Índia e Paquistão: a fronteira da meia-noite

Na obra-prima do realismo fantástico indo-britânico, Os filhos da meia-noite, Salman Rushdie narra as desventuras telepáticas de um homem nascido no instante exato da independência indiana, no primeiro minuto de 15 de agosto de 1947. É um rebento de hindus pobres, mas será erroneamente criado por uma rica família muçulmana, pois foi trocado na maternidade. Esse engano original determinará os destinos de Salim Sinai, o protagonista que contém a Índia inteira em si.

Há um equivalente geográfico para a metáfora de Rushdie sobre as identidades tragicamente paradoxais do subcontinente. Trata-se da fronteira de Wagah.

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Não fosse por um acidente histórico, Wagah seria apenas mais um entre os centenas de povoados multicoloridos do Punjab, a fértil província indiana dos cinco rios.

Mas o acidente ocorreu. E continuou ocorrendo, com violenta teimosia.

Graças à partição caótica de 1947 e às guerras fratricidas das décadas posteriores, Wagah é hoje a única passagem aberta nos três mil quilômetros da linha imaginária que une e separa Paquistão e Índia.

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A cada amanhecer, centenas de ônibus e caminhões psicodelicamente decorados percorrem a Grand Trunk Road e atravessam a divisa em Wagah. Transportam gado e gente, badulaques e preciosidades, histórias e lembranças.

A cada anoitecer, porém, Wagah se transforma em palco. Começa um dos espetáculos mais inusitados da política internacional: a extravagante cerimônia militar de fechamento da fronteira indopaquistanesa.

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Os atores dessa ópera bufa são soldados em trajes de gala, medalhas no peito e penugens no cocoruto. Os paquistaneses vestem preto, os indianos marrom. Todos portam barbas ou bigodes imponentes e são pelo menos vinte centímetros mais altos que a média do subcontinente.

Sob as ordens de seus comandantes, os estóicos guardas gesticulam, rosnam, esbravejam, desfilam e chutam o céu. Seus extraordinários passos de ganso são bastante sugestivos para os admiradores de Monty Python.

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O desfile militar é acompanhado com idêntico fervor nas duas metades do anfiteatro geopolítico de Wagah. Mas há diferenças entre as torcidas organizadas dessa final de um campeonato que nunca termina.

Nas arquibancadas indianas, a multidão de espectadores é amorfa: nada separa locais de estrangeiros, mulheres de homens, crianças de idosos, sábios de tolos. Já no lado paquistanês, impera uma rígida divisão por gêneros, e os raros forasteiros são instantaneamente abrigados na fileira VIP.

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Em ambos os lados da linha invisível, eufóricos incentivadores de torcida galvanizam a plateia com gritos-de-guerra patrióticos.

O tradicional e laico Hindustan Zindabad é o favorito dos megafones indianos.

Já o público paquistanês prefere uma profissão de fé: quando o animador lhes pergunta Pakistan ki matlab kiya? (“Qual o significado do Paquistão?”), a resposta é uníssona: La ilaha Illallah! (“Alá é o único deus!”).

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A cerimônia é animada e intensa, mas curta; dura menos de meia hora. Minutos antes do anoitecer, e em perfeita sincronia, a alviverde paquistanesa e a tricolor indiana descem de seus mastros. Os espectadores lentamente retornam a suas casas.

Até a manhã seguinte, não haverá nenhuma fresta aberta para o tráfego entre os dois rivais-irmãos nucleares da Ásia Meridional.

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A cerimônia de Wagah se repete diariamente, quase sem alterações, há pelo menos meio século. Ocasionalmente, a Índia convoca soldadas femininas para fechar a fronteira, o que jamais acontece no outro lado.

O trunfo dos paquistaneses era diferente: um velhíssimo animador de torcidas chamado Mehar Din, pequenino e carismático como um gnomo ufanista. Seu apelido era Chacha Pakistan (“tio Paquistão”). Todo dia, sob sol ou chuva, o cheerleader mais idoso do mundo comparecia a Wagah para agitar fervorosamente a flâmula de um país muito mais jovem que ele próprio. Tornou-se ícone nacional.

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Chacha Pakistan faleceu no ano passado, aos 90 anos. Sua família não tinha dinheiro para interná-lo no hospital de Lahore.

A bandeira que dava sentido a sua vida também lhe serviu de mortalha.

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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5 respostas para Índia e Paquistão: a fronteira da meia-noite

  1. Maria disse:

    Sempre vou comentar que adoro o blog de vocês e as postagens. As suas são sempre lindas, emocionantes. Nos fazem respirar um pouco essa carreira que tanto sonhamos, e a possibilidade de viver um pouco do mundo. Além das fotos ” fora do sério”, merecem um prêmio da National Geographic :)! Espero poder vivenciar isso em breve. Cada canto e encanto do mundo que desconhecemos! Muito obrigada por deixarem esse blog ativo, além de ser ótimo!

  2. Jefferson Medeiros disse:

    Thomaz, sou seu fã. Quero deixar clara a sua influência na escolha de minha futura carreira: a diplomacia. Desde o dia que vi uma entrevista sua fiquei encantado. Parabéns pelo profissionalismo e obrigado pela maravilhosa influência que és em minha vida acadêmica. Espero algum dia alcançar ao menos 1% de sua inteligencia 😉

  3. Rafhael disse:

    Adorei o blog e suas postagens, Thomaz.
    Lindas fotos! Parabéns!

    Salvei nos favoritos. (rsrs)

    Abraço!

    RAFHAEL (Vitória-ES)

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