Um telefonema surpreendente

Após uma ida ao supermercado, caminhamos em direção a um dos milhares de microônibus que circulam por Cartum. Tento conversar em inglês com o motorista. “No english, sir”. Mobilizando então meu árabe rudimentar, explico (ou acredito explicar) nosso destino. O homem no táxi olha para mim, hesita, coça a cabeça, faz sinal para que entremos. Fecha a porta e acelera.

Momentos depois, rodando no labirinto de vielas do mercado central da cidade, temos a nítida sensação de estar perdidos. O homem pára o carro. Tira o celular, faz uma ligação. Fala um monte de coisas incompreensíveis e, de repente, passa-me o telefone, com uma expressão no olhar que nitidamente quer dizer: “É para você”.

De queixo caído, penso que o melhor é reagir da maneira mais lógica. Pego o telefone e digo “alô”.

A voz do outro lado da linha me cumprimenta com um perfeito inglês britânico: “Meu colega não faz a mínima idéia para onde você quer ir, mas não quis perder a corrida. Uma corrida é algo precioso para nós. Diga seu destino, eu farei a tradução”.

Informo o nome do nosso bairro e devolvo o celular para o motorista, que conversa com o amigo e me abre um amplo sorriso. Pisa novamente no acelerador e continua a voar e buzinar cortando a multidão de carros. Dez minutos depois, estamos em casa.

Uma verdadeira lição de flexibilidade sudanesa.

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Sobre krishnamonteiro

Diplomata brasileiro servindo no Sudão.
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5 respostas para Um telefonema surpreendente

  1. Josiane disse:

    Muito interessa a presteza e inteligência desse taxista. Acredito que não seja diferente do restante da população sudanesa.

  2. Pedro disse:

    Vivi na Índia, experiências parecidas.. nem que se recorra à mímica ou a informações de passantes na rua, perder uma corrida não é opção!

  3. Adorei esse post… num futuro dava pra fazer um livro de breves contos da vida real com todos esse material daqui! Abs!

  4. ADRIANO disse:

    Incrível! Tenho só uma curiosidade: quando você chegou ao Sudão, mesmo tendo provavelmente pesquisado sobre o país ao máximo e consultado colegas, como foi a sensação de estar em um local tão diferente em cultura e costumes? Você já contou de imediato com o auxílio dos outros diplomatas em território sudanês, estabelecendo amizades, ou foi algo mais pessoal, mais familiar, uma experiência intercultural excusivamente sua e de sua esposa? Espero não estar sendo intrusivo demais. Obrigado por compartilhar essas histórias. Aqui encontro meu ”alimento espiritual”, como diria Schopenhauer. SUCESSO NA CARREIRA!

  5. Hyptis Ana disse:

    Que legal vocês terem essa pagina para contar as historias de vocês pra gente que ta aqui lendo lembra os livros. beijos .

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