Uma África imaginária

Alberto da Costa e Silva disse que a África “ficou dentro do Brasil e do brasileiro – como cousa íntima e não como realidade externa. Como espaço mítico, fora da geografia e da história.” (Das mãos do oleiro, p. 179). Um pouco adiante nos refere que, conforme atestou Câmara Cascudo, Luanda é a cidade mais presente nas canções e histórias tradicionais brasileiras. Uma Luanda que, ao contrário da capital angolana, não pode ser situada geograficamente.

Talvez seja por isso que os meus anos no Gabão tenham sido uma missão tanto sentimental quanto diplomática. Antes mesmo da chegada, a viagem para a África guarda muitas emoções, sobrevoada uma sucessão de desertos variegados, cidades e vilarejos, mosaicos de savana e floresta. Ao desembarcar, descobre-se uma África outra que a do imaginário brasileiro. Em Libreville, ao menos, a paisagem lembra o Brasil, com hibiscos, palmeiras, bananeiras, amendoeiras, o mar ao fundo. Mas, súbito, uma ceiba ou um baobá provoca certo estranhamento. E as amendoeiras transfiguram-se, fantásticas: de seus galhos pendem dezenas de ninhos esféricos dos tecelões-malhados, pequenos pássaros amarelos de cabeças negras – os pardais gaboneses. Nos restaurantes e mercados, reencontram-se a mandioca, o dendê, o quiabo, o jiló, a maniçoba, mangas, abacaxis e bananas de várias espécies. Se bem que, em seu preparo, os ingredientes familiares são ressignificados, como “nyamboué”, molho a base da polpa de dendê, ou “mendza”, purê de folhas de mandioca com peixe defumado e camarão.

Mais importante, logo se descobre que a África são muitas Áfricas. Mesmo em um país pequeno como o Gabão (aproximadamente do tamanho de Minas Gerais, mas com 1,5 milhão de habitantes), convivem mais de quarenta etnias que falam dialetos distintos, muitos dos quais incomunicáveis entre si. Afora a riqueza da diversidade interna a cada país, nas cidades africanas convivem grupos de numerosas nacionalidades – gente do mundo todo, em especial de outros países africanos. Entre camerunenses, são-tomenses, senegaleses, malienses, burquinenses, angolanos, cabo-verdianos, nigerianos, congoleses, sul-africanos, chineses, libaneses, franceses, cerca de 25% da população gabonesa é estrangeira. No Brasil, os estrangeiros representam menos de 2% da população. Não é à toa que o historiador camerunense Achille Mbembe propõe o conceito de “afropolitismo”, um cosmopolitismo de expressão africana.

Já faz quase nove meses que deixei o continente africano. E não se passa um dia em que não me sobrevenham lembranças de Libreville. Das pessoas, entre doces e cerimoniosas; do convívio amistoso na Embaixada; dos calangos coloridos sobre os muros caiados; do riacho de Gué-Gué, nosso vizinho, e seu mangue de muitas garças; do peixe fresco “à loco”, com banana frita e mandioca; das pimentas incomparáveis, verdes, vermelhas, amarelas, alaranjadas; da beleza e elegância dos africanos, vestidos em “pagnes” exuberantes, que tornavam uma breve caminhada uma experiência estética; da banquinha de feitiços no longínquo mercado de Lalala; das pirogas a riscar o rio Komo; das cantigas das populações ribeirinhas do Ogooué; da sombra da floresta assomando no horizonte, as árvores altíssimas, tidas por moradas de espíritos, como que contemplando a possibilidade de retomar a cidade.

Lembranças e saudades. Mais que objeto de memória a África tornou-se um espaço de afeto.

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Sobre Gabriela Guimarães Gazzinelli

Diplomata, tradutora e escritora. É autora de "Prosa de Papagaio", "A vida cética de Pirro" e "Fragmentos órficos".
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10 respostas para Uma África imaginária

  1. rodrigo disse:

    Belo texto. Como era de se esperar.

  2. Belas fotos, texto feito com afeto. Prezada colega, obrigado!

  3. Querida Gabi,
    É sempre um imenso prazer ler seus textos. Mais uma vez fico encantada com suas palavras suaves e sábias. Uma visão delicada da vida! Obrigada por compartilhar seus pensamentos conosco!

  4. Eduardo Mello disse:

    Bem-vinda, Gabriela!

  5. Laryssa disse:

    Olá, me chamo Laryssa.
    Gostaria de saber se você é a diplomata que se formou na UFMG em Letras. Pois estudo lá e ouvi falar de você( se você for quem eu estou pensando…rsrs)

    Se sim, gostaria de poder conversar e tirar diversas duvidas que tenho sobre a carreira diplomática e, sendo uma “colega” de curso, poderia me orientar sobre como estudou para as outras disciplinas cobradas no CACD, que por sua vez são tão distantes de nosso curso.

    Se preferir, pode me responder por email.

    Um Abraço, Laryssa.

  6. Belíssima estréia, Gabriella, e obrigado por compartilhar palavras tão bonitas conosco. Estou prestes a partir do Sudão, e entendo perfeitamente o seu sentimento de “saudade boa”, que é a mesma que guardarei daqui. Abraços, Krishna.

  7. Gabriela Guimarães Gazzinelli disse:

    Caros, muito obrigada pelos comentários e boas-vindas!

  8. Pedro disse:

    Gabriela,
    Morei no Gabão quando criança, acompanhava minha mãe que serviu lá por 3 anos. Tenho, ainda essas boas lembrança do seu José, do Egidio e de todos que seguramente conheceu na embaixada. Te asseguro que mesmo depois de passar por tantos outros países guardará o Libreville em um lugar especial.

    • Gabriela Guimarães Gazzinelli disse:

      Pedro, agradeço seu comentário. Lembro de o Egídio contar como vocês aprenderam rápido o francês. Muitos dos funcionários da sua época ainda estão lá, Egídio, Samba, Charles, José, Carlos, Abdoul. Os novos também são pessoas ótimas, Celina, Carlos, Bala…

  9. Gi disse:

    Belo texto, Gabriela!

    Sentir saudades mostra o quanto valeu a pena!

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