Os sufis do Sudão

Fotos: Nione Cristina Claudino

Nunca esquecerei as tardes de sexta-feira em que ia a Omdurman, cidade vizinha a Cartum, assistir aos ritos sufis. Daqui a trinta, quarenta anos, estou certo de que as danças daqueles homens, mulheres e crianças ainda estarão vivas, gravadas em minha memória.

Tenho certeza: lembrarei deles. De como se agrupavam na entrada do cemitério de Hamad El Nil, tocando seus sinos, tambores e pandeiros, formando um círculo composto por cerca de duzentas pessoas. E de como, após a primeira prece da tarde, o centro da roda era preenchido pelos mestres da hierarquia religiosa, senhores na casa dos setenta anos. Aos poucos, ao som de vozes entoando Allah, Allah inundava o ar. O sol se reclinava, o calor escaldante do Sudão oferecia uma trégua e outras dezenas de praticantes – agora jovens – também entravam no círculo, que começava a girar.

Não tenho religião. Sou cético e racionalista por natureza. Mas, assistindo àquelas cerimônias, compreendo porque se preservaram puras, intocadas, há séculos aqui, em Omdurman. Os giros do sufis e sua alegria cativam. Encantam. Contagiam. Não à toa, é comum encontrar europeus e norte-americanos contemplando os anciãos de túnicas coloridas, as mulheres cantando, vendendo chá. Em geral tão céticos quanto eu, os estrangeiros – alguns deles meus amigos – confessam vir a Hamad El Nil para “recarregar o espírito” após uma semana extenuante de trabalho em suas Embaixadas ou nas agências das Nações Unidas.

Pelo que li – e peço desculpas por alguma imprecisão – a origem do sufismo é controversa. Muitos afirmam que deriva de práticas ascéticas e místicas ancestrais da Pérsia, Palestina e Síria. O termo “sufi”, teria suas raízes em “suf”, palavra que designava a lã com que se vestiam os eremitas. Outros afirmam que o nome é de origem egípcia, significando “pureza”. Seja como for, com os séculos o sufismo fundiu-se a certas correntes do Islã, pregando um contato com Allah por meio de danças, cantos, do êxtase coletivo como o destes homens que vejo agora em Hamad El Nil. Em consequência disso, foi considerado herético por muitos islamistas ortodoxos, e seus seguidores mortos e perseguidos.

Mas não no Sudão. Aqui o sufismo germinou, se enraizou, frutificou, constituindo o alicerce do islamismo das ruas, popular. E mais: com o passar dos séculos, ligou-se indissociavelmente a tendências políticas. Eram sufistas os homens que, em fins do século XIX, acampando durante semanas às margens do Nilo, aguardavam a baixa das águas e o momento propício para mergulhar na correnteza com seus cavalos, sitiar e invadir o palácio do governador Gordon, tomar Cartum pelas armas e expulsar os ingleses. Anos depois, eram sufistas os mesmos homens que resistiram sem sucesso à retomada da capital por Lord Kitchener, na famosa batalha de Omdurman.

São sufistas os maiores partidos de oposição neste país. Omdurman, a cidade berço do movimento, é tradicionalmente palco de passeatas, manifestações. Numa terra em que inexiste a clássica e ocidental separação entre igreja e Estado, cada militante traz, no fundo de si mesmo, a figura de um clérigo, um asceta. Deputados, senadores, chefes de partidos políticos também são, em geral, imans: respeitados líderes de ordens sufis.

O islamismo sudanês deriva, assim, de duas grandes correntes. A sufista, mística; a tradicional ou ortodoxa. Embora haja divergências no plano da doutrina e teologia, o convívio é respeitoso. O céu de Cartum é recortado tanto pelas torres das mesquitas sunitas, cujo crescimento se deu a partir da segunda metade do século XIX, quanto pelos templos sufis, fáceis de identificar: neles, tremula a inconfundível bandeira verde, símbolo do Islã.

Verde também é a cor dos mantos sufis que, ao longo da semana de trabalho – de domingo a quinta feira – circulam pelas ruas da capital do Sudão. Se você, leitor, algum dia vier a estas paragens, também poderá vê-los: homens jovens ou de meia idade, pedindo contribuições para sua ordem, carregando bolsas de couro nas quais descansa o Alcorão. Esses devotos sufis circularão incessantemente até a próxima sexta-feira, dia sagrado, quando formam seu círculo à beira do túmulo de Hamad El Nil e giram embalados por músicas e preces.

“Os sufis são extremamente devotos e eruditos”, me diz Hijazzi, um amigo sudanês, caminhando ao meu lado após os ritos desta sexta se encerrarem. “E por isso os respeitamos. Chegamos a chamá-los de guardiões do Islã. Mas temos divergências profundas na doutrina.” Hijazzi fala do ponto de vista do islamismo ortodoxo, para quem as práticas sufistas se aproximam muito mais do misticismo do que de sua religião tradicional. 

“Por exemplo”, diz meu amigo, “a relação que eles tem com os que denominam santos. Os sufis possuem santos de devoção, enterrados em lugares sagrados como este cemitério, a quem dirigem preces, fazem promessas e encaram como intermediários entre o homem e Allah. Nós, muçulmanos ortodoxos, não cremos nisso.”

A tarde cai definitivamente em Omdurman. Penso em dizer a Hijazzi que, no Brasil, os católicos acreditam, em essência, nas mesmas coisas. E que os sufis, com a batida dos tambores, o giro das rodas e seu transe coletivo, em muito lembram a alegria de nosso candomblé. Mas não direi nada disso. Meu amigo possui um grande coração, mas é um árabe clássico: formal e cerimonioso, poderia ficar constrangido e pensar que me ofendeu, o que está longe de ser verdade.

Muito mais poderia ser dito sobre os sufis. Sobre como suas crenças se difundiram pelo mundo, foram responsáveis pela introdução do islamismo na Indonésia, fundiram-se ao politeísmo das religiões indianas, atravessaram oceanos e chegaram à Europa, à América do Norte e do Sul. Mas o dia já se encerra, e estes homens cobertos de mantos verdes deixam Hamad El Nil, exaustos, plenos, silenciosos, dissolvendo-se como eremitas modernos pelas vielas de Omdurman, nas quais circularão até a próxima sexta-feira, até formarem seu círculo. Até que, todos juntos, girem novamente. Como sempre o fizeram. Como sempre o farão.

Os sufis sudaneses. Jamais os esquecerei. 

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Sobre krishnamonteiro

Diplomata brasileiro servindo no Sudão.
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3 respostas para Os sufis do Sudão

  1. Gi disse:

    Ler vocês é percorrer o mundo sem sair de casa, uma doce tortura.;p

    Beijos!

  2. Amem Krishna! Inxalá!

  3. Gi disse:

    Gente, uma dúvida que sempre tenho e sempre esqueço de perguntar, como são os primeiros passos depois da aprovação? Depois de quanto tempo começam as remoções? Como funciona a remoção – há um quadro com as vagas disponíveis para escolha, eles alocam, enfim..?

    Beijos!!

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