Com o coração em Brazza(s).

 Decidimos ir à luta. Mobiliamos a casa na base do improviso (a chegada da mudança ainda levaria algum tempo e me daria uma dor de cabeça enorme), entelamos as varandas para nos proteger dos mosquitos,  matriculamos os meninos na escola, contratamos uma babá congolesa,  fizemos algumas amizades, ficamos sócios de um clube, compramos um carro.

Érica na  labuta diária, cuidando da casa, da comida e dos meninos. E ainda se revelando excelente percussionista!    

                           

Eu, fazendo das tripas coração, tentava tocar com um mínimo de dignidade uma Embaixada, recém – instalada, com dezenas de questões urgentes a tratar, das mais variadas e de todos os tamanhos. A equipe de Administração? Eu, uma colega Assistente de Chancelaria e três contratadas locais. Mas a coisa foi fluindo, meu francês mostrava – se satisfatório e os problemas foram, bem ou mal, sendo geridos. A missão da Agencia Brasileira de Cooperação foi um excepcional sucesso, o Sistema Consular Integrado foi implantado, a Seção Eleitoral de Brazzaville funcionou bem nas eleições presidenciais, um festival de cinema foi organizado, com sucesso, em conjunto com uma exposição sobre os 50 anos de Brasília.

    

Acabei representando o Brasil na grandiosa festança do cinqüentenário da independência da República do Congo . 

A sensação de desconforto inicial foi passando e  Brazzaville, “a verde”, mostrava-se mais aprazível e menos assustadora nos seus contrastes. E a vida foi melhorando, pouco a pouco. A mudança chegou, um Embaixador também chegou, experiente em África, e duas novas colegas para reforçar o time, uma vinda do Escritório do Itamaraty no Rio de Janeiro e a outra de Brasília. Em Brazzaville, não tem jeito,  vive-se um dia, depois o outro.

 

Descobrimos que a noite é animada, que se bebe muita cerveja e que se come bem. Existem restaurantes chineses, italianos, libaneses, marroquinos, ucranianos! E come-se em congoleses típicos (peixes do rio, saka – saka e  banana frita), e em franceses de primeira qualidade. Dança-se muita salsa e muita rumba, à moda congolesa. A musica local é boa (as performances dos  percussionistas de Tam – Tam são assombrosas), os SAPEURS são absolutamente impagáveis e originais, o artesanato em madeira e em RÁFIA é bem trabalhado e original. Os congoleses são bem – humorados, gentis e otimistas. Gostam de tirar um sarro com os “mundelês” (brancos) e quase todos falam francês, com os estrangeiros. Entre si falam nas duas “línguas nacionais”, o Lingala, de origem Banta, (Brazzaville e grande parte do norte do país) e o Kikongo, língua do antigo reino do Congo (Ponta Negra e sul), além de dezenas de outras línguas étnicas e regionais.

    

 O PIB da República do Congo cresce a mais de 10% por ano, existe relativa responsabilidade fiscal e a produção de petróleo (300 mil barris diários) garante crescentes superávits orçamentários. A preocupação com a desigualdade na distribuição da riqueza começa a aparecer na agenda e a experiência brasileira de redução da miséria é encarada como um modelo a ser seguido. Para quem pode pagar, existem escolas locais razoáveise a escola francesa, onde os meninos estudam, é pelo menos tão boa quanto a maioria das escolas particulares em Brasília. A produção local de alimentos é pequena e a pecuária ainda incipiente. Parte significativa dos bens é importada de Kinshasa, da África do Sul e da França.

 

Encontramos, graças à desenvoltura da Érica,  nas feiras e nos mercados populares, a produção local de mandioca, de banana, de abacaxi, de mamão, de graviola, e descobrimos duas  delícias:  o safou e o bissap . O safou (nsafu em Kikongo)  é uma fruta típica da África ocidental e equatorial. Lembra o abacate, mas o gosto oscila entre o amargo ligeiro e o ácido. Acompanha bem um peixe e dizem ter propriedades de sonífero. Já o bissap é uma flor vermelha de uma planta muito comum em varias regiões da África (Hibiscus sabdariffa), da qual faz-se chá ou suco, suavemente amargo e muito saboroso, além de caldas e molhos deliciosos  (www.congocookbook.com).

