Entre um olhar estranho e um estranho a olhar

Este texto nasceu de duas expressões. Na verdade, do lapso temporal entre elas. Tempo dilatado, até porque é mentira se eu disser que sabia o que escrever quando me deram a oportunidade de contar minha experiência neste espaço. Lembrei do momento inicial, do primeiro olhar estranho, desconfiado. Sejamos francos, uma coisa é ler as desventuras de Riobaldo, outra é descer do avião e sentir que “o sertão está em toda parte.”

Em alguma medida, a sensação de distância da Guiana para o Brasil deve-se à falta de conexões aéreas mais simples. São quase 30 horas de avião entre capitais, parece até outro continente. Quiçá seja. A língua é o inglês (com sotaque), os costumes em geral indianos e a mão de direção é a direita. Nove em cada dez carros são japoneses (e desses, oito são da Toyota). O esporte nacional é o “cricket” e, no ano passado, o país foi uma das sedes da Copa do Mundo da modalidade, que contou com a presença de Sir Mick Jagger, Cavaleiro da Ordem do Império Britânico, fã declarado do esporte, pé-de-coelho oficial dos adversários e, nas horas vagas, vocalista dos Stones.

Os sons e ritmos são uma mistura de influências caribenhas e indianas. Há lugar para representantes de nossa musicalidade, ainda que não tão conhecidos na “terra brasilis”: artista famoso aqui é Pepe Moreno, “o cantor do risca faca” (forró). A comida apresenta tempeiros fortes, o curry e a pimenta são traços marcantes. De minha parte, sinto falta do feijão brasileiro, em particular do tropeiro das Gerais. Quando não dá mais pra segurar a vontade pela comida de casa, é hora de ir ao “Zezinho” (um dos restaurantes brasileiros em Georgetown), ponto de parada dos tupiniquins expatriados. “Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães é questão de opiniães…”

A rota mais em conta para o Brasil é voar de Georgetown a Lethem (cidade próxima ao nosso Estado de Roraima), pegar um táxi, ir através da fronteira até Boa Vista e de lá para o destino final. O primeiro trecho é feito em pequeno turbohelice monomotor Cessna 208 Grand Caravan, no qual o assento do copiloto é ocupado por passageiros. “Meu filho foi junto com o piloto. Ele tem bastante prática no Flight Simulator!”, disse a respeito um pai orgulhoso em momento de descontração.

Sobrevoar a floresta amazônica em baixa altitude já é uma experiência em si, ainda mais com as últimas enchentes. Mas nada supera seguir pela estrada e ver ao lado um poste de luz emergindo das águas! As fotos são de celular, o que concede boa desculpa para minha pouca perícia com as lentes.

Hora de voltar ao início. Eis que o olhar estranho se converte em um estranho a olhar. Tal a lição do tempo, a conclusão do texto, a noção de mirar o exterior e enxergar o interior. “O sertão é dentro da gente”. Genial. Parece engraçado que João tenha morado no Caribe (em Honduras). Sinto-me orgulhoso por partilhar de sua profissão e ter semelhante oportunidade de ver o mundo. Iniciei estas linhas ao deixar de lado momentâneamente sua obra mais famosa. É apenas justo que encerre com um pouco mais de sua sabedoria:

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”

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13 respostas para Entre um olhar estranho e um estranho a olhar

  1. Muito interessante, Thiago. Sempre bom recuperar o nosso Rosa. E curioso: quase todo o segundo parágrafo – 30 horas para Brasília, inglês colorido, costumes indianos, mão inglesa, carros japoneses e paixão pelo críquete – descreve também a vida aqui no subcontinente. Abraços!

  2. Grande Guimarães. Muito bom texto, parabéns!

  3. Regina disse:

    Incrível o périplo para chegar só até alí! E a distância cultural para além de qualquer ponte física. Lindo texto.

  4. Eduardo A. Lopes disse:

    Um dos melhores textos do blog! Parabéns, Thiago.

  5. Wellerson Duarte disse:

    Parabéns, Thiago. Sem dúvida uns dos melhores textos.

  6. Verônica disse:

    Muito bonito! Obrigada por compartilhar essa experiência com tanta emoção. Vê.

  7. Mary-ann C. Mann disse:

    Parabéns Thiago! Muito obrigada por ter descrito o meu país de uma maneira tão educada e sincera, seu texto foi abrangente e perfeito. Um país tentando crescer mas que ainda consegue viver em harmonia com todos os imigrantes e suas culturas que aqui trazem!

  8. Maravilha, Thiago! Beleza de texto!

  9. Débora disse:

    excelente texto =)

  10. ADRIANO disse:

    Se você chegou até Boa Vista e já se encantou com a Amazônia vista de cima, deveria experimentar dar um pulo aqui em Manaus, no Amazonas. É pertinho e vale a pena conhecer melhor uma parte importante da nossa Hileia.
    Excelente texto, aliás. Parabéns.

  11. Julia Espeschit disse:

    Nossa! Fiquei muito emocionada com o texto, de verdade.
    Parabéns, até agora, um dos melhores que li no blog, e olha que estou amando passar varias horas do meu dia lendo e me inspirando nas estórias que vocês compartilham com a gente.
    Cada vez mais eu percebo que é isso mesmo que quero pra mim, e vou repetindo isso só pra ter certeza. rsrs
    Com muito carinho, e adimiração sem tamanho,
    uma aspirante a carreira diplomatica.

  12. Mel Bicalho disse:

    Parabens Thiago!!
    Adorei o texto! Adorei principalmente a excelente descrição de Sir Mick Jagger, ficou ótima!
    Mas sabemos que nem só de alegrias vivem os diplomatas, estar longe de casa, renascer em outros lugares, muitas vezes tão diferentes do nosso é o que faz dessa profissão algo tão lindo! Parabens mais um vez pelas lindas palavras.

  13. Daniel Gonçalves disse:

    Para aqueles que têm curiosidade em saber a distância percorrida de taxi, Lethem fica a cerca de 130km de Boa Vista pela 401.

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