Japão 11/03

Dia onze de março foi uma sexta-feira. Eu estava a caminho de uma cidade ao norte, chamada Joso, acompanhada de alguns funcionários para prestar serviços aos brasileiros que lá residem. Após o primeiro sinal de trânsito, senti que o carro começou a tremer fortemente. Achei que fosse uma brincadeira do motorista. Não era. A rua inteira tremia, os prédios, os postes e os fios de alta tensão.  De repente, na tevê da van, surgiu o alerta de tsunami para as províncias do norte. Ficamos todos calados olhando a tevê, à espera de mais notícias. Subitamente, outro tremor forte. Estávamos tentando nos acalmar quando chegaram as primeiras imagens do tsunami invadindo as cidades. Silêncio. Alguém segurou a minha mão.

Voltamos ao consulado. Os telefones não funcionavam. As pessoas estavam nas ruas, incrédulas. Eu achei que aquele tipo de tremor fazia parte da rotina. Os japoneses que trabalham conosco disseram que nunca vivenciaram nada parecido. Apresentei-me na Embaixada para ajudar no plantão. As famílias no Brasil ligavam e escreviam à procura de informações sobre os milhares de brasileiros residentes no arquipélago.

Voltei para a casa depois de 28 horas de trabalho. Um banho quente e quatro horas de sono para outro plantão de 12 horas. No domingo, após conseguir contato com os funcionários do Consulado, apresentei-me para uma missão a Ibaraki, norte de Tóquio. Essa é uma das regiões em que reside grande parcela de nossa comunidade. Eu e mais dois funcionários visitamos abrigos e uma igreja, ouvimos histórias, acalmamos as pessoas e preparamos listas com os nomes daqueles que estavam a salvo.

Não sei dizer quantos terremotos interromperam nossos dias e noites ao longo do mês de março. Dizem os especialistas que a terra continuará tremendo por mais um ano pelo menos. Durante aquele período, eu sentia o chão tremer até mesmo quando ele não estava. O enjôo era constante e eu não sentia fome.

A situação na usina nuclear trouxe mais pânico aos funcionários e aos brasileiros que lotavam o Consulado.  Na quarta-feira, enviamos a primeira missão às cidades de Sendai e Fukushima. Vinte e oito pessoas foram trazidas para o sul em segurança. Muitos relataram o desespero que sentiram sem luz, água, gás e com os tremores constantes, que, na região norte, eram mais intensos que em Tóquio. Aos poucos, conseguíamos estabelecer contato telefônico com os residentes das áreas mais fortemente atingidas.

Não me lembro quando foi que atendi a ligação de um senhor que estava dirigindo há horas sem ter para onde ir, após ter sido decretado o perímetro de evacuação ao redor de Fukushima. Sua esposa e suas duas filhas pequenas também estavam no carro. Eles haviam deixado sua residência apenas com a roupa do corpo. Pedi a um dos funcionarios que encontrasse um abrigo na região de Tóquio onde ele pudesse permanecer até conseguir regularizar sua documentação. Até aquele momento, Dimitri não havia decidido se iria embora para o Brasil com sua família ou não. Sem abrigos na cidade de Tóquio, foi preciso hospedá-los em um hotel. Ele me procurou três dias depois, já com os documentos em mãos, para me avisar que seguiria para o sul. A imprensa alertava os residentes de Tóquio em relação à possível chegada da radiação e ele não queria expôr suas filhas pequenas a esse perigo. Cheguei em casa à noite e enchi a banheira. Disseram que era preciso estocar água, pois se a radiação chegasse a Tóquio, eles fechariam todos os reservatórios.

Na quinta-feira, recebemos duas notícias boas. Seis brasileiros encontravam-se em um abrigo na vila de Onagawa. Outros dois, em Ishinomaki, aguardavam transporte para o sul para  encontrar sua filha. Ela havia feito contato conosco e pedido ajuda para retirar seus pais do abrigo. Organizamos outra missão para o norte. Deixamos Tóquio no fim da tarde de sexta-feira e seguimos em direção ao vilarejo de Onagawa. A viagem que, geralmente é feita em 4 horas, durou o dobro de tempo. Chegamos ao vilarejo de madrugada. Nevava e o frio era insuportável, ainda assim, permanecemos nas vans até amanhecer. Ao amanhecer, entramos no ginásio e vimos que Ilton já nos aguardava. Toda a manhã ele fazia a mesma coisa.

