, a província muçulmana e túrquica da China.

E a China, bem, a China é tema para outros textos e outras conversas.

Passagem do Khunjerab, fronteira sinopaquistanesa

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