O dote no Quênia: tradição ou modernidade?

A teoria social adora trabalhar com dualidades.  A preferida, certamente, é a oposição entre sociedades tradicionais e sociedades modernas.  Essa dicotomia é uma lente útil para interpretar mudanças drásticas no modo de vida de certas comunidades. Mas também pode transmitir a impressão equivocada de que sociedades que não se enquadrem perfeitamente em alguma das duas categorias estão necessariamente “em transição” –  em algum ponto intermediário do vetor inexorável que empurra a tradição à modernidade.

Será que é assim mesmo?  Todos nós já cansamos de ouvir que o Brasil “não é para iniciantes” e aprendemos que sua complexidade deve-se, sobretudo, à convivência entre elementos típicos da modernidade ocidental com características que os acadêmicos tendem a  descrever como “pré-modernos”: o “jeitinho”, a cordialidade, o patrimonialismo.  O Brasil do futuro chegará quando superarmos esses “resquícios”.  Mas… E se a singularidade de uma sociedade estiver, precisamente, na maneira única em que ela conjuga diferentes tipos de influxos culturais? Se admitirmos essa possibilidade, a permanência de certos aspectos tradicionais em uma dada sociedade não passaria, forçosamente, atestado de uma transição ainda não concluída. Poderia ser, simplesmente, um sinal idiossincrático de sua identidade.

O problema surge quando diferentes elementos do caldo cultural de uma sociedade conflitam entre si . O que não é um problema, na verdade, enquanto a contradição não for percebida como tal.  Nossos parlamentares, na época do Império, não viam incompatibilidade alguma entre a livre iniciativa e a escravidão, só para citar um exemplo. Se o elemento conflitante não for traduzido como contraditório, vai ser simplesmente processado como parte legítima da identidade cultural de uma sociedade. Se, ao contrário, for sentido como incompatível com outros elementos aos quais seja atribuído mais elevado valor, pode vir a ser superado por uma paulatina mudança de comportamentos ou por meio do embate político.

Um jornal queniano publicou, há alguns dias, uma reportagem interessantíssima sobre a prática do dote.  Quase todas as comunidades étnicas existentes no Quênia impõem ao noivo, tradicionalmente, algum tipo de pagamento à família da noiva por ocasião do casamento.  A reportagem trata das mudanças que estariam ocorrendo nos círculos de mulheres instruídas, profissionais independentes e bem sucedidas, cujos dotes estariam atingindo somas estratosféricas.

Uma advogada entrevistada declarou que sua família exigirá de qualquer pretendente a bagatela de um milhão de xelins quenianos (correspondente a cerca de 12.500 dólares, uma fortuna para os padrões quenianos).  A advogada justifica o valor confrontando-o com os custos incorridos em sua educação por seus pais e argumentando que, por ter um bom emprego,  poderá contribuir financeiramente com as despesas domésticas depois do casamento. “A woman is priceless. You cannot quantify her worth” – diz ela – “But if she is educated, independent and moneyed, it means that she is worth more when it comes to dowry”.  Uma outra entrevistada, empresária,  relata sua decisão de separar-se de seu noivo, depois que ele mostrou-se incapaz de arcar com os 500 mil xelins (algo em torno  de 6.250 dólares) exigidos como dote: “I loved him, but he had to go because bride price is important and he should pay it to show his commitment to me”.

O artigo, é claro, também transmite a visão masculina sobre o fenômeno, trazendo o caso de um designer gráfico que continuaria solteiro por não haver podido pagar o dote de 700 mil xelins (equivalente a cerca de 8.750 dólares) exigido pela família da ex-namorada. Sua opinião: “Bride price is acceptable as long as it is reasonable and should be in moderation. It should be a token of appreciation and not a price tag on a human being”.

Como argumento de autoridade , o jornalista agrega a análise de um antropólogo de Nairóbi: “In modern society, paying bride price is evidence that the man is serious about his intentionsto make the marriage stable. It also demonstrates that the husband to-be is capable of caring for and supporting a wife. It also makes the bride feel that she is worth ‘something’ and that her husband considers her valuable. It is a modern proof of love.  So a man who wants to marry a modern woman should be prepared to demonstrate his love with his wallet”.

