Folhetins do Sião – Capítulo 2: “Mai pét, por favor.”

Cada qual joga com o camisa 10 que tem. E nós brasileiros bem sabemos: “soft power” é poder, e dos bons. No nosso caso, o futebol e o samba sempre foram nossos melhores embaixadores. Pouco importa se os ingleses inventaram o jogo: nós tornamos o futebol uma forma de arte, e o nome do Brasil rola aonde há bola no chão e suingue na cintura. Pois bem, no caso dos tailandeses, essa “camisa 10” é a comida. Mais do que apenas uma sucessão de monossílabos deliciosos, a culinária da ‘Terra dos Sorrisos’ é uma expressão artística, uma ciência que só pode ser entendida com a razão e a intuição trabalhando juntos. E que seja ouvido o brado que descrevo nessas poucas linhas: aqui nessa cidade, come-se muito, mas muito bem mesmo.

A maioria das grandes cidades do mundo possuem restaurantes tailandeses, mais ou menos adaptados ao gosto local. As características são, em geral, bastante fiéis à matriz: são pratos leves e bastante aromáticos, servidos porções pequenas, com uso intensivo de especiarias e pimenta. Em cada um deles, os sabores doces, azedos, amargos e salgados são misturados para formar um equilíbrio sofisticado, daqueles que só se conseguem com anos e anos de tentativas e erros. Mas se existe um adjetivo para descrever a comida tailandesa, seria “surpreendente”: a extrema variedade de ingredientes, os modos de preparo e as combinações inusitadas transforma os cozinheiros em uma espécie de feiticeiros, e os pratos, em pura mágica.

Na mesa, só garfo e colher. Aqui não se come com palitinhos, como os chineses e japoneses, nem com as mãos, como os indianos. Reza a lenda que foi um dos grandes legados modernizadores do Rei Chulalongkorn no final do século XIX, bem como a abolição da escravidão nessas bandas em 1912 – o que desfaz o mito de que o Brasil foi o último país do mundo a aboli-la, mas isso é outra história. As facas já seriam desnecessárias na mesa, uma vez que os ingredientes normalmente já vêm bem picadinhos, mas o folclore popular do local diz que, para os pacíficos tailandeses, ter uma arma na mesa não é civilizado. As refeições, naturalmente, são ocasiões para confraternizar para eles também. E como não há distinção nenhuma de cardápio entre café-da-manhã, almoço e jantar, qualquer hora é hora. Não fique chocado se ver um tailandês batendo aquele pratão às sete da manhã.

Os ingredientes são extremamente frescos, normalmente vindos de muito perto. Para uma cidade do tamanho de São Paulo, Bangkok pode ser bastante rural, há centenas de hortas e feiras-livres espalhados pela cidade, com produtos recém-colhidos, peixes e frutos-do-mar ainda nos tanques, porcos e galinhas vivinhos da Silva, legumes e verduras tão bonitos e gostosos como eu nunca havia visto na vida. O resultado só poderia ser ótimo. As frutas merecem um capítulo à parte: essas sim, são espetacularmente gostosas e suculentas, muitíssimo melhores que nos nossos trópicos. A diferença salta aos olhos e às papilas, ao ponto de me fazer dizer que, no Brasil, não sabemos bem o que é carambola. Porque as daqui, essas sim, são carambolas dignas do nome. O mesmo vale para melões, melancias, bananas, e até para as brasileiríssimas goiabas e abacaxis. Todas enormes e deliciosas.

Mas há de se fazer alguns ‘disclaimers’ importantíssimos antes de descrever nossas aventuras de sabores, e o primeiro é sobre a pimenta. Os tailandeses simplesmente não sabem brincar. E tal como o Joselito do programa de humor, eles não têm a menor noção: a menos que se peça enfaticamente por um prato sem pimenta ou que restaurante em questão seja extremamente adaptado ao gosto farang, a comida virá muito mais apimentada do que a maioria dos brasucas consegue suportar. Quanto? Vejamos: quando a Pu, nossa maravilhosa ajudante-do-lar, nos faz Som Tam, a famosa salada de papaia tailandesa, eu mal consigo suportar quando ela usa só meio ‘chilli’. Minha namorada, acostumada com comida de fazenda, suporta até uma pimentinha inteira. Mas quando é a própria Pu quem come, lá se vão cinco pimentas para dentro do pilão, o suficiente para derreter o cérebro, ou que o vivente se sinta o próprio dragão soltando fogo pela boca, o que vier primeiro.

