Uma noite de natal no Egito

Erguido no centro do Cairo, no meio de um bairro povoado por ambulantes e jogadores de gamão, o Windsor Hotel já conheceu dias de “glamour”. Os mochileiros que hoje circulam por seus corredores em nada lembram os oficiais do império britânico que, em fins do século XIX, o elegeram como a melhor hospedagem e ponto de encontro na capital do Egito. Enquanto esperamos nossas chaves, digo à minha mulher que prefiro o Windsor de hoje: agitado, poeirento, barato e democrático. Mas, ao contemplar a decoração de outra época que ainda vive em cada um de seus espaços, penso que até a decadência pode ter seu charme.

Nos instalamos, descemos para o restaurante. É 25 de dezembro de 2010, noite de natal. Após completar nove meses no Sudão, decidimos passar a data no Cairo, a apenas uma hora e meia de vôo de Cartum. Pouco antes de partir de nossa casa sudanesa, escolhendo na última hora um hotel pela Internet, encontramos o pequeno texto sobre o Windsor, sua história: como o bravo egípcio resistiu firme a revoluções, mudanças, replanejamentos urbanísticos. Não tivemos dúvida – aqui estamos. Pois, quase como um dos velhos vendedores que lotam nesta noite as ruas e praças do Cairo, o Windsor seduz sem que você se dê conta disso.

As doze mesas do restaurante estão quase vazias. Os garçons são gentis, desejam “feliz natal”. Pôsteres do início do século XX anunciam vapores que sairão em um 12 de janeiro há muito tempo perdido. Retratos a óleo ilustram o Cairo do período otomano, ao lado de fotos em preto e branco das pirâmides.

O homem entra discretamente no salão. Paletó de tweed, gravata, cabelos brancos, andar que aparenta o fardo de, no mínimo, setenta e cinco anos. Percorre as mesas com olhos de um azul alegre, muito vivo. Ao nos ver, caminha em nossa direção.

– Boa noite, saberiam me dizer a que horas começa a ceia?, diz num inglês formal, com forte sotaque da Irlanda.

Respondemos que, de acordo com o previsto, os pratos deveriam ser servidos dentro de meia hora. Ele agradece e caminha a passos lentos para a mesa ao lado.

Contemplamos aquele senhor solitário, formal, de roupas elegantes e antiquadas. Imaginamos que, dentro de poucos instantes, seus amigos chegarão. Mas nenhum dos barulhentos jovens franceses, egípcios e turcos que aqui entram sentam-se à sua mesa. O homem investiga o cardápio sem fazer nenhuma escolha, contempla durante minutos inteiros as fotografias na parede. Minha mulher e eu trocamos um olhar. Ela se levanta.

– Gostaria de se sentar conosco?

– Eu? Ficaria honrado com o convite e o aceito com prazer.

A conversa flui como aquelas com velhos amigos. Meu palpite se confirma: o sotaque, o senso de humor, a alegria camuflada no tom sóbrio são, de fato, a dos irlandeses. Pergunto como se chama. “Tenho um nome de viagem”, ele responde. “Na verdade, tenho vários deles. Podem me chamar de Robert Campbell.”

Os garçons vêm e vão, a ceia de natal começa. Robert não revela seu nome verdadeiro. Fala sobre o Cairo, sua história, sobre dias e noites passados no Windsor. “Há muitos, muitos anos”, diz. Conta sobre o Egito pré-independência, sobre seus estudos de árabe, relembra amigos boêmios que tornavam alegres as noites de Alexandria. Recorda viagens pelo Oriente Médio, feitas de barco, trem e camelo ainda na época de estudante. Diz não ter nostalgia do passado: “Os tempos mudam”. Mas revela um plano:

– Vejam, sou um homem velho. Tudo que quero é viver meus últimos dias com uma amiga. Ela possui um pequeno hotel em Karachi, no Paquistão, e me convidou para morar lá.

