Morte e vida nas monções

Nuvens anônimas enegrecem o horizonte. Arrastadas por ventos meridionais ferinos, vieram desafiar o calor tirânico que governa, silente, esta parte do mundo nos ides de junho. É uma batalha longa, de semanas. Culmina no solstício de verão e cessa apenas quando o sol, de súbito, se rende ao dilúvio.

As monções estão chegando a Islamabad.

São as chuvas torrenciais, embaladas por ventos febris, que assolam muçulmanos, hindus e budistas entre Malaca e Mombaça, com vigor especial no subcontinente indiano. As monções asseguram unidade estratégica ao Índico, segundo o controverso – mas original – Robert Kaplan. São a mãe terrível das civilizações do Sul da Ásia.

Nada na natureza é mais pontual que as monções. Há pelo menos seis mil anos, bengaleses, cingaleses, tâmeis, dravidianos, sindhis, árabes e seus antecessores calculam o tempo a partir das tempestades que começam entre o início de junho e finais de julho, dependendo da longitude.

As monções de hoje são as mesmas que assombraram Vasco da Gama em sua brancaleônica jornada rumo a Calicute, como canta Camões:

Assim dizendo, os ventos que lutavam
Como touros indómitos bramando,
Mais e mais a tormenta acrescentavam
Pela miúda enxárcia assoviando.
Relâmpados medonhos não cessavam,
Feros trovões, que vêm representando
Cair o céu dos eixos sobre a terra,
Consigo os elementos terem guerra.

O Paquistão é filho do instável casamento entre as monções e o rio Indus. Do deserto de Thar às montanhas secas do Karakoram, do semi-árido do Baluquistão às savanas do Sindh, esta é uma terra carente de águas. Apenas as monções garantem vida e força à única região fértil do país: o Punjab, cujo nome, em farsi, significa “cinco rios”.

Mas há algo de assassino nas monções. Se permitem lavouras abundantes, as águas do verão tardio também podem arruiná-las. E o fizeram no ano passado, quando tempestades excepcionalmente fortes inundaram todas as províncias do Paquistão e deixaram quase 20 milhões de desabrigados, na maior enchente das últimas gerações. A catástrofe foi atenuada pela assistência de países como o Brasil, que doou 1,2 milhão de dólares para os esforços humanitários.

A fúria criativa e destrutiva das monções tem sido intensificada pela elevação da temperatura global – algo que o homem ainda não compreende inteiramente, mas cuja urgência se torna óbvia diante de tragédias como os dilúvios de 2010. Em última análise, a viabilidade da vida humana nesta parte da Ásia dependerá de como o homem domará, ou negligenciará, a aliança entre antigas monções sazonais e novas mudanças climáticas.

São temas grandes, sobre-humanos. Eu, de meu terraço frugal ao norte de Islamabad, posso apenas contemplar a chegada wagneriana das chuvas – e esperar que semeiem, neste ano, menos morte que vida.

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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9 respostas para Morte e vida nas monções

  1. Rafael Frerichs disse:

    Thomaz, sou grande fã das suas aulas de PI (ainda ouço algumas de 2010) e faço votos que as monções não prejudiquem a continuidade de tais palestras, mesmo que de longe e via fundo do mar ou satélite, rs. Abraço!

  2. mariana disse:

    Belíssimo post…a forma de escrever, a sensação que passa p gente, a figura, tudo muito bonito!!!Obrigada!

  3. Graciete Brasil disse:

    Muito bem escrito mas sinto falta de fotografias para ilustrar suas paissagens.

  4. Daniel Couto disse:

    Napoleão,

    parabéns pela iniciativa do blog a você e a todos os seus colegas… Textos primorosos e temas interessantíssimos que estão muito além dos domínios da alta política.

    Foi um excelente exercício para o esse período de férias sabáticas e já ganhou o status de “Favoritos”. Continuem a nos brindar regularmente com essas belas pérolas.

    Abs e felicidades…

  5. Gabriel Varela disse:

    Endosso o comentário acima. Poético, belíssimo o texto! Mas quero ver também essa poesia numas fotos do Paquistão.
    Afinal, no seu perfil, você diz “fotógrafo”. 🙂

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