Visita a Fukushima

19 de junho. O Japão ainda estava na Copa, mas nem por isso havia qualquer animação no J-Village, como é conhecido o centro de treinamento da seleção. Inaugurada em 1997, a Granja Comary dos japoneses tem instalações de primeiríssima linha, mas a última vez que os “Samurais Azuis” treinaram por lá foi pra Copa da África do Sul. Em março de 2011, o local foi transformado numa espécie de acampamento-base avançado pra quem ia ou vinha de Fukushima.

A 23 km da usina, o J-Village está na porta de entrada da zona de exclusão, a região a menos de 20 km de Fukushima-I, que teve que ser completamente abandonada em razão da radiação. Sua localização é ainda mais conveniente pois está bem no caminho de Tóquio, de onde vêm bombeiros, técnicos, engenheiros, equipamentos, ordens e… diplomatas estrangeiros, como o grupo que a Tokyo Electric Power Company (TEPCO) decidiu levar pra ver a usina naquela quinta-feira.

Depois de 2h30 de trem desde Tóquio e mais 40 minutos de ônibus, fomos recebidos no J-Village pelo vice-presidente a quem a TEPCO confiou a hercúlea tarefa de desmantelar a usina e tornar a região habitável novamente – trabalho pra mais de 40 anos. Ele começou nos pedindo desculpas pelo transtorno causado desde 2011 e, encarnando a ética samurai, afirmou querer dedicar o resto de sua vida à revitalização da região para, assim quem sabe, voltar a ver o sorriso no rosto dos amigos que fizera quando fora gerente de Fukushima-II (usina vizinha à acidentada Fukushima-I).

Depois dessas e de outras explicações, tomamos o ônibus rumo à usina e logo estávamos na zona de exclusão. Primeiro na parte mais externa, onde os níveis de radiação já recuaram um pouco, e é permitido entrar, mas não residir. Alguns moradores já vão ajeitando as casas, não tão destruídas (o tsunami não chegou a essa estrada), mas castigadas por três anos de abandono. Têm a expectativa de poder voltar pra casa em breve, seguindo os passos dos residentes de Tamura (um vilarejo mais a oeste), que, em abril, foram os primeiros dos 100 mil “refugiados nucleares” a voltar pra casa desde o acidente.

Mais um pouco e chegamos no centro da zona de exclusão, onde ainda está em vigor a ordem de evacuação. Só entram veículos autorizados, que, surpreendentemente, não são poucos: há mais de 5 mil operários trabalhando na usina, todos levados diariamente do J-Village por ônibus da TEPCO. Fora da nossa estrada, porém, o tempo parece ter parado há 3 anos, e o abandono é denunciado pelas casas vazias e campos de arroz tomados pelo mato. Nem sombra do capricho que caracteriza toda fachada, todo jardim, toda calçada, enfim, todo o Japão.

Finalmente dobramos à direita em direção ao Pacífico e logo chegamos à usina. Mais uma vez, o movimento surpreende. Eu esperava ver destruição – e de fato vi -, mas a palavra que primeiro me veio à mente foi outra: construção. O local é um imenso canteiro de obras, com gente entrando e saindo dos vestiários, carros pra lá e pra cá, pilhas de material de construção, tratores, escavadeiras, etc.

Primeira parada: detector de metais. Segunda: equipamentos de segurança. Como o tour seria inteiramente feito a bordo de um ônibus, não nos deram os “escafandros” dentro do qual trabalham os operários; apenas máscara, luvas, pantufas plásticas e o dosímetro, que vai nos dizer quanta radiação teremos recebido até o final da visita.

Depois de novas instruções de segurança, tomamos outro ônibus. O que veio do J-Village não passa do estacionamento, e o que nos levará ao tour não sai da usina. É assim com todos os veículos, pra carregar um mínimo de poeira radioativa pra fora.

Mal demos a largada e nos deparamos com as centenas de tanques que têm sido construídos pra armazenar a água radioativa que se acumula continuamente. Nada menos que 400 toneladas de umidade do lençol freático infiltram-se diariamente no subsolos dos reatores, misturando-se com a água já contaminada usada para resfriá-los. Esse aguaceiro é filtrado, mas alguns elementos radioativos permanecem, daí a necessidade de tanques e mais tanques.

