Diários de Trípoli (I): a Revolução não será grafitada

gaddafi

Muammar Gaddafi ainda é onipresente em Trípoli, mais de três anos após a sua queda. O antigo homem forte da Líbia é retratado em grafites nos muros das regiões mais centrais da capital líbia, principalmente no bairro de Ben-Ashour, onde está localizada a Embaixada brasileira. Para um leigo nas intervenções urbanas como eu, são grafites de dar inveja a Kobra ou aos Gêmeos Pandolfo.

Muammar Gaddafi ainda é onipresente em Trípoli. Mas não como gostaria. O povo líbio aprimorou a arte do insulto a tal nível que retratou Gaddafi das formas mais vexatórias para a cultura muçulmana: como cachorro, na maioria das intervenções, mas também como rato e serpente.

Em um país em guerra civil como a Líbia, contemplar esses grafites de dentro do comboio montado para o traslado Residência-Embaixada-Residência foi a minha única experiência turística em Trípoli – minto, pois dei uma escapadela à Medina e a algumas livrarias do centro da cidade, para o pesadelo dos fuzileiros navais que faziam a minha escolta.

Foi, também, um dos únicos insights que tive junto à psiquê do povo líbio. A profusão de linhas e de cores dos grafites expõe sentimentos represados durante os 42 anos da ditadura do Grande Guia. Ódio, revolta, desejo de liberdade e esperança no futuro. Com efeito, os grafites são uma fotografia da eufórica catarse do povo líbio com a Revolução de 17 de Fevereiro, que acabou com a Jamahiriya. Fotografia distante e apagada, é verdade, mas que nos lembra de que sempre existe alimento para a esperança de dias melhores, mesmo diante de um Saara de desilusão e de um Mediterrâneo de caos.

 

SAIBA MAIS:

  1. Libya — The art of the revolution“, ensaio fotográfico de Rula Bilbeisi Dajani; e
  2. O Silêncio contra Muamar Kadafi“, de Andrei Netto.

 

  • Bruno Quadros e Quadros esteve em Missão Temporária em Trípoli, entre abril e maio de 2014, para servir como Encarregado de Negócios, a.i. do Brasil na Líbia. Dois meses depois, em julho, a Embaixada brasileira seria evacuada para Túnis, em razão da deterioração das condições de segurança na Líbia.
  • O autor agradece a abnegação e o senso de missão do destacamento de fuzileiros navais da Marinha do Brasil, responsável pela segurança do pessoal e das instalações da Embaixada brasileira. Sem eles, não haveria condições de trabalho para o pessoal da Embaixada.
  • Crédito das fotos: Bruno Quadros e Quadros.
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Uma resposta para Diários de Trípoli (I): a Revolução não será grafitada

  1. Republicou isso em FUTUROS DIPLOMATASe comentado:

    Relato de um jovem diplomata em missão em um país em guerra…

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