A tragédia de Mpila: Brazzaville, 4 de março 2012.

Brazzaville, domingo,8:05 min, 4 de março de 2012.

  

 

O primeiro paiol do complexo de armazenamento de armas e munições pesadas (granadas, obuzeiros, bombas de 25o kg… ), do populoso e central bairro de Mpila, explode, matando instantaneamente centenas de pessoas. Outros dois paiois, anexos, explodem em seguida. A tragedia estava consumada. Outros dois paiois explodiriam nas proximas duas horas.  No compound da Embaixada (um predio de tres andares a 6 KM do epicento das explosoes), com as portas e janelas destruídas, nos  protegiamos no vao da escada principal, no terreo, buscando em vão por informações e rezando para que as bombas terminassem.  Por volta das 10 hs, decidimos rumar para o sul da cidade, longe das detonações que continuavam.

Na segunda – feira, os militares brasileiros baseados em Kinshasa (onde as explosoes conseguiram deixar feridos e casas destruidas),  chegam a Brazzaville e visitam as cercanias do local das explosões. As primeiras fotos, os depoimentos no radio, os amigos que perderam suas casas, a cidade em estado de choque e consternacao. Começamos a nos dar conta das dimensões da tragédia.Artefatos arremesados explodem ainda na terca e na quarta, a quilometros de Mpila. Vejo o horror diretamente na quinta. Construções danificadas num raio de 10 km. Quatro casermas destruidas, 3 igrejas, um colegio… Casas incineradas, lares carbonizados, terra arrasada. Oficialmente, 223 mortos, 2.000 feridos e 14 000 desabrigados. Esses numeros sao muito, muito,  conservadores. As estimativas não – oficiais variam de 600 a 3.000 mortos. Seis meses é o prazo mínimo para que o trabalho de desminagem da regiao seja concluido. Até lá as casa nao poderao ser reconstruidas. A maioria dos desabrigados, mulheres e crianças, estão acolhidos em condições de higiene extremamente precárias.

  A versão oficial, divulgada   ainda no domingo (e reproduzida tal e qual pela Radio France International), antes que qualquer perito pudesse ao menos se aproximar da tragedia, deu conta de um “curto – circuito acidental” que teria provocado o incendio no primeiro paiol. Existem outras versões,  tão ou mais consistentes. A oposição exige uma investigação e o Governo reagiu prometendo a criação de uma minuciosa “comissão de inquérito”.

 

O Observatório Congoles de Direitos Humanos (OCDH) aponta a negligencia do Governo. Os instrumentos belicos que explodiram, alguns ainda dos tempos de guerra fria e outros recem – adquiridos, estariam  armazenados em condicoes extremamente precarias. Desde 2009 que se avisaria ao Governo, por escrito, do perigo na manutencao do deposito em Mpila. O OCDH exige a indenizacao das vitimas e a abertura  de investigacao internacional para determinas as causas do incendio. O povo congoles, vitima de mais uma tragedia, segue, resignado, em frente.

UN Emergency Meeting on Affected areas and People (mars 15)

* reported destroyed parcels/houses:4800/5000  of which 2000 completly destroyed. * considered caselaod of 50,000 peopleaffected using an average 10 people per parcel *Reported further damaged houses/parcelsoutside one kilometer exclusion zone which are not yet considered *  size of ground zero reaching half kilometer. It is estimated that 10 tons of ammunitions exploded with a shock wave comparable to a little Hiroshima * decontamination phase will take atleast 6 months.  * UNDAC stressed on the need for UNto take this crisis seriously and the need for high level discussion with government to streamline humanitarian response delivery in a politicalcontext which could be further destabilized and that cannot not properlybe discussed and addressed by UNRC and UN team.

 Dimanche noir

Qui l’aurait su qu’en se réveillant ce matin
Il se retrouverait dans ce pétrin
Qui l’aurait su qu’en empruntant ce détour
Ce serait le chemin de non-retour

Qui l’aurait su qu’en allant à la prière
Il se retrouverait au cimetière ?Ils y étaient pour la louange et l’adoration
Ils ont eu un concert d’explosions et de détonnations
Ils y étaient pour se décharger de leurs fardeaux

Ils ont reçu le ticket pour le tombeau
Ils y étaient pour le salut de leus âmes
Ils ont eu un serment d’armes
Qui laisse couler tant de larmes

Triste journée sombre
La ville est plongée dans la pénombre
Par-ci des cadavres sans nombre
Par là des tas de décombres

Sous ce panache de fumée noire
Brazza la verte est drapée de noir
Les officiels en costumes noirs
Parleront sans doute de main noire

Pour ce jour de fête
La joie ne sera pas au faîte
La valse des pompiers et ambulances
A eu raison de toutes les réjouissances

Grand Dieu, pourquoi ce sinistre sort
Pour ceux qui n’ont causé aucun tort
Chers compatriotes, unissons nos efforts
Oublions nos clivages sud-nord
Face à ce drame, soyons plus forts
Pour que notre Nation vive encore

Olivier BOUKORO
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12 respostas para A tragédia de Mpila: Brazzaville, 4 de março 2012.

