Taiwan: Ser e Tempo

“Quem é você?” sempre foi uma pergunta das mais difíceis de se responder. E se é assim quando a fazemos para pessoas, quem dirá para as cidades, nações inteiras! É parte de nosso trabalho entender e descrever essa “personalidade coletiva” dos lugares em que servimos. Mas a resposta fica ainda mais complicada quando adicionamos a dimensão do tempo a ela: Quem é você agora? Quem foi você?

Já no final de sua vida, o mestre pernambucano Gilberto Freyre gostava de repetir a seus alunos aquela que ele próprio qualificava como sua maior descoberta no campo pessoal: a que o tempo é um só, tríbio, e que perceber a essência das coisas era perceber que as noções de passado, presente e futuro são simplificações grosseiras, que embaçam nossa visão do mundo. Muita gente, como eu, acha difícil seguir esse ensinamento do velho mestre, desacostumar o olhar dessas três categorias, “muletas” que não nos deixam aprender a andar pelas pernas de nossas próprias consciências.

Aqui na Ilha Formosa, também conhecida como Taiwan, é permanente a tensão entre o que foi e o que se é. É bem perceptível, entre os formosanos, nas ruas, nas rotinas, nos diálogos, nos prédios da cidade: aqui vive-se sob o constante dilema sobre a própria essência desse “ser coletivo”, sobre a natureza do Estado, sobre ‘o que o mundo acha de nós’. Faço um pequeno parênteses para dizer que, com os locais, sempre prefiro usar o nome dado pelos nossos avós navegadores portugueses – Formosa – e eles parecem gostar muito desse antigo nome, sempre respondendo em inglês “it means ‘beautiful island’ in your language, doesn’t it?”

Por um lado, os formosanos consideram-se os únicos e legítimos herdeiros da milenar tradição chinesa, que tem seu ápice na estrutura de governo chamada “República da China”, não mais reconhecida pelo Brasil desde 16 de agosto de 1974. Aqui conserva-se o sistema de escrita tradicional de ideogramas, com mais traços do que o sistema simplificado, adotado no continente após a Revolução Cultural de Mao. A escrita dos velhos mandarins imperiais reflete-se na autoridade dos que governam a ilha: mesmo nos dias de hoje, em grande medida a classe dirigente é composta pelos filhos e netos dos aproximadamente dois milhões de pessoas que vieram do continente em 1949 com seu líder, Chiang Kai-Shek, após a derrota dos nacionalistas na Guerra Civil Chinesa. São chamados, um tanto pejorativamente, de “waishengren”, os que vieram de fora, e hoje compõe os 15% da população formosana que fala mandarim em casa – o que em si remete à própria origem lusa da palavra “mandarim”, aqueles que mandam.

Antes de refugiar-se em Formosa, Chiang Kai-Shek ordenou que uma considerável parte, senão a maioria dos grandes tesouros nacionais herdados dos imperadores, fossem retirados da Cidade Proibida de Pequim e trazidos à ilha, às vezes no lombo de mulas e em barcos de pesca. Segundo pude averiguar entre amigos que entendem do assunto em Brasília, a coleção exposta no lindíssimo Museu do Palácio Nacional de Taipé é a mais completa expressão da arte da civilização chinesa, com objetos e peças de todos os períodos da história da China, e invejáveis acervos das dinastias Tang, Song, Ming e Ching. Para Chiang Kai-Shek, tão importantes quanto as obras de arte eram os carimbos e arquivos imperiais – síntese da autoridade burocrática dos mandarins e sua história administrativa – que hoje lembram os formosanos sobre o que foi, e de onde vem a autoridade que os governa.

* * *

Taipé lembra muito o centro antigo da cidade de São Paulo, prédios já precisando de reformas, fachadas com muitos aparelhos de ar-condicionado à mostra. Mas é desse ambiente sessentista que surge uma nova metrópole global, linda e futurista, que responde pelo nome de Xinyi. O novo distrito de negócios de Taipé abriga o Taipei 101, segundo maior prédio do mundo em altura – são 508 metros,  atrás apenas dos 828 do Burj Dubai. Naturalmente, grande torre se tornou o símbolo dessa nova Taiwan que surgiu nos últimos dez anos, e que hoje detém a quinta colocação em reservas financeiras internacionais. Em Xinyi tudo é novíssimo, ruas brilhando de limpas, jardins meticulosamente alinhados, telas de cristal líquido para todo lado. À noite parece Blade Runner, mas sem sujeira, nem carros voadores…

As mudanças aqui vêm a jato: todos aqui gostam de comentar, com certo orgulho, que até 8 anos atrás não havia leis que obrigasses os motociclistas, bem como os ubíquitos condutores de scooters, a usarem capacete. Na manhã seguinte à publicação da lei, todos estavam de capacete – suponho que menos por germânica adesão voluntária, e mais por temor das multas, que seriam certas. Diferentemente do continente, aqui só os mais velhos, e mesmo assim poucos, gostam do hábito de cuspir no chão. Os comentários sempre apontam para uma direção: de que os últimos dez anos representaram uma revolução nos costumes, no jeito de ser dessa gente.

A avenida central de Xinyi, a Zhongxiao, é repleta de gente jovem e bem-vestida, bares e restaurantes, empresas de tecnologia, bancos. Meninas de tailleur e engravatados andam ombro-a-ombro com computer geeks, artistas de rua e cyberpunks. É um lembrete de que a ilha continua sendo o maior fabricante mundial de circuitos integrados, laptops, telas de LCD, wafers (ou placas-base), e servidores de dados, e o segundo maior fabricante de LEDs. Às vezes combino de me encontrar para jantar com meus conhecidos locais nessa área, a favorita deles. E as conversas são muito reveladoras sobre a tensão que existe entre tradição e modernidade por aqui.

