De Brasília ao Congo – Brazzaville. Crônicas de uma aventura familiar.

I. Rumo ao coração da África Equatorial.

 Brazzaville, República do Congo. A Divisão de Pessoal do Itamaraty não havia recebido nenhuma candidatura para esse posto. Para ser sincero, trabalhando no Departamento da América do Sul e respirando desde cedo Historia Européia, mal e mal sabia da existência do antigo Zaire e de Kinshasa, ex-Leopoldville. Brazzaville? Nunca havia ouvido falar. Mas o desejo de partir estava maduro e estávamos considerando a possibilidade já há algum tempo.

 Fiz uma pesquisa básica e descobri muita coisa interessante. Pierre Savorgan de Brazza, explorador italiano a serviço dos franceses,  fundou a cidade em 1880, no sítio de Nkuna, vilarejo Bateké à margem das cataratas do rio Congo. Diplomata, Brazza colocou a região sob o domínio francês assinando um tratado com o rei Makoko I.  No auge dos Impérios coloniais na África, Brazzaville foi a capital da África Equatorial Francesa e, depois, da própria “França Livre”, durante a Segunda Guerra Mundial, tendo abrigado o QG de Charles de Gaulle por algum tempo. A  “Case de Gaulle” é hoje, naturalmente, a residência do Embaixador da França. Após a independência concedida em 1960, e a revolução nacionalista em 1962, a jovem nação congolesa teria um regime comunista até o final da década de 1980. No começo da década de 1970, jogaria papel estratégico e essencial no apoio a Agostinho Neto na luta pela independência de Angola. Depois, duas guerras civis consecutivas, a última terminada em 1998.

Interessante do ponto de vista histórico, mas precisava de detalhes práticos acerca da vida cotidiana para embasar decisão de tal importância. Encontrei-os em sites especializados, sobretudo muita preocupação com segurança e muitas dicas de saúde para os viajantes. Tudo meio exagerado, como viria a perceber depois, mas certamente útil para quem partia com três crianças pequenas.  Troquei idéias com dois colegas que conheciam Brazzaville, ainda que por uma semana, um deles à época o Chefe Adjunto da Divisão da África I.  Segundo eles, Brazzaville, com seus quase dois milhões de habitantes, religião predominantemente católica, parecia calma e segura, um bom lugar para residir com a família. Além disso, francofóna e  francófila. No meu caso, o lugar ideal para a primeira aventura africana. Na verdade, mais do que isso, a primeira remoção, essa travessia que todo diplomata de oficio, cedo ou tarde,  acaba fazendo.

Conversei com Érica, minha esposa, mulher de coragem e de visão. Fizemos uma boa proposta para que a Eunice, maranhense de fibra, babá das crianças, fosse conosco. Conversamos com a turminha. Yasmin (8), Leon (4) e Matheus (2). Talvez apenas Yayá tivesse uma vaga noção do que estava por vir. Todos de acordo. Comunicamos a decisão à família e aos amigos. Caras, disfarçadas ou não,  de perplexidade, de estupefação. Ganhei de presente “No Coração das Trevas”, de Joseph Conrad. Precisava de algo mais atual e com um título mais ameno e comprei então, de Paul Theroux, “O Safári da Estrela Negra”. Devorei-os durante as duas semanas do curso de remoção, em Brasília. Érica e os meninos foram passar férias com os avós em João – Pessoa. Na volta, tomamos as últimas doses das vacinas necessárias, no Hospital Regional da Asa – Norte. Para a malária não existe vacina, a prevenção é o melhor remédio. Fizemos as malas. Era chegada a hora.

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7 respostas para De Brasília ao Congo – Brazzaville. Crônicas de uma aventura familiar.

  1. Rafael disse:

    Interessantíssimo esse aspecto familiar da remoção, Felipe.

    Espero que venham mais crônicas por aí!

    • Rafael, de fato. Esse é um aspecto fundamental e bastante delicado. É uma decisão que afeta diretamente várias pessoas. Em primeiro lugar, o marido/esposa que acompanha o diplomata e, em segundo lugar, os filhos, cada qual, cada vez mais, com seus próprios interesses e ambições.

      • Gabriel disse:

        Prezado Felipe

        Excelente post. Estou começando meus estudos para o CACD, porém me vejo frente a um dilema: minhas esposa é uma pessoa muito ativa, com doutorado e que gosta muito de trabalhar. Temo que um dia, caso venha a ser aprovado e a iniciar uma carreira diplomática, ela possa vir a ser bastante prejudicada. Tal temor condiz com a realidade de uma esposa de diplomata?

        Grato pela atenção e parabéns novamente.

  2. Graciete Brasil disse:

    Parabéns, estou segura que outras crônicas virão. Afinal, as incursões, explorações e expedições sócio-culturais e gastronômicas de Brazzaville têm que ser compartilhadas por esses bravos e brilhantes aventureiros!!

  3. Homem corajogo és tu meu caro! Parabéns pela ousadia e, também, pela família apoiadora.

  4. Gabriel,

    Obrigado pelos comentarios. A possibilidade de prejuizo/frustracao e’ real. Em muitos paises o trabalho da esposa do diplomata e’ complicado, seja por impedimento legal seja por questoes praticas. Em muitos outros lugares, por outro lado, existem oportunidades profissionais/academicas interessantes. Sera’ preciso, mais cedo ou mais tarde, que voces escolham, juntos, o local de remocao, considerando os teus interesses e os dela. Nao e’ necessariamente um processo facil (experiencia propria) mas vale muito a pena.

    Abracos!

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