  1. Edileida disse:

    E há quem diga que vida de diplomata é só glamour!As pessoas não têm noção do quão difícil é optar por essa profissão. Tem que amar muito o que se faz e ter plena convicção de que é realmente esta carreira que quer para si.
    Bom se é isso que me aguarda, voilà!

    • A vida do diplomata brasileiro nao e’ facil, em qualquer lugar. Brazzaville ja’ e’ um posto dificil em condicoes normais. Outros colegas estao em postos ainda mais complicados: Sudao, Guine – Bissau, Congo – Kinshasa (Zaire), por exemplo. Todas essas representacoes, a exemplo de Brzzaville, estao sublotadas, ou seja, sobram vagas e faltam servidores do Servico Exterior Brasileiro (diplomatas. oficiais de chancelaria e assitsentes de chancelaria). Que voce seja aprovada no concurso Edileida e venha nos ajudar. Um grande abraco.

  2. Gabriela Guimarães Gazzinelli disse:

    Caro Felipe, obrigada pelo relato. Estou acompanhando os acontecimentos com enorme tristeza. Muita força para todos na Embaixada e para os congoleses!

  3. Cesar Elias disse:

    É muito triste ver a dificuldade que a população desses países estão passando, apesar das dificuldades enfrentadas por muitos brasileiros, oportunidades estão cada vez aparecendo mais por aqui. Já, na maioria dos países da África, pelo pouco que acompanho, quase não há oportunidades e acredito que de alguma forma vocês podem ajudá-los, nem que seja relatando esses problemas para conhecimento de quem possa enviar ajuda. Pretendo chegar aonde vocês estão hoje. Tenho dificuldades com renda, infelizmente não posso somente cursar Relações Internacionais na UFRGS pois preciso trabalhar também, entretanto acredito que um dia chegarei aí. Peço que continuem fomentando minha vontade com seus textos. Abraços.

    • Cesar, torço por voce, estás no bom caminho. Uma jovem estudante congolesa, Mauricia Ngaelle, acabou de chegar a Porto – Alegre (6 de março) para estudar medicina na UFRGS, selecionada no programa de cooperação PEC-G (Programa de Estudantes Convenio – Graduação, administrado pelo Itamaraty e pelo MEC) que o Brasil mantem com diversos paises da Africa e da America Latina.Esse programa é uma forma concreta de ajuda assim como a presença de empresas brasileiras (aqui no Congo, por ex, temos a Andrade Gutierrez) que tem gerado empregos em muitos paises da Africa.

  4. Alinne disse:

    Ler o blog de voces é um enorme prazer. Obrigada a todos! Espero ter a sorte de passar no CACD também. Bjs.

  5. gislaine zampolli disse:

    Oi Felipe! tudo bem? Eu visito sempre esse site e gosto muito do que você escreve. Ler esses textos é uma forma que encontrei de conhecer a realidade de outros países. Eu admiro a coragem dos diplomatas, vcs fazem um trabalho muito bonito.

    Gislaine Zampolli
    jornalista

    • Obrigado pela presenca e pelo feedback Gislaine. Isso nos motiva a continuar fazendo o nosso trabalho no exterior da melhor forma possivel, ainda que a distancia do Brasil pese um bocado no dia a dia. Forte abraco!

  6. Sheila disse:

    Felipe, não se ainda está servindo em Brazzaville, afinal faz um pouco mais de 1 ano que a tragédia de Mpila foi aqui relatada, mas caso tenha esses dados, compartilhe conosco: Tendo passado mais de 365 dias, a situação dos desabrigados foram normalizadas? Quais providências o governo local tomou para indenizar os prejudicados? As causas das explosões realmente foram as más condições de armazenamento dos componentes bélicos?

    Obrigada, fico no seu aguardo!
    Abraços..

    • Sheila, deixei Brazzaville há quase um ano. Estou servindo na Embaixada em Bruxelas. Desculpe pela demora na resposta. Segundo informações de amigos recém – chegados do Kongo, o trabalho de desminagem continua (conduzido pela empresa MAG)nos escombros dos quarteirões arrasados. As famílias das vítimas fatais foram indenizadas rapidamente, ainda em maio – junho de 2012. A maior parte dos desabrigados também. Ocorreram alguns tumultos e boatos de que indenizações haviam sido pagas indevidamente. Não tenho informações precisas sobre os projetos de “assentamento” das cerca de 2.000 pessoas que, em junho de 2012, se encontravam acampadas em duas igrejas. Recentemente, o comandante das FFAAs congoleses, apontado como “responsável” pela tragédia, foi afastado pelo Presidente Sasso Nguesso. Outros militares de alta patente foram afastados. As investigações sobre as causas do acidentes são inconclusivas. Espero voltar a escrever no blog em breve. Abraços.

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