Os brasileiros sem Brasil

A semana do Sete de Setembro é especial para qualquer Missão Diplomática do Brasil. As maiores Embaixadas e Consulados-Gerais exibem filmes, organizam concertos, promovem espetáculos de dança e apresentam exposições fotográficas ou de artes plásticas. Festejam, enfim, nosso patrimônio cultural e humano. Até Roberto Carlos foi cantar em Jerusalém.

Aqui em Islamabade, organizaremos uma semana culinária brasileira e traremos a cantora baiana Verônica Bonfim, que tempos atrás se apresentou em Brazzaville, banda a tiracolo. Por alguns dias o Paquistão sambará, o que é certamente inédito.

Mas representar – e celebrar – nossa terra tem um significado muito diferente na quase-ausência de patrícios.

A comunidade brasileira é muito pequena no Paquistão. Entre esportistas, restaurateurs, funcionários de ONGs e cônjuges de paquistaneses, além do próprio pessoal da Embaixada, somos menos de 40 pessoas – um centésimo de milésimo dos três milhões de compatriotas que vivem fora do Brasil. Nossa própria festa nacional terá, talvez, 95% de estrangeiros. É principalmente com eles que recordaremos nossa Independência.

Embaixada do Brasil em Islamabad

Dos tempos de estudos para o Concurso de Admissão à Diplomacia, lembro de uma citação atrevidamente dura de Darcy Ribeiro, n’O Povo Brasileiro:

“Pude 
sentir,
 no 
exílio, 
como é 
difícil 
para 
um 
brasileiro 
viver 
fora 
do 
Brasil.
 Nosso
 país
 tem
 tanta
 seiva
 de
 singularidade
 que
 torna
 extremadamente
 difícil
 aceitar
 e 
desfrutar
 do 
convívio 
com 
outros 
povos. 
O 
prefeito 
de 
Natal
 morreu 
em 
Montevidéu
 

de
 pura
 tristeza.
 Nunca
 quis
 aprender
 espanhol,
 nem
 o
 suficiente
 para
 comprar
 uma
 caixa
 de
 fósforo.
 Alguns
 se
 suicidaram
 e
 todos
 sofreram
 demais.
 Basta 
ver 
uma 
reunião 
de 
brasileiros, 
do 
meio 
milhão 
que 
estamos
 exportando
 como
 trabalhadores,
 para
 sentir
 o
 fanatismo
 com
 que
 se
 apegam
 a
 sua
 identidade
 de
 brasileiros
 e
 o
 rechaço
 a
 qualquer
 idéia
 de
 deixar-se 
ficar 
lá 
fora. (pp. 243-4)”

O parágrafo calou fundo em mim, pois morava na França à época. Reconheço que o desterro deve ser mais sofrido quando é imposto, não escolhido. O asilado político e o refugiado decerto vêem sua pátria com mais intenso sentimento – e ressentimento – do que o migrante comum, para não falar do diplomata ou do tal “expat”, seja lá o que isso for na prática.

Mas nunca consegui concordar com o velho Darcy, ainda que me esforçasse. Nossa “seiva
 de
 singularidade
”, para mim, é instinto de preservação, não de autossegregação. Não pode ser “de extremadamente difícil convívio” um povo, como o nosso, à vontade ao recordar seu passado e seu presente entre estrangeiros.

Pois celebrar o Brasil à distância não é idealizá-lo. Tampouco é obsessão ou simples nostalgia. É ajudar a construí-lo – seja perante o resto do mundo, seja diante do espelho. O Sete de Setembro, mais do que qualquer outro dia, estimula esse necessário reencontro entre nós, brasileiros sem Brasil, e nossa pátria tão longínqua.

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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10 respostas para Os brasileiros sem Brasil

  1. Humberto disse:

    Nunca fui ufanista. Muito menos nacionalista. Pelo contrário, por influência de modelos da ONU e de outras atividades acadêmicas, sempre tive a tal “nacionalidade transferida”. Seja da União Soviética, Estados Unidos, França ou Gabão. E seu post me fez pensar.

    Creio que além de mostrar o Brasil para o mundo, temos que olhar para o espelho. Um espelho difuso, de várias nuances. Quem somos? Para onde vamos?
    Podem parecer questões simples e fáceis de responder. Mas eu ainda não consegui imaginar uma resposta. O Chinês diz que não se importa para onde vai, se continuar indo. O americano diz que tem que ir ao topo. E nós?

    Ademais, parabéns pelo blog. Estamos sempre acompanhando!

  2. Bela referência a Djalma Maranhão, Prefeito de Natal em 1956; reeleito em 1960; cassado, preso, torturado e exilado em 1964 para morrer em Montevidéu em 1971. Um dos políticos mais dignos e honrados do Rio Grande do Norte e, sem dúvida nenhuma, do Brasil. Me orgulho em ser seu conterrâneo.

  3. Muito bonita a Embaixada, Napoleão! Abraço.

  4. Cassiano Bühler da Silva disse:

    Lindo post, inspirador, especialmente para os jovens diplomatas ainda mais “modernos”. Essa possibilidade de ajudar na construção de um país tão belo e vibrante como é o nosso é o que nos torna particularmente felizes, apesar das dificuldades, onde quer que seja. Não estamos nunca distantes da chama do Brasil: o que tentamos é irradiá-la! É uma missão nobre e que motiva a ponto de vencermos as dificuldades práticas. Abraço!

  5. Marília disse:

    Thomaz, parabéns pelo post. Tuas histórias em Islamabad nos fazem viajar por um mundo até então desconhecido. São um presente para quem ficou no Brasil. Continue escrevendo.

  6. Martha disse:

    Adoro o blog. Fico sempre aguardando novos relatos. Inspiram meus estudos pro concurso! Abraços,

  7. Leticia Zero disse:

    Passei um ano morando e trabalhando em Kuala Lumpur, Malásia, e por uma razão qualquer nunca me registei na embaixada ou tive qualquer contato coma comunidade brasileira. Quis viver completamente imersa naquele cotidiano, salvo o contato virtual com família e amigos. Hoje, não consigo encontrar qualquer sentido nessa razão. Me arrependo de não ter percebido que isso teria feito parte do meu cotidiano e da construção de todas as experiências daquele momento.

  8. mari disse:

    perdi o sono e acabei aqui!

    me lembrou do meu texto preferido para os momentos “brasileira com uma missao no exterior” – a viajante, do rubem braga.

    um abraco, mari

  9. Sabe que na hora de cantar o hino eu sempre dou uma engasgadinha de saudade?

    Abraço, colega! 🙂

  10. Daniel Castello disse:

    Taí talvez a razão que fala mais alto na hora de decidir por essa carreira: a saudade da terra. Eu, que nunca fui dado a rompantes desse gênero, fico imaginando se suportaria um exílio voluntário…rs

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