E mesmo um pedido com ênfase para o garçom não é garantia nenhuma de que o prato virá mais suave. A pimenta é um óleo, e muitas vezes é difícil tirá-lo por completo das panelas e dos outros utensílios de cozinha, mesmo com muitas lavagens. Muitas vezes os próprios garçons esquecem do detalhe crucial, ou os cozinheiros, com medo que os convidados achem os pratos sem-graça, acabam adicionando uma pitada ou duas na panela. Em resumo: antes de pedir, esteja preparado para as consequências. Esse que vos escreve já foi parar no hospital com um buraco no estômago que durou uma semana, tudo por causa de um almoço mais ‘emocionante’. Segundo os próprios tailandeses, apenas os indianos suportam o nível de pimenta deles, e mesmo os mexicanos, coreanos ou os chineses de Sichuan tendem a achar os locais simplesmente malucos. Para que não reste dúvida ao comandante-capitão-tio-bróder-camarada da vez, diga pausadamente e com vontade: “mai pét” (sem pimenta). Peça, implore, faça reza, pois a roleta russa do sabor vira montanha russa de sensações se o prato for possível de ser comido. É perigoso, mas vale a pena o risco.

Para dar conta da pimenta, arroz. Reza a lenda que a Tailândia há 54 variedades diferentes. O “arroz jasmim” é o mais comum, bastante aromático, bem diferente do nosso agulhinha. Normalmente é um acompanhamento neutro, comido sem tempero, porque o resto do prato estará bem temperado. Mas o ceral pode também ser preparado na forma de “arroz frito” (khao phad) quando feito com carnes picadas, legumes e ovo. Também há grande variedade de “noodles”, macarrões que mais se aproximam de uma versão fresca do ‘miojo’ tão conhecido no Brasil. Meu favorito é o ‘wun sen’: feito de amido de feijão, é um macarrão bem fino, que fica transparente com o cozimento, por isso seu nome em inglês é “glass noodle”, e que fica bem em saladas e outros pratos leves.

Para os realmente valentes, há a comida de rua. Em absolutamente todas as ruas há ao menos um bolo de barracas de comida, e é impossível andar por Bangkok sem esbarrar em alguma delas. Faz-se de tudo, de espetinhos – os satays – até pratos mais complexos, tudo absurdamente barato. É onde o povão come, e come bem. O porém é a higiene: a cidade está bem longe de ser uma das mais limpas do mundo, e para os estrangeiros, a consequência de comer na rua é quase sempre uma bela dor-de-barriga.

Para quem quer saber um pouco mais sobre a culinária daqui, recomendo começar por alguns pratos mais clássicos, a seguir:

Pad Thai

O prato mais conhecido da Tailândia, o Pad Thai é uma mistura de macarrão de arroz, frito com brotos de feijão, amendoim, alho, ovos mexidos e tofu; e pode ser feito com pedaços de camarão, frango, ou ambos; e com um molho à base de tamarindo, coentro, limão, molho de peixe e especiarias. É servido com uma flor de bananeira fatiada.

Som Tam

A salada mais famosa dessas bandas é feita em um pilão, com mamão verde ralado, camarõezinhos bem pequenos secos, vagem, e a combinação suco de tamarindo e de limão, molho de peixe e amendoim, temperado com alho e bastante pimenta. A versão com carne de caranguejo é ótima.

Tom Yam Gum

Nunca gostei muito de sopa, mas essa, de camarão, é ótima. Feita com cogumelos, tomate e leite de coco, e temperada com capim-limão, galangal (uma espécie de gengibre) e a folha de do limão kaffir – um tempero tão tailandês que já faz parte da minha memória afetiva desse lugar.

