O-U-Ô, Listen to the music.

Confesso que dá até um pouco de vergonha, depois de ler notícias tristes e aflitivas do meu colega em Brazzaville, de publicar um post na minha linha editorial meio feel-good demais para este mundo. Andei cozinhando um texto sobre música, este que segue, fiquei com vontade de terminar e publicar… e, bom, é o que vai ser feito. Peço desculpas por colocar em má hora o meu “Caderno Menas”, mas vai ser assim mesmo. Tinha decidido escrever sobre música porque meu cotidiano aqui na Bélgica tem sido muito musical. Tenho ido a pelo menos um concerto por semana, e ganhei um concurso para ser um dos “blogueiros oficiais” do Festival Les Nuits du Botanique, que me rendeu três ingressos-surpresa (ainda não os recebi, não sei o quê escolheram para mim). Meu Spotify toca a todo vapor aqui na minha sala, não perco uma edição da Inrockuptibles, e fico procurando shows de novas e velhas paixões para ir. E o Botanique é minha paixão: apresentações ótimas sem um monte de gente, todo mundo fica pertinho do palco… amo muito. Link para quem quiser saber do que estou falando: http://www.botanique.be/

Há uma grande facilidade, pelo menos no que diz respeito à classificação, para quem trabalha com divulgação de música brasileira fora de seu hábitat: qualquer coisa que a gente faça é World Music. Bem, parece uma constatação meio amarga, mas não é, ou pelo menos não é esse meu ponto. Tem um pouco de ironia aí, claro. Mas nem é tão ruim: pelo menos o nicho está desenhado, o público está esperando e os espaço culturais aqui na Europa mais do que dispostos a oferecer música do Mundo. Engraçado é ver tecnobrega e bossa nova na mesma gaveta. Ou os não sei quantos ritmos brasileiros e nicaraguenses juntinhos na mesma estante, especialmente depois de ter servido na Nicarágua.

Como parte do meu trabalho de chefe de setor cultural (anotem aí, candidatos a coleguinha: é bem divertida essa parte) organizamos shows da Taïs Reganelli (que é ótima, mas vamos combinar que não é vanguarda), e um deles foi para atrair principalmente o público mais jovem, e mostrar algo mais próximo de sua sensibilidade, e o outro, para o público que parou faz tempo, pra mostrar que a MPB continuou um pouco, com algumas quantas novidades depois de Chico, Caetano, Gil e Tom Jobim. Os eventos foram ótimos, e eu nem diria que não, se não tivessem sido, porque eu não sou tonto. Tinha até gente dançando, e tal, nos dois. Quando acabou o segundo, obviamente tive de ouvir queixas dos grandes conhecedores da MPB locais. No primeiro, ficou aquela coisa bem nossa de não ir embora nunca, de dar adeuses eternos, e nisso conversei com uma moça mais ou menos da minha idade, artista plástica, bem informada na matéria cultural, e ela mesma integrante de uma cultura achatada por estereótipos. O que ela me diz? “Esperava percussão. Faltou tambor. Se não tem tambor, não parece música brasileira”. Na hora deu aquela dor no canal do dente, sabe qual? E eu disse: “que coisa, né, estou ansioso por ver teus murais revolucionários”. Continuamos amigos, deixa eu já estragar o fim da novela. Na verdade, a sequência foi um pouco de risadas, e de uma conversa que passou a El Caramachel sobre o artista tricontinental, os padrões estéticos eurocêntricos, etc etc etc etc etc, you know the drill. Os eventos foram, sim bacanas, esses e outros de música. O ser humano é que gosta de reclamar, sei lá, deve ter charme nisso. Eu mesmo reclamo horrores de tudo.

