O deserto dos navios

11 de março. Trigésimo dia. Nukus.

Apokálypsis, de apo e kalumna, significa “retirar o véu”. Desvendar.

Nossa viagem de hoje será apocalíptica, reveladora. Vamos visitar o mar que o homem destruiu.

Acordamos o sol às quatro horas, pois são onze de estrada até nosso destino. Para além da escala do café, não haverá outros seres humanos. Logo mais, a estrada termina. Mais duas horas e os últimos traços de vida – arbustos, moscas e lagartos – também desaparecem. Não temos bússolas; guia-nos o sol. O mapa alega que estamos margeando o rio Amu Darya, o velho Oxus, fronteira hídrica entre os mundos persa e turco, principal lifeline de gerações de mercadores, soldados e pastores. Mas o rio secou. Não há mais nada.

Às três horas de uma tarde muda, chegamos ao mar de Aral.

Minto. Chegamos à porção sudoeste de um dos quatro leitos d’água que sucederam o que um dia foi o Aral.

O ex-mar vem diminuindo ininterruptamente desde os anos 1960, vítima do homo sovieticus e de seus projetos de irrigação para fomentar o cultivo do algodão na Ásia Central. Quase 95% da superfície original secou. Onde antes havia o quarto maior mar interno da Terra, cercado de bosques e vilarejos, restou apenas uma depressão topográfica, econômica e moral.

Impossível não lembrar do Conselheiro e de sua profecia. Aqui o mar virou sertão.

A fronteira cazaque, não-demarcada, está a cinco ou dez quilômetros. Seria fácil, inútil e perigoso cruzá-la.

Esta parte do mundo, sob jurisdição uzbeque, chama-se Caracalpaquistão – mas isso importa? Estamos fora do mundo. Além das trilhas de jipe, os únicos vestígios de humanidade são as pequeninas lápides à margem da margem que já não existe. Pescadores mortos? Ou cenotáfios para o ex-mar?

O Aral é a prévia de um mundo suicida, uma anedota sinistra para os efeitos extremos do caos ambiental. Além de sufocar o ecossistema regional, a aniquilação do mar e das florestas ensandeceu os termômetros; como nada mais regula as temperaturas, o Aral se tornou, talvez, o local de maior variação climática na Terra, alcançando 40 graus negativos no inverno e 50 positivos no verão. A desertificação deixou o Aral quase tão salino quanto o Mar Morto. No centro do ex-mar, a ex-ilha de Vozrozhdeniye, hoje engolida pelo deserto, abrigava laboratórios soviéticos de armas biológicas. Agora tudo está contaminado: o ar, o solo, a água, o futuro.

O pouco que restou é violentamente varrido pela erosão. Ventos impossivelmente fortes ameaçam emborcar nossa velha Land Cruiser – três toneladas de carne, metal e malas – feito um brinquedo de papelão.

Sinto frio. Sinto angústia. Sinto-me tolo.

Penso nos milhares de turistas que o Aral um dia recebeu. Penso nos poucos e masoquistas escritores que aqui estiveram nos últimos anos, como Colin Thubron e Tom Bissell. E penso nos viajantes futuros que não conhecerão o Aral, pois o ex-mar desaparecerá inteiramente bem antes de 2020 – exceto sua pequena porção norte, tardiamente ressuscitada por uma represa.

Nossa viagem ao apocalipse termina em Moynaq, que decaiu de principal porto uzbeque a vila semi-abandonada em menos de duas gerações. Moynaq hoje dista cem quilômetros do que restou do Aral. O ex-porto é célebre por seu cemitério de navios enferrujados, surrealmente atolados na areia. São os órfãos metálicos do ex-mar.

O Aral será esquecido. Mas não se esquecerá de nós.

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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5 respostas para O deserto dos navios

  1. Pedro Carrer disse:

    Ual! Não imaginava essa realidade “Apókalyptika” – perdão pela inadequação. As sensações de ver de perto tal registro histórico e atual da devastação do meio-ambiente devem ser incríveis.

    Obrigado por compartilhar.

    Abraços

  2. Pingback: Vestígios (homenagem a Milena de Medeiros) | Jovens Diplomatas

  3. Pedro Arthur disse:

    Quando crescer quero escrever igual você.

  4. Flávio Ramos Pereira disse:

    Muito bacana, Thomaz. Gostei de cada linha.

  5. Vivian disse:

    A última foto é intrigante. Imagino as condições ( ou parcas) para realizar a viagem…

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