Conhecendo a Etiópia do subconsciente brasileiro…

Vista aérea de Dolo Ado

Assim como muitos colegas que contribuem para esse blog, causa estranheza às pessoas – para dizer o mínimo – quando digo que moro e trabalho na Etiópia. As imagens da Grande Fome de 1984, que assolou a Etiópia durante o regime comunista do Coronel Mengistu, ainda permanecem no subconsciente nacional. 

Desde minha chegada à Etiópia, posso dizer que vi pobreza, mas longe de ser o que imaginamos quando estamos no Brasil. Mas dizem que Adis Abeba não pode ser considerada exemplo, uma vez que “a realidade” estaria no campo, onde 80% da população etíope vive. Permanecia, assim, com a imagem urbana do país. 

Contudo, a atual crise humanitária que assola a região, fruto da pior seca dos últimos 60 anos, dentre outros fatores, levou-me a, finalmente, conhecer a Etiópia do subconsciente nacional. Visitei a cidade de Dolo Ado, sudeste da Etiópia, 500m da fronteira com a Somália, local onde se encontra o maior número de refugiados somalis (120 mil), nos 4 campos existentes. 

Durante a viagem de 2h30, partindo das highlands (2.500 m e 12°C – sim, na Etiópia faz frio, muito frio nessa época, especialmente pela manhã) rumo às lowlands (cerca de 400 m e 37°C), preparava-me psicologicamente para defrontar com as piores imagens possíveis. 

Ao chegar a Dolo, muita poeira, muito calor e muitos olhos curiosos em nossa direção. 

Recepção dos refugiados somalis

A realidade mostrou-se melhor do que imaginava. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e o Programa Mundial de Alimentos, juntamente com ONGs, como Save the Children e Médicos sem Fronteira, surpreenderam-me pela capacidade organizacional. 

O número de pessoas intimida. Mulheres e crianças por todo o lado. Poucos homens. Conhecemos o centro de recepção, local de primeiro contato dos refugiados somalis ao chegarem em território etíope e onde recebem a primeira refeição; o centro de trânsito, onde aguardam para serem transferidos definitivamente para um Campo de Refugiados; o Campo de Kobe, recém-aberto e já com a lotação máxima; e as futuras instalações do Campo Hilaweyn, aberto recentemente. 

Centro de Trânsito

Posso dizer que a situação não se compara àquela de 1984, mas nem por isso é menos preocupante. Ver aquelas pessoas chegando sem nada e conhecer os locais difíceis onde muitas delas viverão por anos, algumas, inclusive, nascerão por lá (vimos uma criança nascer no Campo de Kobe), faz entender que a situação dos refugiados somalis, bem como a questão da insegurança alimentar no Chifre da África, são bem mais complexas do que se possa imaginar à primeira vista.

Campo de refugiados de Kobe

Conhecer o trabalho realizado pela comunidade internacional, por outro lado, demonstra o quão importante é a concertação política em âmbito internacional com vistas a amenizar o problema. 

Enfim, são oportunidades como essa que me fazem gostar tanto do meu trabalho….

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Sobre Marcelo A. Borges

Paulistano, franciscano, corredor e diplomata. Na Etiópia.
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24 respostas para Conhecendo a Etiópia do subconsciente brasileiro…

  1. Gabriella Campos disse:

    Marcelo,
    São posts como o seu que me estimulam a estudar e me tornar uma diplomata como você. Parabéns.

  2. Fantástico, Borges. Assustador e fantástico…

  3. Obrigado pelas notícias Borges!
    Estamos torcendo por você.
    As fotos são suas?
    Grande abraço.

  4. Maurício Chavenco disse:

    Borges, reforço o dito pelo Matcholas: obrigado pelas notícias. Ótimos texto e fotos.

    • Sali, meu caro, vc sabe fazer um amigo se sentir bem… Tou esperando uma visita sua. É do lado, vai…hehehehe

      • Maurício Chavenco disse:

        Mas é sério! Seus textos são leves e garantem uma leitura gostosa.
        E eu farei uma visita, sim. Ainda não sei quando, mas vou!

  5. Luciana Fujiki disse:

    Belíssimo, Borges!

