Linha de passe

Todo Estado é, ao menos em parte, fruto de uma construção ideológica, mais ou menos profunda, mais ou menos autoritária. A República do Congo, assim como dezenas de países africanos, em sua grande maioria ex-colônias francesas, obteve o status de país independente há apenas 50 anos, em 1960. Em 15 de agosto de 2010, com a pompa e a circunstância devidas, essa efeméride foi comemorada, não só em Brazzaville como em todas as capitais de departamento. A afirmação da identidade nacional congolesa, que passa ainda pela integração do território, é um processo no qual governantes, militares, professores, artistas, intelectuais e jornalistas estão engajados, diariamente. O futebol, em alguma medida, faz parte desse processo.

Assim, em tempos de Copa América sendo jogada na Argentina  e de Copa do Mundo sendo preparada no Brasil, acho que cabe  falar mais um pouco sobre o futebol em terras d’África, em particular essas que margeiam o rio Congo. Aqui em Brazzaville me surpreendi, não tanto com a popularidade do jogo e com a técnica e a criatividade dos jogadores, algo já esperado, mas com a organização das ligas amadoras e da liga profissional (o mesmo vale, por exemplo, para o handebol, esporte no qual o Congo se destaca).

O clássico de futebol local, disputado entre “Les Diables Noirs” e “l’Etoile du Congo”, e que reúne quase sempre 30.000 torcedores no estádio nacional, envolve, assim como outros duelos mundo afora, muito mais do que rivalidade esportiva. Classe social, etnia e religião são questões que se fazem presentes. O Alphonse Massamba Debat, ou “estádio da revolução”, inaugurado em 1965, é muito bem aproveitado, não só para o futebol, incluindo-se aí as estruturas poliesportivas adjacentes.

                                                       

Na geopolítica do futebol africano, mal comparando, a seleção da República do Congo estaria para a do Paraguai assim como, digamos, as de Nigéria, Camarões e Gana para as de Brasil, Argentina e Uruguai na América do Sul. A equipe nacional, “Les Diables Rouges”,
é em geral muito competitiva e já chegou a seis fases finais da Copa da África das Nações (CAN). Há algumas semanas, no mundial sub-17 da FIFA, a seleção juvenil fez bonito e chegou às quartas de final do campeonato.

Inquestionavelmente, a maior glória do futebol da República do Congo foi ter conquistado a CAN de 1972, com atuações memoráveis de grandes jogadores como Minga, Moukila, Banamboula, Jean-Michel Mbono e François M’Pelé. A vitória se deu em momento especial, logo após frustrada tentativa de contra golpe em meio à revolução socialista.

Por falar em Pelé, o nosso, outro momento marcante foi exatamente a visita do Santos à Brazzaville, em 1969, para amistoso contra a seleção nacional, base da equipe que viria a ser campeã continental. Foi um jogo duro e os brasileiros ganharam por 3 a 2, de virada, após estarem perdendo por 2 a 0. Quase todos os congoleses com mais de 50 anos lembram exatamente onde estavam e o que faziam naquele dia. Os que estiveram no estádio contam orgulhosos os detalhes da partida.   

 Aqui, como alhures, nem tudo são flores. Adolescentes congoleses talentosos são seduzidos por “empresários”, com a promessa de contratação por clubes europeus e, muitas vezes, acabam passando por situações de dificuldade no velho continente. Houve casos de dirigentes sem legitimidade que tentaram perpetuar-se no comando de entidades esportivas ineficientes, assim como situações em que verbas e arenas públicas foram usadas como se privadas fossem. A boa notícia é que a sociedade congolesa está atenta e os casos de má gestão são noticiados com freqüência pela imprensa local.

A organização de um evento do porte de uma Copa da África de Nações (CAN), como Angola o fez em 2010, transcende obviamente o aspecto esportivo. Transcende mesmo o  econômico, que embora fundamental, não alcança a simbologia intrínseca nesse tipo de empreitada. Dada a sua pujança petrolifera e sua ambição geopolítica, não demorará para que a República do Congo sedie uma Copa da Africa. Por hora, caberá a dois paises também membros da Comunidade Econômica da África Central (CEMAC), o Gabão e a Guiné Equatorial, sediar a próxima, em janeiro de 2012.

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3 respostas para Linha de passe

  1. Graciete Brasil disse:

    Parabéns Felipe!

  2. Filipe disse:

    Dá-lhe papai-pinguim, faltou vc montar um time aí!

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