Para finalizar, a reportagem dá voz a uma ativista de diretos das mulheres. Na opinião dela, o pagamento de dotes contribui para a “degradação das mulheres na sociedade”, deixando-as vulneráveis ao abuso de homens que acreditam que, por terem “pagado” pela mulher, podem tratá-las como bem entenderem.

Para uma mulher que se julga moderna e feminista como eu, o mais curioso do artigo foi notar que ninguém, à exceção da ativista – nem as mulheres, nem os homens, nem o antropólogo –, colocou o dote, como instituição, em questão. Minha primeira reação foi de espanto – afinal, no meu arquivo mental, o dote está na gaveta das práticas arcaicas e ofensivas à dignidade da mulher, que tende a afirmar seu “status” de objeto frente ao sujeito masculino. Valendo-me de algum conhecimento antropológico, até posso compreender, lévi-straussianamente, que o dote é uma manifestação  do intercâmbio de mulheres que é condição de existência da própria sociedade,  que sela o vínculo entre dois grupos familiares e blá-blá-blá, mas entender um fenômeno não significa, em absoluto, concordar com ele.

Mas o espanto logo cede à reflexão. Parece que o dote, no Quênia, não é visto como um “resquício” de tradição, que vai passar quando a Dona Modernidade chegar. O dote é encarado como parte integrante – e “importante” – da cultura queniana . Ninguém o concebe em contradição com a plena emancipação da mulher e com a igualdade de “status” entre os gêneros.  Os entrevistados parecem capazes de atribuir ao dote um sentido que o compatibiliza com as conquistas femininas e até as valoriza. O antropólogo vê no dote uma forma de conferir estabilidade aos voláteis relacionamentos modernos e de expressar afeto. O que incomoda, para os homens, não é o dote, em si, mas outros elementos que são muito mais “modernos” do que ele, como a monetarização das relações pessoais e a racionalidade mercantil. E, embora a equivalência entre o valor pessoal e uma soma monetária pudesse, em princípio, tornar a prática do dote ainda mais abjeta do ponto de vista da dignidade feminina, as mulheres não se sentem vilipendiadas – ao contrário, elas incorporam de tal forma o dinheiro como parâmetro de valor universal (quer mais modernidade que isso?) que o que as faria sentir-se depreciadas seria o pagamento de um dote menor.

A semente para a percepção do dote como elemento contraditório está no discurso da ativista, que o encara abertamente como uma forma de opressão, esposando o repertório moderno da luta feminista. Talvez a contradição se coloque de forma irrefutável algum dia e seja superada.  Ou talvez não… Quem há de saber? Quem há de julgar?  Há muito mais entre tradição e modernidade do que supõe a nossa vã filosofia.

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Sobre Juliana Benedetti

Diplomata servindo na Embaixada do Brasil em Nairóbi (Quênia) / Missão do Brasil junto ao PNUMA e ao ONU-Habitat.
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11 respostas para O dote no Quênia: tradição ou modernidade?

  1. Muito bom texto.No Quênia, então, é mais barato casar com uma mulher.

  2. RafaPaulino disse:

    Brilhante texto, Juju.

    Se existe um conceito que eu considero chave pra diferenciar as ciências sociais das outras, é aquele que diz que, em humanidades, não há evolução “inexorável” nem “inevitável”. Bem ao contrário: até a Alemanha, berço de muitos dos maiores progressos do século XIX, sucumbiu às trevas do nazismo. O progresso técnico talvez seja inexorável, há até um corolário que diz que a cada período de tempo determinado os processadores eletrônicos dobram sua memória e capacidade. Mas as estruturas sociais, pelo que vimos de História até agora, não necessariamente melhoram com o tempo. E digo isso sob uma ótica totalmente otimista, que não relativiza o juízo de valor sobre o conceito de “progresso”: acredito, sim, que estruturas sociais podem ser melhores ou piores que outras, e que a evolução é possível, que a humanidade tem jeito.

