O Mercado de Camelos

Sei que parece caricatura, mas não é: no meio do deserto, paisagem ressecada, tudo cor de areia, um tom amarelo-amarronzado; homens negros vestidos de túnica e turbantes brancos, cajados nas mãos; as mulheres envoltas em véus coloridos preparando chás; muitas vacas com chifres enormes e, melhor ainda, muitos camelos!

Não é cenário das Mil e Uma Noites, é apenas o Mercado de Camelos de Cartum.

Para chegar lá, curtimos uma pequena aventura! Pegamos um “amjad”, uma espécie de combezinha bem velha, muito usada como táxi por aqui. Pedimos para ir até “Abu Zeid”, mas fomos parar em “Abu Zêid” (entendeu a diferença? Pois é, nem eu).

De repente, vimo-nos perdidos no meio do nada e o “amjad” que nos trouxe ainda foi embora. Ficamos, então, quatro estrangeiros sem saber falar árabe (assalam aleikum não conta), sem saber onde estávamos e sem saber como explicar aonde queríamos chegar. Eu fiquei assustada.

Mas a sorte ajuda os intrépidos e encontramos um dono de venda que falava inglês! Ufa!

Esse senhor pediu a um funcionário que buscasse um novo “amjad” para a gente, negociou o valor e não aceitou que lhe oferecêssemos nada por isso. Recusou até ficar com o troco de um refrigerante que compramos. Fez tudo por solidariedade e salvou o nosso passeio. No meio do nada, quanta dignidade!

O novo “amjad” embrenhou-se por estradas desconhecidas, indo cada vez mais para dentro do deserto. Poucos quilômetros adiante, já não havia mais estrada, apenas pedra e areia. A combezinha quebrou por uns instantes, mexe daqui, mexe dali, voltou a funcionar e seguimos. As casinhas foram rareando, perdendo as cores, ficando da cor da areia, até que, finalmente, alcançamos o ansiado Mercado!

Para entrar, passamos por baixo de uma cerca de madeira. Seguimos trocando olhares curiosos com todos à nossa volta. As crianças, mais espontâneas, gritavam “hello” ao nos ver passar.

Por conta do calor e do sol forte, envolvi-me completamente em uma canga e passei a achar bem razoável o uso de véus pelas mulheres do deserto, pois aumenta muito a sensação de conforto.

E enfim, encontramos os camelos! Que animais lindos!

Para dominá-los e evitar fugas, os mercadores amarram o joelho de uma das pernas da frente, de forma a mantê-lo dobrado. Os mais ariscos ainda são amarrados uns aos outros. Os mercadores também tem uma técnica de puxar o rabo do camelo dobrando-o, o que provoca dor e faz o bichinho ceder imediatamente.

Não posso negar que senti muita pena. Sempre acho que nós, os seres humanos, maltratamos muito os animais que nos servem.

Tentei me conformar pensando que este é o modo de vida secular deles. Fazem hoje tal como seus ancestrais fizeram desde tempos imemoriais em busca da sobrevivência. Pobres camelos!

Agora eu sei também que um camelo pode custar de 200 a 1000 dólares, dependendo do tamanho e da idade. Em algumas regiões, ainda hoje, camelos e gado são usados para comprar noivas. Uma noiva valiosa pode custar cerca de 50 animaizinhos ou mais.

Apesar da tradição, eu ainda prefiro acreditar que, pelo menos, o ser-humano e o amor não tem preço e não estão sujeitos a amarras.

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Sobre Márcia Canário

Diplomata brasileira servindo em Cartum.
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4 respostas para O Mercado de Camelos

  1. Marcinha, só faltou contar que meu shalwar kameez paquistanês despertou tanta simpatia entre os sudaneses que certamente valeu preços mais camaradas para a amjad e os camelos!

    Foi algo espantoso ver um mercado ancestral de animais, que provavelmente nada mudou nos últimos séculos, a poucos quilômetros de uma grande capital. Como escreveu algumas vezes a Juliana neste blog, nem sempre a modernidade suplanta a tradição. Ainda bem…

    • Verdade, Thomaz!
      O que seria de nós se você não estivesse vestido à paquistanesa?
      A modernidade, quando suplanta a tradição, geralmente só o faz na aparência. A forma de pensar e os hábitos permanecem por gerações a fio. Não é isso o que vemos o tempo todo, mesmo onde o passado não parece tão evidente?

  2. Jose Guilherme disse:

    Que barato o sujeito fazer questão de dar transporte ao verdadeiro mercado !

    Você quis dizer meio de vida milenar não ? Secular é outra coisa… 🙂

    Excelente relato.

  3. Monique disse:

    Linda, adorei o texto!
    É muito bom ler sobre outras culturas, em especial as não-ocidentais, que são tão antigas mas das quais quase não temos notícias.

    E fiquei bem impressionada com a prática ainda vigente de se dar “dotes” pelas noivas, rs.
    Aproveite bem essa experiência única!

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