Quer dizer que você mora no Irã?

Não sei dizer quantas vezes ouvi essa pergunta nos últimos 16 meses, desde que me mudei para Teerã. Não me incomodo mais. É inevitável a surpresa e o estranhamento que causa às pessoas o fato de ter escolhido viver neste país tão distante geografica e culturalmente e, sobretudo, tão coberto por estereótipos negativos.

A imagem desta República Islâmica tal como construída pelo Ocidente nos últimos 32 anos é uma das piores que um país pode ter. No imaginário popular, o Irã está associado a fundamentalismo religioso, intolerância, terrorismo e bomba atômica. Até mesmo alguns clichês, como os tapetes, o caviar e o cinema, chegam a ser esquecidos e, não raro, o país é confundido com seu vizinho a oeste, o Iraque.

A realidade aqui é bem diferente, mas isso eu só vim a descobrir depois. Antes, tive que decidir se aceitaria ou não a missão de vir para cá e, para isso, procurei saber mais sobre a vida em Teerã, seus eventuais riscos, o trabalho na Embaixada, enfim, busquei elementos que me permitissem tomar uma decisão da qual não me arrependeria. Descobri, em pouco tempo, muito a respeito deste enigmático e fascinante país; o suficiente para decidir aceitar o desafio, mas não para me preparar para o que encontraria.

Cheguei ao Aeroporto Internacional Imam Khomeini na madrugada de 17 de março. Admito que estava tenso, apesar das boas referências que recebera no Brasil e do atendimento gentil que me foi dado pelo agente de imigração – meu primeiro interlocutor nestas terras. Não contribuiu, porém, para aliviar minha tensão o fato de chegar às três horas da madrugada, viajar mais de 60 km do aeroporto até a Embaixada e encontrar uma cidade literalmente brincando com fogo: havia fogueiras e fogos – que vim a saber depois, eram de artifício – por todos os lados. É, pensei, acho que me enganaram.

Foi a primeira vez, mas não a última, que me deixei levar pelo preconceito e errei feio. Meu colega de Embaixada logo me explicou se tratar de uma noite festiva. Era a madrugada da última quarta-feira do ano persa de 1388, e sempre nessa noite os iranianos saem às ruas para fazer e pular fogueiras e soltar fogos com um objetivo: deixar para trás, queimar, o azar e as coisas ruins da vida. A quarta-feira dos fogos marca o começo das festas de ano novo, que duram mais de duas semanas e resgatam tradições persas pré-islâmicas – algumas, hoje, consideradas pagãs.

Aos poucos fui percebendo que o Irã é um país que não se compreende à primeira vista, nem à segunda, terceira… e que não basta deixar para trás a imagem que dele se tem no Ocidente. A República Islâmica exige do seu observador paciência e reflexão. Demanda do estrangeiro que aqui se instala a revisão de seus conceitos básicos e, acima de tudo, requer flexibilidade para entender uma outra forma de pensar e de agir. A tarefa, sem dúvida, não é fácil, mas é irresistível.

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Sobre Eduardo Lopes

Diplomata servindo na Embaixada do Brasil em Teerã (Irã).
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13 respostas para Quer dizer que você mora no Irã?

  1. Grande texto. Morando aqui to começando achar graça de quem diz que o BRASIL não é pra principiantes

  2. Grande estreia, Eduardo, bem-vindo! Tenho saudade desse país enormemente complexo e belo. Mas lembre-se que há mais duas Repúblicas Islâmicas, a leste! 🙂 Abraços.

  3. gislaine zampolli disse:

    Eduardo! Gostei muito do seu texto. Inteligente, direto e criativo. Tenho lido o blog há alguns dias e estou adorando a experiência de viajar nas experiências de vocês.
    Gislaine Zampolli

  4. Maurício Chavenco disse:

    Eduardo, adorei seu relato. Conheci o blog de vocês por meio de um amigo que está na Etiópia, o Borges, que anda publicando relatos tão interessantes quanto o seu.

    Disse a ele e repito pra você: continue!

  5. Luciana Martins disse:

    OI Eduardo, aqui em Dakar vivemos experiências parecidas. É a complexidade de outras sociedades que vamos descobrindo aos poucos. Adorei o texto. Boa sorte.

  6. Juliana disse:

    Olá, Jovens Diplomatas!
    tenho a pretensão de estudar para Diplomata. Já li editais do concurso, informações sobre a carreira e etc.
    Mas tenho uma dúvida: os diplomatas são obrigados a viajar?
    Pois me casarei em breve e não tenho interesse em residir em outros países, tendo em vista que meu companheiro é servidor público estadual.

    Sucesso a todos!!

    • Juliana, nunca ouvi falar de um caso assim, mas teoricamente é possível que um diplomata resida sempre no Brasil, seja em Brasília ou nos escritórios regionais do MRE em vários estados. Porém, essa pessoa não poderá ser promovida além da classe de Segundo-Secretário, pois o tempo de Exterior é uma das exigências para avançar na carreira. Além do mais, a essência da diplomacia é representar o Brasil – algo bem mais difícil de fazer sem jamais sair do País…

      • Juliana disse:

        muito obrigada por responder!
        Mas, e as pessoas que trabalham, por exemplo, no Itamaraty no Centro do RJ (eu sou do RJ)? O que eles são? Eu imagino que deve existir um corpo administrativo para a manutenção dos processos e etc.

  7. athalyba disse:

    Estou encantado com o blog de vcs !!! Espero que não só vc (que não aparece aqui a quase 4 meses) tenha em mente que seus relatos são fundamentais pra nos enxergarmos como povo inserido num contexto de trocas culturais e políticas, com nosso peculiar jeito de enxergar as experiencias humanas.

    Gostaria MUITO de continuar lendo sobre seu cotidiano aí no Irã !!!

    Forte abc !

  8. Poxa, Eduardo nunca mais publicou… Queremos mais! \o/

  9. JANA disse:

    Ola…. sinceramente estou muito nervosa também.. rsrsrs ..eu vou para Irã no final de outubro com finalidade turística, mas a minha passagem em Teerã será breve, pois meu destino final será Herat no Afeganistão.. O que me deixa mais nervosa é a chegada no aeroporto Imam khomeini .. ao desembarcar o que devo fazer??? Tenho que ir a algum balcão e mostrar passaporte, ou presta conta do que esta fazendo lá??? ou somente ir no setor de desembarque das malas .??,,mesmo sabendo que terá pessoas da minha família a minha espera no aeroporto eu não ssei como proseguir,,, Bem deu pra percebe que nunca viajei par fora do Brasil,, mas eu agradeço se alguém poder me ajuda,, Obrigada

  10. Bruno disse:

    Texto muito bom! Gostaria de saber mais sobre o país, os hábitos, a cultura…enfim, precisa postar mais! De qualquer forma, acho inspiradora sua ida ao Irã como diplomata, principalmente por não ter deixado os preconceitos entrarem no caminho. É essencial ao diplomata relativizar aquela imagem estereotipada que se tem de algum lugar e estar aberto a novas experiências com culturas bastante diferentes. É esse o espírito! Sem querer ser clichê, mas já sendo, quero ser assim quando “crescer”! Haha. Abraço,

    Bruno

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