Tambor é ótimo. A marimba unipessoal, orgulho lutieresco da Nicarágua, também é muito bacana. Cuíca, sanfona, triângulo, piano de cauda, guitarra elétrica, qualquer coisa bem tocada é ótimo. Música é muito bom. Mesmo a mais estereotipada, mesmo a cansada e torrada de sol “Garota de Ipanema” e suas vinte e nove bozilhões de repetições nas rádios de todos os países do mundo e fora dele. Tudo tem valor, é tudo questão de contexto: tudo pode ser bom, até reggae, que eu detesto. E não quero ninguém falando de Michel Teló nos comentários. Não gosta, não ouve e psiu, deixa os outros, quem falar desse rapaz aqui está amaldiçoado. Depois escolho o conteúdo da maldição. A ideia deste texto não é debater esse tema, mas falar de música mesmo, porque um benefício muito interessante da carreira é exatamente poder entrar em outros contextos culturais e conhecer música diferente, escolher favoritos, ir a shows, concertos, comprar CDs, enfim, mandar para os ouvidos coisas que nem sequer procuraríamos, talvez, sem sair do Brasil.

Minha primeira providência cultural na Nicarágua foi essa, de ir atrás de música. Já havia estado antes na América Central, em viagem de férias que começou no Panamá, subiu todo o istmo até Belize e Guatemala, e voltou pro Panamá, e na época já havia ouvido algo. Sabia alguma coisa muito básica, e fui fazer uma revisão num espetáculo de dança folclórica no Teatro Nacional. Foi uma apresentação de três horas do Balé Tepenáhuatl que mostra cada um dos ritmos populares, dos indígenas aos tradicionais do Pacífico, terminando com o som da Costa Caribenha. É preciso saber que os grandes balés folclóricos estilizam as danças, criam coreografias para serem vistas do balcão, e o resultado dá conta apenas de mostrar bem mais ou menos o que é que acontece em contexto mais cotidiano de apreciação musical. Esses espetáculos, no entanto, podem ser boas introduções. Bem, para mim, foi assim. Depois eu nunca mais fui voluntariamente ver uma apresentação de balé foclórico nicaraguense desse tipo: preferi ver as festas populares mesmo. Quando vi esse tipo de baile de novo foi nos eventos oficiais com parte cultural. O folclore é parte do discurso de nacionalidade e identidade, não só na Nicarágua, isso nem novidade é, há várias teorizações de nacionalidade explicando o fenômeno direitinho.

Vamos lá. Para a parte do listen to the music, logo, porque ninguém está acompanhando este texto por causa da teoria musical botequinesca. Se alguém quiser entrar no mérito do assunto, a gente debate isso nos comentários. Vamos, então: do folclore para a eletrônica. A música eletrônica estava tomando a Nicarágua no tempo em que servi lá, um monte de DJ novo estava aparecendo, juntando seguidores – e atraindo gente de fora para tocar: não tinha show de estrangeiros quase nunca em Manágua, mas o Tiësto foi duas vezes entre 2008 e 2011! Meu DJ nica favorito, o Revuelta Sonora, cria em cima dos ritmos tradicionais, aqueles do balé folclórico. O trabalho dele tem um pouco esse pique iniciador, flerta com o remix, aquele dos anos 90, mas não vai por aí, no final. Vou colocar aqui o clipe de “Tululu”, e já aviso que o resto da produção dele está todo grátis para download no Creative Commons, para quem quiser continuar ouvindo. “Tululu” é a canção-símbolo do Palo de Mayo, festa caribenha que acontece em Bluefields, cabeceira departamental da Região Autônoma do Atlântico Sul, na semana do dia 31 de maio. É o que há de mais próximo do nosso carnaval, pelo menos como festa. Há desfiles de comparsas, primas dos nossos blocos, que culminam na dança do palo, o maypole da tradição britânica, que se repete em outras partes do caribe anglófono. Um pouquinho de História: o Atlântico nicaraguense foi fortemente infleunciado pelo Reino Unido, e sobrou até um crioulo falado por ali, kinda english dat only we understen. Por isso não dá pra entender a letra. O teco-teco do começo do clipe é da La Costeña, único jeito de chegar em Bluefields ou nas Corn Islands com as costas intactas.

http://www.youtube.com/watch?v=sg3p6EMG5mU

Havia outros projetos de música eletrônica muito bons, muito criativos. As festas eram ótimas, e aconteciam em bares super simples, que tinham terrenos grandes, onde os patrocinadores instalavam palcos, e ocupavam a agenda de quinta a domingo durante os meses sem chuva.

