Entre lagos de cerveja e vulcões de chocolate

Prometi escrever faz muito tempo, quando fui adicionado à lista e convidado a dizer como foi tudo na Nicarágua, ou como estavam sendo meus últimos dias lá. Demorei. A demora mesma pode servir como a primeira historinha de diplomata, e pra deixar avisados os meninos e meninas que serão futuros colegas: mudança de Posto bagunça sua vida por um mínimo de seis meses. Mais, se você for atrapalhado com documentos como eu sou.

Meu último mês em Manágua foi muito intenso. Passei quase três anos e meio lá. Eu era o segundo da Embaixada, como muitos dos colegas que escrevem aqui. Mas escrevi no meu cartão: Chefe do Setor Cultural. Era chefe do resto, mas no cartão de visitas era isso o que eu gostava de colocar à frente. Era o que mais ocupava meu tempo, de qualquer modo, e, todo mundo no Itamaraty e fora dele que me conhece sabe: eu amo ser o cara da cultura, e acho que ficaria até meio doente se não pudesse cuidar disso.

Eu não sei muito bem como é pros colegas que se ocupam mais de outras coisas, mas cuidar de cultura te enche de amigos, amigos interessantes. Na Nicarágua, foi a chance de conhecer muita gente que estava batalhando pelas artes e pela educação ali. E muito amigo significa muita festa de despedida. E eu, que estava meio de dieta, até pra me preparar pro meu segundo Posto, a Bélgica, engordei bem um ou dois quilinhos – depois de ter perdido 40 (na Bélgica, onde estou há quatro e meio longos meses, eu me encontrei com mais uns cinco, numa loja de chocolate aqui, numa cervejaria ali, numa friterie mais adiante…).

A parte das festas é a boa. Outra coisa boa é o friozinho na barriga, esse que antecede o embarque final e definitivo, mas se antecipa desde o momento em que sai a portaria de remoção. Comprei o Routard da Bélgica, assisti a mil documentários sobre a casa nova, comecei a curtir a cidade de longe. Manágua não é uma estrela das instituições culturais, embora haja muita coisa interessante acontecendo nos poucos espaços de promoção. Os montes de museus da Bélgica, mais a notícia de que eu viria para cá ser, de novo, Chefe do Setor Cultural, e ajudaria a cuidar da Europalia.Brasil (http://www.europalia.eu), e teria quatro-cinco-seis-sete-mil eventos para acompanhar todos os dias, isso tudo me deixou muito animado. Havia dificuldades na vida cotidiana na Nicarágua. Quem daqui dos colegas me conhece do feicibuqui sabe o quanto eu reclamava. E, claro, três anos e quase meio depois, eu já estava enjoado de muita coisa. O Conselheiro aqui em Bruxelas, que está por partir também, disse que sempre há um “pacote de alívios” na saída, não importa de que Posto. É verdade. Para um culturete como eu, não ter um museu de artes visuais na Capital (tinha um em León, cujo acervo aumentava à razão de duas ou três obras por ano), ou pra um cara anti-carro como eu, uma cidade imensa como Manágua sem transporte público, essas coisas e mais alguma são mesmo um pacote enjoado. Houve alívios, todos relacionados a detalhes da vida cotidiana, mesmo. Nada muito sério.

Mas e tudo o que você não pode deixar pra trás, mas deixa mesmo assim, até porque a lei MANDA você deixar (nosso prazo máximo em Posto da categoria C é de 4 anos)? Pois é. Parece um pouco, mais ou menos, meio como morrer. Bem, não sei, porque nunca morri, não dá pra ser tão específico na comparação. Mas é triste pra burro. De uma hora pra outra, a gente se dá conta de que está num lugar pela última vez. E depois em outro, e em outro. E depois qualquer passo que a gente dá é o último naquele pedacinho de chão. É tão melancólico que fiquei triste de novo…

Não bastasse a tristeza, tem as caixas da mudança. E a papelada. Cancela internet. Cancela cartão de crédito (capítulo à parte: fiquei TRÊS horas no banco pra convencer os gerentes de que eu estava indo embora, não era falta de amor por eles que me fazia cancelar o cartão). Cancela. Cancela. Cancela. Felizmente não havia trâmites por fazer com os belgas, só consularização de diploma – ano que vem começo pós aqui -, que eu fiz nas férias no Brasil, em janeiro.