Os jovens formosanos são extremamente abertos ao mundo, falam inglês com forte sotaque americano, e na maioria das vezes são fluentes em outras línguas também, particularmente as orientais: japonês, coreano, cantonês. Como 70% da população daqui, falam mandarim no trabalho, e dialeto Hoklo em casa e com os amigos, orgulham-se disso. Sempre que podem policiam minha linguagem, não gostam quando os chamo de ‘chineses’. Eles são “taiwaneses”, insistem em dizer que são diferentes – enchem a boca para dizer que são mais gentis e educados, mais honestos, que aqui a imprensa é livre e eles não precisam de armas para respeitar regras. Se tudo isso é verdade não sei, mas posso afiançar pela experiência pessoal que os locais são bem mais suaves do que os continentais que conheci no Brasil. Eu diria que é o mar e a tropicalidade…

Certo ou errado, o argumento deles merece ser ouvido. Nos últimos 116 anos, em apenas quatro (o período entre 1945 e 1949) a ilha esteve reunida à Mãe China. Foram exatos 50 anos de colonização japonesa, que deixaram marcas profundas na infra-estrutura e na cultura da ilha. Tal como ocorreu em 1808 no Brasil, a chegada dos japoneses em 1895 trouxe o desenvolvimento, as escolas e universidades, os portos, as estradas. Aqui não se comunga dos ‘hard feelings’ que algumas nações asiáticas nutrem pelos nipônicos, muito pelo contrário: a influência do Japão é geralmente vista como amplamente positiva, e eles gostam de frisar, ensinou-os a serem aplicados dos estudos e no trabalho, “a fazerem as coisas direito”. Ainda hoje, são muitas as manifestações de solidariedade em relação ao terremoto que sacudiu o nordeste do Japão, há alguns meses.

A grande maioria dos jovens que conversei são entusiastas do DPP, o principal partido de oposição, que prega o livre-mercado e a independência de Taiwan. Eles sabem bem que haverá tempestades caso isso ocorra, que será ruim para os negócios, e que o risco de uma intervenção militar chinesa seria grande. Haverá eleições no ano que vem, e pelo jeito a disputa será apertada. Os jovens que conheço, de ambas as facções, já discutem abertamente o tópico na mesa de jantar. Não digo nada, só ouço. E só me vem à mente as palavras de Fernando Pessoa, lembradas outro dia por uma colega que está em Tóquio: ‎”Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

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Sobre RafaPaulino

Brasileiro, diplomata, pernambucano, botafoguense - nessa ordem. Está em Bangkok, Tailândia.
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11 respostas para Taiwan: Ser e Tempo

  1. caionoronha disse:

    Nossa, deu muita vontade de conhecer. Nunca fui à Ásia. Está nos meus planos te visitar na Tailândia no segundo semestre;)

  2. antonio disse:

    Um dos melhores textos do blog.
    parabéns!

  3. Ótimo texto, Rafael! Acho muito interessante esse tipo de relato sobre outros lugares, outros costumes, outras formas de pensar. Hoje, no meu blog, descrevo brevemente alguns lugares que conheço em viagens de turismo ou de trabalho, mas, quando estiver removido, tenho também a intenção de aprofundar mais a análise sobre todos esses aspectos culturais que definem um povo. Abraço!

  4. Uma aula de História e Geografia. Parabéns

  5. Josiane disse:

    Parabéns pelo texto, Rafael!
    Adoro o blog de vocês! Foi uma iniciativa muito legal de criá-lo.

  6. Dimaicon C Lima disse:

    Parabéns pelo comentário e pela iniciativa do blog. Ajuda os milhares de anônimos que desejam tornar-se diplomatas.

  7. André Rozenbaum disse:

    O blog tá ótimo!
    Acho legal que vocês tratem da comida nativa dos seus postos. Se já comeram? Como foi a sensação, o que é considerado típico, o que é o arroz com feijão, etc;;.
    fica a dica 😉

    abs

  8. Benito Mussolini disse:

    Excepcional!

  9. Tess disse:

    Brilhante, Rafa! Esperamos você de volta em Brasília logo para já nos despedirmos novamente! Saudades! Bjs

  10. Daniel disse:

    Excelente! Essa prosperidade talvez explique a grande reduçao da imigraçao Taiwanesa para a regiao de Foz do Iguaçu. Obrigado pelo texto Rafael!

  11. Akiko disse:

    Interessantissimo seu post! Moro na California e faz dois anos que levamos nossa filha anualmente para fazer summer school in Taipe. Por aqui, o aprendizado do mandarim parece ser um dos fatores decisivos para um futuro com sucesso profissional… Acabamos tendo que correr atras do tempo para nao ficar atras das criancas de Taiwan que jah no nivel de pre-primario estao aprendendo divisao de numeros. Fico surpresa como o ensino dos EUA estah ficando mais e mais atrasado…Nao sabia que a palavra “mandarim” tinha origem portuguesa mas depois de ler seu post, it totally makes sense! Em minhas visitas aa ilha, tive impressoes similares, inclusive em relacao ao que vc escreveu sobre a influencia japonesa em Taiwan. Seu post descreve essas impressoes de maneira brillhante!

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