Nesses palcos também havia rock, e o rock nicaraguense era muito bom, dentro duma linha meio argentina de rock (o que é bom), mas com suas estrelas. Como o Malos Hábitos. Um dos meus melhores amigos nicas, o Humberto, disse que eu parecia um pouco com o vocalista. Adorei a ideia, o vocalista no está nada mal, como dizem lá. Mas me pergunto um pouco sobre os hábitos de bebida do meu amigo. O Malos Hábitos ficou mais famoso, e apareceu na Ritmosonlatino, uma emetêvê regional. Era o grupo com mais álbuns gravados, e o “Algo elemental” foi produzido pelo guitarrista do Los Enanitos Verdes. Aí vai o vídeo, muito bem produzido. Se for pra comparar a aparência do Malanga e desse que vos fala, digam que sou mais bonito, tá?

http://www.youtube.com/watch?v=GDpsk8Qs7bo

Os queridinhos do público quando eu estava pra sair era a banda La Cuneta Son Machín. Cuneta é a sarjeta, e Son Machín é Sound Machine, acho que dá pra supor, não? Quase todos os membros têm alguma relação com a família Mejía, eram herdeiros de alguma forma de Carlos e Luis Enrique Mejía Godoy, os chicobuarques da Nicarágua, que marcaram a música dos anos 70 e 80, em especial o testimonial/son nica. Carlos Mejía Godoy é o dono de La Casa de Los Mejía Godoy, onde faz uma apresentação semanal que é uma aula de história do son nica. mas se você for duas vezes, vai perceber que as piadas são meio repetidas, e que o concerto acontece meio que na mesma ordem… (Quem quiser ver o que é, procure “Nicaragua, Nicaraguita”, “Quincho barrilete” e “Son tus perjúmenes, mujer”. São boas).

Estava falando dos meninos. Os meninos um pouco pegam onde pararam os pais, cantam versões pop/rock de músicas antigas e partem dessa pesquisa para suas composições próprias. Embora não fossem meus favoritos (meu grupo preferido era o Milly Majuc), ir a um show deles me fazia um pouco sentir em casa. Meu sonho de programador cultural era, aliás, colocar La Cuneta para tocar com os Móveis Coloniais de Acaju. Menos pelo som, e mais porque estávamos todos de visualzinho hipster-hippie na audiência quando eles tocavam. Pra mim, La Cuneta era muito a cara da Nicarágua, em muitos sentidos. O clipe vai mostrar um pouco por quê. Para mim, a Nicarágua jovem é em parte essa relação com um passado conhecido um pouco de segunda mão, de ouvir os mais velhos; Nicarágua do terremoto de 1972, não presenciado pela maioria da população, mas vivido na bagunça urbana da Manágua. A jovem Nicarágua também lida com o revolucionarismo que mudou muito, demais, de cara: alguns abraçando o sandinismo, outros procurando formas de se opor sem se alinhar com a elite oligárquica: o jovem universitário come o mesmo café-da-manhã que comem o pobre e o rico, com mais ou menos ovos, queijo e outras frituras, mas sempre com o gallo pinto, ouve ainda os sons do passado, aprende o baile folclórico na escola, transforma a música depois; sabe o que é pegar o ônibus, os velhos Thunderbirds escolares gringos, caminha pela rua, perto da calçada mesmo no falso centro de Manágua. A Nicarágua jovem tem ideias super pra frente, uma relação de amor e ódio com a bagunça que o plano urbano managuense faz matéria. Pra mim, La Cuneta resumia a Nicarágua dos meus amigos: cheia de energia. Ih. Fiquei brega. É saudade.

