Imprensa e coragem

Certos governos exigem expertise de seus diplomatas. Já no concurso de admissão, o francês candidato ao Quai d’Orsay pode escolher seguir carreira no Leste Europeu, na América Latina, no Oriente Médio ou na África, em função de suas preferências pessoais e competências linguísticas.

O Itamaraty tradicionalmente opta pelo generalismo. Difícil imaginar carreira mais versátil que nossa diplomacia, cujo lema poderia ser a célebre máxima (anarquista? renascentista? humanista?) de Robert Heinlein:

A human being should be able to change a diaper, plan an invasion, butcher a hog, conn a ship, design a building, write a sonnet, balance accounts, build a wall, set a bone, comfort the dying, take orders, give orders, cooperate, act alone, solve equations, analyze a new problem, pitch manure, program a computer, cook a tasty meal, fight efficiently, die gallantly. Specialization is for insects.

Ainda não aprendi a compor sonetos ou manejar navios, mas uma de minhas atribuições em Islamabad é quase tão difícil quanto trocar fraldas: lidar com a mídia.

Quase todas as nossas Embaixadas têm setor de imprensa. Isso é particularmente importante nos países em desenvolvimento, onde o Brasil nem sempre é bem conhecido e não costuma haver correspondente fixo da mídia nacional.

Em uma carreira versátil, a imprensa é a mais plural das funções. O setor serve para manter contato com jornalistas locais, correspondentes estrangeiros e repórteres brasileiros; mediar entrevistas do Embaixador; selecionar matérias de nosso interesse; editar revistas de divulgação do Brasil; emitir notas para pautar os jornais locais; frequentar – e às vezes organizar – entrevistas coletivas; alimentar os sítios e as redes sociais do Posto; e, não menos importante, escrever neste blog.

Quando funciona bem, o setor de imprensa é o coringa da Embaixada. Dá oxigênio a todos os demais: o político, o comercial, o cultural, o consular… A equação é especialmente eficaz em países cujos repórteres são mais que livres – são valentes.

É o caso do Paquistão, cuja mídia foi liberalizada recentemente. Em um dos paradoxos que costuram o sul da Ásia, a abertura foi obra de um governante não-eleito. Seja como for, foi efetiva, e em qualquer pequenino quiosque de Lahore há dezenas de jornais de todas as tonalidades: nacionalistas e cosmopolitas, irreverentes e sóbrios, belicistas e pacifistas, em urdu e em inglês.

O jornalismo paquistanês não está imune a riscos. A violência nesta parte do mundo não poupa repórteres; pelo contrário, visa-os deliberadamente. E, no entanto, como a sociedade a que pertencem, as mulheres e os homens da imprensa do Paquistão não se entregam. Prosseguem em suas rotinas, suas missões, suas buscas.

Anatol Lieven, talvez o mais equilibrado observador ocidental do Paquistão, chama isso de resiliência. Eu prefiro dizer coragem.

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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2 respostas para Imprensa e coragem

  1. Pedro disse:

    Sempre admirei o trabalho de jornalistas (e fotojornalistas) em zonas de conflito, instáveis ou sob regimes opressivos.. pena que sob a aparente estabilidade político-econômica que vivemos no Brasil, essa ousadia jornalística pareça desaparecida, com uma imprensa refém de interesses escusos tão cheia de segredos quanto qualquer ditadura.

  2. Muito legal seu pensamento sobre a responsabilidade de se lidar com a mídia por aí e o desafio dos jornalistas na região, Napô!

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