O rei congo no congado do Brasil

 
Ô abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
                                 Brasil!
                            Pra mim… 
(Aquarela do Brasil, Ary Barroso)

 

 A ocupação holandesa em Pernambuco (1630 – 1654)  jogaria um pouco de sal no açúcar português. E de esperança ao combalido Reino do Kongo. Embaixadores kongoleses são enviados pelo Mani Kongo Garcia 1º e fixam residência  na Haya e em Pernambuco. A aliança militar entre holandeses e kongoleses não é, contudo, capaz de fazer frente aos portugueses.

Logo após a vitória na batalha de Luanda,  Portugal impõe o Tratado de 1649, pelo qual Mani Kongo é obrigado a renunciar ao norte de Angola e à região de Luanda, assim  como à exploração das minas de ouro e prata e ao controle da moeda do reino (as conchas nzimbou).

 O final desse período é simbolizado pela destruição pelo exercito português , em 1678,  da capital Mbanza – Kongo, ponto final da longa guerra civil entre os partidários do cristianismo (“modernos”)  e os kongoleses tradicionais. O reino do Kongo se dividiu em três e, após vãs tentativas de reunificação, pulverizou-se definitivamente.

A etnia Kongo (bacongo, larri) compõe  hoje cerca de 52%  da população na  atual República do Congo, cerca de 15% no Congo – Kinshasa e algo em torno de  10% em  Angola.

 No século XVIII, os kongoleses continuaram em bom numero dentre as centenas de milhares de cativos africanos trazidos ao Brasil no tráfico transatlântico. Eles foram fundamentais na lavoura do açúcar e na exploração do ouro das Minas Gerais. A enorme diáspora africana  no Brasil, congolesa em particular, elaborou diversas formas de resistência cultural.  

Congada: a familia da realeza (www.overmundo.com)

Uma delas foi a organização das congadas, festas populares teatrais e ritualizadas que, mesclando elementos religiosos africanos e cristãos, com dança e musica, celebravam e reconstituíam a cerimônia de coroação do Rei do Congo. Há registros de congadas, em Pernambuco, ainda no terceiro quartel do século XVII e, desde o início da primeira metade do  século XVIII, em Vila  Rica de Ouro Preto, com o auge da cerimônia na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Ainda hoje, em vários estados brasileiros, as congadas (ou reizados, ou festa de Chico rei, etc) são festejadas.

Congada em Ouro Preto (www.flickr.com)

Fontes: 
Histoire Générale du Congo des origines à nos jours. II. Le Congo moderne, Théophile OBENGA, L’Harmatan, 2010. 
Reis Negros no Brasil escravista. História da Festa de Coroação de Rei Congo. Marina de MELLO e SOUZA, Humanitas, 2006.
A idade do ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial, Charles R. BOXER, Nova Fronteira, 2000.

 

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3 respostas para O rei congo no congado do Brasil

  1. Boa sacada registrar nossa história e nossos vínculos com o Congo por meio da música e do folclore. Quem sabe vc poderiam se embrenhar um pouco no que representou o Congo na arte do cinema. Além de Casablanca, acabo de ver “Uma Aventura na África”, com Bogart e Katharine Hepburn, que teria sido filmado na África Central, com destaque para o Congo e Quenia. Parabéns!

    • Boa dica Ete. Preciso ver estes filmes que voce sugere. Vi tambem dois filmes (Franca-EUA), bem produzidos, com excelente reconstituicao, um sobre a ascensao e queda de Mobutu no antigo Zaire (atual RDC-Kinshasa) e outro sobre o reinado do “Imperador” Bokassa na Republica Centro – Africana.

  2. Sheila disse:

    Boa noite amigos, estou desenvolvendo um trabalho para a faculdade sobre a influência da arte kongolense no Brasil – do império aos dias atuais. Vocês têm alguma dica de bibliografia pra sugerir? Abçs.

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