Terapia do riso?

Saber do que ri um povo é uma das maneiras mais prazerosas de conhecê-lo. Para quem quer se iniciar na análise política de um país, uma boa opção é acompanhar o trabalho dos cartunistas. No Quênia, a irreverência das charges publicadas diariamente nos principais jornais do país não deixa nada a dever à famosa acidez do humor da ex-metrópole.  Além de reveladoras, costumam ser deliciosas.

As charges quenianas já estrelaram exposições promovidas pelo Instituto Goethe e pela Aliança Francesa aqui em Nairóbi.  A exposição realizada pelo Instituto Goethe reuniu charges sobre a crise política enfrentada pelo país entre o fim de 2007 e o início de 2008, quando suspeitas de fraudes levaram a oposição a questionar o resultado das eleições presidenciais, detonando episódios de violência que vitimaram cerca de 1500 pessoas e deixaram um saldo de centenas de milhares de deslocados internos.  Curioso pensar que as charges possam ter operado, nesse contexto, como um “coping mechanism” coletivo – ao evidenciarem o absurdo da situação, possivelmente contribuíram para despertar a reflexão necessária para a superação do problema.

A exposição realizada pela Aliança Francesa, mais recente, tratou da tumultuada relação do governo queniano com o Tribunal Penal Internacional, que está investigando crimes contra a humanidade que teriam sido cometidos durante a crise pós-eleitoral. Ninguém foi poupado da mira certeira das charges: os principais alvos, é claro, foram os próprios suspeitos e as figuras políticas empenhadas em resguardá-los, mas nem o procurador do TPI escapou das agulhadas de sarcasmo dos cartunistas.

Gosto particularmente de um cartunista, chamado Gado, que tem suas charges publicadas pelo jornal queniano Daily Nation  e por outros jornais da região e da Europa. Nascido na Tanzânia, mas atento ao que se passa em todo o continente africano, ele consegue expressar, em uma imagem, o sentimento que um ensaio ou um artigo de opinião às vezes não é capaz de traduzir.  Reunindo ali, em poucos traços, tudo que as palavras não dão conta de dizer.

A sátira é uma das formas mais irrefutáveis de crítica – afinal, contra o ridículo não se argumenta.  E as charges são uma indignação prêt-à-porter: com a hipocrisia ali, estampada e tão bem alinhavada, fica difícil não vestir o ultraje.

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Sobre Juliana Benedetti

Diplomata servindo na Embaixada do Brasil em Nairóbi (Quênia) / Missão do Brasil junto ao PNUMA e ao ONU-Habitat.
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