    Minha impressão do jornalista em questão foi um pouco a que temos hoje ao ler os jornais do Império, classificando o movimento abolicionista de “sabotador da nação”, e dizendo que a escravidão não era apenas necessária, como também perfeita para o sistema produtivo: a massa urbana, masi dinâmica, seria de trabalhadores livres, enquanto o trabalho duro da lavoura poderia ser delegado aos escravos. A falha, obviamente, era a de reconhecer que a estrutura social herdada (no caso, na escravidão) era incompatível com o avanço dos tempos. Era? Quem disse que não existe “pagamento de dote” no Brasil? Quem disse que não temos “escravidão”?

    A engrenagem social é nova, mas as peças são bem velhas. Conheço muita patricinha em Brasília que se sente “desvalorizada” pelo namorado se não ganhar uma Louis Vuitton autêntica no 12 de junho – principalmente se as amigas ganharem presentes tão bons ou melhores. E assim, la nave va…

  3. Rodrigo Guidi disse:

    Excelente.

  4. Juliana,

    gostei do teu texto e ainda volto a ele com mais calma e atenção. Há muitas coisas interessantes a se discutir nele, a começar pelo aludido gosto de a teoria social trabalhar com dualidades e de ser a sociedades tradicionais-complexas sua preferida. Tudo certo quanto às dicotomias esposadas pelos teóricos nesse assunto, mas é melhor irmos com bastante cuidado na hora de identificarmos essa classificação das sociedades como uma dualidade “operacional”. Certamente, ela não cumpre a mesma função de, por exemplo, aquela empregada por Lévi-Strauss ao referir-se a pensamento concreto e abstrato. Em outras palavras, parece-me um falso binarismo, mas compreensível, no texto, por questões retóricas e estilísticas.

    Um forte abraço,
    espero que tenhamos bons papos!

    • Juliana Benedetti disse:

      O que tentei mostrar é que esse binarismo pode ser mesmo simplista, Vinícius!
      Obrigada pelo comentário – aguardo os próximos!

      • Juliana,

        perdão por esses mais de dois anos de espera pela minha resposta. Essa questão passou esquecida por mim até hoje, quando lia uma passagem de Lévi-Strauss em que ele se referia a certos binarismos e me lembrei de ti, além de receber o comentário da Cláudia em minha caixa de correspondência. Passo, então, ao ponto e justifico por que essa oposição não me parece sê-lo propriamente.

        As oposições de meu conhecimento costumam ser categorias antinômicas ou os polos contrários sob um certo aspecto. Assim, tem-se o cru (não A ou 0) e o cozido (A ou 1), o masculino (não B ou 0) e o feminino (B ou 1), etc. O numeral aí é só para evidenciar que tais oposições podem ser descritas em linguagem binária. O mesmo não se dá com as sociedades tradicionais e com as complexas ou com as primitivas e as complexas, talvez esta “pseudo-oposição” seja mais recorrente. Acontece que nesses casos não há polos contrários de um certo aspecto, senão diferenças marcadas pela presença crescente de diversos aspectos. O exemplo da geometria cá seria oportuno, já que o quadrado não se opõe ao cubo, sendo polígonos de graus diversos de complexidade.

        Todavia, esse é um pormenor que não desabona teu texto.

        Um forte abraço!

      • Errata: sociedades modernas em oposição às tradicionais e não complexas como, equivocadamente, escrevi.

  5. Daniel disse:

    Juliana, fantástico seu artigo! Não vou comentar mais profundamente pois seria redundante. Sei que não era seu objetivo, mas, despretenciosamente, você formou opinião de leitores (pelo menos a minha). Parabens!!

  6. claudia disse:

    as mulheres sao criadas para “gostarem” de ser um objeto do homem. Elas sao as “frageis, doces, indefesas” etc… A midia reproduz muito isso. A liberdade e a “modernidade” virao quando todos perceberem que NINGUEM É MAIS QUE NINGUEM. Vamos usar a inteligencia que temos para evoluir, e nao regredir…

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