Folhetins do Sião, capítulo 3: “Sabai sabai”

Uma das coisas mais interessantes e únicas sobre os tailandeses é a extrema tranquilidade com que eles vivem o dia-a-dia. É claro que a ideia geral não é totalmente estranha para um brasileiro ou para um ibero-americano, que de uma forma ou de outra já ouviu muitos “rapidinho”, “calma aí”, “no hay apuro” em suas tantas variações locais. Mas como quase tudo aqui nesse lado da Ásia – essa Itu metafísica – o que muda é a dimensão, que é sempre enormemente maior. Nem tente comparar a calma tailandesa com nada que conhecemos. Perto deles, um baiano é um sujeito muito, muito estressado.

A maioria das explicações para isso envolvem a religião em maior ou menor grau. O país é bem budista, o que quer dizer que há uma tendência geral à aceitação da realidade como ela é, à não-violência, a evitar ao máximo as confrontações. O apelido carinhoso da Tailândia, a “Terra dos Sorrisos”, não poderia ser mais verdadeiro: é uma gente doce, relaxada, parecem estar sempre genuinamente felizes. O visitante que passa duas semanas ou o mês inteiro se impressiona com isso, e ainda mais ao saber da quase ausência de crimes violentos nas ruas. É algo de cair o queixo: mesmo tão famosa por seu submundo e com tanta pobreza, o número de assaltos, latrocínios, assassinatos e estupros em Bangkok são muito baixos. A sensação de segurança é quase completa, mesmo nos mais escuros “sois” – que são as estreitas ruelas, quase sempre sem saída, que serpenteiam a cidade como o labirinto de Knossos. Mesmo nas contagens mais pessimistas, que levam em conta a tendência de não comunicar crimes dessa natureza, ainda temos números inferiores aos países do mundo desenvolvido no que tange à violência.

Tudo isso é apaixonante. O que pode ser melhor do que viver em um reino onde todo mundo leva a vida na flauta, sorrindo até das maiores desgraças, sem nunca parecer preocupado com absolutamente nada? E quando isso vem acompanhando de um senso de humor totalmente pastelão, que te transporta de volta à primeira infância a cada programa de tevê, a cada pequeno acidente do dia? Um dos conceitos mais caros à cultura tailandesa é o “sanuk”: tudo na vida tem que ser divertido, de catar o lixo a realizar uma cirurgia cerebral. A felicidade é agora, e se o processo não for agradável, não adianta o resultado final ser bom.

Já se vão seis meses aqui, o período de adaptação já se foi, a euforia do primeiro contato também. E de volta à casa, conversando entre a brasileirada e com farangs de outras procedências, tentamos encaixar as peças. Não dá pra ser conclusivo: conheço gente que mora há mais de vinte anos aqui, fala a língua fluentemente, e não entende a lógica – ou a total falta dela – nessas paragens siamesas. Mas dá pra ter pistas. E como dizia Wander Wildner, não dá mesmo para ser alegre o tempo inteiro.

O primeiro choque, que está relacionado à ideia de “sanuk”, é a noção de tempo deles. É muito difícil estressá-los, porque o mundo aqui funciona em segunda marcha, não importa o que aconteça. Entre suas muitas disfuncionalidades, Bangkok possui um trânsito caótico e congestionado, de um jeito que faz São Paulo parecer brincadeira de criança, mas isso merece uma crônica à parte. O impressionante disso é como os locais lidam com isso: nem tchum. Duas horas parados, e eles ainda estarão sorrindo, “mai pen rai”, sem problemas. Apressá-los? Esqueça. Nos cinemas, os trailers duram entre vinte minutos e meia hora, para dar tempo de todos chegarem. Se o filme está marcado para as sete, esteja certo que não haverá ninguém na sala nesse horário. Seu carro quebrou? Não se surpreenda se o mecânico te disser que só pode ver o que é daqui a uma semana. O estereótipo de um camponês deitado na rede, “sabai sabai” – de boa, relaxado, na maior – é bem ilustrativo.

O segundo choque é se dar conta de um paradoxo: os tailandeses podem sim ser muito, absurdamente violentos. Pudera: o esporte nacional é o Muay Thai ou boxe tailandês, esporte sangrento, daqueles que trazem todo o Tânatos de uma pessoa só de assistir. Uma vez ou outra vemos nas notícias crimes estariam melhor nos roteiros de filmes de terror, particularmente aqueles envolvendo vítimas estrangeiras – sim, há xenofobia aqui, e da pesada. E aí percebe-se bem o que é o conceito de “chai yen”, a de não extrasavasar a raiva, de mantê-la sempre dentro. Essas manifestações de fúria com frequência acontecem sem o menor aviso prévio, por vezes com uma boa pitada de dissimulação, como nos casos (aparentemente comuns, de acordo com nossos conhecidos) de esposas que, ao saberem que seus maridos estão sendo infiéis, passam semanas sem demonstrar nenhuma alteração, até que os decepam durante o sono – sim, exatamente esse tipo de amputação que o leitor imaginou. Isso é o que se chama por aqui de “phut prachot”, o ato de mascarar o rancor, até que haja a oportunidade de troco.