    Bjs

  6. Bianca Abreu disse:

    A matéria ta digna de um jornalista. O tema eh muito importante e precisa ser melhor divulgado no Brasil e no mundo. Vc contribuiu para isso. Parabéns!

  7. Humberto Cimino disse:

    Olá! Ótimo post, mesmo! Sou estudante de R.I na PUC-SP, e estamos organizando um comitê de ajuda estudantil ao Chifre da África. Até agora, Israel e o Reino Unido tem sido parceiros excelentes nesta campanha, mas eu gostaria de saber mais sobre a representação brasileira na Etiópia, e em como podemos ajudar.

    Humberto

  8. Rane Souza disse:

    Parabéns! Texto informativo, lúcido e humano.
    Obrigada por compartilhar.

  9. Eber Guny disse:

    Olá Borges. Sou o editor do site Mochilao Sem Fronteiras. Estou escrevendo um livro sobre a vida em campos de refugiados e gostaria de saber qual é o “caminho” para eu passar umas 4 semanas vivendo no campo de refugiados de Dolo. Também estou cogintando ir a Dadaab, no Quênia. Se você tiver alguma dica ou puder ajudar, agradeço.

    Atenciosamente,

    Eber

    • Caro Eber, não sei se é possível passar um tempo dentro de um campo de refugiados na Etiópia. Sei que você pode visitar a cidade de Dolo Ado, apesar de o acesso ser precário.

      Uma sugestão que posso te dar é entrar em contato com as ONGs que tem forte presença na área (Save the Children, OXFAM GB e Médicos Sem Franteiras-Espanha) para verificar eventual oportunidade de trabalho voluntário.

      Abraço!

  10. Nishi disse:

    Vi Dolo no Googlemaps, bem próximo á fronteira com o Quènia também, transformando o lugar, em tese, numa espécie de “terra prometida” dos corredores. Na prática, bem longe disso. Esses refugiados somalis fogem do que, especificamente? Sim, sei que a situação de desgoverno da Somália é absurda, mas esse refugiados devem ter um motivo específico para estar ali, não? Eles são um grupo étnico perseguido, fogem de uma guerrilha específica, estão “simplesmente” (entre aspas porque não há na simples nisso) fugindo da fome… ? Sou bem curioso, né??

    • Caro, pense num país com dificuldades de implementar um gover de fato em todo o território há mais de 20 anos.
      Adiciona-se a isso o fato de, no sul da Somália, encontrar-se a base da Al-Shabaab, milícia islâmica relacionada com a Al-Quaeda e que não permite a entrada de agências humanitárias e de ONGs para prestar auxílio à população.
      Acrescente-se, por fim, o fato de ser esta a pior seca dos últimos 60 anos na região.
      Os refugiados vão buscar melhores condições de vida e estabilidade nos países vizinhos…

  11. Edileida disse:

    Olá, Marcelo.
    Sou bióloga e aspirante à diplomata.
    Recentemente estávamos em aula, no mestrado, sobre manejo de fauna e entramos na questão da África e a fome; acerca da qtde exacerbada de elefantes que poderia ser manejada justamente para amenizar a fome, uma vez que é proteína animal e em abundância. Vc saberia dizer algo a respeito?
    Antecipadamente agradeço.

  12. Leandro disse:

    Caro Marcelo, lhe parabenizo pelo texto sensivel e humano.
    Apenas a título de curiosidade, de que forma o diplomata, sobretudo o brasileiro, está inserido na ajuda humanitária existente na Etiópia? Há formas de inserção do governo brasileiro nesta ajuda?

    Desde já agradeço a atenção!
    Bom trabalho!

  13. Luciane Rodrigues disse:

    Ola ,você ainda esta na Etiópia ?

  14. Luciane Rodrigues disse:

    Oi Marcelo , meu esposo esta na Etiópia a alguns meses ,perto de Addis Abeba , em Debre Zeit, Shewa, , ele trabalha como técnico em calçados numa fabrica de calçados Chinesa ,seria interessante ele entrar em contato contigo para trocarem experiencias , o face dele é Edson Gustavo .
    Abraços Luciane

    • Olá Luciana, peça para ele entrar em contato com a Embaixada do brasil para se registrar. É sempre bom termos o registro de todos os brasileiros no país. Os tels são 011-662-0401/0403.
      Abraço!

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