Sobre encontros e Ngoks

Ecrire, c’est s’ouvrir a tous les vents. Ecrire, c’est entreprendre la quete inachevee. J’ecris parce que la vie me deroute, j’ecris parce que j’ai peur de la mort. J’ecris pour apprendre a penser, pour mieux comprendre autrui, j’ecris pou me comprendre. J’ecris pour me racheter.

                                                                                                                                Henry Lopes

Desculpem – me pela ausencia temporaria. Estou nas circunstancias de Brasilia, nos imensos planaltos e chapadoes dos cerrados do Goias: Rio  Quente, Pirenopolis, Goiania, Anapolis, Alto Paraiso, Sao Jorge… Nesse ultimo vilarejo, localizado na entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o primeiro reencontro com a Africa, ha’ duas semanas, durante o Encontro de Culturas Populares. Depois das apresentacoes dos grupos regionais de catira, eis que, ao lado dos calungas e de outras comunidades quilombolas de todo o Brasil, surge o grupo de tambores do Benin, irmao dos tam-tams congoleses. Muitas emocoes.

Em transito por Brasilia, o segundo reencontro. Meio que por coincidencia, vou dar uma conferida no Feitico Mineiro. La’, nas paredes do bar, entre outras preciosidades, uma cartinha de 2007, escrita por uma senhora, com um rotulo da cerveja congolesa Ngok, carinhosamente dedicado ao Jorge Ferreira, o dono do Feitico. O rotulo de NGok, que significa crocodilo em Lingala, deve ter sido recolhido na viagem precursora da visita do ex- PR Lula ao Congo, em 2007. A descricao diz que, se nao chega a ser uma cerveja extraordinaria, e’ ainda assim  boa. Na verdade, a ja’ quase lendaria Ngok, produzida na brasserie da saida norte de Brazzaville, nao deixa nada a desejar a esses xaropes da Ambev que tenho consumido por aqui. Nao e’ a toa que imperiais, devassas e que tais sejam cada vez mais apreciadas no Brasil. Mas voltemos ao Congo…

          

De la’ para ca’ varias Ngoks foram apreciadas em Brazzaville (nos villages ainda se toma o vinho de palma). Eu a descobri logo que cheguei e a apresentei ao pessoal da Embrapa e, em seguida, aos colegas da Agencia Brasileira de Cooperacao (ABC), em abril de 2010, depois de assinarmos todos os acordos e ajustes de cooperacao com os Ministerios da Saude e da Agricultura da Republica do Congo. Aprovacao unanime. Ela tambem foi muito apreciada pelo pessoal do Instituto Nacional de Pesquisas  Espaciais (INPE), que apareceram,meio de surpresa, em janeiro de 2011.

Mas quem se encantou mesmo com a cerveja do jacare’ foram os musicos cariocas que acompanharam a cantora Veronica Bonfim, baiana de Itabuna, no Festival de Musica Pan-Africana (FESPAM), em julho passado. Gracas ao apoio do Departamento Cultural do Itamaraty (abracos Izabel!), Veronica Bonfim, Dodo Ferreira (baixo), Gabriel Geszti (acordeao) e Tiago Magalhaes(percussao) tocaram no Kudia Jazz e curtiram o clima boemio do bairro do baixo Congo. Nao e’ a Lapa, certo, mas, no bar de Gladys, como diz Veronica, foi ”trop massa”!

      Veronica Bonfim e banda no FESPAM

O FESPAM, que ocorre bienalmente em Brazzaville e reune artistas de todo o continente e convidados internacionais, foi em 2011 marcado por uma tragedia: a morte de sete pessoas, pisoteadas na entrada do estadio, enquanto ocorria o espetaculo de abertura. Confiram, no link abaixo, o video em homenagem aos mortos, produzido pelo musico congoles Passi, com os artistas presentes em Brazzaville, no dia seguinte ao acidente. O video dos artistas do FESPAM, de Brazza para o mundo:

http://www.youtube.com/watch?v=ekIcxdGBxOk&feature=player_embedded

Devo aqui tambem prestar homenagem ao impavido, obstinado e abstemio Doutor Fernando Teixeira Mendes, diretor da CEPLAC em Belem, um dos maiores especialistas brasileiros em cacau e responsavel pelo projeto de desenvolvimento da lavoura de Cacau nas regioes de Sembe’ – Nemeyong (fronteira com Camaroes) e na Likouala (onde vivem milhares de refugiados que atravessaram o rio fugindo da guerra civil no outro Congo).  O Dr. Fernando esteve duas vezes no Congo e retorna para a terceira dentro de algumas semanas. Eu tomarei minha NGok enquanto Fernando, entre um gole e outro de refrigerante, me ensinara’ um pouco mais sobre a economia do cacau.

Para finalizar, deixo uma referencia de leitura para os francofonos interessados no tema da mesticagem, e uma dica adiantada de presente para o dia das criancas:

O livro de ensaios de Henry Lopes, premiado escritor e atual Embaixador da Republica do Congo em Paris: Ma grand mere bantoue et mes ancetres les Gaulois, Continents Noirs Gallimard, 2003

A serie de desenhos animados infantis Kirikou, de excelente qualidade, e’ uma producao francesa de tematica 100% africana. A trilha sonora e’ de um Senegales que esteve no FESPAM: Kirikou e a Feiticeira e Kirikou 2 os animais silvestres: www.youtube.com/watch?v=gxUiV9-R26k

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7 respostas para Sobre encontros e Ngoks

  1. Então a Veronica Bonfim se apresentou aí em Brazzaville, Felipe? Que interessante; ela está vindo para Islamabad no mês que vem, tocar no nosso Sete de Setembro! Abraço e boa NGok!

  2. Abraco Napoleao! Sim, a Veronica Bonfim arrebentou em Brazzaville. Ela e’ uma cantora de primeira e tem um carisma extraordinario. Alias, toda a turma que a acompanhou: Dodo Ferreira, Gabrielzinho e Tiago.

  3. Abordando suas vivencias profissionais, culturais e sociais sem perder de vista o enfoque familiar.

  4. Bianca Abreu disse:

    E viva a cooperação cultural, musical e etílica!

  5. erica barros-heimburger disse:

    A tituto de curiosidade, a descoberta do Kudia Jazz, lugar ecletico de Brazza, somente descoberto nove meses depois de estarmos por la! Musicos de excelente qualidade, como se estivessemos nos guetos estadunidenses. Pode-se inclusive ouvir bossa nova! Deixo aqui uma homenagem ao mestre Fortune e sua turma: le musee d` Art! Saudades dos tambores… Lipe, obrigada por sempre pensar nas trocas culturais! Beijos mil, Erica Heimburger.

  6. Pingback: Os brasileiros sem Brasil | Jovens Diplomatas

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