O Sudão visto da janela de casa

Por um paradoxo singular, minha vida aventureira mais me devolvia o antigo universo do que me abria um novo, ao passo que este que eu pretendia dissolvia-me entre meus dedos.

Tristes Trópicos, Lévy-Strauss

Ao contemplar Cartum pela janela de casa, muitas vezes me surpreendo diante cenas de outros tempos.

Tenho, então, de concordar com meu amigo João Fellet, jornalista da BBC, de cujo blog de viagens pela África(http://candongueiro.wordpress.com/page/5/) tomei a liberdade de emprestar a citação de Lévy-Strauss acima.

A “casa” de onde olho é um apartamento no oitavo andar de um prédio no centro de Cartum. Mas, em muitos momentos, a paisagem que por sua janela se descortina não é mais a de uma metrópole erguida no deserto. Torna-se, quase sem que eu perceba, a de uma vila no interior do Sergipe, a de uma cidade litorânea no Espírito Santo, ou a de uma imensa caatinga perdida nos sertões de Pernambuco: todos lugares em que, graças à profissão de meu pai, tive a oportunidade de viver ainda na infância.

Com suas vestes típicas, o homem de Cartum evoca imagens do fundo de minha memória: jeitos de falar, de sentar, modos, sorrisos e cumprimentos que presenciei entre os cinco e doze anos. Cenas que há muito julgava esquecidas.  

As mangueiras, as ruas de terra, as árvores altas e ondulantes como palmeiras tornam-se, de repente, as do interior do Brasil. E a janela de casa transmuta-se nas janelas de muitas outras casas brasileiras em que vivi. A forma contemplativa de “olhar o tempo” é certamente a dos mineiros. E também de Minas são estes animais que puxam carroças, alinhados em longas fileiras a perder de vista.   

Seres que lembram o Burrinho Pedrês, das histórias de Guimarães Rosa. Homens idênticos aos fortes a que se referiu Euclides da Cunha. Viajantes nômades que poderiam, muito bem, ter o nome de personagens conhecidas: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo e o mais velho. E, é claro, a cadela Baleia. Ainda hoje, da janela de casa, a vi.

O muezzin escala o minarete. Do alto da mesquita, chamando toda Cartum para a prece, entoa uma música que lembra o aboiar dos vaqueiros do sertão. E quem garante que estes não aprenderam os ritmos de seu canto com algum dos “malês”, escravos muçulmanos aqui aprisionados, depois transportados ao Brasil?

O Sudão gera questionamentos como os de Lévy Strauss:Sobretudo, indagamo-nos: o que viemos fazer aqui? Com que esperança? Com que dificuldade?”

Arrisco-me uma resposta: talvez para, ao captar sinais de semelhanças, de laços indissociáveis entre dois universos, constatar que brasileiros e africanos são, na verdade, habitantes de uma mesma, imensa e multifacetada casa com muitas janelas.

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Sobre krishnamonteiro

Diplomata brasileiro servindo no Sudão.
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10 respostas para O Sudão visto da janela de casa

  1. Tocante seu modo de descrever o local. Gostei quando vc afirma: ” esbrasileiros e africanos são, na verdade, habitantes de uma mesma, imensa e multifacetada casa com muitas janelas”

  2. Sophia disse:

    lindo texto Krishna, obrigada por dividir com a gente!

  3. Paulo Maya disse:

    Lindo texto! Sempre pensei a mesma coisa. Todos somos seres iguais, bem ou mal. It’s a small world after all..

  4. Gabriel Varela disse:

    Excelente texto! E, de quebra, muito bem ilustrado.

  5. C. Darcie disse:

    Sempre me dá vontade chorar ao ler “a cadela Baleia”, em qualquer texto.

  6. Wolf disse:

    Oi, Krishna. Caramba, que cidade bonita hein…

    Uma questão: lembro de ler no Braudel que os árabes não constroem prédios altos, pois acreditam ser um sinal de soberba. Mas as suas fotos são de um apartamento, como é isso? è verdade a afirmação?

    Abraços!! (e parabéns a você e aos colegas pelo site, vou ler sempre)

    • Grande Wolf! Muito obrigado pelas palavras gentis.

      Realmente, o ponto do Braudel é interessante e me fez pensar. Se olharmos para os prédios de Cartum e de outras cidades árabes que conheço, constataremos que poucos ultrapassam os quatro andares. A imensa maioria dos prédios mais antigos são baixos.

      Mas, ao considerar as construções mais recentes, vemos que a moda das “torres de vidro” também está pegando por aqui. Cartum tem duas ou três delas. O Cairo, algumas. Doha e Kuawait, várias. E Dubai possui o prédio mais alto do mundo.

      Arriscando uma resposta imprecisa, diria que a tese do Braudel vale para os países árabes do Norte da África, mas não do Golfo Pérsico, onde os fundos do petróleo impulsionaram uma arquitetura mais Ocidental.

  7. João Fellet disse:

    Que maravilha, Krishna! Só li o post agora. Destrinchou muito bem a bela citação do Lévi-Strauss. Este é o caminho que amplia nosso mundo: construir pontes, buscar o familiar no que é exótico.
    Grande abraço!

    • É isso aí, João! Vc, que já viveu e viajou muito por estas bandas, sabe muito bem como é essa experiência da alteridade-memória.

      Um grande abraço e sucesso com o livro. Aliás, para os leitores do blog que veem este comentário, dou uma dica: o João é autor de um grande livro de viagens pela África, chamado “Candongueiro”, cujo espírito tem tudo a ver com este blog.

      I

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