O Ramadã e o Islã no mundo

Mesquita Sheikh Lutfullah, Isfahan, Irã

Mesquita Sheikh Lutfullah, Isfahan, Irã

O bilhão e meio de filhos do Islã, disperso principalmente (mas não somente) entre Bissau e Bornéu, celebra neste mês o Ramadã. É a data que mais reforça a unidade da ummah, a comunidade muçulmana global.

Centro Islâmico de Astana, Cazaquistão

Centro Islâmico de Astana, Cazaquistão

Durante os 28 ou 29 dias do Ramadã, o nono mês do calendário islâmico, deve-se manter jejum absoluto de alimentos e bebidas entre o sehri – refeição anterior à reza do aurora (conhecida como fajr) – e o iftar, desjejum festivo após o maghrib, a prece do poente.

Mesquita de Bissau, Guiné-Bissau

Mesquita de Bissau, Guiné-Bissau

O Ramadã é um mês de contemplação, de tranquilidade, de silêncio. A vida desacelera. O diplomata que serve em um país de maioria muçulmana – como metade dos autores deste blog – aprende a compreender e respeitar esse novo ritmo. Não é época para coquetéis e festas mundanas, a menos que sejam realmente indispensáveis.

Mausoléu de Harun Vilayet, Isfahan, Irã

Mausoléu de Harun Vilayet, Isfahan, Irã

Ao lado da teologia, a astronomia governa rotinas e metabolismos durante o mês sagrado. Quando o Ramadã coincide com o verão do hemisfério norte, como em 2011 (aliás: 1432), a duração do jejum diário varia enormemente segundo a latitude. Pode ser de 13 horas, em Mogadíscio, e até de 18 horas em Astana. Aqui no Paquistão setentrional, são aproximadamente 15 – das 4 da madrugada às 7 da noite.

Mesquita Azul, Istambul, Turquia

Mesquita Azul, Istambul, Turquia

Mas não basta espiar pela janela para ver se o sol já (ou ainda) está no horizonte; há cálculos complexos para definir, oficialmente, o horário do jejum de cada dia. Cada escola jurídica islâmica (Fiqh) adota equações diferentes.

Assim, a principal jurisprudência sunita do centro-sul da Ásia, a Fiqh-e-Hanafi, determina um jejum aproximadamente 20 minutos mais curto que o da Fiqh-e-Jafaria, maior tradição jurídica xiita.

Complexo de Turabeg Khanym, Konye-Urgench, Turcomenistão

Complexo de Turabeg Khanym, Konye-Urgench, Turcomenistão

Compreensivelmente, os fiéis aguardam com grande expectativa a chamada do muezzin que anuncia o final do jejum a cada anoitecer. Todas as atividades humanas são subitamente interrompidas quando, enfim, ressoam os alto-falantes das mesquitas – que, em Islamabad, foram planejados para alcançar sonoramente todos os pontos da cidade.

A tradição pede que o muçulmano quebre seu jejum com tâmaras, como teria feito o Profeta.

Casamento palestino em Amã, Jordânia

Casamento palestino em Amã, Jordânia

O Ramadã termina com o Eid-ul-Fitr, a “festa da purificação”, cuja importância ritual é mais ou menos comparável à do Natal cristão. Nesse longo feriado, até as famílias física e emocionalmente distantes se reúnem para celebrar a vida e a fé comum.

Mais prosaicamente, o Eid-ul-Fitr é momento de lotar aeroportos, distribuir presentes e pagar décimos-terceiros salários. É época de proliferação de sorrisos – e de comida, muita comida.

Mesquita Faisal, Islamabad, Paquistão

Mesquita Faisal, Islamabad, Paquistão

Indiretamente, o Ramadã também é a ocasião para celebrar a diversidade cultural do mundo islâmico, tão antigo e tão moderno, em permanente reinvenção, que homenageio nestas fotos singelas, de viagens diversas.

É religião infinitamente plural, que se adapta aos particularismos de cada sociedade mas sempre preserva os mesmos pilares centrais: as rezas diárias, a peregrinação a Meca, a fidelidade a um único Deus, a generosidade com os necessitados e, claro, o Ramadã.