 Mais confiantes, e já em dia com a gastronomia congolesa,  começamos a descobrir os passeios de barcos, as ilhas, as praias, as cataratas, e os banhos no rio Congo. E os refúgios nos arredores de Brazzaville, ao norte a savana exuberante e verde, os rios e os pássaros luxuriantes de Lifini, de Lifoula, de Cité Mati. Descobrimos, cerca de 600 km ao sul, no Atlântico,  o mar e os frutos de Ponta Negra e Koillou. Encontramos recantos paradisíacos na costa selvagem (de Ponta Negra em direção ao Gabão) e na, direção oposta,  quase na fronteira com o enclave angolano de Cabinda, outras praias incríveis, malgrado o cheiro onipresente de petróleo.

 

 A caminho do Brasil, em outubro de 2010, passamos duas noites na grande cidade de Luanda, acolhidos nos apartamentos de dois amigos e colegas de Rio Branco (Edson e Tânia desculpem-nos o incomodo!). Conheci, em Kinshasa,  há poucos dias, acompanhado do Tiago,  os bravos militares brasileiros do destacamento diamante. 

 

Volta e meia, sobretudo agora na estação seca  e fria (22 – 28 graus, maio a setembro), bate aquela saudade. Olho o horizonte turvo do céu de Brazzaville, de coloração pesada e permanentemente cinza, e anseio, nostálgico, pela concretude do céu azul de Brasília. Mas, estamos bem, graças à Deus, e vamos em frente, pois, o tempo não para !

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11 respostas para Com o coração em Brazza(s).

  1. Chia disse:

    E o futebol, Heimburger?!

  2. Graciete Brasil disse:

    Envaidecida de fazer parte dessa história, não pude deixar de me emocionar com “Olho o horizonte turvo do céu de Brazzaville, de coloração pesada e permanentemente cinza, e anseio, nostálgico, pela concretude do céu azul de Brasília.”, onde vc consegue transmitir exatamente o que é estar em Brazzaville! Parabéns!

  3. Rafael Frerichs disse:

    Felipe, nós, leitores assíduos, é que agradecemos aos seus relatos, aos dos outros diplomatas, por compartilharem de sua intimidade, bem como à iniciativa do(a) idealizador(a) do blog.
    É bom saber que a vida melhorou por aí!
    .

  4. Terezinha de Souza disse:

    Felipe e Érika
    Sílvia me repassou o endereço e não posso deixar de dizer que fico feliz de saber que nós brasileiros estamos aí através de pessoas tão legais!
    Venham nos visitar em Belo Horizonte nas férias!
    beijos
    Terezinha

  5. andre' disse:

    Os seus relatos sao os mais legais, parabens!

  6. Eduardo Prearo disse:

    Pude esquecer um pouco este dia osso ao contemplar as fotos de “Com coração em Brazza(s).”

  7. Interessantíssima a trilogia, Felipe! Sou um grande fã do Theroux, que apareceu lá no primeiro post, e confesso que minhas referências de Brazzaville não vão muito além da cena final de Casablanca… Mas a vida por aí parece bem animada. Abraços!

    • Graciete Brasil disse:

      Encontrei por aqui um cinéfilo que também tem a referência de Brazzaville no filme Casablanca….. Pois é, depois de conhecer o Rick’s Cafe (bar temático montado depois da gravação do filme, na 248, Boulevard Sour Jdid. Place du jardin public | Ancienne médina, Casablanca, Marrocos), só mesmo visitando Brazzaville!

  8. Alice disse:

    Olá Felipe e Érica!
    Meu nome é Alice.
    Meu noivo estuda para o concurso do Rio Branco enquanto eu só formarei em 2013, quando pretendo fazer o concurso também, se ele já não tiver passado.
    Nós dois temos muito interesse em saber mais sobre os aspectos da família do Diplomata. É uma preocupação constante a condição financeira para criar uma família quando um dos cônjuges renuncia a carreira para seguir o outro, e como é a condição de vida e de educação dos filhos dos diplomatas.
    Também gostaríamos de saber acerca do papel do cônjuge na carreira do diplomata, as funções a ele atribuídas e as orientações e suportes dadas pelo Itamaraty.
    Gostamos muito da carreira e a remoção sempre foi um desejo nosso. Acreditamos que a função do diplomata é representar o seu país, seja aonde for; países A, B, C e D.
    Assim, se não for um incomodo, por favor entrem em contato, pois gostaríamos muito de ouvir suas experiências.
    Nosso e-mail é kisteumacher@gmail.com
    Muito obrigada,
    Alice.

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