Minha mulher e eu sorrimos. Penso o que faria uma pessoa tão interessante passar, no limiar de seus oitenta anos, um natal solitário no Egito. A conversa ruma naturalmente para o plano pessoal. Robert nos pergunta se temos filhos. Respondemos que não. “Bem, os meus infelizmente não são mais crianças”, diz, desviando os olhos.

Confessa estar hospedado em dois hotéis diferentes. “Para não ser encontrado”, afirma. Conta que, durante todo o dia 25 de dezembro, visitou lugares queridos, que há muito não via. Contempla uma pintura a óleo que retrata o grande incêndio no centro do Cairo. “O Windsor foi um dos únicos prédios a permanecer intactos”, lembra. E  de repente nos fita com um lampejo: “Mas o que faz aqui um casal de brasileiros?”

Ao ouvir sobre meu trabalho e nossa vida no Sudão, sorri. Menciona detalhes pouco conhecidos da história do país. Usa jargões que me fazem até supor tratar com um colega, muitíssimo mais experiente. A noite avança. Os assuntos fluem para a história e literatura. Descobrimos ter as mesmas paixões: a vida e escritos do diplomata e escritor inglês Richard Burton, o primeiro ocidental a fazer uma peregrinação a Meca, o tradutor das “Mil e uma noites”; os livros de William Somerset Maugham e seus personagens a correr incessantemente o mundo em busca do sentido da vida. Os pratos da ceia são recolhidos; o restaurante se esvazia. Penso no privilégio que é conhecer uma pessoa como Robert.

– Veja, respeito o fato de você ter um “nome de viagem”. Mas, se for algum dia ao Sudão, este é meu nome, telefone e endereço. Manteremos segredo.

– Faz tempo que não vou ao Sudão, filho. Agora tenho um excelente motivo para rever Cartum antes de partir definitivamente para Karachi.

É madrugada. “Tenho que dormir”, diz Robert sorrindo. “Vejam bem, sou um homem velho”. Nos levantamos. Nos abraçamos. O senhor de quase oitenta anos beija a mão de minha mulher e me diz: “Cuide bem dela.” E recorda: “Sempre estive acompanhado por grandes mulheres”.

Vendo aquela figura de paletó de tweed se evanescer nos corredores, penso no irlandês Robert Campbell. Penso em seu verdadeiro nome, nos possíveis motivos para se esconder. Imagino possibilidades, identidades: um colega diplomata, um historiador, ou simplesmente um homem brilhante e entediado que decidiu fugir de casa. Penso também no óbvio: termos acabado de jantar com o dono do decadente hotel Windsor, memória viva das ruas do Cairo. “Que importa?”, digo para minha mulher. “Vão pensar mesmo que inventamos tudo isso”.

E, antes de ir dormir, ao ver a sombra de um velho amigo entrar pelo elevador, levanto a última hipótese: a de Robert Campbell não passar de um sopro, uma lembrança de outros tempos, materializada em nossa mesa nesta noite de natal no Egito.

 

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Sobre krishnamonteiro

Diplomata brasileiro servindo no Sudão.
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21 respostas para Uma noite de natal no Egito

  1. Pedro disse:

    Obrigado pelo texto. Me sinto inspirado.

  2. Felipe disse:

    Muito bom mesmo. Por favor, continue compartilhando histórias como essa. E que elas sejam frequentes na sua vida.

  3. Enzo Levinsky disse:

    Sensacional…..
    Qual livro do Richard Burton voce recomenda?

