Um Islã mestiço

O país de maior população muçulmana do mundo não é um país islâmico. Quando os pais fundadores da República declararam a independência das antigas Índias Orientais Holandesas, em 1945, teria sido fácil ceder à vontade da maioria e tornar o Islã a religião do novo Estado. Sukarno, Hatta e Sjahrir tinham outros planos: na Indonésia independente, teriam lugar todas as religiões praticadas no arquipélago.

Essa decisão preservou não apenas a identidade de minorias cristãs, hindus e budistas, mas a singularidade do próprio Islã da Indonésia. Embora 86% dos cerca de 240 milhões de habitantes do país afirmem ser muçulmanos, a fé da maioria é mestiça, uma curiosa mescla da ortodoxia islâmica com outras religiões ou crenças tradicionais (como o kejawen, em Java). Aqui, o jejum no Ramadã convive sem dificuldades com as oferendas aos espíritos que habitam os vulcões.

Mas o país da tolerância tem seus dissidentes. Desde a independência, grupos minoritários defendem a adoção da sharia (o que já ocorre em certas áreas, graças à autonomia de que gozam as províncias), a conversão da Indonésia em um Estado islâmico e – os mais exaltados – a expulsão dos “infiéis”. Suas manifestações nem sempre são pacíficas. Duas bombas já explodiram no prédio onde moro, nos fundos de um hotel identificado com o “Ocidente”.

Houve dezenas de atentados de pequenas proporções desde fins de 2010 em diferentes regiões, o que indica que a violência ganha terreno. A cada mês, descobrem-se células de um novo grupo fundamentalista, do qual ninguém ouvira falar. Em julho, um funcionário de escola islâmica em uma província do Leste morreu em uma explosão acidental, quando tentava ensinar os alunos a fabricar uma bomba caseira. Nas ruas da zona colonial de Jacarta, pôsteres de um clérigo recentemente condenado a 15 anos de prisão por financiar um campo de treinamento de terroristas mostram que o radicalismo está em alta.

É pena. O Islã, em si, convive bem com as diferenças, ainda mais em sua variante indonésia. Hoje começa o Ramadã. Quero crer que o mês sagrado trará a lembrança de tempos mais amenos, impedindo que se perca o que este país tem de melhor.

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4 respostas para Um Islã mestiço

  1. Gustavo disse:

    Prezado Fabiano, por curiosidade, você poderia ter negado a ida a Jacarta? Não poderia ter ido para outro posto D?

    Obrigado e sucesso na profissão.

    Gustavo.

    • Caro Gustavo,
      Obrigado pelo incentivo! Jacarta não é mau posto; tem seus problemas, como qualquer lugar, mas até agora o saldo é positivo. Se, mesmo assim, eu não quisesse vir para cá, poderia ter ido para outro país, sim, dependendo de onde houvesse vaga.
      Abraço!

  2. Não se fala muito sobre isso, mas aqui no segundo maior país muçulmano é também muito forte o sincretismo entre Islã – em suas diversas vertentes – e costumes ancestrais. O culto sufi, que pode não ser particularmente moderno mas é muito tolerante, é bem mais representativo do sentimento popular paquistanês do que o puritanismo de wahhabitas e deobandis.

  3. Seco Umaro Embaló disse:

    É bem verdade qualquer lugar do mundo tem seus problemas, mas um dia os meus irmãos da Idonesia vão superar tudo isso.Hoje em dia todo mundo considera os muçulmanos como homens bombas enquanto que não, nos muçulmanos temos que mostrar para as pessoas que a verdadeira missão de Islã é paz, esse imaginario de terror é puramente falso. Por fim agradeço bastante a ALLAH por nomear esse pais como pais que tem mais numero de muçulmanos.

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