Choeung Ek, Camboja

Uma estrada poeirenta, margeada por casebres de madeira e zinco, oficinas mecânicas e banhados a perder de vista, leva a um bosque rodeado por arrozais, 17 quilômetros a sudoeste de Phnom Penh. Entre as árvores, há uma construção que lembra os santuários budistas que pontilham a paisagem da capital cambojana e arredores. O silêncio que envolve este cenário, porém, tem algo de sinistro: ali estão os restos mortais de milhares de vítimas de um dos regimes mais brutais da história.

Memorial às vitimas em Cheoung Ek

Entre 1975 e 1979, o Khmer Rouge eliminou 1,7 milhão de indivíduos considerados inimigos do Estado, em uma população que, à época, mal passava de 7 milhões. A maior parte, em campos de extermínio como Choeung Ek – um antigo cemitério chinês, endereço do bucólico memorial na periferia de Phnom Penh –, onde pereceram 17 mil pessoas, espancadas até a morte pelos asseclas de Pol Pot. As marcas são visíveis em todo lugar, das valas em que eram lançados os corpos às árvores onde ficavam os altofalantes usados para camuflar os gritos.

É conversando com os cambojanos, no entanto, que se percebe a extensão do trauma. Embora lugares como Choeung Ek e o complexo de Tuol Sleng – escola da capital transformada na “Security Prison 21”, ou S-21 – sejam objeto da curiosidade de visitantes estrangeiros, para os nativos é difícil tocar no assunto. Quase todos tiveram parentes próximos e amigos mortos durante o governo do Khmer Rouge ou na guerra civil que se seguiu à queda do regime, e é com relutância que relembram o horror daqueles anos.

Complexo de Tuol Sleng (S-21), em Phnom Penh

Em junho, quatro líderes do Khmer Rouge começaram a ser julgados por uma corte especial mista, com juízes locais e estrangeiros. Para os cambojanos, o julgamento tem sido uma experiência dolorosa por razões diversas, que vão da memória dos massacres aos riscos de desestabilização política do país. Mais difícil é entender como algo assim foi possível. O Camboja recupera-se aos poucos, sua economia cresce, mas, nas ruas de Phnom Penh, a expressão de muitos rostos ainda traduz dor, perplexidade e o temor de que os responsáveis pelo desastre fiquem impunes.

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4 respostas para Choeung Ek, Camboja

  1. Fabiano, obrigado pelo texto. Essa monstruosidade hedionda cometida pelo Khmer vermelho foi tao horrorosa quanto os crimes cometidos pela Alemanha nazista. Eu nao consigo compreender e espero jamais conseguir .

  2. Cesar Elias disse:

    atualmente qual é a situação política no país? estável?

    • Caro Cesar, hoje a situação pode ser considerada estável. As décadas de guerra civil deixaram marcas; há quem ache que, por conta do risco de desestabilização, talvez não tenha sido boa ideia julgar os líderes do Khmer Rouge. Mas a guerra acabou, e aos poucos o país se recupera e reconstrói suas instituições. Forte abraço!

      • Cesar Elias disse:

        Achei muito interessante o blog e fiquei muito grato por ter respondido minha questão, gostaria de saber um pouco mais sobre o trabalho que vocês desempenham e mais exatamente se o senhor por exemplo consegue ajudar de alguma forma a população do camboja?

        Obrigado pela atenção.

        Abraço!

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