Folhetins do Sião – Prólogo

“(…) Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento (…)”

É engraçado, mas quase sempre que leio os textos desse blog, me flagro com um sorrisinho no rosto. Os relatos compartilhados aqui, muito mais do que nos transportar a mundos exóticos e distantes, revelam confissões de um dia-a-dia reinventado, aventuras do cotidiano, grandes sagas em um dia normal. Não haveria de ser diferente: em uma geração de jovens diplomatas que aceitou o desafio de sair dos circuitos ‘clássicos’ para trilhar novos rumos no mundo “em desenvolvimento”, muitas vezes o mero fato de sobreviver ao dia sem transtornos torna-se tarefa digna de registro para os amigos. Mas, na minha singela opinião, mais do que tudo isso, os textos aqui compartilhados tratam de “alumbramentos”, nos dizeres do poeta Manuel Bandeira. São relatos sobre “primeiras vezes”, como muitas das “primeiras vezes” que temos na vida – o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro emprego.

No nosso caso, essa ‘primeira vez’ atende pelo nome de “remoção”, que é como o itamaratês denomina quando somos designados para missões de longo prazo, de dois ou três anos – o que por si só já nos traz uma sucessão de ‘primeiras vezes’ muito marcantes. E disso advém dificuldades inevitáveis de se relatar algo quando se está justamente em meio à tempestade de emoções que ainda não compreendemos bem. Como descrever, por exemplo, para um cidadão brasileiro sem muito contato com as especificidades da nossa profissão, a alegria de abrir o container com a nossa mudança, depois de vários meses morando em hotéis com apenas um par de malas? Para mim, os demais narradores desse blog são talvez um pouco mais próximos: não são apenas compatriotas, são colegas de profissão, boa parte é colega de turma do Rio Branco. Eles provavelmente entenderão o que digo, e deixarão escapar o mesmo sorrisinho que citei acima, com aquele comiserado pensamento de “já passei por algo parecido”. Mas e minha tia, meu colega de colégio, o internauta que achou a página ao acaso, será que entenderá o que digo? É meu primeiro disclaimer: me perdoem se eu estiver sendo auto-referente demais. Chamem minha atenção nos comentários quando isso acontecer, certo?

O segundo disclaimer é sobre o exagero. Mas vocês leitores concordarão comigo que, quando se trata de descrever alumbramentos, as palavras saem desembestadas e não há muito como contê-las. Se nas nossas comunicações oficiais, enviadas diariamente a Brasília com informações sobre os lugares que servimos, tentamos primar pela seriedade, aqui podemos ser um pouco mais poéticos. Responsavelmente coloridos. É tudo verdade, mas vai ter uma trovinha, pra dar um tempero.

Completo três meses em Bangkok na próxima semana. E como seria de se esperar, a mudança intercontinental e a familiarização com o novo trabalho consumiram boa parte da já curta atenção desse barnabé que vos escreve, por isso passei tanto tempo sem contribuir para essa nossa terapia de grupo compartilhada com o mundo. Os textos que envio a seguir são pílulas das minhas primeiras impressões sobre um país muito curioso, que se chama Tailândia, mas que já se chamou Sião. Serão meio curtinhos, e espero que não sejam muito desinteressantes. O narrador não é grande coisa, mas o lugar, esse sim, é digno de épicos e fábulas.

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Sobre RafaPaulino

Brasileiro, diplomata, pernambucano, botafoguense - nessa ordem. Está em Bangkok, Tailândia.
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3 respostas para Folhetins do Sião – Prólogo

  1. Juliana Abdon disse:

    Rafa, conheci o blog a pouco tempo mas posso dizer com toda certeza: ler os textos de vocês, com tantas impressões, sentimentos, descobertas, me anima cada dia e me faz ter a certeza de que é esta a carreira que quero seguir. Estou terminando a faculdade e vejo que muito que fiz nos últimos anos, mais precisamente desde que terminei o segundo grau, foram escolhas voltadas, ainda que indiretamente, para a carreira diplomática: desde o tema da minha monografia – ligado a Relações Internacionais – a constante rotina de estudos para concurso público – que já me rendeu alguns frutos – são tentativas me familiarizar com um tema novo e de ter recursos financeiros e tranquilidade para me preparar para a prova a CACD.
    Fico feliz em acompanha uma trajetória que – num futuro próximo – poderá ser minha também,

    Abraços e sucesso na Tailândia!!

  2. Edileida disse:

    Seu texto é muito bacana.Espero poder em breve ser tbm sua colega de profissão e entender assim como vc, o que é ter diversas primeiras vezes.
    Eu terei que estudar muito mais.Imagina só uma bióloga aspirante à diplomata.Comecei do zero mesmo.Vc bem sabe que o conteúdo programático é bem aquém de uma bióloga, mas no fundo minha vida se direcionou p a carreira diplomática e lendo seus relatos e de seus colegas de blog tenho cada vez mais convicção de que é essa realmente a carreira que quero seguir.
    Abraços e obrigada por compartilhar conosco, futuros diplomatas, seus sentimentos.

  3. Hehehehe… Muito bom, Rafa. Cá estou lendo-o com o tal sorrisinho no rosto!

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