Onde as cadeiras voam

Sexta-feira, 31 de outubro. Já era noite e estávamos voltando do supermercado. O tempo fechou e começou uma chuva grossa, que, me pareceu na hora, inviabilizaria o passeio que havíamos combinado com amigos para a manhã seguinte. Cheguei em casa, descarreguei as compras e resolvi telefonar então aos tais amigos, querendo saber se não seria melhor adiar o programa. Logo entendi que seria melhor, de fato: o rádio acabara de anunciar um alerta de furacão; a ilha deveria ser atingida naquela mesma noite. “É bom colocar as cadeiras da varanda pra dentro de casa”, foi o conselho que recebi. Sábio conselho.

Sábado, 1º de novembro. O apito estridente do vento correndo pelas brechas das janelas me acordou muito cedo, e aproveitei para observar um pouco as árvores se dobrando diante da força descomunal. Minha esposa tirou fotos. Dormimos de novo. Despertei novamente por volta das nove da manhã, abri a porta que dá para a sala me espreguiçando da noite mal-dormida e – chuá – pus o pé na minha sala de estar transformada em piscina. Os ralos da varanda tinham entupido com as folhas que voavam, e a água da chuva corria sala adentro como um rio. A suíte também começava a inundar. Como o vento tivesse abrandado um pouco (mas só um pouco), tomei coragem, saí de pijama mesmo para a varanda e desentupi os ralos todos. Um pouco tarde demais, infelizmente.

Passamos a manhã inteira no rodo, mas o resultado pífio parecia francamente desproporcional ao nosso esforço tremendo. O tapete soltava água como uma esponja de banho. Folhas boiavam no espelho d’água da minha sala. No jardim do condomínio, dezenas de móveis de varanda jogados pelos canteiros, diversos toldos (pesados, de estrutura metálica) arrancados pelo vento.

Como o estacionamento é descoberto, achei por bem descer e verificar a saúde do meu carro. Tudo bem, mas por pura sorte: um toldo gigantesco jazia bem ao lado dele, a uns cinco metros de distância. Respirei aliviado e encontrei uma vizinha: “Acabo de achar minha cadeira dentro da piscina!”, ela disse. Definição perfeita para momentos de crise: são aqueles em que uma frase absurda parece muito natural.

Algumas horas depois ainda tomamos coragem para um volta de carro pela ilha. As árvores enormes e os postes de eletricidade arrancados como se fossem de papel, as casas sem telhado, as ruas assustadoramente vazias. E tudo culpa do Tomas.

A temporada de furacões do Atlântico vai de junho/julho a outubro/novembro, com uma peculiaridade: todos os “participantes” recebem nome próprio, em ordem alfabética. Em 2010, ano da minha ordália, os trabalhos começaram com o Alex, logo seguido pela Bonnie. Naquela madrugada de 1º de novembro, fomos enfim apresentados ao Tomas, que ainda se esticou todo e varreu (com consequências piores do que em Barbados) Santa Lúcia e São Vicente e Granadinas, e até o Haiti (ainda que com menos força).

Julgo que seja boa estratégia, essa do nome próprio. Assim humaniza-se a tragédia natural, personaliza-se o autor da desgraça; fica tudo mais fácil, mais aceitável. Ao menos podemos dizer: tudo culpa do maldito Tomas.

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6 respostas para Onde as cadeiras voam

  1. Felipe Heimburger disse:

    Que susto, heim? Gracas a Deus que voces estao bem. Abracos saudosos de Brazzaville, rumando em algumas horas para Brasilia …

    • Salve, Heimburger! Pois é, foi só um grande susto, mesmo… Mas ontem, só porque postei esse textinho, o National Hurricane Center previu 20% de chance de formação de um ciclone tropical por aqui durante o fim de semana. Acho que não vai rolar nada, mas a lembrança de que pode acontecer a qualquer hora já assusta um bocado…
      Grande abraço, aproveite Brasília!

  2. Nossa, Eduardo! Vocês já estão ficando veteranos em furacões, heim. Forte abraço pra você e pra Sophia. Take care!

  3. Excelente nome para um furacão! :p

    Há aí em Barbados um bom sistema de alerta e defesa civil, Freitas? Espero que sim!

  4. Matheus disse:

    Incrivel, Superando obstaculos em função de um unico objetico 😀

  5. Diego Piha disse:

    Cara, eu adoro essas coisas sobre outros países, adoro tudo relacionado à Diplomacia, meu sonho por sinal. Eu gostaria de saber como é que funciona o país; quando ocorre esse tipo de coisa por exemplo o Governo cuida bem da reconstrução? Não existe pobreza? É uma monarquia certo? Esse tipo de informação seria legal receber de alguém que mora aí mesmo e consegue ver o que o povo perce e como ele se sente.

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