Folhetins do Sião – Capítulo 1: “Cara, tô passando mal…”

Você aí, brasuca do chinelo de dedo e samba no pé, quantas vezes não ouviu os versos “moro num país tropical” na voz imortal de Jorge Ben? E depois de ouvir esses versos, numa tarde de verão na praia, quantas vezes deu graças ao bom brasileiro lá em cima por ter nascido num país abençoado pelo astro-rei, onde os casacos só são comuns ao sul de São Paulo, tomando sua cervejinha gelada e aproveitando a brisa do mar?

Rezam os geógrafos que a maior parte dos países “em desenvolvimento” frequentados pelos autores de Jovens Diplomatas estão na zona intertropical do planeta azul. E sim, nesse primeiro post eu poderia falar de várias coisas incrivelmente interessantes e maravilhosas sobre a Tailândia: a comida, os templos, o povo, os costumes. Mas prefiro ater-me, nesse relato de estréia, ao que creio ser o elemento mais básico sobe a vida nesse país, aquilo que é inescapável, à variável comum a qualquer equação que se faça por aqui: chegar a Bangkok é redefinir todos os seus conceitos sobre o calor.

Tive a curiosidade de pesquisar a respeito. E São Google me deu as graças de muitos sítios de internet especializados em climatologia, mais ou menos unânimes em dizer que Bangkok possui média térmica anual de 28,4 ºC.  Isso, amigo leitor, é a média. Esse número é dois graus acima da nossa Manaus ou da saudita Riade, três acima de Cuiabá, seis graus acima de Brasília. E numa média anual, acredite, cada grauzinho na escala faz uma enorme diferença. O detalhe importante é que, por mais que aqui não faça os 50 graus dos desertos árabes, a umidade não deixa o calor ir embora nunca. Estamos agora na estação “fria” aqui, e em três meses, o termômetro não baixou de 25 graus nenhuma vez sequer na capital dos tailandeses – a média durante o dia é 32 graus. Arrisco-me a dizer que, de todas as cidades no mundo que possuem representação brasileira, Bangkok é a mais quente. Se não for, está entre as mais.

Sou do Recife, que quando quer é quente que só a gota. Mas lá na minha terra, ao menos temos o vento. Em Bangkok, esse luxo é raro, e não existe sequer no alto dos arranha-céus da cidade. E aí é que está a armadilha: como brasileiros, achamos sempre que estamos suficientemente preparados para lidar com o calor. Pois não estamos, e por uma razão muitíssimo simples: a não ser que você seja oriundo da Região Norte, certamente não estará acostumado com a umidade. Nós nordestinos, ou mesmo os sudestinos, não sabemos o que é isso. Parecido, só na Amazônia.

O clima equatorial do país acaba sendo um dos personagens principais da vida cotidiana. Caminhar até a padaria, dependendo da hora do dia, só é possível se vc não se importar com o suor – e haja desodorante aqui! A frase do título, por exemplo, foi pronunciada muito sinceramente por um colega aqui da embaixada, na volta do almoço de um dia qualquer. País monárquico, a Tailândia é bastante chegada em formalidades e protocolos, o que significa dizer que temos que vir trabalhar de terno completo todos os dias. E como não há restaurantes no prédio da embaixada, temos que caminhar um pouquinho para ir almoçar – ou, como fazem alguns, trazer de casa ou pedir delivery, mais pelo calor do que por qualquer outra conveniência. Aliás, trabalhar no trigésimo-quarto andar de um arranha-céus no centro de Bangkok significa, além da linda vista, estar totalmente dependente do ar-condicionado – porque nos espigões não há janelas, e mesmo se houvesse, não adiantariam de muito. O dia que ele pifou foi provavelmente o mais difícil que tivemos até agora.

Ah, o ar-condicionado, essa divina e salvadora ferramenta que a civilização luso-tropical nos apresentou! Ele está em todos os lugares aqui, para a alegria dos farangs – termo que os locais usam para se referir aos estrangeiros e expatriados. E mesmo os que não gostam dele, no Brasil ou alhures, em pouco tempo acabam declarando todo o seu amor e juras de fidelidade eterna, com buquê de flores e caixas de bombons. É claro que, como todo amor de verdade, a relação com o ar-condicionado é conflituosa, e o contraste térmico causado pelo entra-e-sai dos ambientes refrigerados é particularmente cruel com a garganta e outras vias aéreas superiores. Mas a alternativa é a chaleira, uma decisão no-brainer para qualquer ser vivo com amor pelas suas células. Eu mesmo nunca gostei muito de ir a shoppings, mas aqui já conheço todos os maiores e mais famosos, como se fossem os corredores do meu prédio – afinal, depois do almoço nos fins-de-semana, tudo o que não se quer é andar na rua. Desnecessário dizer, todos os apartamentos e casas destinados aos farangs invariavelmente têm piscina e sistema de ar-condicionado central – porque será?

Já os locais, esses parecem imunes à sauna a vapor da rua. Na verdade, a primeira curiosidade nessa história é que os tailandeses, por questões específicas da sua cultura, não gostam de tomar sol, e fazem de tudo para evitá-lo. O bronzeamento da pele é visto por eles como algo reservado apenas aos de posição social mais baixa, trabalhadores braçais e os de ascendência sul-indiana. O resultado disso é que, mesmo a 35 graus, boa parte dos tailandeses está totalmente coberta, de mangas compridas e calça. Enquanto isso o brasuca-rang, que se achava malandro e escolado no calor, está querendo se descascar, com meio palmo de língua para fora.

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Sobre RafaPaulino

Brasileiro, diplomata, pernambucano, botafoguense - nessa ordem. Está em Bangkok, Tailândia.
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6 respostas para Folhetins do Sião – Capítulo 1: “Cara, tô passando mal…”

  1. Michelângela Godinho disse:

    Nossa Rafa, compartilhei muitos dos sentimentos, e acredito que Mumbai não está longe de ser uma Bangkok… ou seria o contrário?!
    Muito bom seu post!

  2. Graciete Barros disse:

    Para mim que estou de viagem a turismo para Bangkok, foi muito interessante porque quase pude sentir na pele o calor que nos aguarda!

  3. Karin Nery disse:

    Olá, Rafael.
    Estou acompanhando o seu foletin, como, aliás, todos os post do pessoal que escreve para os “Jovens Diplomatas”. Gostei muito do seu post, e da descrição das suas primeiras impressões da Tailândia. Espero que vc tenha boas experiências aí para contar nos contar.
    Abraços
    Karin Nery

  4. Marcus disse:

    Rapaz… e eu pensando que Teresina é que era a filial da boca do inferno. Pelo menos se tiver cerveja…

  5. Guilherme disse:

    Outro dia tava ouvindo o Magrão, ex-Inter, falar sobre Abu Dhabi, onde joga atualmente. 50 graus no verão. Cruz credo. Com 30 graus aqui no Sudeste eu já tô derretido. Mas frio demais tb não é legal. O bom é 20 graus o ano todo, que tal?

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Bogot%C3%A1

  6. Domi disse:

    Nossa , adorei seu artigo ! Estou acompanhando quase todo dia o blog/site de vocês , é sempre bom conhecer novas culturas , aprimorar o conhecimento que você já tem sobre elas , e também retirar da mente alguns esteriótipos que ( querendo ou não) sempre temos . Pra mim ver essas reportagens está sendo muito bom .
    E , para quem “sonha” em ter uma carreira como a de vocês , assim como eu sonho ,as matérias ajudam muito a interessar-se cada vez mais.

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