Manawa, Nicarawa, Oh Lay!

O Woody's sports bar na esquina de casa.

Essa era a esquina da minha casa. Meu endereço em Manágua era De Woody’s, una cuadra abajo, en el tope. O problema é que nem todos sabiam onde era o Woody’s, porque era um ponto de referência novo, que nunca ficou nem velho nem conhecido no tempo que fiquei por lá. O endereço mais eficaz era: Del Seminole, una cuadra al sur, una cuadra abajo, en el tope. Tope é o fim da rua: eu morava numa das muitas ruas sem saída da cidade. Abajo, não é na descida. É o oeste, onde o sol desce. Pro outro lado é arriba, o leste, dá pra adivinhar. Sur é o sul, mesmo, e o norte é às vezes chamado de “al lago”. E tem mais um elemento de diversão aí: Manágua está em uma grande encosta, que vai de 34m na beira do Lago Xolotlán a mais de 500m no alto das colinas, ao sul. Então, no geral, quando a rua vai para arriba, ela está indo, na verdade, pro sul.

As ruas não têm nome. Algumas têm, mas, ainda assim, não adianta, ninguém, nem os correios, sabem esses nomes. Sério. Uma carta pra mim viria, no envelope: Del Seminole una cuadra al sur una cuadra abajo, en el tope, apartamento 6. E chegaria, como muita coisa chegou, sempre.

Corre a explicação de que foi depois do terremoto de 1972, que desorganizou tudo. Não é verdade. Ou é meia verdade. Antes de 1972, havia ruas famosas em Manágua, como a Avenida Roosevelt, que saía do Palácio Presidencial e cortava o centro, terminando no lago. A rua em que, descobriu sabe-se como um historiador, enquanto eu estava lá, onde o General de Homens Livres, Augusto César Sandino, foi sequestrado nos anos 1930. E já naquela época valia o sistema de endereçamento do de no sé dónde, no sé cuántas cuadras pa un lado y pa otro. Bom, imagino eu. A Reynaluz, funcionária da administração da Embaixada, que já tinha seus muitos anos, foi quem me disse que ninguém nunca usou muito o sistema dos nomes e números para as ruas.

O terremoto é um marcador importante da História da Nicarágua, e só perde em importância só para o 19 de julho de 1979, o triunfo da Revolução Sandinista. É muito comum ver referências à Manágua de antes, em fotos e maquetes expostas em prédios públicos e privados (como o shopping Galerías Santo Domingo, por exemplo, o último construído, em 2005). As fotos, lembram um pouco as de Campinas na mesma época (ah, eu sou campineiro, nice to meet you). Caiu tudo, às vésperas do Natal de 72. A Reynaluz contou que ela era pequena, e que a casa dela caiu, mas a família tinha toda saído, e não tinha voltado antes do segundo tremor, que foi mais forte, e pegou muita gente tentando recuperar suas coisas. Morreu muita gente. E o Somoza embolsou a ajuda internacional, e nunca se preocupou com a reconstrução da cidade, que foi renascendo mais longe do lago, à beira das estradas. O caos na cidade durou muito. Em certo sentido, durou até hoje, porque nunca houve planificação da expansão urbana, além da abertura de alguns condomínios mais luxuosos na zona sul, no alto das colinas, onde é mais fresquinho. As avenidas novas foram abertas no vamo-que-vamo. O zoneamento nunca houve, o que, em parte, era interessante, na minha opinião humilde de pessoa que gosta de ver gente rica, pobre, estrangeira, local e multicolorida todas no mesmo lugar.

Não há parque central, então. Nem centro da cidade. A esquina de casa formava, com mais quatro outras, um arremedo de centro da cidade. A região era, inclusive, chamada de Nueva Managua, pelo mais velhos. Não se vê muita gente andando pelas ruas, e nem todas elas – mesmo algumas avenidas importantes – não são servidas por ônibus. Os ônibus, aliás, são, em parte, antigos thunderbirds escolares americanos ou pequenos ônibus mais recentemente doados pela Rússia – não muito mais confortáveis, no entanto. São esses, também, os ônibus interurbanos, a maioria, pelo menos. Anda-se muito de táxi, que é muito barato (a corrida dentro de Manágua mais cara que paguei foi de 5 dólares), e os táxis são coletivos, param pra pegar mais gente.