Não se trata de ausência de agressividade, mas sim de reprimir qualquer mínima expressão dela. A cultura thai valoriza a harmonia e a concórdia como seus valores basilares, acima de todos os outros. Mais que isso: há uma certa obsessão nacional em evitar o conflito a todo custo. E como se trata de uma sociedade profundamente hierárquica, há os que mandam e os que obedecem, os que podem falar e os que devem calar. Isso é vital para entender o conceito mais importante entre todos no dia-a-dia do Reino do Sião: a de se evitar que seu interlocutor “perca face”, seja criticado frente aos demais, sobretudo se os presentes forem seus “inferiores”.

Exemplos? Os mais jovens jamais interpelam os mais velhos, sob nenhuma circunstância. Alunos nunca devem duvidar de seus mestres, ou sequer interromper seu raciocício com perguntas durante as aulas, sob pena tal comportamento ser considerado ofensivo. Da mesma forma, não há a cultura de defesa dos consumidores, de se reclamar da qualidade dos serviços quando são mal-prestados. Um amigo brasileiro foi pedir reembolso de uma mercadoria danificada em um shopping, e acabou espancado e expulso a pontapés do estabeleciemento por três seguranças – simplesmente pelo fato de ter dito a outros clientes de sua dificuldade em conseguir seu dinheiro de volta após várias tentativas. Ele não sabia, mas ao fazer isso, estava insultando o comerciante da pior forma possível, fazendo-o “perder face” frente a seus clientes e empregados, o que motivou a brutalidade da reação.

Após algumas semanas, paramos de nos impressionar tanto com os sorrisos, para notar que até eles podem expressar profundo desagrado. Já fui convidado a me retirar de um restaurante, que queria fechar após o almoço, por uma garçonete que não fazia nada senão sorrir. Na verdade, o que ela queria era que eu e meus convidados sumíssemos do planeta Terra, mas fez questão de, com seu pouco conhecimento de inglês, adiantar a conta e nossa saída. Essa sutileza pode ser tão brutal como um chinês ou um coreano gritando rispidamente, de forma tal que me pergunto se a diplomacia não está nos genes dessa gente. Afinal, ao longo de tantos séculos, a Tailândia escapou independente do colonialismo e da dominação estrangeira, sempre aplicando movimentos pendulares em relação às potências, postura que em alguma medida existe até os dias atuais.

A Tailândia é encantadora em inúmeros aspectos, e a esmagadora maioria dos visitantes – que fazem desse país o destino mais visitado de todo o continente asiático – são extremamente bem-recebidos. Naturalmente, é de bom tom também aos visitantes, e especialmente aos residentes, entender o modo de pensar de seus anfitriões, por polidez e pragmatismo. Para nós, é parte importante do trabalho ter a melhor compreensão possível sobre nossos interlocutores, suas características, virtudes e contradições. O paradoxo entre paz e violência permeia a todas as relações humanas nesse país, e antes que isso possa dar um nó na cabeça de um andarilho desavisado, tenham em mente que provavelmente em nenhum outro lugar a gentileza será tanta. Apenas tente não se surpreender muito ao ver crianças de dez anos sangrando em um ringue de Muay Thai. Tentar convencê-los de que isso é deplorável poderá trazer muitos problemas a quem tente.

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Sobre RafaPaulino

Brasileiro, diplomata, pernambucano, botafoguense - nessa ordem. Está em Bangkok, Tailândia.
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14 respostas para Folhetins do Sião, capítulo 3: “Sabai sabai”

  1. Mik disse:

    Muito bom!

  2. “Perto deles, um baiano é um sujeito muito, muito estressado.” hehehe nessa parte saiu um “Noooosa” imagina isso xD
    Porém, continuando com a leitura do texto me surpreendi com alguns atos de violência e quão disfarçado isso pode estar.
    Quando não concordo com algo, gosto de falar a minha opinião. Já na Tailândia eu seria mais tranquila, ñ estou afim de ganhar um golpe de Muay Thai.

    Agora, eu gostei muito da filosofia “sanuk” deles, concordo q devemos fazer tudo com mais alegria ou pelo menos tentar, afinal, encarar algo como sendo chato pode tornar a situação ainda mais monótona.
    Por isso, tentarei pegar o meu livro de português com um sorriso no rosto 😀

  3. Lucas Neri disse:

    Parabéns pelo texto, gostei muito
    É muito bom ler esses textos que vocês escrevem sobre a vivência em países pouco conhecidos por nós brasileiros, espero que sua experiência esteja sendo gratificante aí!
    atualmente estudo para alcançar uma vaga no inst. Rio Branco e esses textos são bastante motivadores!
    abraço

  4. GRACIETE BARROS disse:

    Parabéns pela forma que vc comentou o sentimento tailandês. Estive recentemente na Tailandia mas não pude deixar de observar a ternura e simplicidade que eles nos inspiram, pela fé budista, em contraste com o mundo vivido em Patpong RD ou outras ruas em Puket, onde o sexo é mercadoria e moeda.