Curry Massaman

Por fim, o prato que é sucesso absoluto para todos os que chegam à Tailândia, querido pelos locais e farangs, homens e mulheres, crianças e velhinhos. O “Rei dos Curries”, eleito tantas vezes como o prato mais gostoso do mundo – eu discordo, mas é bom pra caramba, pode apostar.É um prato do sul da Tailândia, aonde há uma importante minoria muçulmana, portanto o nome. Normalmente feito de cordeiro, pode também ser feito com carne de vaca ou galinha, mas nunca porco. A mistura de temperos que compõe o curry vermelho da receita tem mais de uma dezena de ingredientes, incluindo cardamomo, canela, anis, açúcar de palmeira, cominho, cravo e noz-moscada, e pode ser apimentada ou não – eis a razão do sucesso da receita. Uma boa dose de leite-de-coco, e você estará diante de uma bela sinfonia de sabores, intensos e ao mesmo tempo bem-equilibrados. Se algum dia você for a um restaurante tailandês e não souber o que pedir, peça isso. Se você não gostar, troque de restaurante sem dó nem piedade. Ou então, o problema é em você, que parou de sentir sua língua.

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Sobre RafaPaulino

Brasileiro, diplomata, pernambucano, botafoguense - nessa ordem. Está em Bangkok, Tailândia.
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8 respostas para Folhetins do Sião – Capítulo 2: “Mai pét, por favor.”

  1. Allan disse:

    Belos textos os seus. Se puder escrever mais será um prazer lê-los.
    Você poderia contar mais detalhadamente o episódio referente ao trecho:

    “Esse que vos escreve já foi parar no hospital com um buraco no estômago que durou uma semana, tudo por causa de um almoço mais ‘emocionante’”??

    Abraços,

    • RafaPaulino disse:

      Alan, foi num restaurante tailandês em Taipé, onde eu estava antes. Eu já sabia que vinha pra Bangkok, então resolvi almoçar lá para adiantar as emoções do novo posto. Eu nunca tinha ido a um restaurante tailandês aqui no oriente, e já estava treinando o paladar com a pimenta diariamente já havia quatro meses, então achei que estaria preparado. Como diria o poeta, “ledo e ivo engano”. Na escala das pimentinhas, os pratos que eu pedi tinham uma só, mas mesmo assim não consegui terminar minha refeição, e fui pra casa com muita queimação no estômago. Fui para o hospital, onde, além dos remédios, me receitaram chás e acupuntura. Demorou uma semana pra ficar bom, mas funcionou.

      Aqui, já tive episódios até piores de azia e queimação estomacal por causa da pimenta, mas nada que me levasse ao hospital ainda. Eu bem que poderia não comer quando o prato vem carregado no chilli, mas às vezes a fome é tanta que não dá pra segurar. Tomara que eu me acostume rápido.

      Um abraço!

      • Allan disse:

        Rafael,

        realmente o pessoal pega pesado nas pimentas por aí…Impressionante.
        Desse jeito você terá que ir a restaurantes de comida ocidental por aí…Italiana, Francesa..quem sabe brasileira, se existir..hehe
        Abraço

  2. Lidiane disse:

    Que delícia ler seu texto e lembrar da maravilhosa Bangkok! Já morei na Índia e visitei a Tailândia, realmente a comida é sem igual, e apesar de ter comido muito na Khao San Road, não passei mal (também para quem morava na Índia, Bangkok era limpíssima!) Espero poder voltar um dia a este maravilhoso país.

  3. Graciete Barros disse:

    Estou viajando para a Tailandia e, embora goste de pimenta, acho que não vou me aprofundar na culinária. Obrigada pelas dicas.

  4. Eduardo disse:

    Fantástico.

    Está transbordando saliva por aqui.

    Boa sorte e parabéns!

  5. Geórgenes disse:

    Adorei!
    Fui praticamente transportado à Tailândia.

  6. Bruno disse:

    demais!!!

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