A liturgia da democracia

convitePosse

Bismillah ir-Rahman ir-Rahim!

Islamabade, 5 de junho de 2013.

Silenciosamente perfilados, duzentos ou trezentos luminares da vida política paquistanesa ocupam o salão nobre da Presidência da República.

São ministros, generais, embaixadores, parlamentares, juízes, âncoras televisivos, agentes secretos, magnatas – e um ou outro jovem diplomata.

O que (n)os traz aqui? A História.

Hoje o Paquistão conclui sua primeira transição democrática. Um Governo eleito entrega as rédeas a outro. Empossado, o novo Primeiro-Ministro profere o mais solene dos juramentos – que, numa República Islâmica, é também profissão de fé.

I, Nawaz Sharif, do swear solemnly that l am a Muslim and believe in the Unity and Oneness of Almighty Allah, the Books of Allah, the Holy Quran being the last of them, the Prophethood of Muhammad (peace be upon him) as the last of the Prophets and that there can be no Prophet after him, the Day of Judgment, and all the requirements and teachings of the Holy Quran and Sunnah; That I will bear true faith and allegiance to Pakistan…

JuramentoZardariSharif

Em matéria de sucessão política, nada é mais excepcional que a normalidade.

Brasileiros de minha geração, nascidos na década de 1980 e acostumados à mansa rotina das liberdades civis, nem sempre apreciamos a imensa importância, simbólica como concreta, dos rituais da democracia.

O zênite dessa liturgia política é a posse de uma nova liderança – civil, eleita e, neste caso, composta pela oposição ao Governo anterior. O evento não tem precedente em 66 anos de independência paquistanesa.

…That, as Prime Minister of Pakistan, I will discharge my duties, and perform my functions, honestly, to the best of my ability, faithfully in accordance with the Constitution of the Islamic Republic of Pakistan and the law, and always in the interest of the sovereignty, integrity, solidarity, well- being and prosperity of Pakistan…

Aiwan-e-Sadr-3

A sede da cerimônia, o Aiwan-e-Sadr, algo como “pavilhão do líder”, é a um só tempo Alvorada e Planalto; serve de residência e escritório ao Chefe de Estado do Paquistão.

Nesta versão muçulmana de Brasília – sim, Islamabade foi erguida na mesma época de nossa capital e desempenha posição similar no imaginário paquistanês -, arquitetura é questão de política.

O equilíbrio espacial entre as residências vizinhas do Presidente e do Primeiro-Ministro representa a paridade de poder entre os dois cargos.

…That I will strive to preserve the Islamic Ideology which is the basis for the creation of Pakistan; That I will not allow my personal interest to influence my official conduct or my official decisions; That I will preserve, protect and defend the Constitution of the Islamic Republic of Pakistan

Mas o juramento de posse, verdade seja dita, é quase uma prévia do que virá depois: o primeiro high-tea oficial do novo Governo.

Dizem que o grande arquiteto do Congresso de Viena não foi Talleyrand, e muito menos Metternich, mas sim Marie-Antoine Carême, o lendário chef da delegação francesa. De fato, não se faz diplomacia sem comida. Não há concessões, informações e negociações sem calorias, glicoses e carboidratos – sobretudo em ambientes políticos gordurosamente tradicionalistas, como a Ásia Meridional, onde embaixadores veganos ou bulímicos não seriam bem-vindos.

A expressão “estômago forte” tem outro significado aqui.

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Enquanto as autoridades trocam confidências, armadas dos quitutes que azeitam as correias do poder no Paquistão (como pakoras, gulab jamuns e halwas), surge uma longuíssima e lentíssima fila. Nenhuma transição política seria completa sem a cerimônia do beija-mão.

Antes mesmo de designar seus ministros ou anunciar seus planos à nação, o Primeiro-Ministro enfrenta sua primeira tarefa oficial: apertar centenas de mãos; acatar um sem-número de conselhos e sugestões; reconhecer e cumprimentar uma imensa hoste de rostos, nomes, vontades e interesses.

Liderar, afinal, é ouvir.

…That, in all circumstances, I will do right to all manner of people, according to law, without fear or favor, affection or ill-will; And that I will not directly or indirectly communicate or reveal to any person any matter which shall be brought under my consideration or shall become known to me as Prime Minister except as may be required for the due discharge of my duties as Prime Minister…

guardaPak

Encerradas as cortesias, Presidente e Primeiro-Ministro se retiram, acompanhados e protegidos pela guarda de honra. A cerimônia então termina, de maneira discreta e natural, sem que seja preciso anunciar seu fim.

Pois não se trata de fim. Toda transição política é um (re)início. Um ritual que gera seu próprio significado.

Repetida à exaustão, a liturgia da democracia evoluirá para algo maior, algo ilimitado, algo universal: o aprendizado da liberdade.

…May Allah Almighty help and guide me. A’meen.

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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3 respostas para A liturgia da democracia

  1. Jady Gouveia disse:

    A liturgia da democracia traz consigo o significado histórico, social e econômico dos nomes que empossa. Pelo fato de, no Brasil, estarmos acostumados às liberdades civis, são necessários textos como este para nos manter conscientes da importância que cada frase, por menor que seja, tem na conquista democrática.

  2. matvil disse:

    Muito bom texto! Gostei muito. Bem escrito.

    (Mas tendo nascido bem antes da década de 1980, não acho que estamos tão acostumados assim às liberdades civis no Brasil. E convém não esquecer que as democracias costumam ser vulneráveis a crises; disso a história nos traz muitos exemplos.)

  3. Railssa. disse:

    Abrir mão do poder e colocar-se na mão do próximo governante é o mais nobre dos atos. E a democracia acontece quando essa entrega é a alguém igualmente nobre. Votos de felicidade ao povo paquistanês. Que o Deus-Amor os guie com responsabilidade nessa nova etapa.

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