Três dias antes de chegarmos, ele havia pedido ajuda a um jornalista japonês que visitou o abrigo. Foi esse jornalista que avisou a família dele no Brasil. O vilarejo onde residiam havia sido completamente devastado pela onda gigante. Dos 10 mil habitantes, apenas 5 mil haviam sido encontrados com vida.  Eu e Ilton nos abraçamos longamente. Choramos os dois, comemorando o fato de ele estar vivo. Sua prima, Rose, contou que sobreviveu por pouco ao tsunami. Os funcionários da fábrica, onde ela estava trabalhando, amontoaram-se nas escadas tentando chegar ao teto para se salvar da água que invadia tudo. À medida que ela subia as escadas, ela via suas companheiras de trabalho sendo levadas pela água. Por fim, ela conseguiu, depois de muito esforço, chegar ao teto, com água na cintura e em suas botas. Passou a noite lá, esperando a água baixar. Na manhã seguinte, caminhou por 18 quilômetros em meio aos destroços para chegar ao abrigo e reunir-se com sua filha e seu marido.

Visitamos mais dois abrigos no caminho para Ishinomaki. Uma brasileira, amiga da família do Ilton, permanecia desaparecida. Não a encontramos nos abrigos. Dias depois, consegui falar com ela ao telefone. Emocionei-me ao saber que ela e sua família haviam sobrevivido ao tsunami. Meses depois, recebi uma carta dela com fotos do local onde residiam. Não havia mais nada lá, apenas destroços.

Instalamos a família do Ilton em um hotel. No domingo, fui visitá-los. Levei livros e pequenas distrações para as meninas. A pequena Marina, de 10 anos, era muito esperta. Durante o trajeto, dormiu no colo de sua mãe e provou um pouquinho de tudo que havíamos levado conosco.  A Michelle, um pouco mais velha, estava muito triste, especialmente quando teve de se despedir de uma de suas melhores amigas que permaneceu no abrigo. Enquanto permaneceram em Tóquio, eles nos visitavam todos os dias no Consulado. Eu comprava livros para a pequena Marina, que, quando recebeu a noticia de que ia embora do abrigo, só quis saber de voltar a sua sala de aula para buscar a mochila com os livros. Ela me chamava de “Marucera” e ria baixinho. Alguns dias depois, eu os levei ao aeroporto. Juntaram-se aos milhares de outros brasileiros que embarcaram para a terra natal após a tragédia de 11/03.

Não imaginava que, ao escolher trabalhar no Consulado do Brasil em Tóquio, passaria por experiência tão difícil como essa, apenas alguns dias depois de haver chegado. A gratidão de poder ajudar nossos compatriotas, em meio a tantas mortes e destruição, a sensação de comemorar o encontro de familiares como se fossem meus próprios familiares, é indescritível. Mantemos sempre o profissionalismo e a seriedade, mas como não me emocionar diante de tudo que vi?

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado . Guardar link permanente.

9 respostas para Japão 11/03

  1. Juliana Benedetti disse:

    É, Marcelinha, o Japão pode não ser um país em desenvolvimento, mas passou por maus bocados… Orgulho do seu trabalho aí! 🙂

  2. mariana disse:

    Maravilha de textos e fotos espetaculares….estou amando o blog, vejo todos os dias….se algum dia se sentirem sozinhos, lembrem-se de nós, seus fãs anônimos, q estamos por aqui p incentivar sempre vcs…..

  3. Josiane disse:

    Parabéns pelo seu trabalho, Marcela!! Assim como foi bem falado pela Mariana, lembrem-se mesmo do orgulho que sentimos de vocês. Parabéns a todos!

  4. Marcela disse:

    Ju, achei que a história merecia ser contada. Obrigada pela força e pelo carinho de vcs!

  5. Diego disse:

    Já morei no Japão e hoje sonho ser diplomata.
    Muito emocionante o texto.
    Parabéns…

  6. Archibald Beaufort disse:

    Sensacional!

  7. Gabriella Campos disse:

    Parabéns pelo relato, Marcela. Linda história.

  8. Querida Marcela,

    Lendo o seu belo relato, fiquei pensando na semelhança entre o jornalismo e a diplomacia. Em ambas as profissões, presenciamos por vezes cenas muito dolorosas, ou alegres, ou excitantes, mas sempre é exigido de nós que mantenhamos as emoções sob controle para que possamos desempenhar nossas funções.

    Talvez seja verdade, mas tenho minhas dúvidas. Com certeza, sua gentileza e calor humano foram fundamentais para as pessoas a quem você ajudou numa situação tão dramática quanto a do terremoto no Japão. Talvez haja um jeito brasileiro de praticar a diplomacia – e o jornalismo, e a pesquisa acadêmica – e ele seja marcado exatamente por uma maior dose de emoção, porque sabemos que este mundo meio doido não se explica só pela Razão, e certamente não será transformado só por ela.

    Beijos desde um Rio de Janeiro gelado,
    Maurício

    • MarcelaBraga disse:

      Querido Maurício, obrigada pela mensagem. Sem a sua preciosa ajuda, nada disso teria sido possível. Beijo grande.

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s