Mausoléu de Tamerlão (Guri Amir), Samarcanda, Uzbequistão

Mausoléu de Tamerlão (Guri Amir), Samarcanda, Uzbequistão

Os iranianos têm seu ano novo pré-islâmico, o Novrus; os indonésios, suas crenças tradicionais; paquistaneses e indianos, os rituais do sufismo. Alguns muçulmanos rezam cinco vezes por dia, outros três, outros zero. Alguns seguem aiatolás, outros obedecem a maulanas. Alguns sonham com o Califado, outros com a União Europeia.

Mesquita de Sinan Pasha, Prizren, Kosovo/Sérvia

Mesquita de Sinan Pasha, Prizren, Kosovo/Sérvia

São civilizações muito distintas. O Ramadã as unifica.

Mausoléu do Imã Ali, Mashhad, Irã

Mausoléu do Imã Ali, Mashhad, Irã

Aos interessados nas expressões visuais da fé de Maomé, sugiro procurar o belíssimo livro Amrik, editado pelo Itamaraty em 2006, logo após a primeira Cúpula América do Sul-Países Árabes. São retratos da influência árabe em nosso continente.

Claro, é um pouco mais restrito – fala-se aqui de cultura árabe, não islâmica – mas ainda assim vale a pena conhecer. Mash’Allah!

Mausoléu de Kozha Akhmed Yasaui, Turquestão, Cazaquistão

Mausoléu de Kozha Akhmed Yasaui, Turquestão, Cazaquistão

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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14 respostas para O Ramadã e o Islã no mundo

  1. (peço desculpas por eventuais incorreções teológicas)

  2. Eduardo Mello disse:

    Belíssimas fotos, cara, abraço

  3. Sensacional, Thomaz. Ramadan Kareem!

  4. Gabriella Campos disse:

    Lindas fotos.
    Parabéns.

  5. Bianca Abreu disse:

    Lindas fotos e excelente informação. Aprendi muito! Obrigada!

  6. Gabriela Almeida Monteiro disse:

    Nossa! Você quem tira essas fotos??? Estão show!

  7. Humberto Cimino disse:

    Muito interessante, mesmo! E que fotos sensacionais!

    Pergunta:
    Você está seguindo o Ramadã?

  8. Obrigado a todos/as pelos gentis (e provavelmente exagerados) elogios!

    Humberto, não sigo o Ramadã, pois não sou muçulmano, mas o respeito. Em outras palavras, não como nem bebo qualquer coisa em público neste mês, exceto o jantar, que é permitido.

  9. Guilherme Gondin disse:

    Querido amigo,

    Fico feliz de ter compartilhado com você alguns dos momentos retratados no post. A viagem para a Pérsia certamente marcou minha vida.

    Gde abraço,

    Gondin

  10. mariana disse:

    Que legal esse post! As fotos lindíssimas nos transportam entre as linhas de um texto tão interessante! Parabéns!

  11. Isabelle Machado de Holanda disse:

    Imagens que inspiram..

    belas imagens que inspiram!

  12. Filipe Azevedo disse:

    Assalamu Aleikum, Thomaz !

    Eu amei este post e tenho visto outros também. Sou brasileiro e muçulmano e também quero ser diplomata rsrs Comecei a me preparar agora e gostaria de perguntar se você possui o contato de algum colega que tenha sido premiado com a bolsa-prêmio vocação para a diplomacia. Também estou nesta disputa e já fui aprovado na prova objetiva, mas necessito de alguma orientação para montar o cronograma de gastos.

    Se você quiser pode enviar um e-mail para mim: muhammad@ig.com.br

    Todos do blog estão de parabéns e inshallah seremos colegas em um futuro próximo.

    Grande abraço para todos!

    P.S.: Gostaria de compartilhar contigo este vídeo da minha filha dançando ao som de alguns anasheed http://www.youtube.com/watch?v=4WEzqfJ6NP0&feature=mfu_in_order&list=UL

  13. Elizabeth lyly disse:

    Não sou mulçumana.. mas encontrei em um grupo de estudos vários deles.Fiquei encantada com a fé que eles possuem, achei fantástico… como eles conseguem viver uma vida,,, de tentar a perfeição .. sexo só depois do casamento…oração 5 vezes por dia.. Amam o profeta Mohammad . e seu deus que é o nosso chama- se ALLAH. Comemoram o Eid -UL com todo o amor no coraçao. Conseguem fazer o jejum com muita paz, alegria e união. Estou me aprofundando nesse assunto que me despertou muito interrese em seguir. Karoline Kate Lyly.

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