Para tentar estancar essa enxurrada subterrânea, a TEPCO tem um plano audacioso: congelar o solo ao redor dos reatores, de modo a impermeabilizá-lo. Com isso, espera que o lençol freático desvie e chegue limpo ao mar. É uma técnica comum na construção de túneis, mas nunca foi testada na escala que se pretende em Fukushima: o perímetro dos reatores é de 1,5km. Os trabalhos ainda estão em fase embrionária e tudo o que vimos foram escavações e os tubos que serão enterrados e pelos quais circulará o líquido resfriado que congelará a terra. E muitos operários.

Vendo esses trabalhadores, todos cobertos dos pés à cabeça, não conseguia parar de pensar no porquê de estarem ali. Será que têm opção? Sabem dos riscos? (Há relatos de que a Yakuza, a temida máfia japonesa, recruta mendigos e outras “pessoas descartáveis” para trabalhar nas áreas com maior índice de radiação). Ou são forasteiros vindos em busca do salário? (Em 2012, saiu até anúncio em português oferecendo R$ 750 por dia pra retirar entulho da usina. Alguns dos 200 mil decasséguis que moram no Japão chegaram a se candidatar, mas, diante da repercussão negativa, a empresa recuou e acabou contratando só japoneses). Ou querem apenas contribuir para ajudar a tornar o lugar habitável novamente, como o vice-presidente que nos recebeu?

Mais adiante, avistamos o que talvez constitua o marco zero da tragédia (embora muitos digam que a tragédia fosse anunciada e tão antiga quanto a promiscuidade que se estabelecera entre empresas e órgãos reguladores): uma torre que sustentava a linha de transmissão que servia não para escoar a energia gerada em Fukushima, mas para trazer de fora a eletricidade necessária ao funcionamento da usina. Está no chão. Nocauteada já pelo terremoto, quando o tsunami ainda estava em gestação a 180 km dali, foi uma das primeiras baixas e sua queda desencadeou a entrada em funcionamento dos geradores a diesel.

Sobre isso eu já tinha lido e foi muito interessante ver ao vivo, mas meus olhos fugiam das explicações e buscavam incessantemente a direção do mar, onde está o embrião de tantas leituras e epicentro de toda a crise: os seis reatores, três dos quais sofreram com explosões em 2011. Trata-se do ponto mais baixo da usina e, ao nos aproximarmos e lá, a ausência de árvores no barranco e as marcas de terra nas paredes dos prédios denunciavam a altura à qual as ondas haviam chegado: 14 metros, 4 a mais que o quebra-mar e a sala de máquinas, onde os geradores a diesel se afogaram apenas meia hora depois de entrar em ação.

Os reatores estão abrigados em edifícios de 6 andares, cada um em um estágio diferente de reconstrução. Já ganharam reforços estruturais e não há mais escombros por perto, de modo que nosso ônibus pôde se aproximar sem problemas. As imagens das explosões, que cansei de ver na TV, desfilavam na minha mente. Estávamos diante do reator 4 e, do lado de lá da parede de concreto, jaz estocado combustível nuclear usado contendo mais de mil vezes a quantidade de césio que causou o acidente de Goiânia, em 1987. E se o prédio tivesse ruído em março de 2011?

Ao me fazer essa pergunta, eu pensava nos operários que arriscaram as vidas tentando abrir manualmente as escotilhas de emergência, que permitiriam escoar parte do gás hidrogênio que se acumulava. Teriam sido voluntários? Designados? Esbravejavam contra o chefe? Será que pensavam nas vidas que iam salvar, talvez ao custo das suas? Ou só em sair dali o quanto antes? No que quer que pensassem, conseguiram driblar escuridão, calor, inundação e destroços para encontrar a alavanca que, em condições normais, seria acionada do conforto do ar condicionado da sala de controle. Nada disso impediu as explosões de gás, mas, sem essa drenagem de parte do hidrogênio, elas talvez tivessem sido mais fortes – sabe-se lá com que consequências.

Seguindo o tour, passamos pelo prédio de escritórios, hoje abandonado. Pelas janelas pudemos ver pedaços do forro caídos, denunciando a violência do terremoto – o mais forte já resgitrado no Japão. Ao lado dele, está o prédio sem janelas que abriga a sala de controle, e que durante as semanas que se seguiram ao tsunami, abrigou muito mais. Foi ali que aqueles que se arriscaram nos reatores e outros colegas – os “50 de Fukushima”, como ficariam conhecidos – iniciaram uma luta inglória contra um inimigo invisível, enquanto o país ainda focava suas atenções no tsunami – e nas suas 20 mil vítimas – e a palavra Fukushima era apenas o nome de uma província.