Aí vem outro momento interessante: quando a mudança sai, e você não tem mais casa, não mora mais em lugar nenhum, nem está mais indo trabalhar na Embaixada, a sensação de liberdade que surge é inexplicável. É quase uma rebeldia. Dura pouco, porque logo vem o embarque, a partida, tudo isso. Mas quando ficamos eu, meu marido e nossas duas gatas e esse mundo, olha, foi bom, viu? Bem, tinha minha irmã, que estava lá e ficou mais um pouco, mas conto isso depois, se interessar.

Na outra ponta, a bagunça é maior ainda, mas dá pra vocês terem uma ideia, porque muitos dos colegas falaram sobre como é chegar: a primeira semana de amor e paixão, e o primeiro mês atrás de fila, procurando casa, caçando carimbo. Mas aqui, agora, vou me concentrar na partida, em como foi ir embora da Terra de Lagos e Vulcões para vir morar entre cervejas e chocolates.

E foi assim: porque sou dramático, pedi, de propósito, a janela do lado direito do avião (embraer, por sinal). Desse lado, dá pra ver o Vulcão Masaya, que nunca deixa de soltar fumaça, um dos meus lugares favoritos na Nicarágua. Anúncios, boas vindas em espanhol e inglês. O avião corre, e decola. O Vulcão vai ficando mais longe, mais longe. A cidade, enorme, vai ficando pequenininha. O coração, cheio de amigos e saudades, pequenininho. Aparece o grande Lago Cocibolca, lá embaixo.

E dentro da cabine, o quê, adivinha? Um lago de lágrimas…

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Sobre hugolorenzetti

Parece que já aconteceu. Depois, quando não estou mais, descubro que estava justamente acontecendo, mas não parecebi.
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12 respostas para Entre lagos de cerveja e vulcões de chocolate

  1. Gabriel Varela disse:

    Excelente! Um relato muito passional. Aguardo ansiosamente o primeiro post sobre a Bélgica.

  2. Escreve com paixão! Como é bom ler textos assim… Keep writing

  3. Bruna disse:

    Foi o post que eu mais gostei. Keep writing (2).

  4. Andre Rozenbaum disse:

    Continue escrevendo
    .
    Como blogueiro eventual sei nosso combustivel é o apoio e o comentário de amigos e colegas
    .
    Siga em frente. To doido pra saber das cervejas.. haha

  5. Daniel Castello disse:

    Um dos melhores que já li! Gosto de relatos assim, extremamente pessoais/passionais e, por isso mesmo, ricos. Esperando (im)pacientemente estórias belgas!

  6. Ester Rangel disse:

    Adorei…tenho estudado e sonho em me tornar uma diplomata…tudo o que você descreveu aqui só me deixou com vontade de estudar mais e mais =]

  7. matvil disse:

    Também gosto da sensação de liberdade, naquele momento da remoção quando você não tem mais chave de casa, chave de carro, contas para pagar, casa para cuidar. Flutuando entre dois comprometimentos.
    Quanto à tristeza de deixar lugares, às vezes um dia há a possibilidade de repeti-los…

  8. 安迪/Andy/Adriano disse:

    o que acontece com nosso coração? depois de ter vivenciado vários postos,
    e ter se apaixonado por cada um deles e pelas pessoas que as compõe
    quando, em uma possibilidade de visitar, nas férias, nossos queridos,
    ficamos divididos e com uma vontade de nos tornar em vários pedacinhos
    e…você sabe…nunca se pode ver todos, e dar a atenção desejada,
    e conforme progride a profissão, mais e mais amigos são adicionados
    até o dia em que a internet oferecer calor humano, estará tudo resolvido

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