Hiroshima

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.

        Vinícius de Moraes

Eu devia ter uns 12 anos de idade quando ouvi a música e li o poema pela primeira  vez. Foi durante uma aula de literatura. A professora mostrou slides com fotos de Hiroshima. Lembro de ter ficado calada, perdida nos meus pensamentos: crianças, meninas como eu.

Vinte e dois anos depois, eu conheci a verdadeira Hiroshima. Não se parece em nada com as memórias que eu tinha. É uma cidade moderna, reconstruída, viva. A tristeza, contudo, está em todo lugar. Estávamos ali para participar da cerimônia anual de paz. Junto com outros diplomatas, relembrávamos o 6 de agosto de 1945.

Segundo nos contou um dos sobreviventes, à época com 16 anos, era uma manhã de segunda-feira. O dia estava quente e o céu sem nuvens. Ele estava sentado em sua sala de aula e lembra de ter visto o B-29 nos céus. Logo depois, um grande clarão e chamas. Sua escola desabou e ele não lembra quanto tempo ficou desacordado. Na escuridão, tateou o chão, procurando uma saída. Nos contou que rezou pela primera vez em sua vida. Clamou por ajuda. “Help me mother, help me Budha.”

Depois do bombardeio, a cidade de Hiroshima lançou uma campanha pedindo assistência do governo para a construção de uma cidade de paz. O Museu Comemorativo da Paz é impressionante. Testemunho material da destruição. Lancheiras e uniformes de estudantes que nunca foram encontrados. Maquetes para mostrar como a região foi reduzida a um deserto. O relógio que marca 8:15. Andar por seus corredores é necessário e ao mesmo tempo insuportável. Destruição, morte, chamas. Temos o dever de relembrar.

Sadako Sasaki tinha dois anos quando a bomba atômica foi lançada. Aos doze, foi diagnosticada com leucemia e morreu alguns meses depois.  No leito do hospital, Sadako dobrou mais de 600 origamis de tsuru, o pássaro sagrado do Japão, acreditando que ao completar mil teria direito a um desejo. Dentro do museu, observo as crianças debruçadas no vidro. Admiram os tsurus de Sadako.

A cerimônia foi rápida. As badaladas do sino marcaram o minuto exato em que a bomba explodiu. Discursos em nome da paz e do desarmamento nuclear. Flores para as vítimas. Tudo organizado, tudo cronometrado. Ao deixar o local, seguindo a placa “diplomatic mission”, concentro-me nos rostos dos sobreviventes, das famílias das vítimas, mas não há nada lá. Nada que eu pudesse entender. Ao ser questionado sobre seus sentimentos após a explosão da bomba, um dos sobreviventes disse: “eu não tenho raiva, tenho sorte. Eu podia ter sentado do lado errado da sala de aula.”

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6 respostas para Hiroshima

  1. Josiane disse:

    Belo post e belas fotos.

  2. Adriano disse:

    Assisiti a um documentário sobre Hiroshima recentemente e, mesmo tendo me sentido muito mal com as imagens e relatos, entendo que jamais saberei o quão terrível tudo aquilo foi para o Japão. Vocês, diplomatas, têm muita sorte de poder presenciar uma cerimônia como a descrita. Eu tenho como maior sonho representar o Brasil como vocês o fazem. Por enquanto preocupo-me em terminar o Ensino Médio – tenho 17 anos. Mas até eu poder prestar o concurso, as histórias de vocês continuarão me mantendo firme em minha decisão.
    Meus parabéns pela iniciativa!

    • Marcela disse:

      Adriano, realmente considero-me afortunada. Desejo sorte em seus estudos. Muita concentração e tranquilidade!

  3. Adriano disse:

    Assisti a um documentário sobre Hiroshima recentemente e, mesmo tendo me sentido muito mal com as imagens e relatos, entendo que jamais saberei o quão terrível tudo aquilo foi para o Japão. Vocês, diplomatas, têm muita sorte de poder presenciar uma cerimônia como a descrita. Eu tenho como maior sonho representar o Brasil como vocês o fazem. Por enquanto, preocupo-me em terminar o Ensino Médio – tenho 17 anos. Mas até eu poder prestar o concurso, as histórias de vocês continuarão me mantendo firme em minha decisão.
    Meus parabéns pela iniciativa!

  4. Rafael disse:

    Prezada Marcela

    Morei no Japão por algum tempo e conheço a beleza do país. É realmente incrível…

    A concorrência para um posto no Japão é muito grande, ou acaba sendo menos visado em virtude do idioma, cultura e etc?

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