Fica o vídeo da Cuneta. Tem mais música, mas o post está longo. Deixei de fora justo o Perrozompopo, por exemplo, que é genial, e incorpora até uns sonzinhos brasileiros na sua música. E a música erudita, que tinha, também. E ainda por cima, fiquei com vontade de falar de música belga. Mas fica pra depois.

http://www.youtube.com/watch?v=LRGNz-A_iNE

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Sobre hugolorenzetti

Parece que já aconteceu. Depois, quando não estou mais, descubro que estava justamente acontecendo, mas não parecebi.
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11 respostas para O-U-Ô, Listen to the music.

  1. Bravo Hugo. Seu colega aqui de Brazzaville (e seu futuro colega de Embaixada em Bruxelas…), tambem amante de boa musica, adorou seu texto cool, vindo em boa hora! De aflição já estou farto. Bem, o Teló toca por aqui também mas, bem, “beijo, me liga”!

    • Pois eu ia comentar algo sobre que você é meu futuro colega de Posto em Bruxelas, mas pensei: deixa que ele fala sozinho. Pois é. vai ser bacana. Menino, se você gosta de folk/indie/rock/psychéfolk/etc nós vamos sair bastante juntos. O Botanique é sensacional. E barato. 🙂

      Obrigado pelo apoio à mudança de tom e tema… às vezes eu acho que sou meio esquisito por não ser mais sério com a coisa política toda…

  2. Pedro Arthur disse:

    Obrigado pelo post! um tema animadinho ajuda a dar forças depois de um TPS meio desanimador.. hehehe
    As mulheres dos clipes são lindas eihn? Me gusta Nicaragua

    • As pessoas na Nicarágua são bonitas, sim. Embora a maioria tenha um visual mais conservador (por exemplo, bermuda é quase roupa de estrangeiro), tem um pessoal que se veste descoladinho. É engraçado porque, embora eles peguem uns bronzeados lindos, muita gente não toma sol para ficar mais branco. A frase “tan linda, tan blanquita” é muito comum. Paciência.

      Bom, meu público é meio outro, como está claro em outros posts. Os meninos podiam ser mais bonitos, se o machismo não desse a liberdade do esculacho. Mas há os que se cuidam um pouco.

      E sobre tema: eu sou meio cabecinha oca, meus temas acabam sendo animadinhos, mesmo. 🙂

      Boa sorte no TPS.

      • Rafael Neri disse:

        Muito bom post Hugo. E o tema é o que mais me agrada, mais ainda por ser objeto do seu trabalho. Estou me preparando para essa carreira também e me identifiquei muito com a possibilidade de poder trabalhar na administração pública com cultura, com música então…
        Seus textos me animaram, salvo engano você até disse em outro post que na Nicarágua era “o cara da cultura”. Muito bom. Sem dúvidas, em breve vou poder contribuir também!

      • a área é legal, e cheia de possibilidades. você vai curtir.

  3. Alvaro disse:

    Poxa, os artigos aqui tem demorado muito, eu sei que Diplomata tem muito trabalho e lhes falta tempo, mas eu fico ansioso em ler seus artigos, sem cunho jornalisticos mas apenas voltados para a distração. Não existe um blog tão legal como este, por favor portem mais curiosidades do trabalho de vcs. Abração.

  4. taruhn disse:

    Um show com La Cuneta e Móveis Coloniais se completaria com The Nada/Kevin Johansen.

    Obrigado pela viagem musical
    Abraços

  5. taruhn disse:

    Um show com La Cuneta e Móveis Coloniais se completaria com The Nada/Kevin Johnansen.

    Obrigado pela viagem musical!

    Grande abraço!

  6. Yeye Paraguassu disse:

    Hugo, não pare! Reclame das músicas ou elogie as noitadas, mas nos traga algo. Estou sentindo falta dos seus posts. =)

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