Eu morava em Los Robles. Muy céntrico, era o comentário. Era mesmo. Ia a pé pra maior parte dos meus bares e restaurantes favoritos e tinha um supermercado grandea cinco minutos a pé de casa. Tinha também um shopping que era quase uma rua, porque juntava gente que não estava ali necessariamente pra comprar, o Metrocentro. Meu bar preferido, El Caramanchel, era mais longe, perto das ruínas do Palácio Presidencial, a morada de Somoza, já em Bolonia, o bairro que era o chique em 1972, e que tem ainda algumas casas que lembram a arquitetura moderna brasileira. Esse bar é onde toda a boêmia entre 20 e 35 anos de idade se encontra. Era onde eu ia sem marcar com ninguém e sempre encontrava algum amigo. Lá aconteciam os shows legais das bandas centroamericanas, e uma vez nós mesmos da Embaixada colocamos uma apresentação de samba do Grupo Mulato Velho lá, como parte da programação cultural. Perto desse bar estavam as três (três! eu fiquei surpreso quando soube) discotecas gays da cidade.

É relativamente tranquilo ser gay em Manágua. Há crimes de ódio de vez em quando, mas quase nada, se comparado com as 25 mortes por crime de homofobia na vizinha Honduras, onde até o poder público culpa, em pleno século XXI, o homossexualismo por espalhar a AIDS… Quando cheguei com o Carlos, a Chancelaria o registrou como companheiro e ofereceu as imunidades e tudo pra ele. E olha que isso foi antes do STF decidir admitir a união! Acontecem essas coisas incômodas de piadinha, comentariozinho, mas no limite. E quando sai alguma notícia relacionada ao tema, por exemplo, reportagens sobre a pequenina Parada do Orgulho Gay de Manágua, não aparecem os doidos homofóbicos enfurecidos que se vêem na mídia brasileira.

Mas eu estava falando de Manágua contando alguma coisa do que era a cidade. Não tem como amenizar muito. Como cidade, Manágua era feia e bagunçada. Mesmo os nicaraguenses admitem isso, até porque há cidades bonitas no país. Mas eu sentia uma vibração que não tem aqui na Europa. Bom, pelo menos de onde eu me punha pra olhar, que era ao lado dos artistas plásticos, dos músicos, dos DJs, dos atores, enfim, de que estava tocando as novas ideias, os novos símbolos da cidade e do país. As festas de música eletrônica eram poucas, mas sempre cheias e sempre muito divertidas. Era delicioso o período das férias, entre dezembro e fevereiro, quando não chovia, porque sempre havia algum concerto, ou evento hip hop, ou exposicão de arte efêmera, enfim, havia gente fazendo. Não dava certo às vezes, faltavam recursos em outras, mas Manágua tinha isso da novidade e da vontade de produzir.

Bom, e pra terminar, já que falo em criatividade, meu endereço favorito era o do Marcos Agudelo, artista plástico e um dos meus melhores amigos nicas: De la Vieja Ladrona, media cuadra abajo, media cuadra al lago. E deixo assim, sem explicação, como o mapa da Capital deles…

PS: Link para video do youtube de onde eu tirei o título do post:

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Sobre hugolorenzetti

Parece que já aconteceu. Depois, quando não estou mais, descubro que estava justamente acontecendo, mas não parecebi.
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11 respostas para Manawa, Nicarawa, Oh Lay!

  1. Débora disse:

    Adorei o post =))

  2. Hugo disse:

    Achei muito interessante o post, adorei…você não tem noção do quanto isso me faz querer cada vez mais ser diplomata, acho o máximo! Adoro conhecer outros povos e culturas. Obrigado a você e aos outros diplomatas por postarem suas experiências aqui! Ah! Me chamo Hugo também! E continuem postando por gentileza, me diverto lendo essas histórias! Grande Abraço!

    • oi, Xará. Quer saber uma coisa sério mesmo? Acho que a única coisa que tem que ter, pra ficar bem nesse nosso emprego é o interesse pelo outro. O resto é diversificado, tem gente de todo tipo no nosso e em outros ministérios. Se você começa por aí, acho que tá ótimo. Bem, precisa estudar pra passar na prova, né?

      Eu quero ver que regularidade consigo manter de posts, mas nem sempre é fácil: a gente trabalha muito! 🙂

      Abraço!

  3. Victor disse:

    😀

  4. Josiane disse:

    Amei seus posts, Hugo! Como bem disse seu xará, fiquei ainda mais motivada para estudar. Por favor, continue a escrevê-los!

  5. Talita disse:

    Fantástico!! Continue escrevendo posts como esse!
    O desafio de passar no concurso é muito grande, e em face a dificuldade é inevitável momentos de desânimo, mas relatos como esse nos fazem perceber que o esforço realmente valerá a pena!

  6. Daniel Castello disse:

    Cara, que post gostoso de se ler! No final das contas o que importa mesmo é entender como funciona essa relacão com a cidade na qual vc se encontra acreditado. Cidade q sempre é provisória, não é? Gosto principalmente de tentar entender o espírito, a energia e o dia-a-dia dos lugares. Vc disse três boates gls? Uau! Aqui no Rio não me parece que haja tantas mais…Gosto mt do blog de vcs, por isso peço: deixe a preguiça de lado e escreva mais!!!

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