“50 de Fukushima” me faz pensar nos “300 de Esparta”. Na verdade não eram 50 e reportagens mais recentes têm dado conta que esses “herois” só não saíram dali antes porque não conseguiram. O pânico desencadeou um “salve-se quem puder” e muitos fizeram como o capitão do Costa Concordia. O governo alega que se não fosse ele a dizer “Vada a bordo, cazzo!”, a TEPCO teria tirado todo o time de campo. A empresa nega e jura que jamais cogitou abandonar a usina.

Espartanos ou Concordianos, fato é que eles lá ficaram por semanas, dormindo no chão e trabalhando com pouca água e comida (e no escuro, até o restabelecimento da força). Da matriz em Tóquio, chegavam instruções contraditórias, entre as quais a de não jogar água do mar nos reatores, cada vez mais quentes. O gerente da usina sabia que o sal iria oxidar as instalações e corroer os bilhões ali investidos, mas sabia também que, na ausência de outro mecanismo de resfriamento, o calor que emanava dos reatores teria consequências explosivas – de fato, teve. Tomou, então, uma atitude muito pouco japonesa, que o elevaria à condição de heroi entre os herois (e atolaria a direção da TEPCO ainda mais no mar de lama que, aos poucos, a crise ia revelando): desacatou as ordens e ordenou o bombeamento de água do mar nos reatores.

Ainda imerso nesses pensamentos, percebi que o ônibus começou a andar. Hora de partir. O motor roncou mais forte pra vencer a rampa que separa os reatores (10m acima do nível do mar) do platô onde está o resto da usina (35m), e era difícil conceber que o mar pudesse ter feito o mesmo, ainda que só até a metade. No trajeto de volta até a entrada, estranhas manchas verdes salpicavam no chão. É uma resina, nos explicaram, usada logo no começo do caos para grudar a poeira radioativa no solo.

Antes de trocar de ônibus pra tomar o rumo do J-Village, passamos por um detector de radiação, pra garantir que não estávamos carregando “sujeira” pra casa e devolvemos o dosímetro. As máscaras, luvas e pantufas foram pro lixo. Seu destino será o incinerador que está sendo contruído ali mesmo na usina.

Já embarcando no outro ônibus, a chuva fina que caía parou e fomos brindados com uma estranha imagem: um arco-íris na direção do mar, bem acima dos reatores. Lembrei das placas que adornam a entrada das duas cidades que, décadas atrás, optaram por abrigar a usina (por referendo), nas quais se lê “Energia Nuclear para um Futuro Promissor”. E vendo o logotipo da TEPCO – que, segundo já li por aí, foi a 3ª empresa com maior valor de mercado do mundo, e hoje está quebrada -, lembrei também do papel timbrado da conta luz, que todo mês me causa uma certa estranheza ao associar meu apartamento, tão limpo e tão longe, àquilo tudo.

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10 respostas para Visita a Fukushima

  1. joaothegoonie disse:

    Uau!!! Assinar e receber seus e_mails é muito bom, uma das melhores opções que fiz! Obrigado.

  2. Alvaro disse:

    Pensei que tinham abandonado esse blog, que curto pra caramba. Sei que a galera trabalha muito, mas espero que escrevam com mais frequência pra os que não podem estar no lugar de vcs. Valeu.

  3. Rafael Paulino disse:

    Brilhante, doutor. Parabéns!

  4. Eduardo Coral disse:

    escrever para este blog não devia ser considerado írrito, e nem é írrito, só parece, como muita coisa por aí, que parece mas não é. Que esses diplomatas têm pouquíssimo tempo, todo mundo sabe.

  5. Ibere disse:

    Muito legal seu texto cara!\

  6. PATRICK disse:

    Boa noite a todos, venho por intermédio deste, expor uma dúvida que tenho, e pedir humildemente maiores esclarecimentos. O cargo público de diplomacia é considerado técnico ou científico?
    Desde já, agradeço pela ajuda e empenho.

  7. Aline disse:

    Boa Tarde,
    Meu nome é Aline e sou uma futura esposa de diplomata. Gostaria de saber um pouco sobre a vida de quem os acompanha. Eu tenho mestrado e doutorado em parasitologia veterinária e tenho um pouco de receio em relação a minha carreira, de como será minha vida profissional.

  8. Paulo Santos disse:

    Chorei, mau caro. Nada mais a dizer sobre sua habilidade textual, sua descrição e sobre esta notável história.

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