Saudade e Solidão

Acredito que um dos principais desafios pessoais de um diplomata deva ser aprender a conviver com a saudade e com a solidão. Esses dois sentimentos nos acompanharão por toda a vida e fazem parte do exílio que nos impusemos de livre e espontânea vontade, sonhando em representar o Brasil no exterior e em conhecer o mundo.

Confesso que paguei um preço alto nesses últimos meses. O exílio é sempre difícil, em Paris, Nova York ou aqui no Kuaite. Mas as restrições características de um posto C, onde não existem muitas opções de lazer, obrigam um expatriado a estar muito tempo sozinho, o que pode ser bem complicado no início. Tive que rever rotinas e descobrir novos prazeres em atividades muito simples, antes negligenciadas. Descobri, por exemplo, que tomar um café, lendo um livro numa sexta-feira à noite pode não ser tão tedioso quanto se pensa.

A experiência de fazer companhia a mim mesmo foi-se tornando cada vez mais interessante à medida que percebia o enriquecimento do meu mundo interior. Os fins de semana tranquilos e as noites de silêncio me possibilitaram ler mais, ver mais filmes, escutar mais músicas e, principalmente, refletir com mais atenção sobre diversos aspectos da vida. A solidão me ajudou a me conhecer melhor e a compreender com mais clareza minhas responsabilidades como diplomata.

O silêncio e o tempo livre são realmente um luxo que deve ser apreciado. A perspectiva de acordar e não ter nada para fazer durante o fim de semana pode parecer um pesadelo para quem está acostumado a noites agitadas, com muitos amigos e festas. Ao contrário! Aqui descobri que não ter que esperar “the next big thing” pode ser um alívio e fonte de grande paz interior.

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Sobre caionoronha

Brazilian diplomat in Kuwait
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22 respostas para Saudade e Solidão

  1. Carollini Assis disse:

    Estou adorando o blog e as vivências interiores e profissionais de vocês. Muito bacana!

  2. Debora disse:

    Gostei do seu texto, Caio =) A vida em Brasília pode levar a essas experiências também. Beijos e saudades!

  3. Winicius Setti von Schwinn disse:

    Esse texto é espetacular…

  4. Elisa disse:

    Li a reportagem no Zero Hora sobre o blog e passei aqui p dar uma espiada.. muito legal esse texto, já adicionei no Favoritos 🙂

  5. Bastante familiar para quem mora em Islamabad, Caio! Acho que podemos aprender muito com o silêncio. Abraços!

  6. Belíssimo texto, Caio. Abraços.

  7. mariana disse:

    Lindo texto!…sem palavras!
    Tenho lido os textos do blog e estou achando q vcs acertaram em cheio em criar esse espaço para as pessoas q sonham com a diplomacia…
    Muita proteção e luz p vcs!
    Mariana

  8. Caio, bravo! Sinto o mesmo em Brazzaville. Bem, quase o mesmo. Meus gurizinhos não me deixem sozinho. Tenho que me refugiar no banheiro para ler um pouco. Mas a tal da saudade e´ foda. Um abraço.

    Felipe Heimburger

  9. Caio, muito bacana a partilha sobre seus momentos “a sós” consigo mesmo.
    Quando esses momentos diminuirem seu encanto, tem sempre uma comunidade Couch Surfing para se recorrer 😉 –> http://www.couchsurfing.org/group.html?gid=267 e http://www.couchsurfing.org/group.html?gid=13463

  10. Edileida disse:

    Amei seu texto.É realmente tudo que imaginava sobre a profissão.Seu texto só reitera a ideia de como será minha vida assim que ingressar na carreira.Não mudará muito, afinal sou mais introvertida.
    Forte abraço.

  11. Faço das palavras do pessoal que já falou por aqui as minhas. Seu texto é muito bom.
    Mas ele é mais que isso. Todas as vezes que eu caio em uma pergunta que faço a mim mesma: porque diplomacia, porque não qualquer outra carreira? Eu invariavelmente lembro desses pontos que você colocou aqui e de mais algumas outras considerações pessoais que me levaram a buscar esse caminho. É o suficiente para retornar convencida ao limbo da preparação para o CACD. O que você e seus colegas fazem aqui é fantástico para quem almeja essa carreira. Portanto, muito obrigada!
    Abraço!

  12. Severo disse:

    Sou estudante de Direito, me interesso muito por Direito Internacional, sobretudo Público, e a diplomacia é uma das carreiras que eu penso em seguir. Sou bem jovem, 19 anos, mas sei que, se for essa minha decisão, é bom decidir cedo, pois a preparação é longa. No entanto, o que me trava e me leva a hesitar é justamente esse fator, a solidão. Meus amigos e minha família sempre foram fundamentais em meus momentos de crise, e temo acabar deprimido e isolado viajando para tão longe por tanto tempo. Por outro lado, odeio rotinas e não consigo me imaginar feliz se não numa vida dinâmica e instigante como a do diplomata, sempre conhecendo outras culturas, etc. No geral, os diplomatas conseguem superar tal fator, ou há muitas desistências? Tens algo a me dizer?
    Desde já os agradeço e os parabenizo pela ideia e qualidade do site. Abraço!

  13. eon29 disse:

    Ih, já estou habituado à vida mansa que você descreveu; e gosto. Mas quero explorar [e tentar intervir] em outros universos se me for permitido, expor a minha sensibilidade a outros campos. Fernando Pessoa me desencoraja, mas eu prefiro ficar com o seu relato e o de outros jovens diplomatas por aqui.

    Agora, cadê? Escreve mais aí. 🙂

  14. Paulo Moreira disse:

    Interessante o que você aborda nesse texto, pois o exílio,acredito eu, que é a melhor forma de nos conhecermos.

  15. Faber Miquelin disse:

    Reinventar-se é preciso.

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