II – Os primeiros dias, na Brazza.

 Chegamos à Brazzaville no dia 14 de março de 2010, às 17:40. Já era noite e fazia muito calor quando eu, Érica, Eunice, Yasmin, Leon e Matheus deixamos a sala “VIP” do aeroporto. O terminal (hoje bonito e novo em folha) deixou má impressão. Moídos por 20 horas de vôo e outras tantas de transito no trajeto, algo insano, Brasília – São Paulo – Paris – Brazzaville, o que mais queríamos era sair correndo dali. Bêbados de sono e cansaço, no escuro, mal deu para perceber a cidade nos dez minutos de percurso até o grande edifício branco de três andares, estilo colonial, que abriga a Chancelaria, a Residência do Embaixador e dois apartamentos funcionais. Notei apenas a ausência de iluminação e de construções altas nas ruas e a existência de muita área verde.

 Fomos recebidos pelo Embaixador e instalados no amplo apartamento funcional, vazado, pé-direito enorme, e praticamente vazio, em cima do que viria a ser o consulado. Havia uma geladeira, com água, leite, pão, presunto e manteiga. E as camas. Dia seguinte, 9h: 30min, o telefone toca. É a Secretária do Embaixador. Ele aguarda o Secretário, de terno, às 10h00. Precisamos visitar o Secretario Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros. O Embaixador sairia de ferias em três dias e precisava me passar o serviço. Voltaria dali a um mês e, depois de igual período, partiria de vez. Eu acabaria ficando três meses como Encarregado de Negócios. Tinha de ser e foi. Nesse contexto, para o qual devemos estar preparados em nossa profissão, veio a calhar o fato de morar no mesmo prédio da chancelaria. Assim poderia dar atenção à família e ao trabalho.

 Logo percebi o contraste entre a maioria das ruas de terra próximas aa vizinha Mesquita de Poto – Poto, cobertas de pó e esgoto a céu aberto, e a larga avenida de seis faixas que dava nos palácios do parlamento e do Ministério dos Negócios Estrangeiros. A cidade, à época, praticamente não tinha prédios (hoje já se contam às dúzias…) e poucas ruas asfaltadas. Em cinco minutos, em qualquer direção, deixava-se o pequeno “centre – ville” urbanizado e o quadro era quase sempre o mesmo na “cité” africana: bairros imensos de casas térreas coladas umas às outras, apinhados de gente, com ruelas de barro em precárias condições sanitárias e amontoados de lixo e plástico, muito plástico. O tratamento do lixo e o acesso universal à água potável são ainda questões a serem resolvidas. Hoje, a bem da verdade, medidas de saneamento básico começam, pouco a pouco, a serem adotadas. Registram-se progressos notáveis também na disseminação de energia elétrica constante às residências. Em ritmo lento, mas visível. Naquele momento, contudo, o choque era e foi inevitável.

 Com dois meses na Brazza, a Eunice, já deprimida, e depois de uma dura malária, não agüentou o tranco e decidiu voltar ao Brasil. Terminava, para ela, a aventura. Eu e Erica estavamos num periodo critico: sem  mudança,  sem moveis, sem carro, sem babá e sem a escola que haviamos planejado para as crianças.  Sem, ainda,  dominar significativamente os detalhes dos codigos socio – culturais congoleses. É preciso deixar registrado: foram dias muito difíceis.

 

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4 respostas para II – Os primeiros dias, na Brazza.

  1. Rafael Frerichs disse:

    Que dureza, hein, moço?
    Assim como muitos que estudam para seguir a profissão de diplomata, eu sempre penso em como ficará a minha família em caso de sucesso no concurso.
    Obrigado pelo relato sincero.
    Espero que as coisas já tenham melhorado por aí…

  2. Ora, meu caro. Que relato sincero. Calma que as coisas melhorarão, verás. Lembre-se: vale a pena.
    Meus sinceros desejos de melhora. Au revoir

    • José Mário, fico grato pelo encorajamento e pela força. Hoje está tudo bem mas, há um ano atrás, foi mesmo bem difícil. Achei que devia contar como foi o processo. Fiz uma trilogia, com os antecedentes, os primeiros dias e, enfim, com os dias melhores que vieram e, espero, continuem por aí!

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