    • Muito obrigado, Enzo. Eu acho “The first footsteps in East Africa” um belo livro. Claro que ele tem que ser lido com critrio, pois, por mais fascinante que seja a personalidade de Burton, a viso dele no deixa de ser representativa do colonialismo, ou do que Edward Said chama de “Orientalismo”. Tambm vale a pena ler a biografia de Burton escrita por Edward Rice. Muito boa. H tambm um grande filme chamado “As montanhas da lua”, que descreve a busca de Burton pelas nascentes do Nilo. Parte da histria se passa no Sudo. Grande abrao, Krishna

      • Acrescento que o Thiago Vidal, nosso homem em Kinshasa, está escrevendo uma dissertação sobre os dias de Richard Burton no Brasil, quando – salvo engano – era o Cônsul britânico em Santos. Quem sabe, pode acabar sendo publicado também…

      • verdade, Thomaz, eu havia esquecido disso! A pesquisa doThiago muito interessante, pois cobrir um perodo pouco conhecido da vida de Burton, e importante para o Brasil. Abraos

  4. Mauricio disse:

    Parabéns pelo texto. Sem dúvidas um dos melhores do Jovens Diplomatas.
    A cada nova frase ficava imaginando quem poderia ser o velho homem. Mas engraçado, em momento algum passou pela minha cabeça que poderia ser o dono do hotel. Ele deve ter dado alguma pista que somente o autor e sua esposa captaram!!
    Somente a diplomacia para proporcionar situações como esta.
    Abraços,
    Mauricio

  5. Susie Casement Moreira disse:

    Krishna, what a beautiful and beautifully written piece – tears in my eyes. Grande abraço, Susie

  6. mariana disse:

    Muito bonito o texto, as fotos, todo o conjunto!!!…muito obrigada por estarem partilhando conosco certas experiências, tão carinhosamente e cuidadosamente redigidas e preparadas!!!…lindas experiências como essa, Krishna, q a diplomacia, entre poucas profissões, possibilita…

    Tenho lido todos os posts…alguns, devido a correria, não tenho tido tempo de comentar…mas em um ou outro, vou deixar sempre um elogio a vcs!!!…

  7. Carolina disse:

    Parabéns, gostei muito do texto. Fiquei imaginando que seria esse senhor, e em como os tempos mudaram e se tornou mais difícil conhecer pessoas como ele. Continue compartilhando suas histórias! 😀

  8. victor caldas disse:

    Parabéns muito especial a quem teve a ideia de criar o blog, mais parabéns ainda a todos vocês que fazem dessa esquina internauta um espaço tão plural, sensível e informativo. São registros incríveis, cheios de alma e poesia.
    Despeço-me convidando os autores e seus leitores a qqr. hora darem uma passada lá em casa: www.http://www.blogdovictorcaldas.blogspot.com/
    Não há homens misteriososos do Cairo, nem a jornada de grandes emoções por Sendai e Fukushima, nada de descrições surreais como a de Cartum ou a das monções em Islamabad, mas tem a viagem pela paternidade e pelo comezinho.
    No mais, vida longa aos “jovens diplomatas”!

  9. Joao Daniel disse:

    Meu privilegio é tr conhecido vc Krishna. Robert Campbell é um personagem do Maugham!

  10. Luiz Antônio disse:

    Parabéns!
    Lindo texto.

  11. Vanessa Pedro disse:

    Acabo de conhecer o blog dos Jovens Diplomatas. E gostei muitíssimo! Este texto em especial foi um deleite para mim. Me senti na quarta cadeira ainda vaga da mesa de jantar do Windsor na noite de natal. Não ouso dizer quem era Robert embora não pare de me perguntar quem diabos ele era. Mas é melhor não saber mesmo e até pensar “é, acho que eles inventaram tudo isso. Que bons escritores…”
    Um abraço. Virarei leitora frequente.

  12. Juliana disse:

    Também acabo de conhecer o Jovens Diplomatas e gostei bastante do texto. Ele é de uma melancolia nostálgica… a alma se enche de piedade, de curiosidade, de admiração…

  13. Bruno Carrilho disse:

    Parabéns pelo belíssimo texto, Krishna. Me senti transportado para outra época…
    Quanto ao “nosso” Robert, fico com a última hipótese… 🙂
    Abraços damascenos,
    Bruno

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