  5. José Martins disse:

    Gostei como relata o Reino do Sião. E já agora e para ter mais conhecimento passe pelo http://maquiavelices.blogspot.comhttp://portugalnatailandia.blogspot.com http://www.aquimaria.com
    Uma sugestão: no futuro fale um pouco dos 120 brasileiros, emigrantes, que vão ganhando a vida ao serviço do nóvel futebol da Tailândia. Continue que segue bem. Cumprimentos lusófonos. José Martins (reformado do MNE português) e 24 anos a servir, como manga de alpaca a embaixada de Portugal em Bangkok.

  6. Josi disse:

    Ótimo post!

  7. Celina Bühler da Silva disse:

    Excelente texto!

  8. Lucy disse:

    Oi, eu sei que a proposta do blog é contar experiências dos diplomatas no exterior, mas gostaria de deixar uma sugestão: vcs que “chegaram lá” seriam as melhores pessoas a ter uma coluna no blog contando e dividindo experiências da preparação ao concurso, estudos, cursos, as provas, tb o ingresso na carreira e todo caminho percorrido até chegar às missões no exterior (os preparatórios, as teses, o trabalho aqui no Brasil). Acho que enriqueceria bastante contar as experiencias e deixar dicas de toda maratona aos que se preparam à carreira….

  9. Ildebrando Moraes de Souza disse:

    Onde estão vocês que não escrevem mais? Seus textos e suas histórias fazem falta.

  10. Bianca Abreu disse:

    Otima analise cultural, leitura prazerosa e fluida de um texto muito bem escrito! Interessante poder benefiar-me de sua visao mais detida e aprofundada que a de uma turista, como eu, que adorou a Tailândia. Thanks for sharing!

    Abs,
    Bianca

  11. Clayton disse:

    Eu morei 1 ano na Tailândia e entendi o que você quis dizer com o post em relação ao modo deles levar a vida, especialmente na parte em que você diz que muitos moram aí por vários anos e não entendem a lógica, sim, existe uma lógica (mas sua comparação com o baiano foi bastante infleiz). O \”sanuk\”, \”jhai yen yen\” e \”mai pen rai\” são expressões que representam essa lógica. Não que sejam felizes o tempo todo, como todo ser humano eles tem raiva e brigam e xingam (e xingem muito mesmo) mas não faz parte da cultura descontar as frustações nos outros mas ter consciência de que toda ação deriva de uma escolha pessoal e tem resultados, positivos ou negativos. Por isso há menos frustração e mais aceitação da realidade. A profunda hierarquização social também contribui, pois cada um sabe seu papel em um cenário maior. E a idéia de que não vale a pena fazer algo se isso não te faz bem, melhor fazer outra coisa. Agora, mantenha em mente 2 coisas importantes, sempre: primeiro, você é um farang e por tanto sempre vão te tratar com esse distanciamento, polido e simpático, mas com uma carga de xenofobia. Demora muito para conseguir conquistar confiança e intimidade para que te tratem como um igual. Segundo, Bangkok não é a \”Tailândia de verdade\”, assim como qualquer país tem diferenças entre o modo de vida da cidade grande e do interior essa diferença é muito expressiva na Tailândia. Assim como áreas turísticas como Pataya, Phuket, koh Samui, koh Lanta e as outras kho (ilhas) são lugares para farangs, eles mesmos não consideram \”Krunthep\” como uma parte muito autêntica da cultura Thai….

    Chok dee na krup
    abraço!

    • RafaPaulino disse:

      Obrigado pelo comentário! Para esclarecer, minha referência aos baianos não é nenhuma picuinha regional – sou do Recife, e lá essa brincadeira é quase parte da cultura local. Kop khun mak krup!

  12. matvil disse:

    Rafael, seus textos sobre a Tailândia estão ótimos! Bons de ler, retrato fiel da realidade local (na medida do possível, pois é tão complexa), traduzindo reflexões e a busca de entender o país, o povo e a cultura.
    Você escreveu: “Conheço gente que mora há mais de vinte anos aqui, fala a língua fluentemente, e não entende a lógica – ou a total falta dela – nessas paragens siamesas.” É claro que a lógica a que você se refere é a lógica ocidental. É muito legal morar na Tailândia há alguns anos, como é meu caso, e perceber frequentemente que a gente ainda está aprendendo coisas novas – e coisas básicas!
    Parabéns, e continue escrevendo, quando der vontade e houver assunto.

  13. Gabriela disse:

    Olá Rafael,

    O texto está muito divertido e gostei mesmo da forma como caricaturou a calma tailandesa. No entanto, morando no país há alguns anos e conhecendo o jeito reclamador e eufórico dos brasileiros, eu acredito que a história do seu amigo na troca de mercadoria no shopping está literalmente “mal contada”…
    O tailandês de fato não gosta de perder a face, mas para levá-lo a perder a calma há realmente que provocar, levantar a voz e agredir verbalmente ou fisicamente para que aí, talvez, ele reaja. O erro mais comum do farang é o de insistir em se comunicar de uma forma diferente da usada aqui, e gritar ao reclamar, perdendo a calma, a razão e a própria face.

    Sawadii phi mai 🙂
    Gabriela

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